COMO COM TÃO POUCA COISA . . . . .
Como com tão pouca coisa se constrói o mundo.
Escreveu assim António Lobo Antunes logo no início de uma das suas "crónicas". Descanse em paz.
Gosto sempre de ler e reler o meu concidadão e escritor, o homónimo António.
Tal como ele, eu também aprecio Quental, como aprecio os Açores.
Os Açores que no tempo de Quental era uma das várias terras esquecidas de um Portugal ainda mais pobre do que é hoje.
Era um Portugal miserável, com imensas zonas miseráveis, as serras Algarvias, muitas áreas da Madeira e dos Açores, Trás-os-Montes, áreas do Alentejo e das Beiras, arredores das grandes cidades, etc.
Como com tão pouca coisa se constrói o mundo escreveu António Lobo Antunes.
Aqui em redor (são 14) da minha casa da aldeia (uma das três no casco velho não colada a outra), numa delas (das vazias há anos) a saudosa e muito idosa vizinha contava-me em 2007 como ela e o marido com tão pouca coisa construíram o seu mundo, criando dois filhos com imensa dificuldade - o patrão dava-nos um pouco de azeite e cereais, comíamos umas sopas de couve, pão, umas chouriças, fruta das árvores, uma vez por semana ou às vezes ainda mais espaçado conseguíamos matar uma galinha.
Como com tão pouca coisa se constrói o mundo.
Aqui na aldeia, noite escura, noite ventosa como a de ontem, a caminhada foi curta, o ar desagradável, as paredes nuas das casas, a maioria vazias, os candeeiros e os pirilampos embutidos no pavimento iluminam o caminho, decorado em décadas, subida aqui descida acolá, cactos, gatos, o café da aldeia já fechado. Ruas desertas! Os poucos habitantes permanentes fechados em casa.
Como com tão pouca coisa se constrói o mundo.
O meu mundo aldeão deste fim de semana esteve sossegado, telefonemas video/WhatsApp com a família, excelente restauração caseira, raríssima TV, ler, caminhar, fotografar com a velha Niko D90, tratar das roseiras e das outras plantas nos diversos vasos.
Ah e toca de limpar a casa de alto abaixo.
Como com tão pouca coisa se constrói o mundo.
Mas o mundo lá fora deve estar na sua crescente loucura.
É o que concluo das notícias lidas no computador durante um rápido passar pelas gordas.
Com que tão pouca coisa se constrói o mundo do presente?
Desprezo por todas as regras.
Desprezo pela vida humana.
Exportação de terrorismo.
Exportação da democracia por via aérea.
E viva os interesses!
Boa noite.
AC