25 NOVEMBRO 1975
Volto ao tema 25NOV75 depois de ter lido:
- um artigo de opinião do reputado constitucionalista e (creio) sogro da "Leitão" e que um bom amigo me remeteu e recordo em baixo,
- o artigo de Pacheco Pereira no Perdócio de 22 de Novembro de 2025, e a ele me referirei mais abaixo,
- notícias fresquinhas de certas personagens, civis e militares, e depois de usar a tecnologia depois de jantar para fazer uma passagem rápida pelos discursos na AR, a que não assisti em directo, como não assisti à parada militar nem no TPaço nem pela TV.
Alguns persistem em ser donos disto! Enquanto alguns como Ventura continuam a não querer perceber que FELIZMENTE, creio, são minoritários. E Ventura demonstrou mais uma vez a ausência de um pingo de educação.
Jorge Miranda recordou o clima de agitação, divisão e luta política e refere no artigo essencialmente o seguinte:
1º - que se obteve em Agosto de 1975 com o documento dos 9 a clarificação de posições políticas,
2º - que a 25 Nov 75 ocorreu a insurreição esquerdista com a ocupação de vários quartéis, bases aéreas, estações de rádio e televisão, a que responderam outras forças militares segundo plano de Ramalho Eanes,
3º - que para impedir uma retaliação da direita Melo Antunes foi à televisão afirmar que todos tinham lugar na construção da democracia abrangendo o PCP que, aliás, prudentemente, não tinha entrado na rebelião,
4º - que o actual governo criou uma comissão para as comemorações do 25 NOV 75 com o que não concorda,
5º - que o 25 NOV seja comemorado não discute, mas não à parte do 25 ABR porque as duas datas estão ligadas, e a vitória do 25 NOV foi a consolidação do próprio 25 ABR.
Sobre o 25 NOV prosseguem as declarações e opiniões.
Muito recentemente e a que aqui fiz já referência, Vasco Lourenço voltou às críticas à comissão nomeada pelo governo.
Pessoalmente considero que parte dessas críticas são certeiras, e com elas concordo.
Mas declarações após declarações, artigos de opinião atrás de artigos de opinião, Expressos da meia-noite, livros a seguir a outros livros, entrevistas atrás de entrevistas ao longo dos anos, para mim tudo continua essencialmente na mesma isto é, persistem algumas dúvidas sobre alguns aspectos, sobre certos protagonistas.
Ou será só deficiência da minha parte e está tudo clarinho quanto ao que na realidade se passou depois das eleições em 25ABR75 até ao 25NOV mas particularmente de Setembro em diante??
Surgem sempre interpretações e as verdades absolutas por parte de alguns militares do grupo dos 9, de partidos políticos, de jornalistas e comentadores, mas a realidade é que se continua a não dizer tudo com detalhe, rigor e verdade histórica.
O que, na minha opinião, promove ou facilita que apareçam tentativas de escrever o que convém a alguns. Muito à esquerda. muito á direita.
Como alguns execráveis estão mostrando.
E nestas ausências de clarificação há, quase de certeza, algumas coisas que se passaram, alguns encontros anteriores, algumas combinações que não se querem revelar, alguns acordos que aos olhos de alguns poderão não ser facilmente engolidos.
Era bom recordar, clarificar, explicar, as ligações havidas com certas personagens e certos sectores e organizações na sombra.
E quem está vivo e sabe das coisas todas persiste em esconder as realidades acontecidas, ainda que muitas creio estarem já esclarecidas.
O coronel Rodrigo Sousa e Castro é peremptório - Depois do 25NOV quem é que ficou com o poder? Foram os Nove e os militares à sua volta. Foram os Nove que fizeram o golpe mas fizeram-no em prol da democracia. Depois, gradualmente, o VI governo provisório retomou a actividade, mantendo membros do PCP no executivo.
QUE FIZERAM O GOLPE, disse.
Clarinho para todos perceberem.
Para mim a acção a que se refere Sousa e Castro é o contra-golpe.
E CONCORDO, foi executado para defesa da democracia, e ainda bem que assim foi.
Ainda bem que assim foi.
Porque há muito estava em preparação e parcial execução o GOLPE.
Ainda que se diga que o PCP não é amigo de golpes de Estado.
Mas designadamente por parte de alguns dos 9 persiste esta mania de suavizar (ou desculpabilizar) alguns, suavizar o que germinou durante semanas e semanas depois de 25 de Abril de 1975 por parte das várias agremiações de extrema esquerda e do PCP. Particularmente de 5SET75 em diante.
Todos têm direito à liberdade de opinião, de expressão, de defender as suas ideias, a direito a serem respeitados.
Mas também têm o dever democrático de respeitar os outros e as opiniões de outrem.
Numa cerimónia evocativa como a que teve lugar hoje na AR o PCP e a Associação 25 Abril não estiveram presentes. Com toda a legitimidade democrática.
Têm o direito que não concordar com a cerimónia, e de não comparecerem na AR.
Eu tenho o direito de isso registar, e de registar a coincidência das suas posições.
Recentemente o coronel Sousa e Castro deu aos portugueses mais umas das suas achegas.
Disse (talvez já o tenha dito no passado), que o 25NOV foi um ajuste de contas entre militares.
Podia ter esmiuçado. É uma afirmação curiosa.
Como se tudo tivesse acontecido exclusivamente entre militares, nada tendo havido antes.
Claro que desde as agremiações extremistas à esquerda do PCP e o próprio PCP muito agradecem esta declaração. Aplaudem-na, pois assim se mantêm na penumbra da história.
Sousa e Castro foi um dos que esteve junto de Costa Gomes. Tem portanto informação detalhada.
Ele e outros bem podiam acabar com as interpretações.
Porque estas sempre verdades incompletas dão azo a que surjam à direita e à esquerda manipulações e tentativas de escrever uma outra história. Nunca mais saímos desta pessegada.
E a pessegada há muito que devia ter acabado.
O 25ABR74 trouxe a liberdade, é a data mais importante, a verdadeiramente determinante.
Seguiu-se a luta para manter eleições em 25ABR75.
Seguiu-se depois um turbilhão e o 25NOV75 data a partir da qual se começou a arrumar a "casa".
Respeito SEMPRE as opiniões de outrem mas confesso, pessoalmente estou farto de propaganda e interpretações e farto de Nunos Melos, Venturas e quejandos, como de Tavares Marianas e quejandos.
Estou farto de personagens, civis e militares.
Claro que após a assembleia de Tancos em 5 de Setembro de 1975 começou a mudar muita coisa para profundo desagrado de vários marxistas e extremistas.
O resultado dessa assembleia talvez se possa resumir de mais do que uma maneira, mas uma delas talvez possa ser esta - O PCP tirou o tapete a Vasco Gonçalves e à extrema esquerda.
E o grupo dos 9 e militares na sua órbita ganharam posições e ascendente.
Creio que é correcto afirmar que o 25NOV inflectiu o curso da revolução. E acabou com o horrendo PREC.
Mas pouco mais alterou, e designadamente as políticas económicas e o que devia ser feito no país e ao país, para o guiar rumo ao combate às imensas desigualdades sociais muitas das quais persistem e algumas aumentam e rumo FINALMENTE ao desenvolvimento.
Continuamos estagnados apesar das loas de várias personagens.
No artigo que referi no início, Pacheco Pereira puxa dos seus galões e do alto da sua cátedra não se fica por pouco: PONTOS nos iiii !
Este ex ML se a memória não me falha, é tido como autoridade importante e conhecedor da vida e história do PCP. Tem livros sobre isso.
Mas não sabendo eu e muitos outros nem 10 % do que Pacheco Pereira sabe, isso não significa que eu e muitos outros não saibamos algumas coisas e não tenhamos muitas dúvidas, mas também algumas certezas. Pessoalmente sei poucochinho (Costa dixit) mas sei algumas coisas.
No seu longo artigo Pacheco Pereira coloca muito a tónica no PCP, umas vezes aguilhoando outras suavizando.
Mas na minha opinião, ao referir claramente "a ronha" comunista em tudo, acaba por de certa maneira e em simultâneo confirmar realidades que muitos escamoteiam e de se contradizer um pouco.
O seu artigo recorda-me o lençol curto que ora destapa os pés ora os ombros.
E se, na minha opinião naturalmente, Melo Antunes fez bem ao declarar o que declarou na TV em 26 de Novembro de 1975 relativamente à indispensabilidade de todos os portugueses terem direito a estar no processo de construção da nossa democracia, continuo a considerar lamentável esta suavização a que também Pacheco Pereira mais uma vez recorre.
Indispensável na construção da democracia SIM, isso é uma coisa mas era mais do que tempo de dizer as verdades todas.
Refere nomeadamente o seguinte:
1º- aponta e bem à parvoíce governamental (um erro crasso de Montenegro que o vai pagar) de entregar as comemorações do 25NOV ao patético Nuno Melo e associados
2º- recorda e bem as datas importantes dos anos 1974, 1975 e 1976
3º- recorda a relação de forças em termos de geopolítica
4º- recorda a relação de forças interna, partidos, agremiações de extrema esquerda e de extrema direita, militares, Forças Armadas, MFA
5º- recorda a relação de forças em Portugal, Norte-Sul e o COPCON
6º- considera que a URSS designadamente através de dois dos seus mais importantes ideólogos nessa época (Suslov e Ponomariev) não quereriam uma Cuba na Europa nomeadamente em consequência da conferência de Helsínquia em 1975
7º- a progressiva perda de influência do PCP no seio do MFA
8º- recorda o controlo das ruas por parte das agremiações esquerdistas e os assaltos lastimáveis a sedes partidárias e nomeadamente as do PCP
9º- aborda a questão de se SIM ou NÃO Cunhal teve e parcialmente encetou a mimetização em Portugal dos passos da revolução bolchevique
10º- nega que tenha havido plano para tomada do poder em 25 de NOV75
11º- afirma que o PCP esteve no 25NOV apenas no princípio mas que não o iniciou12º- recorda que várias forças militares mais próximas do PCP declinaram cedo meter-se em aventuras e declararam obedecer a Costa Gomes
13º- afirma que se deve comemorar o 25NOV se for com rigor, se for sério, e mostrar os passos na caminhada de construção da democracia.
Absolutamente de acordo.
Quando ao que Pacheco Pereira escreveu e defende breves comentários:
- o seu ponto 1º - estou de acordo
- o seu ponto 6º - não quereriam mas se resultasse será que ficava muito incomodados?
- o seu ponto 9º - não lhe terá mesmo passado pela cabeça?
- o seu ponto 10º - foi Cunhal que lhe disse? E a prevenção de muita
gente civil e alguns militares e os estudantes da UEC todos preparados para receberem armas, mas depois em cima da hora foram mandados desmobilizar?
- o seu ponto 11º - estou de acordo
- o seu ponto 12º - estou de acordo
- o seu ponto 13º - absolutamente de acordo
O PCP por trás do 25NOV não é uma leitura unânime. Mas estou convencido que Álvaro Cunhal nunca engoliu o resultado das eleições de 25ABR75, que lhe foram altamente desfavoráveis.
A ditadura do proletariado e o socialismo duro e puro não se constrói por decreto. Cunhal nunca esteve à espera desse decreto.
Tal como estou convencido que sobretudo depois das eleições para a Constituinte o PCP fazia uma avaliação constante da correlação de forças, no campo militar e no campo civil.
O que se passou ao certo numa assembleia curiosa, a de 25JUL75, e porque aconteceram certas e notórias ausências?
Porque certos donos disto não contam?
Estou também convencido que Otelo nunca se deixou dominar pelo PCP.
Otelo foi a Cuba. Costa Gomes foi à URSS.
Quem facilitou e organizou? Foi o espírito santo? Consequências?
Algumas sabem-se, por exemplo relativas a Angola.
Pacheco Pereira salienta realidades importantes desse tempo. Por exemplo o desamparo que presumo o PCP sentiu da parte designadamente do COPCON. E recorda que, compreensível e legitimamente o partido tratou de defender as suas sedes. E certamente havia muitas armas distribuídas por civis e planos para distribuir mais, à cintura industrial e a estudantada.
Mas creio que além dos deploráveis ataques às suas sedes, creio que o PCP foi gradualmente perdendo o controlo das ruas, das manifestações, muitas determinadas pelas várias agremiações extremistas esquerdistas. Uma verdadeira loucura em crescendo.
O MES por exemplo estaria sobretudo associado ao COPCON e RALIS
Nos fuzileiros haveria grande influência do PCP.
Na Polícia Militar haveria pouca influência do PCP.
Concordo com Pacheco Pereira e outros na afirmação de que o PCP esteve dentro do golpe. Encolheu-se a tempo, até porque Cunhal tinha garantias de quem de direito. Certo?
Quem deu a ordem para os pára-quedista saírem?
Sairam e não foi apenas por razões corporativas, foi mais certamente.
Há de certeza quem no PCP e nos 9 saiba.
Ninguém me tira da cabeça que o PCP tinha um vasto plano subordinado a Jaime Serra.
Ninguém me tira da cabeça que em Outubro Otelo já na prática diária não controlaria as unidades militares, envolvidas numa completa indisciplina. O juramento de bandeira (??) no RALIS é apenas um dos exóticos acontecimentos. Os SUV de triste memória. Tudo surreal.
O texto já vai longo. Tenho presente muita coisa dos imensos livros que já li sobre o tema. Livros, declarações, entrevistas. E tenho presente . . . . muitas atoardas de civis e militares.
É a minha opinião sendo certo que admito, como sempre, poder estar enganado ou a ser injusto.
Mas quem não clarifica e profere retóricas do alto da sua cátedra legitima-me que mantenha dúvidas.
Continuo com dúvidas, continuo convicto disto:
* as agremiações ditas de esquerda e sobretudo o próprio PCP ficaram muito desiludidos com os resultados eleitorais da Constituinte,
* que houve tentativas várias de certos partidos de então para pelo menos adiar as eleições para a Constituinte,
* depois da Constituinte, à esquerda do PS foram gizando planos para controlar a vida nacional à margem dos trabalhos na Assembleia Constituinte, e desagregando as forças armadas; a isso claramente se referiu Melo Antunes,
* continua um bocado no limbo o que de facto se passou em certas reuniões havidas e de que resultaram por exemplo, o plano de acção política MFA, o documento aliança Povo-MFA, o documento de concentração de poderes em Otelo (27MAI75),
* continua um bocado no limbo as reuniões havidas entre Cunhal e melo Antunes,
* continua um bocado no limbo quando é que Ramalho Eanes e outros começaram a delinear o plano que puseram em acção no 25NOV75, plano que estou convicto era totalmente desconhecido de Costa Gomes e foi quase em cima da hora que lho explicaram e explicaram que ia ser assim,
* continua um bocado no limbo os encontros (ou reuniões?) de certos líderes políticos com gente por exemplo do ELP,
* continua um bocado no limbo quando se iniciou a preparação da deslocação dos aviões da força aérea, desfalcando completamente as intenções designadamente do PCP,
* de que havia centenas de milhares de armas distribuídas a civis, muitas e muitos controlados por PCP /Jaime Serra e muitos mais descontroladas,
* de que existem muitos sacos e caixotes de armamento no leito do rio Tejo, designadamente no Mar da Palha, perto da base naval do Alfeite e ao longo das margens até à foz,
* de que existe muito armamento escondido pelo país,
* que de 25ABR74 a 254NOV75 dentro do MFA subsistirem imensas divergências quanto à descolonização e quanto ao que adoptar para a organização do Estado,
* com o 25NOV75 e muito liderado por Mário Soares a moderação ganhou, e felizmente perderam os gladiadores que queriam extinguir partidos,
* Cunhal recuou por verificar à última da hora, ao fazer contas, que afinal a correlação de forças lhe estava muito desfavorável; aviões fora do seu controlo (tudo planeado ainda logo no final de MAR75?), e ainda por cima o que imaginava garantido (a poderosa força de fuzileiros) a submeter-se formalmente a Costa Gomes,
* para perceber o que terá acontecido quanto à questão do borregar dos fuzileiros e da Marinha uma das coisas a fazer é recordar quem lá liderava /comandava nessa altura e seguir depois o seu trajecto de carreira,
* continua um bocado no limbo quando começou o arregimentar de ex- comandos e o papel concreto de Soares Carneiro; e aliás depois interessante seguir a carreira deste militar que, recorde-se, acabou por ser CEMGFA,
* continua a ser curioso para mim convencerem-me que o assalto ao RALIS em 11MAR75 ou o ataque à Polícia Militar no 25NOV aconteceram porque aconteceram; estas coisa não se preparam num dia,
* continua a ser curioso, para mim naturalmente, a reabilitação de Spínola e a sua elevação a chanceler das ordens, a amnistia de Soares a Otelo.
Há mais, mas chega por agora.
Mantenho o que sempre fiz e como sempre agi ao longo da carreira, não me interessa a posição, seja titular de órgão de soberania, seja chefe militar, seja político, seja quem for, não me interessa o que de muito louvável fez pelo país: se não me fala verdade com rigor e honestidade intelectual e portanto não me respeita enquanto seu concidadão, não me merece respeito. Respeitinho porque sim comigo não dá.
Nada me incomoda celebrar-se e recordar-se que o 25NOV foi decisivo para a nossa vida colectiva.
Mas comemore-se hoje e sempre que entendido, com verdade como refere Pacheco Pereira.
Comemore-se na Assembleia da República, com discursos, façam exposições, debatam com isenção, com decência e educação.
Mas sem paradas militares e tiros de salva de navios de guerra e aviões a sobrevoar.
É dinheiro mal gasto, desperdiçado, que faz falta em tanto lado.
Que se recorde Soares, Zenha, os 9 e os militares na sua órbita.
Que se recorde que ninguém deve ser ostracizado, mas que a vontade da maioria deve imperar, sem nunca esmagar minorias.
O "dia inicial inteiro e limpo" foi e é o 25 de Abril de 1974.
Além desta determinante data, as mais importantes e igualmente decisivas foram e são a das eleições para a Assembleia Constituinte em 25 de Abril de 1975 onde a palhaçada das ruas teve uma primeira grande derrota, e a de 2 de Abril de 1976, data de aprovação da Constituição da República Portuguesa.
Acabe-se de uma vez por todas com as palhaçadas, de um lado e de outro.
Chega de gente medíocre e chega também de personagens, e chega de donos do regime e do País.
António Cabral (AC)
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