RECORDAÇÕES
GUINÉ - GUERRA - AUTORITARISMO
Ao longo dos anos aqui vou recordando datas marcantes da minha vida.
Quero concretamente referir-me hoje a datas dos anos 70 do século passado, como a ida (29OUT1971) para a guerra do ultramar/ colonial, a do regresso do inferno (28JUL1973), a de um rápido (aquilo esgota-se antes de um minuto passar) combate na sequência de uma emboscada ao navio no rio Cacheu (19MAI1973), etc. E certos episódios, começando por um bem peculiar.
Como era da praxe acontecer com todos os oficiais que chegavam a Bissau para irem para a guerra, fossem os milicianos (Reserva Naval) fossem os dos quadros de pessoal de carreira da então Marinha de Guerra, eram todos apresentados ao comodoro que comandava o então Comando da Defesa Marítima da Guiné (CDMG), e ao chefe de estado-maior desse comando.
Quando cheguei ao CDMG, na manhã de 30 de Outubro desse longínquo 1971, o comodoro era uma figura peculiar, para dizer o mínimo. Para nosso enorme espanto começou por nos dizer - então vão (éramos dois a apresentarmo-nos à chefia) regressar a Lisboa - ao que ripostámos atrapalhados - não senhor comodoro, acabámos de chegar.
E o inarrável discurso prosseguiu mais um pouco com um ponto alto, assim - bom, já vos devem ter dito que aqui há guerra, . . . . não é bem guerra, . . . lá morre um fuzileiro de vez em quando . . . .
Ficámos esclarecidos sobre o ambiente onde tinhamos aterrado, sobre o profissionalismo daquela hierarquia, e etc.
O contacto com o tal chefe de estado-maior foi curtíssimo mas deu para ver a besta que tinhamos pela frente. Grosseiro, autoritário ao pior estilo daquela época.
Sim, porque havia vários oficiais superiores naquele CDMG que eram bem diferentes da besta, como por exemplo o então subchefe do estado-maior do CDMG.
Meses mais tarde, com outro jovem como eu, fomos intimados a ir ao gabinete dessa besta onde fomos insultados e, no fim, mimoseados com esta tirada - da próxima vez corro-os ao pontapé!
Razão para isto?
Porque na messe dos oficiais de Marinha tínhamos lá estado a tomar um pequeno almoço, muitíssimo cedo, e sentámo-nos numa mesa das várias da sala de refeições. O grumete que nos foi servir era um rapazito guineense a cumprir tropa portanto na Marinha, e de nada nos alertou.
Estávamos já a mais que a meio do pequeno almoço apareceu na sala o sargento dispenseiro que se abeirou de nós e disse - essa mesa é a do sr chefe do estado-maior, os senhores oficiais têm que passar para outra mesa.
Nada havia marcado na mesa que nos tivesse alertado para tal coisa, e ali ficámos dizendo ao sargento dispenseiro - nós não demoramos, vamos acabar o pequeno almoço e saímos já. E nada aconteceu.
Não, aconteceu algo, o figurão do dispenseiro de quem se dizia ser "bufo" a vários níveis, informou (como viemos a saber) a besta do sucedido quando esta criatura se sentou para tomar o seu PA, que tinham lá estava dois jovens oficiais a tomar o PA e que não sairam da mesa mesmo informados sobre quem habitualmente ali se sentava.
Este é um eloquente exemplo da animalidade de certas criaturas de então, a par de muitas outras que tinham comportamentos dignos e correctos, comportamentos normais.
A nossa história democrática se encarregou de colocar bem em evidência quem era o traste que esporadicamente tive pela frente na Guiné.
AC















