BARACK OBAMA
Recebi um texto sobre a visita (que eu desconhecia) deste ex presidente dos EUA e exímio orador, actualmente ganhando a vida como palestrante (dizem que se faz pagar bem) por esse mundo fora, dizendo várias verdades puras e duras mas, muito convenientemente, esquecendo sempre coisas do passado dos seus dois mandatos na Casa Branca.
E, como é costume nestas coisas, há sempre uns milhares que aplaudem de pé, não fazem perguntas incómodas.
Não são hostis aos Obamas deste mundo.
Nem os jornalistas que comentam a coisa deixam escritos a recordar certas coisas menos boas de Obama.
Porque todos os seres humanos têm coisas boas e coisas más.
Para alguns, Obama e outros são excepção, só coisas boas: mentira !
Leio que cerca de dez mil pessoas o aplaudiram muito, de pé, entusiástica e freneticamente, comovidas certamente.
Aposto que essas dez mil pessoas e os jornalistas que cobriram o evento pertencem todos aquele grupo de centenas de milhares de aflitos para pagar a renda de casa, que continuam com o carro modesto de há 15 anos, que compram muito esparguete e batatas fritas e frango no supermercado, nada de verduras, umas bananas.
Pelo que leio Obama centrou-se no autoritarismo a crescer no mundo, e nisso fez muito bem apontar baterias.
Abordou também temas da actualidade, mas na verdade temas de há pelo menos vinte anos, que no tempo dele presidente já eram agudos: imigração, emprego, questões sociais, IA, tecnologia, os problemas afligindo os jovens e os desfavorecidos, relações internacionais.
Como é de bom tom deixou várias farpas ao antecessor, o execrável TRUMPA. Provavelmente deixou farpas insuficientes.
Para esse execrável oxigenado é sempre pouco dar-lhe nos lombos ainda que por palavras.
Não sei se inspirado em Marcelo e Seguro (com quem conversou), lembrou uma questão premente, cada vez mais premente: a democracia, na história da humanidade, é um piscar de olhos.
Ou se luta por ela ou a coisa corre mal.
Como se vê pela Europa e por muitas mais regiões do globo.
Obama presidente dos EUA foi do tempo em que aparentemente as relações internacionais pareciam mais ou menos estáveis e dentro de certas regras, quase nenhuma escrita.
Foi e é de moda considerar Obama presidente como quase o mais decente dos presidentes americanos.
Foi prémio Nobel, coisa que (prémios Nobel), como é público e notório, nunca nas últimas décadas teve aqui e ali algumas escolhas mais inesperadas ou curiosas, certamente inocentes, e nada políticas.
Claro que por esse mundo fora as pessoas sentem incerteza e medo quando as coisas na sociedade começam a descambar.
Claro que nessas épocas do deslaçar das sociedades as pessoas tendem a encontrar refúgio e aqui, entre outras coisa, joga muito o factor cultural, formação das pessoas, o nível de literacia.
Claro que as pessoas notam quando os governos e os parlamentos e os presidentes da república não trabalham, não fazem uso rigoroso das suas competência constitucionais, servindo a sociedade.
Claro que as pessoas notam a sucessão de mentiras, a sucessão de casos de corrupção ao mais alto nível do Estado.
Cá e lá fora.
Claro que as pessoas percebem os empregos a fugir, o poder de compra sempre a diminuir, os serviços públicos a degradar.
Claro que as pessoas ficam ansiosas.
Claro que as pessoas como as que estiveram a escutar Obama não querem que as incomodem com a Síria, com a Líbia, com a Primavera árabe e quem a patrocinou, com o Irão e seus palhaços amestrados, com os acordos e intrigas por baixo da mesa.
Obama fez praticamente tudo bem, foram oito anos como nunca houve nem haverá. . . . terá sido exactamente assim ?
Para vários, sobretudo para vários personagens que saltitam de conferência para conferência, de vernissage para vernissage, e depois vão ter o seu bom jantar e o seu bom whisky de malte, Obama tornou-se o ídolo, a encarnação da decência no mundo malvado.
Concordo que Obama é dos menos indecentes.
Mas para Obama presidente dos EUA a Europa / UE era notoriamente um incómodo, deixemo-nos de tretas.
Não lhe era grato haver uma economia pujante, algo concorrencial.
Claro que Obama fez rasgados elogios à UE. Criticou a burocracia.
Claro que fez bem em lembrar que quando os governos democráticos não fazem aquilo para que foram eleitos as pessoas chateiam-se, e havendo pouca formação, pouca cultura, pouca literacia, muitos equacionam entregar-se eleitoralmente nos braços de perigosos demagogos e bandidos porque não os olham assim. Obama terá ouvido isto que disse?
Pessoalmente acho imensa graça a esta conversa da treta - necessidade de haver líderes políticos capazes de representar o seu próprio povo e de valorizar as suas tradições, cultura e história, líderes que permitam ter a confiança dos cidadãos.
Sim, é muito importante isso, mas a confiança dos cidadãos aparece e ganha-se quando os cidadãos verificam na sociedade o resultado positivo do trabalho daqueles que foram eleitos para servir a sociedade.
Só conversa da treta não dá - dêem-me oportunidade para fazer reformas, desta vez é que as vou concretizar !
Essa coisa da empatia (Marcelo, ai que empático) tem muito que se lhe diga. Visões abrangentes e empáticas.
Não, as pessoas querem a resolução dos problemas das suas vidas.
Como é natural, Obama falou nos jovens. É tema importante.
Mas, podia perguntar-se a Obama e outros empáticos então, com tantas ideias, com tanta empatia, com tanta energia, com tanta democracia, com tanto apego geracional, com tanto anseio, com tanta decência, como justifica que depoius de oito anos de decência (não terá sido assim tanta) os americanos votaram para eleger maiorias republicanas e um execrável alucinado para presidente ?
Tanta conversa da treta, e deram-lhe o segundo mandato por porventura acreditarem que no segundo mandato as coisas seriam corrigidas.
Bom, o texto vai longo.
Sim, Obama não é dos mais indecentes.
Sim o alucinado que está na Casa Branca é do pior possível.
Mas, mesmo para terminar, muito bom falador, exímio orador, etc.
Mas um homem que com a maior lata deste mundo afirma no primeiro ou no segundo dia do primeiro mandato presidencial - vou fechar Guantanamo - e ao fim de oito anos . . . . . mantem Guantanamo aberto, diz bem da sua jactância, prudência, conhecimento de assuntos do Estado, etc.
Muita decência, sim, mas os priblemas nos EUA sempre a agravarem-se.
Com o alucinado actual as coisas continuam . . . . . por mau caminho.
António Cabral (AC)