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segunda-feira, 13 de abril de 2026

NO  TERRAMOTO  de  1975

Já se passaram vários dias sobre a publicação deste texto do ex-presidente da câmara municipal do Porto, Rui Moreira, onde sublinhei algumas partes a vermelho.

Curiosamente, que me tenha apercebido, da esquerdalhada extrema à extrema direita ninguém comentou o que aqui Rui Moreira recorda.
Curiosamente ou não, que eu tenha reparado, também mudos continuam alguns dos que costumam vir publicamente defender a sua "honra", como há dias vi.

Sem explicar Tim por Tim o Verão de 1975 e o 25 de Novembro, reconhecer que algumas coisas acontecidas dificilmente poderiam ter sido contidas no decurso do processo revolucionário mas, também, assumir que houve desmandos inqualificáveis, que houve atentados da esquerda à direita, que houve detenções sem nenhuma base legal incluindo mandatos estranhos, nunca a sociedade portuguesa estará definitivamente sossegada.

Enquanto à esquerda e à direita se continue com as posições extremadas de donos disto e daquilo, Portugal não recupera.
O texto aqui fica.

Bom dia, bom início de semana, saúde e boa sorte.
AC  

O epicentro de No terramoto de 1975 - a notável obra do meu irmão Tomás que Rui Ramos considerou «o mais importante e interessante livro escrito sobre a revolução por ocasião dos seus 50 anos» - é um episódio que, apesar de noticiado à época, não mereceu atenção. Em resumo - porque tudo está relatado e bem documentado no livro -, em 1975 os trabalhadores metalúrgicos da Molaflex, assistindo à degradação da empresa desde que o seu patrão - o meu Pai, Ruy Höfle de Araújo Moreira - fora preso há mais de cem dias por Eurico Corvacho - o gauleiter do Conselho de Revolução para o Norte - pronunciaram-se pacificamente contra a detenção à porta do Quartel de Santo Ovídio, no Porto.


Convocada pela comissão de trabalhadores da empresa, a manifestação foi violentamente reprimida pelos militares. O meu Pai, que estava em isolamento e não poderia conhecer ou tampouco incentivar o protesto, foi transferido para Lisboa pela calada da noite. Durante dias, a família não soube do seu paradeiro. Os partidos democráticos, que se opunham ao jugo gonçalvista, ficaram em silêncio.

O livro faz justiça aos que desmentiram a ‘luta de classes’, contextualizando as circunstâncias históricas em que se deu a detenção arbitrária do meu Pai e descrevendo as tentativas vãs de o envolverem numa conjura em que nunca participou. Sim, o meu Pai fez parte dos que bem cedo denunciaram que a revolução havia sido capturada por quem tinha como missão oferecer Angola aos soviéticos, coletivizar a economia e controlar os movimentos sociais. Mas essa denúncia não constituía crime

E, quando ficou claro que era inocente, mantiveram-no preso com o objetivo de atingir a sua empresa. À libertação tardia seguir-se-ia um incêndio na Molaflex por fogo posto, que interrompeu a produção por largos meses e coincidiu com um atentado bombista à casa de família.

Cinquenta anos depois, a história oficial só nos fala da rede bombista de direita, só nos narra histórias em que os trabalhadores se revoltaram contra os patrões capitalistas e só nos faz crer que, por seremos livres, temos uma dívida para com militares que traíram e envergonharam a farda. Mas, na verdade, somos livres apesar deles e graças aos que combateram os seus desmandos.

Os piores ‘orientaram-se’: Corvacho e Rosa Coutinho montaram um chorudo negócio de import/export com Angola, cobrando ao MPLA pelos serviços prestados. 
Já o esbirro que ainda hoje se vangloria de ter detido o meu Pai, de seu nome Boaventura Ferreira, acabaria condecorado por Marcelo com a Ordem da Liberdade
Esse ‘herói’ entrou no gabinete do meu Pai para o prender sem mandado de captura e com capangas armados até aos dentes. Encontrou-o a trabalhar, pois recusara-se a fugir mesmo sabendo que a canalha o ia prender.

Os empresários do antigo regime que fugiram, e viram as suas grandes empresas nacionalizadas, refizeram os negócios à custa de indemnizações compensatórias e de novos privilégios corporativos, enquanto o meu Pai e tantos outros tiveram de resgatar as suas empresas intervencionadas ou sabotadas por comunistas e pela soldadesca a soldo. Não beneficiaram de apoios e foram esmagados pela falta de crédito, dada a má vontade e incompetência dos bancários da banca nacionalizada, que depois se converteram ao capitalismo e se transformaram em banqueiros de sucesso.

Ao nosso Pai nem sequer lhe pediram desculpa pelo cativeiro, pelo dano físico e moral, pelo insulto, pelo impacto na família, pela destruição patrimonial. Os trabalhadores, que o acolheram com foguetes no dia em que regressou, mantiveram o seu emprego, mas a empresa nunca recuperou a pujança do passado. E o meu Pai nunca mais voltou a ser o mesmo: perdeu a saúde e o otimismo mas uniu-nos a todos, de dentes cerrados, até ao fim.

Agora, o Tomás faz-lhe justiça, com sobriedade e sem comiseração. Na apresentação do livro revi muitos dos antigos trabalhadores, que encontro quando vou a São João da Madeira ou à nossa quinta em Milheirós, ali ao lado. 
Para eles, serei sempre, e com orgulho, ‘o filho do senhor Ruy’. 
Os netos e bisnetos do meu Pai, que não o conheceram, e os que lerem o livro perceberão por que razão será sempre o nosso querido herói. 
Cinquenta anos depois, quando tudo parece esquecido neste país anestesiado pelos supostos brandos costumes, é importante que haja pessoas como o Tomás para tratar da amnésia

quarta-feira, 27 de novembro de 2024

25NOV75, MÁRIO TOMÉ na TSF
27NOV2024 
"A extrema-direita estava escondida à espera do seu momento. O 25 de Novembro abriu-lhe o espaço todo"
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Nós estávamos de prevenção rigorosa às ordens do Presidente da República. Nesse dia eu estava no COPCON [Comando Operacional do Continente] e, quando lá estava, recebe-se a notícia de que os paraquedistas tinham ocupado as bases aéreas. Aquilo pareceu-me um bocado estranho e resolvi imediatamente ir para o Regimento. Aliás, eu disse: "Isto cheira-me a 'golpaça'." Falei com o comandante e chegámos à conclusão de que íamos estar do lado dos paraquedistas, sem saber exatamente o que era. . . . . . . . 
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E ele: "Ó pá, quem disparou primeiro?" E eu respondo: “Quem mandou cercar a unidade militar por outra unidade militar foi quem disparou primeiro." Aquilo já não havia nada a fazer, não é? E eu, o Campos Andrada e o Cuco Rosa fomos por aqui abaixo, nas calmas para Belém, a pé. Em Belém, almoçámos um bacalhau com batatas, muito bem feito. Era para Presidente e companhia, com aquela malta toda, os atacantes e os atacados... Agora a questão fundamental aqui é: como é que eles conseguem explicar a tese de que havia um golpe contra o Estado ou contra o poder instituído dos “esquerdistas”? Daqui a Belém são 150 metros. Nós aqui tínhamos quase dois mil armados de G3. Eu uma vez, aliás, num debate na RTP com o Vasco Lourenço, perguntei-lhe assim: "Olha lá, então a gente estava a fazer um golpe? Qual era a força que vocês tinham para defender o Presidente da República?” Ficou a olhar para mim, sem resposta. E eu disse-lhe assim: “Tinham lá um sentinela, não era?” Portanto, o golpe foi deles. Foi preparado a partir de Tancos que definiu politicamente isto.
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Eu tenho a minha opinião. Os pára-quedistas foram tramados. 
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Portanto, tínhamos um Governo bombista como os bombistas que o apoiavam e com quem ele se entendia bem e o próprio Conselho da Revolução entendeu-se bem com os bombistas. Estavam dispostos a tudo, por quê? Porque não eram capazes de aguentar politicamente o movimento popular que sai do 25 de Abril. Um movimento popular é a única coisa com força transformadora.
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A partir dai, a gente não se pode esquecer que os soldados já tinham assumido a ação política, acompanhavam o movimento popular e manifestavam-se. Aquilo de que as portas que o 25 de Abril abriu, nunca mais ninguém fecha é mentira. Foi fechada por estes gajos. 
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Acho que o Otelo, sabendo o que sabia, que sabia mais que eu, com certeza acho que se portou bem. Fez aquilo que tinha a fazer. Não aceitou um confronto militar.
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O confronto militar levava uma guerra civil?

Não. Isso é a atoarda do Mário Soares. Eu pergunto: guerra entre quem? As unidades chamadas revolucionárias eram quatro ou cinco. As outras estavam todas feitas com o travar do movimento popular, impedir que ele se desenvolvesse. Qual era a guerra? Eles tinham os aviões todos. Não havia guerra civil nenhuma e até a UDP caiu um bocado nisso. Não havia guerra civil nenhuma. Eles tinham tudo, tudo, tudo. Toda a força militar era deles.
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Sim, a extrema-direita estava escondida e estava à espera do seu momento. O 25 de Novembro abriu-lhe o espaço todo. O grande herói do 25 de Novembro é o Jaime Neves. Ele não participou no 25 de Abril, fingiu que participou. Jaime Neves não cumpriu as missões que lhe estavam distribuídas que era prender os comandantes daqui e dali que era onde estava a força que se podia opor ao Salgueiro Maia. Ele não fez isso, passou a noite nas calmas e depois apareceu a mostrar-se. Aliás, ele tinha dito ao Otelo que se soubesse que era para sair de África, não tinha alinhado. Ele foi obrigado a alinhar, sem alinhar, depois contemporizou, digamos assim, com balanço. 


E o PREC acaba mesmo no 25 de Novembro ou acaba antes, em setembro, em Tancos?
Em Tancos, há uma transformação política em que a esquerda militar ficou com a sua capacidade de intervenção diminuída, a sua capacidade de intervenção. A capacidade de intervenção da esquerda militar era fundamentalmente o povo em movimento, o movimento popular e a participação dos soldados. Mas depois havia os oficiais que compatibilizavam com isso ou que apoiavam isso, etc. Isso tudo levou uma machadada grande em Tancos. Mas o movimento continuava muito diminuído, porque, por mais que a gente ache que o movimento era fundamental e foi, tinha o guarda-chuva do MFA e, portanto, a independência do movimento popular - que era grande, era forte - contava muito com o MFA bonzinho, não é? Entretanto, isto reduziu-se bastante, partiu-se tudo. Aliás, o MFA partiu-se e isso teve consequências também no ímpeto revolucionário.

Quando é que sentiu que o golpe estava a ser preparado?
O meu pensamento era mais político do que militar. A participação militar era no apoio ao movimento popular. Podia ser um bocado ingénuo, mas, do meu ponto de vista, a revolução popular tinha de ser assumida pelos soldados e pelo povo, pela malta da reforma agrária. Isso é que era interessante. O resto eram as conspirações de corredor. E soube que eles fizeram uma lista dos malandros a prender. Isso mostra que eles é que foram os golpistas.

E estava na lista?
Claro, então não havia de estar? Se não estivesse é que eu desconfiava de mim próprio. Aquilo foi mesmo uma 'golpaça' urdida com os apoios da CIA, do Carlucci, dos alemães, dos franceses.
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Isto ajuda a esclarecer o 25NOV75?

AC