“O resto é silêncio”
Tomei de empréstimo o título deste Curto a William Shakespeare, mais concretamente às derradeiras palavras de Hamlet antes de morrer. O autor de “Muito Barulho por Nada” também escreveu que “é melhor ser rei do teu silêncio do que escravo das tuas palavras”. E estou certa que ao longo da sua extensa obra encontraria muitas mais citações apropriadas à peça de teatro em que tantas vezes se transforma a política nacional. Lembrei-me destas a propósito das últimas da querela institucional (ou será pessoal?) entre Belém e S.Bento e do silêncio bastante ruidoso de António Costa na reunião de terça-feira do Conselho de Estado.
As notícias sobre a reunião davam conta de que o primeiro-ministro se tinha mantido calado porque, sabendo de antemão (por anúncio, aliás público, do próprio) que o Presidente levaria a intervenção escrita “há muito”, entendera que essa era a melhor resposta a dar a Marcelo Rebelo de Sousa, deixando-o “a falar sozinho”, como escreveu o Expresso. Ao início da tarde, um Costa sem o sorriso da véspera (o tal que os portugueses que encontra na rua lhe pedem que nunca perca) mostrou-se bastante agastado com as “fugas seletivas de informação” senão mesmo “mentiras” que saem do Conselho de Estado e garantiu que “não há qualquer diferendo com o Presidente da República”. Não ficou claro se falava desta reunião (descrita nos orgãos de comunicação social como tendo decorrido num clima inicialmente tenso) ou da de julho (detalhadamente descrita nas páginas dos jornais, pelo menos na parte relativa às críticas que vários conselheiros teceram à condução do país pelo Governo). Mas pouco depois veio Marcelo dar a sua interpretação: confessando-se “melindrado” com as versões que lera na imprensa do silêncio do PM, disse ter considerado que este veio "desmentir notícias de hoje segundo as quais o seu silêncio era contra o Presidente da República". Quanto à alegada quebra de sigilo sobre as reuniões do Conselho de Estado remeteu a queixa de Costa para "um problema que lida da consciência dos senhores conselheiros", limitando-se a admitir "que haja quem se sinta ofendido" com os relatos tornados públicos.
A última palavra (do dia) ficou para o primeiro-ministro. Entre “ser ou não ser” morto em combate (figurativamente, claro!) António Costa foi ontem à noite a Évora, abrir a Academia Socialista (a Universidade de Verão do PS, que também serve como rentrée ao partido) e dar a quem o ouviu uma lição sobre “resistência, resiliência e paciência”. Não era suposto, segundo o orador, ser um comício partidário - até porque, e volto a citar o orador, “a política não pode ser um exercício de números mediáticos” - mas pelo rosário de promessas cumpridas e a proclamação de outras tantas a cumprir daqui até ao final da legislatura, foi exatamente isso: o secretário-geral do PS (estava sem gravata) deu uma clara ajuda ao primeiro-ministro (e um “safanão” nas ambições de protagonismo de Luís Montenegro) e anunciou uma descida do IRS em 2 mil milhões até 2027, a isenção do IRS para os jovens no primeiro ano de emprego (e desagravamento de 75% a 25% nos quatro anos seguintes), a devolução das propinas da universidade por cada ano a trabalhar no país, além de passes gratuitos para os sub-23 já a partir de janeiro.
Porque “é com otimistas irritantes que o país anda para a frente”, concluiu o auto-proclamado “fazedor”, dirigindo-se aos “comentadores” - e em primeiro lugar aquele que um dia lhe chamou “otimista irritante”. Como diria Hamlet: “algo está podre no reino da Dinamarca”.
(Expresso Curto - Cristina Figueiredo, Editora de Política da SIC - 07 Setembro 2023)
Tomei de empréstimo o título deste Curto a William Shakespeare, mais concretamente às derradeiras palavras de Hamlet antes de morrer. O autor de “Muito Barulho por Nada” também escreveu que “é melhor ser rei do teu silêncio do que escravo das tuas palavras”. E estou certa que ao longo da sua extensa obra encontraria muitas mais citações apropriadas à peça de teatro em que tantas vezes se transforma a política nacional. Lembrei-me destas a propósito das últimas da querela institucional (ou será pessoal?) entre Belém e S.Bento e do silêncio bastante ruidoso de António Costa na reunião de terça-feira do Conselho de Estado.
As notícias sobre a reunião davam conta de que o primeiro-ministro se tinha mantido calado porque, sabendo de antemão (por anúncio, aliás público, do próprio) que o Presidente levaria a intervenção escrita “há muito”, entendera que essa era a melhor resposta a dar a Marcelo Rebelo de Sousa, deixando-o “a falar sozinho”, como escreveu o Expresso. Ao início da tarde, um Costa sem o sorriso da véspera (o tal que os portugueses que encontra na rua lhe pedem que nunca perca) mostrou-se bastante agastado com as “fugas seletivas de informação” senão mesmo “mentiras” que saem do Conselho de Estado e garantiu que “não há qualquer diferendo com o Presidente da República”. Não ficou claro se falava desta reunião (descrita nos orgãos de comunicação social como tendo decorrido num clima inicialmente tenso) ou da de julho (detalhadamente descrita nas páginas dos jornais, pelo menos na parte relativa às críticas que vários conselheiros teceram à condução do país pelo Governo). Mas pouco depois veio Marcelo dar a sua interpretação: confessando-se “melindrado” com as versões que lera na imprensa do silêncio do PM, disse ter considerado que este veio "desmentir notícias de hoje segundo as quais o seu silêncio era contra o Presidente da República". Quanto à alegada quebra de sigilo sobre as reuniões do Conselho de Estado remeteu a queixa de Costa para "um problema que lida da consciência dos senhores conselheiros", limitando-se a admitir "que haja quem se sinta ofendido" com os relatos tornados públicos.
A última palavra (do dia) ficou para o primeiro-ministro. Entre “ser ou não ser” morto em combate (figurativamente, claro!) António Costa foi ontem à noite a Évora, abrir a Academia Socialista (a Universidade de Verão do PS, que também serve como rentrée ao partido) e dar a quem o ouviu uma lição sobre “resistência, resiliência e paciência”. Não era suposto, segundo o orador, ser um comício partidário - até porque, e volto a citar o orador, “a política não pode ser um exercício de números mediáticos” - mas pelo rosário de promessas cumpridas e a proclamação de outras tantas a cumprir daqui até ao final da legislatura, foi exatamente isso: o secretário-geral do PS (estava sem gravata) deu uma clara ajuda ao primeiro-ministro (e um “safanão” nas ambições de protagonismo de Luís Montenegro) e anunciou uma descida do IRS em 2 mil milhões até 2027, a isenção do IRS para os jovens no primeiro ano de emprego (e desagravamento de 75% a 25% nos quatro anos seguintes), a devolução das propinas da universidade por cada ano a trabalhar no país, além de passes gratuitos para os sub-23 já a partir de janeiro.
Porque “é com otimistas irritantes que o país anda para a frente”, concluiu o auto-proclamado “fazedor”, dirigindo-se aos “comentadores” - e em primeiro lugar aquele que um dia lhe chamou “otimista irritante”. Como diria Hamlet: “algo está podre no reino da Dinamarca”.
(Expresso Curto - Cristina Figueiredo, Editora de Política da SIC - 07 Setembro 2023)
AC
Ps: Ora, foram sempre felizes!
Bom dia. Tenham uma boa 6ª Feira.
Bom início de fim de semana. Saúde e boa sorte.
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