PORTUGAL, EUROPA, UE
Apetece-me começar pelo Convento de Cristo, emblema maior (creio) da cidade de Tomar.
É uma verdadeira unidade histórica e artística.
Um projecto de ocupação de espaços, com estilos arquitectónicos experimentados em Portugal, e que vão do século XII ao XVIII.
Gótico, Manuelino.
Exuberância única.
Ordem dos Templários, depois, Ordem de Cristo.
A Charola, Claustro do Cemitério, Capela dos Portocarreiros, Claustro de Lavagem, Os Espaços Manuelinos, Claustro de Santa Bárbara, Claustro da Hospedaria, Claustro de D.João III, Corredor das Celas, Claustro da Micha, Claustro dos Corvos, Antiga Casa dos Capítulo, Claustro das Necessidades, Portaria e Sala dos Reis, Aqueduto dos Pegões, Refeitório.
É isto, deslumbrante.
Nem é preciso recuar muito no tempo e na história para verificar na sociedade portuguesa uma muito vincada tradição religiosa.
No século XVI Portugal foi um dos países Europeus que reforçou a sua identidade católica e romana.
Práticas, vivências, ritos, romarias, expressões do sagrado.
Pode ponderar-se a religiosidade popular, a religião administrada.
Crentes, indiferentes, não crentes.
Entre a imensa bibliografia existente sobre Portugal, a religião na sociedade portuguesa através dos séculos, a questão da religiosidade, uma me merece realce:
O Dicionário de História Religiosa de Portugal.
Creio inquestionável, para lá de alterações diversas a partir do início do século XX e não desconhecendo o intolerável abuso prosseguido designadamente por Salazar (uma só moral, uma só religião), que na sociedade portuguesa sempre existiu um factor religioso determinante, e maioritariamente católico.
Mas sempre existiram dinâmicas outras, minoritárias embora.
Um dos exemplos, entre outros, que se pode referir é o passado nas Beiras (que conheço relativamente bem) onde sempre existiram sinais de aproximação entre ritualidades judaicas e cristãs.
Belmonte e áreas próximas constitui exemplo típico.
Num tema complexo há religiosidade popular e há a igreja católica romana.
Entre muitas coisas mais, e passada que estão três meses de mais uma época Natalícia, tivemos de novo as chamadas boas festas, o Natal, tradicionalmente a consoada a 24 de Dezembro, a missa do galo, tradicionalmente reunião da família, SIM da FAMÍLIA, FAMÍLIA.
Naturalmente, (naturalmente para mim), algumas coisas se foram alterando, há uns anos apareceu o pai Natal e as prendas.
Quando a minha idosa mãe (100 em 8JUL passado) era pequenita não havia pai Natal.
Mudou também, creio, a percentagem dos assumidos católicos que assistem regularmente aos actos de culto.
Mas onde quero chegar é que, e no respeito pelo outro que seja diferente de nós e designadamente na fé, porque carga de água não se há-de celebrar essa época que remonta a muito lá para trás?
Porque não hei-de continuar a ter uma árvore de Natal em casa quando ainda por cima há mais de 35 anos que não é de pinheiro natural, e portanto, respeito pelo ambiente e pela natureza?
Porque carga de água se quer (alguns) remover tudo o que se refere às tradições e ritos cristãos, como presépio na rua junto da igreja, etc.?
Porque carga de água devo desprezar, deixar de ouvir por exemplo as cantatas de Natal de Fernando Lopes Graça, um vulto enorme da nossa cultura?
Ou as excelentes peças de música erudita de compositores diversos apropriadas ao Natal ?
Porque carga de água se estão a passar certas coisas (para mim inacreditáveis) em Portugal como aconteceu recentemente em certos locais no nosso país como aconteceu também em vários países da chamada Europa Ocidental?
Cancelar isto e aquilo que era tradicional, para não ofender, ou como cautela por causa de atentados?
PORQUÊ ?
Porque pode ofender outros com fé diferente?
Mas a nossa fé e a fé deles têm de ser igualmente respeitadas.
Mas então ao virem para outros países, as sociedades de acolhimento têm de se descaracterizar para não os incomodar?
A seguir à questão de fé, os países de acolhimento também devem ponderar começar a integrar na legislação nacional por exemplo normas da "Sharia" e etc?
Salvo melhor opinião, MULTICULTURISMO a existência de pessoas de outras culturas a viver em fraternidade aqui em Portugal.
Deve significar o respeito integral pelas nossas leis, pelas nossas tradições, pelas nossas romarias, pelo nosso modo de vida.
Quem chega tem de respeitar a organização do país, a lei, e sujeitar-se como todos nós às normas e regras vigentes.
Que não têm de ser alteradas.
E quem chega e tem fé diferente não têm que passar a ir à missa! E as manifestações do seu culto devem ser RESPEITADAS.
As questões de fé têm de ser respeitadas.
Mas parece-me inaceitável não respeitarem a minha. Desrespeitam-na ao forçarem mudar, cancelar.
A minha fé não é melhor ou superior a outras, é apenas diferente.
Todas têm de ser respeitadas.
Sociedades pluriculturais coexistiram em todas as épocas.
E assim deve continuar.Multiculturismo é, também, resistir à homogeneidade cultural.
Não se tem de passar a ser budista, ortodoxo, muçulmano, xintoísta, ou cristão, etc.
Mas a celebração do Natal, por exemplo, incomoda?
Até aos anos 90 do século passado, em Portugal, incomodou os portugueses agnósticos e ateus, ou os estrangeiros que sempre cá viveram? Francamente!
Na Síria, Irão, Iraque, Líbano, Egipto, Arábia Saudita, Indonésia, etc. alteram alguma coisa porque possam existir umas centenas de cristãos a lá residir?
NÃO, obviamente que não alteram, não cancelam nada.
Não deixam de praticar o que lhes é tradicional e está na fé deles há séculos.
Em cada país, as leis internas têm de ser respeitadas.
Respeitadas por todos, os do país, e os estrangeiros visitantes, turistas, residentes, venham a ter ou não nacionalidade do país que escolheram para viver.
E quem o escolhe para viver de futuro, deve aprender a língua do país. É a minha opinião.
É só isto, e não tem nada a ver com o execrável (opinião pessoal naturalmente) Ventura e seus centuriões.
António Cabral (AC)