E É ISTO, a Tugolândia
Um bom amigo acaba de me enviar esta delícia.
Três notas:
- eu tenho um blogue pessoal, vai para 13 anos, mas não tem nada a ver com o que neste delicioso texto se refere. Como expliquei diversas vezes e mais logo repetirei.
- sublinhados da minha responsabilidade
- este texto recordou-me isto - um político honesto pergunta o que é que recomenda uma dada pessoa; um político corrupto quem.
António Cabral (AC)
*Confissões de um boy" - Pedro Santa ClaraEntrei para a política aos dezassete anos por convicção. A convicção de que não me apetecia trabalhar.
Sei o que estão a pensar, e é injusto. Trabalhei muito, trabalhei sempre — só que nunca trabalhei em nada. A minha carreira é feita de cargos, não de obras; e os cargos, ao contrário das obras, não se avaliam: sucedem-se. O Zagalo escreveu a vida do Conde de Abranhos por devoção ao amo; eu escrevo a minha por vaidade própria. Ao menos nisso sou moderno.
A vocação
Descobri o meu talento na juventude partidária, a que nós chamamos carinhosamente a Jota. Os outros discutiam ideologia; eu montava as cadeiras. Os outros escreviam moções; eu fotocopiava-as, distribuía-as e, sobretudo, sabia em que momento exato do discurso do líder se devia começar a bater palmas. É uma ciência subtil: cedo demais é bajulação, tarde demais é dissidência. Aos dezanove anos já ninguém batia palmas como eu em todo o distrito.
Na Jota aprende-se cedo a lição que sustenta tudo o resto: as ideias dividem, os lugares unem. Aprende-se também a competência nuclear da profissão — farejar quem vai subir e colar-se-lhe como um selo. Enganei-me uma vez, em noventa e tal, e custou-me dois anos numa comissão de revisão de estatutos. Nunca mais me enganei.
A licenciatura
Pelo caminho, licenciei-me em Direito. Regime pós-laboral, numa universidade privada que entretanto já não existe — o que confere ao meu diploma uma raridade de incunábulo. Demorei sete anos a fazer quatro, porque a política não espera, e o direito, pelo contrário, está sempre lá. Advogado nunca fui: a Ordem tem exame, e exames são para quem não tem alternativa. Mas o canudo cumpriu a sua única função, que é constar. Nos currículos oficiais sou jurista. Nos corredores, sou o Zé.
O assessor
Comecei como assessor. De quê, perguntam os ingénuos. De quem, corrijo eu — a preposição é tudo. Fui assessor de um vereador, depois de um deputado, depois de um secretário de Estado, numa progressão que nada devia ao mérito e tudo à fidelidade, que é o mérito verdadeiro. O trabalho era variado: escrever discursos que ninguém ouvia, marcar almoços que eram o verdadeiro trabalho, atender jornalistas para lhes dizer nada e transportar a pasta do chefe com a gravidade de quem transporta o país.
Um gabinete é uma corte em miniatura, e eu nasci cortesão. Para cima, sou veludo; para os lados, sou cimento armado. Vi cair três chefes e sobrevivi aos três, o que na nossa profissão é uma condecoração.
A escada
Depois vieram os degraus, por ordem litúrgica. Secretário de uma junta de freguesia — poder autárquico, dizem os manuais; eu digo: atestados, festas do pimento e a primeira lição de orçamento, que é haver sempre orçamento para quem o executa. Adjunto numa câmara municipal, onde aprendi que uma rotunda inaugura-se duas vezes: uma quando se faz, outra quando se refaz. Vice-presidente de uma CCDR — coordenação e desenvolvimento regional, duas expressões que, juntas, garantem que ninguém pergunte o que faço. E deputado suplente, que é a sala de espera do poder: substituo o titular quando ele é chamado ao Governo, ou seja, sou tecnicamente um efeito colateral. Sentei-me no hemiciclo tempo suficiente para fazer três perguntas ao Governo, escritas por um estagiário, e para aparecer atrás do líder nos planos de televisão, que é a verdadeira função do deputado moderno: cenografia com direito a voto.
O blog e a televisão
Nos anos dois mil tive um blog, como toda a gente que queria vir a ser alguém. Escrevia sobre a reforma do Estado, que era o que se usava, com hiperligações para relatórios que não tinha lido. O blog morreu, mas cumpriu: hoje os jornalistas apresentam-me como «pensador» e eu não os corrijo.
Da blogosfera saltei para os plateaus. Na televisão sou combativo, frontal, independente — os pontos de conversa chegam-me do partido à sexta-feira, mas a indignação é toda minha. Digo coisas como «o país precisa de reformas estruturais» e «é preciso coragem política», frases que o conselheiro Acácio acharia arrojadas. Dentro do partido sou uma carpete; diante das câmaras, um tigre. A carreira faz-se com os dois pelos, e ai de quem os troque: um tigre no congresso e uma carpete na televisão não chega a deputado suplente.
Os biscates e o primo
Convém dizer que o vencimento público, sendo certo, é modesto, e um homem tem despesas. Fui compondo: umas avenças de consultoria estratégica — «estratégica» quer dizer que não se percebe o que é — uns pareceres jurídicos ao abrigo do incunábulo, umas conferências sobre liderança em hotéis de aeroporto. E há o meu primo, empresário de reconhecido dinamismo, cuja firma tem a felicidade de ganhar adjudicações diretas com uma regularidade que só se explica pelo mérito — o mérito de existir no momento exato, com o alvará exato, no concelho exato.
Eu não decido nada, entenda-se. Apenas apresento pessoas: janto com A, telefono a B, digo ao C que o D é «dos nossos». Sou um facilitador. A palavra inglesa é networker; a portuguesa, mais antiga e mais exata, prefiro não usar. E nada disto é ilegal, sublinho. Li a lei com muita atenção. Ajudei a escrevê-la.
Diretor-Geral e Secretário de Estado
Quando o partido voltou ao Governo, fui nomeado Diretor-Geral. Houve concurso, claro, com entrevista e avaliação de competências; concorri contra dois candidatos que nunca ninguém viu e ganhou o melhor, que por coincidência era eu. Na direção-geral conheci o meu velho amigo burocrata — o das confissões anteriores — do outro lado da secretária. Entendemo-nos imediatamente: ele não queria decidir, eu não sabia. O serviço funcionou em perfeita harmonia durante dois anos, isto é, não funcionou, mas em harmonia.
Depois, a apoteose nacional: Secretário de Estado. Adjunto de um Ministro Adjunto — a redundância é a forma mais pura do poder. Durei dezassete meses, cortei nove fitas, anunciei quatro planos estratégicos com horizonte em duas legislaturas de distância e caí numa remodelação sem ter feito rigorosamente nada, o que em política se chama sair de cabeça erguida. No dia seguinte à queda, o telefone tocou. Era o Partido. O Partido nunca abandona quem nunca o abandonou: é uma agência de emprego com hino.
Bruxelas
E assim cheguei aonde tudo conflui: Bruxelas. O meu amigo burocrata sonha com ela como quem sonha com o céu — estuda para o concurso, decora regulamentos, reza. Eu cheguei de avião, em executiva, com o cartão do partido em vez de bilhete: um gabinete, um cargo com nome comprido em inglês, uma agenda de pequenos-almoços de trabalho. Cá estou, a coordenar a articulação de políticas cuja execução acompanho com elevado interesse e nenhuma consequência. O vencimento é europeu, o imposto é simpático, a escola dos miúdos é internacional e Lisboa fica à distância exata: perto para ir aos congressos, longe para não me pedirem nada.
O segredo
Perguntar-me-ão qual é, afinal, o meu talento. Respondo sem falsa modéstia: a disponibilidade. Dizem que a política atrai os piores; é injusto. A política atrai os disponíveis — os melhores estavam ocupados. Enquanto os meus colegas de curso estudavam para a Ordem, eu montava cadeiras; enquanto faziam carreira, eu fazia congressos; e quando o país precisou de gente para os lugares, quem é que lá estava, pronto, testado, leal? A fila era eu. A fila sou eu. A fila, meus caros, somos nós — e não abrimos exceções.
O custo disto não aparece em nenhum orçamento: é toda a gente capaz que olhou para a política, viu a fila, e foi embora. Chamam-lhe seleção adversa; eu chamo-lhe segurança no emprego.
O que me estragaria a carreira
Há quem fale em reformas, e confesso que algumas me tiram o apetite. Reduzir os gabinetes e os cargos de nomeação política a um décimo. Concursos verdadeiramente competitivos para dirigentes, com júris independentes e atas públicas. Transparência total nas adjudicações — cada contrato, cada beneficiário, cada primo, pesquisável em dois cliques. Declaração obrigatória de filiação e de avenças para quem comenta política na televisão. Limites a saltar de um regulador para o setor regulado e de um gabinete para o fornecedor do gabinete. Nada disto exige génio; exige apenas vontade de fechar a agência de emprego.
Felizmente, quem teria de aprovar estas reformas fui eu, os meus, e os que hão de vir a ser eu. Durmo descansado.
Post scriptum
Preparo as minhas memórias, que sairão em breve com o título «Servir Portugal». O prefácio é de um Ministro que eu fiz; a revisão, de um assessor que herdei; a impressão foi adjudicada, por ajuste direto, à gráfica do meu primo. O lançamento será numa fundação pública, com vinho de honra pago por uma câmara.
Entretanto, o meu afilhado político acaba de entrar na Jota. Tem dezassete anos e já sabe exatamente quando bater palmas.
O país está entregue.








