Católico, confesso-me pouco praticante, acompanho várias vezes a minha mulher, participo em determinadas cerimónias, mas gosto sobretudo de me isolar, sentado, dentro de igrejas vazias e aí meditar, e aí lembrar que até agora a vida não me tem sido madrasta.
Vem isto a propósito do que vem sucedendo na nossa sociedade relativamente ao que dá título a este texto e, particularmente, ao que tem envolvido D. Manuel Clemente. E vem isto a propósito, também, desta nota de cinco parágrafos de 11 de Agosto do corrente e que aqui reproduzo.
Sublinho a cor o parágrafo que, de novo, me leva a escrever algumas palavras sobre este deplorável tema e na sequência do que fiz há dias.
Nota da Comissão Permanente do Conselho Pastoral Diocesano
Testemunhamos, desde há vários anos, a entrega incondicional e sem reservas do Sr. D. Manuel Clemente ao serviço da Igreja e da sociedade portuguesa.
Testemunhamos, desde há vários anos, a entrega incondicional e sem reservas do Sr. D. Manuel Clemente ao serviço da Igreja e da sociedade portuguesa.
Experimentamos, diretamente e em especial, o seu esforço denodado no sentido de levar o Evangelho a todos, de crescer na vivência da sinodalidade da Igreja e na preparação do evento inédito e irrepetível que representam, para a nossa diocese e o nosso país, as próximas Jornadas Mundiais da Juventude.
Verificamos o seu empenho decidido no combate à chaga dos abusos sexuais de menores e pessoas vulneráveis nos ambientes eclesiais, com atenção primordial à proteção das vítimas, na possível reparação dos danos do passado e na mais cuidada e vigorosa prevenção da sua repetição no futuro.
Assistimos, nos últimos dias, a uma intensa cobertura mediática que, a par do justo dever de informar incorre em condenação pública que atinge o Sr D. Manuel Clemente, baseada numa intervenção pontual cujo sentido tem sido distorcido, que não tem em conta a globalidade da sua ação neste campo e que nada tem a ver
com a proteção das vítimas desse crime.
Porque em nada diminuiu a nossa estima e a nossa confiança no Sr. D. Manuel Clemente, e convictos de que exprimimos o sentir de muitos outros diocesanos, vimos manifestar o nosso desejo mais sincero de que ele continue a sua missão de Patriarca de Lisboa, no que poderá contar com a nossa reforçada, solidária e afetuosa colaboração.
Os membros da Comissão Permanente do Conselho Pastoral Diocesano de Lisboa
Irmã Idília Carneiro
Isabel Figueiredo
Cón. José Miguel Pereira
Jorge Sá Nogueira
Maria de Fátima Salgueiro
Mariana Freitas
Michelle Lopes
Pedro Vaz Patto
Os membros da Comissão Permanente do Conselho Pastoral Diocesano de Lisboa
Irmã Idília Carneiro
Isabel Figueiredo
Cón. José Miguel Pereira
Jorge Sá Nogueira
Maria de Fátima Salgueiro
Mariana Freitas
Michelle Lopes
Pedro Vaz Patto
Contrariamente ao professor Marcelo Rebelo de Sousa não conheço pessoalmente D.Manuel Clemente, não conheci D. Policarpo, e nada posso assegurar com segurança sobre estas figuras da igreja católica.
Mas nada me custa acreditar da bondade e verdade do que na nota se afirma nos 1º e 2º parágrafos.
Mas, confesso, fiquei um pouco sobressaltado ao ler o parágrafo que sublinhei, o 3º parágrafo.
Não sou jurista mas, não sendo completamente ignorante, atrevo-me a presumir que esta nota tem alguma mãozinha de jurista.
Não sou jurista mas, não sendo completamente ignorante, atrevo-me a presumir que esta nota tem alguma mãozinha de jurista.
Isto dito, e indo ao meu citado sobressalto, li por mais de uma vez este parágrafo. Porquê?
Antes de explicar, creio não estar errado se disser/ escrever que tem passado nos OCS a ideia de que D.Manuel Clemente teria tido conhecimento de um caso de abuso sexual no passado, e teria ficado em silêncio sobre o caso particularmente a pedido da então vítima.
Passou pelos OCS uma inacreditável e demorada explicação do professor Marcelo Rebelo de Sousa sobre as figuras de D. Manuel Clemente e o seu antecessor, por eles pondo as mãos no fogo (palavras minhas).
Passou mais recentemente pelos OCS nova palração do professor constitucionalista mas num sentido ligeiramente diferente, apontando para um "apure-se tudo" (palavras minhas).
Não terá passado pela cabeça da maioria dos meus concidadãos a tristeza que é a 1ª figura do Estado, laico, imiscuir-se nos assuntos da igreja e expondo opiniões pessoais, quase parecendo que é uma pressão. Mas, lá está, é Marcelo que, copiando um seu antecessor, acha que "isto" é tudo dele.
Agora o meu sobressalto.
Agora o meu sobressalto.
Tendo presente o que acima recordei, e mais a recente ida a Roma e audiência com o Papa, lendo bem o 3º parágrafo, será legítimo pensar que, afinal, o que se tem andado a dizer será muito diferente da realidade quanto ao conhecimento de vários outros casos?
Não será legítimo eu ficar com a maior das dúvidas sobre quanto D. Manuel Clemente foi sabendo ao longo dos anos?
Não será legítimo, face à última parte do 3º parágrafo - na possível reparação dos danos do passado e na mais cuidada e vigorosa prevenção da sua repetição no futuro - eu ficar com as maiores dúvidas sobre se sim ou não, se sobre este tema, foi havendo acções no seio da igreja católica portuguesa à margem das autoridades judiciais?
Como escrevi anteriormente, neste complexo e deplorável assunto haverá quem aproveite para denegrir, para atacar a igreja católica.
Não é o meu caso.
Mas esta nota, este 3º parágrafo deixa-me inquieto, preocupado.
Aguardemos que não se continuem a ouvir tiros de caçadeira nos dois pés. Aguardemos que haja transparência. Aguardemos que, de uma vez por todas, se entre no bom caminho, e na justiça real.
São os meus desejos. É o que entendo devia acontecer.
Mas o que se tem sucedido nos últimos dias não me deixa descansado.
E se tudo é deplorável, lamentável, a comissão que anda a investigar o tema "abusos" ir a audiência ao inquilino em Belém mostra-me que "isto" continua muito torto.
Lembra-me "o séquito" de antigamente.
Lembra-me que quanto a transparência e verdadeira independência estamos a léguas do que devia ser.
E o que devia acontecer, na minha opinião, é ter sempre presente, o que a igreja católica tem a ver com a nossa história, é respeitar a igreja, é a igreja não se meter nos assuntos deste Laico Estado, é haver decência, transparência, independência, justiça e dignidade.
Apurar tudo, julgar, castigar.
E o senhor em Belém lembrar-se que, é católico como eu, mas devia estar calado, e não considerar que ser o garante do funcionamento das instituições não é dar opiniões pessoais como fez sobre os membros da igreja. IRRA, que já cansa.
António Cabral
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