ORA IMAGINEM LÁ
Nota - Num filme policial, com Al Pacino, há uma cena em que a certa altura, para tentar explicar o seu ponto de vista, o actor conta a história de um padre que um dia ajoelhou aos pés do Papa, chorando copiosamente e dizendo, -eu já não acredito, já não tenho fé, que hei-de fazer senhor?
O Papa respondeu-lhe , .…………finge!
Ora, olhando a muito do que se passou nos últimos 35 anos, então imaginem lá:
> Que não se visse tanta extravagância mais própria de fidalguia arruinada.
> Que, como já vi escrito, documentos envolvendo certas pessoas não tinham ficado anos por investigar.
> Que, como já vi escrito, se tinha começado a ter mais cuidado e analisado a documentação que, cá pelo burgo, muito convenientemente para colarinhos brancos, dizem que é normalmente carimbada com a célebre frase – “arquive-se por não estar directamente relacionado”.
> Que tinha havido de facto certas investigações a fundo, e não apenas propaladas intenções de quem passa anos manso e quedo no gabinete ou passeando nas recepções.
> Que em vez de se anunciar que se vai acabar com fundações, se lhes acabava com as isenções fiscais, sobretudo para certas delas.
> Que o aeroporto de Beja tinha de facto a quantidade de utentes tal como publicamente divulgado há uns tempos.
> Que a dívida pública era apenas de 70% do PIB.
> Que todos os partidos esmiuçavam na Assembleia da República os resultados do plano de barragens anunciado no início da chamada era Sócrates, para todos os portugueses ficarem a saber dos dinheiros envolvidos (e esfumados?).
> Que muitos dos que se passeiam lá por fora à conta do erário público revertiam para proveito interno/nacional as experiências assim obtidas.
> Que se tinham investigado certos casos com a colaboração que importava, como por exemplo com a colaboração das Finanças.
> Que todos os partidos, sem excepção, debatiam na Assembleia da República as verdadeiras consequências técnicas e financeiras resultantes de cada vez que as eólicas não produzem energia, o que se diz ser frequente.
> Que os ministros não mediam o seu sucesso e/ou influência pelo dinheiro que gastam ou pela retórica balofa.
> Que as oligarquias dos partidos não se auto perpetuavam.
> Que “não havia tanta gente de tão fraca memória, capaz de alijar até as mais entranhadas responsabilidades e culpas, e sempre dispostos a explicar-nos como é, afinal, nossa culpa terem eles torrado o dinheiro que nos tiraram”.
> Que os acidentes graves comprovadamente causados por veículos pesados tinham efectivas e violentas consequências para esses condutores.
> Que os políticos passavam a não falar em estratégia até que aprendessem o que isso é, e o que lhe subjaz.
> Que não tinha havido tanta promoção de negócios de favor em certos bastidores.
> Que, pelo menos desde 1991, todos os sucessivos governos tinham de facto controlado as finanças públicas.
> Que os exemplares de um certo livro descrevendo minuciosamente mecanismos tortuosos de financiamento por baixo da mesa não teriam sido quase todos comprados a mando de uma certa e poderosa pessoa.
> Que a lei do financiamento partidário não era a vergonha que é.
> Que por cá a definição de governos de esquerda ou direita não estivesse a parecer-se com o que se diz lá pelo Brasil, em que a questão tem apenas a ver com a mão com que abusam, e que os do centro são ambidextros.
> Que não havia tanta ou mesmo nenhuma gelatina política ainda por cima a maioria das vezes vaidosa e pesporrente.
> Que havia uma real e efectiva estratégia de combate á corrupção designadamente no domínio preventivo.
> Que, como vi escrito ter acontecido, em três décadas o sistema judicial tinha sido incapaz de concluir investigações manifestamente letais para alguns políticos, de incomodar lideranças partidárias com inquéritos que soubessem enquadrar os factos na sua manifesta relação com o financiamento ilegal dos partidos e o mais grave dos crimes que lhe é adjacente, a corrupção. Com o actual PM parece quererem mostrar serviço.
> Que ao longo dos anos tinha havido uma actividade política muito menos retórica e ociosa.
> Que a maioria dos decisores políticos não tinha andado sempre a empurrar com a barriga quase tudo e mais alguma coisa. Veja-se o caso das bacias do Mondego e Sado.
> Que muitos municípios não parecessem às vezes quase comportar-se como um Estado dentro do Estado.
> Que nunca tinha havia violações ao princípio da não retroactividade da lei fiscal.
> Que muito menos chefes e decisores emprenhavam pelo ouvido.
> Que não havia tanta falta de gestos de decência.
> Que os chefes escutassem também os que, em privado deles muitas vezes discordando, lhes eram profissionalmente leais.
> Que a legitimação da mediocridade não era uma triste realidade.
> Que se atentava à realidade para a qual já alguém chamou á atenção e que é - “os poderes enlouquecem, e os que ficam à solta enlouquecem absolutamente”.
> Que nenhuma faculdade emitia diplomas ao Domingo.
> Que o Estado, ou seja os sucessivos governos, não tolerava atrasos nos pagamentos a empresas e fornecedores superiores a 60 dias.
> Que da consulta de, discursos (a todos os níveis e pelo menos desde 1986), de programas de governo, de grandes opções do plano, de leis, de orçamentos do estado, não tivesse sido tão fácil ilustrar a mentira típica que nos ofende há décadas.
> Que os sucessivos governos já tinham olhado com rigor ao que se passa na central nuclear espanhola de Almaraz II, onde de vez em quando surgem problemas.
> Que ao longo dos anos, sobretudo desde 1991 e mais particularmente desde 2002, os governos não tivessem inscrito nos OE’s verbas sempre inferiores às efectivamente necessárias para as despesas com pessoal nas Forças Armadas, ou para o SNS.
> Que não havia pândegos que, para terem a consciência limpa, não lhe dão uso.
> Que se olhava a sério para a estrutura Concelhos e Freguesias completamente desgraçada tendo em conta por exemplo o despovoamento, existindo freguesias em cidades com mais população que muitas cidades.
> Que contrariamente ao que parece ser a realidade, as inúmeras sociedades anónimas de capitais públicos tinham registos globais e eram de facto controladas com rigor.
> Que não havia tantos a não sentir vergonha, “pois quem não sente vergonha, não tem vergonha”.
> Que as nossas águas fossem menos ricas em robalos.
> Que os nossos OCS mostrassem mais trabalhos de verdadeira investigação.
Ora imaginem lá tudo isto e muito mais. MUITO MAIS.
Bem, Portugal continuava geograficamente localizado onde sempre esteve mas, provavelmente, não era tão “torrãozinho de açúcar” ao gosto do “Brigadeiro Chagas” do velho e sempre actual Eça de Queiroz, e bem poderíamos estar num País verdadeiramente com menos das tão gritantes desigualdades sociais, com menos iniquidades, num país menos frágil realmente respaldado na CRP.
Num país - efectivamente Estado de Direito Democrático, com bem-estar e qualidade de vida e igualdade REAL entre os portugueses, e com um território desenvolvido e harmonioso! (CRP)
Infelizmente ao Camões de “mudam-se os tempos mudam-se as vontades”, tem-se sucedido a “mudança mudada em permanente mudança”.
Assim creio que não vamos lá, ou melhor, continuaremos neste horrível pântano lamacento.
Todas as opiniões são legítimas, sobretudo se proferidas de forma civilizada. Tentei fazê-lo.
Eu respeito sempre as opiniões de outrem.
Depois, concordo ou discordo, e se me apetecer comento, argumento.
Até porque “povo que dorme….tirania que desperta”.
António Cabral (AC)