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sábado, 24 de janeiro de 2026

Publico um texto antigo da autoria de um capitão de Abril, o falecido coronel Carlos de Matos Gomes.

AC

Corrupção – ataquem o Cérbero monstro das três cabeças. Não sejam cobardes nem cúmplices.
(Carlos de Matos Gomes, 03/05/2018)

Vamos falar de corrupção? A sério?

Podíamos falar da constituição de monopólios do tempo da primeira industrialização de Portugal, a do Marquês de Pombal, mas vamos ao tempo aqui mesmo ao virar da porta. Como se reconstruíram os grupos privados após a nacionalização da banca em 11 de Março de 1975?

Como reapareceram os bancos privados, como surgiram o BPI, das confederações do Porto, Santos Silva, o BCP/Millenium da Opus Dei, Jardim Gonçalves, o BPN de Oliveira e Costa, como reapareceram os Espírito Santo, como desapareceram os Burney, os Pinto Basto, o Totta e Açores, o Pinto e Sotto Mayor, o Crédito Predial, como desapareceu o Banco Português do Atlântico de Cupertino de Miranda e o Pinto Magalhães? Como apareceram os Mello /CUF no sector da saúde privada e nas auto-estradas e como desapareceu a CUF, um grupo industrial? Como desapareceu a SACOR e surgiu a GALP? Como foram atribuídas as concessões de estradas – BRISA e Autoestradas do AtLântico, de portos, de aeroportos?

Em resumo: Como surgiu a Quinta da Marinha após o 25 de Novembro? Como desapareceram a Siderurgia Nacional, a CIMPOR, a CUF /SAPEC- adubos, as papeleiras, as refinarias nacionais – SACOR e surgiram os concessionários das portagens de autoestradas, os comissionistas de taxas de combustíveis e de electricidade, os merceeiros da grande distribuição?Corrupção. Como se constroem impérios de serviços? A SONAE, ou o Pingo Doce, ou a Brisa, ou a CUF saúde? Como se constrói uma sociedade de rendas, de rentistas, sem pagar comissões ao poder político?

E não só, como se mantém a ficção de que vivemos num regime de seriedade sem uma comunicação social por conta, como as amantes? A comunicação social é corrupta desde o miolo. É a comunicação da corrupção e ao serviço da corrupção!

Existe algum chefe de governo desde 25 de Novembro de 1975 que não tenha sido um avençado dos grupos cuja criação ou recriação promoveu? Mais, existe algum presidente da República que não tenha sido um instrumento destes poderes? Quem não se aboletou com os fundos estruturais da CEE? A UGT nasceu como? Já alguém ouviu o Torres Couto (um peão, é certo) sobre os fundos para a formação? E quanto ao abate da frota pesqueira ? E sobre a destruição do olival? E sobre a plantação do eucalipto? E como foram elaborados os PDM, os planos directores que trouxeram 80% da população para a faixa litoral? Existe alguém nos vários governos com as mãos limpas?

Como surgiram bancos fantasmas do tipo BPN sem corrupção no topo do regime?

Tenho sobre o cristo do momento, Manuel Pinho, a pior das opiniões: enojam-me os zequinhas como ele, os patetas como ele, os pequenos vigaristas como ele, mas falemos então de gente que determinou o que está a acontecer: Julguem o Ricardo Espírito Santo Salgado! Comecem por ele e deixem para já os peixinhos de aquário, como o Pinho dos corninhos a abrir e a fechar a boca e os Sócrates.

Vamos ser sérios: na operação Marquês comecem por Salgado e pelo Banco Espírito Santo. No caso do Pinho, ou do Sócrates, comecem por Espirito Santo. Sentem Ricardo Espirito Santo Salgado no banco e comecem a fazer-lhe perguntas. Quem o trouxe de regresso a Portugal? Que apoios ele teve para reconstituir o seu império? E chamem Jardim Gonçalves! E chamem as famílias Cupertino de Miranda e de Pinto Magalhães!

Mas, antes de tudo tenham a coragem de julgar Ricardo Espírito Santo Salgado! É nele que tudo começa e é aos Espirito Santo que tudo vai dar. Não sejam cobardes e não atirem areia aos olhos dos portugueses!

Tenham os jornalistas a coragem de ir ao centro do vulcão! Ao Espírito Santo! Porque não vão? Medo? Cumplicidade?

O resto, os ataques a Sócrates e a Pinho são demonstrações de rafeiros que ladram mas não mordem. Estamos a ser – os portugueses em geral – sujeitos a uma barreira de mistificadores e de cobardes que nos querem pôr a discutir as gorjetas que os mandaletes de fazer recados, os groom, receberam quando a questão é a do dono do hotel. Mas esse deu muito dinheiro a ganhar. Sabe muitas histórias… Não é?

A história da corrupção que nos está a ser contada é a história da cobardia de jornalistas e de magistrados. De canalhas que estão a apontar para o lado – foi aquele menino – para que não olhemos para eles.

É o desafio, o meu: políticos, jornalistas, magistrados, tenham espinha, encham o peito e vão a ele! Não sejam rafeiros! Não sejam merdas: atirem-se ao Cérbero, ao “demónio do poço” na mitologia grega, ao monstruoso cão de três cabeças que guardava a entrada do mundo inferior, o reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem e despedaçando os mortais que por lá se aventurassem. Vão à fonte da corrupção: ao Espírito Santo.

Falta-vos coragem? Comeram desse tacho? Não? Se não falta coragem, se não comeram desse tacho, atirem-se ao Espírito Santo, ao monstro, ao Cérbero, exijam o seu julgamento! Ele sorri e escarnece de vós à saída das audiências! Vão a ele!

O resto são merdices e areia para os olhos do pagode.

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

25 NOVEMBRO 1975 

Vale a pena recordar uma outra opinião.

Neste caso a do infelizmente já falecido coronel do Exército Carlos de Matos Gomes. Independentemente de se concordar ou não com as suas ideias e com o que sempre defendeu em vida (de que muito comungo) considero-o um homem de grande honestidade intelectual, de enorme dignidade, indiscutível decência. 

António Cabral (AC)

(sublinhados da minha responsabilidade)

O Maestro do 25 de Novembro de 1975
(Carlos e Matos Gomes, Coronel, 25NOV2022)

Os acontecimentos da História são notas para várias sinfonias e distintas interpretações. A História conta-se através da interpretação de temas. A realidade transmitida pelos acontecimentos é apenas um tema conduzido por um maestro através dos executantes da orquestra que dirige.

O golpe de Estado 25 de Abril de 1974 e o processo político que o continuou até ele culminar no golpe de Estado de 25 de Novembro, um clássico putschmilitar para alterar um regime, podem ser analisados como uma peça musical com vários andamentos, intérpretes, e um maestro que recebeu uma partitura com um tema: transformar um pequeno “perturbador rebelde” num menino invisível e bem comportado. 

Francisco da Costa Gomes recebeu essa partitura em Helsínquia, na Conferência para Segurança e Cooperação Europeia, no Verão de 1975, das mãos dos senhores do mundo dessa época, Gerald Ford, Leónidas Breshnev e os dirigentes da troika europeia, a Alemanha, a França e o Reino Unido. 
O 25 de Novembro constituiu o último andamento da sinfonia, em Moderato.

O 25 de Abril de 1974 foi um golpe militar da total responsabilidade de uma fação das forças armadas portuguesas para derrubar um regime de ditadura que levara o país a um beco sem saída com uma guerra colonial. 
A execução golpe não teve interferências estrangeiras. 
A ação dos “capitães” processou-se sem “autorização” de Estados estrangeiros, nem apoios externos.

Já o processo político desencadeado pelo 25 de Abril de 1974 teve, esse sim, fortíssimas intervenções externas até ao seu epílogo, em 25 de Novembro de 1975.

O derrube da ditadura portuguesa e a instauração de um regime de liberdade e de direitos políticos alterava a situação na Península Ibérica, onde conviviam duas ditaduras, e podia motivar fenómenos idênticos de intervenção democrática nas Forças Armadas de Espanha, com o ressuscitar de conflitos vindos da sangrenta Guerra Civil. 

Portugal era membro da NATO, um membro fundador e fiel, qualquer alteração política em Portugal e, mais ainda, causada por militares, implicava uma intervenção da NATO e em especial dos Estados Unidos. 

A Europa vivia ainda um momento de entusiasmo com o reforço da CEE devido à entrada do Reino Unido, existia um clima de détente na Guerra Fria, com a preparação de acordos de limitação de armas e forças entre a NATO/Estados Unidos e a URSS, que iriam conduzir aos Acordos de Helsínquia, que nem Gerald Ford e Kissinger, nem Breshnev queriam ver perturbados pela agitação num pequeno e periférico país, e, por fim, decorria o processo de descolonização com as negociações para a independência de Angola, a última jóia da coroa do colonialismo europeu, cujo domínio interessava às duas superpotências, mas também, a toda a África Austral, à China e a Cuba.

O processo político português passou a ser, principalmente após o 11 de Março de 1975, um “caso” pilotado do estrangeiro
A partitura do processo político passou a ser escrita em Washington, em Moscovo, em Londres, em Paris, em Bruxelas e foi entregue a um maestro nacional: Francisco da Costa Gomes.

Costa Gomes passou a ser o maestro do processo político português com a missão de o controlar e de manter Portugal enquadrado pelo modelo de governação, de economia de mercado e capital instaurado na Europa Ocidental após a partilha feita entre os EUA e a URSS nas conferências de Ialta e de Potsdam. 

Foram atribuídas a Costa Gomes pelos Estados Unidos, através do diretório da NATO, as tarefas de disfarçar a exclusão de Portugal do Grupo de Planeamento Nuclear da Nato (GPN) — o santo dos santos da organização — de modo a não ofender os militares portugueses e a não fornecer argumentos à esquerda portuguesa, na altura anti-NATO.

É Costa Gomes quem recebe a indicação de afastar Vasco Gonçalves do governo (o medo do comunismo — que era, na realidade, a recusa a aceitar autonomia estratégica de Portugal na descolonização de Angola, dado o papel da URSS e de Cuba — também da RDA). 

É Costa Gomes quem aceita e coordena a intervenção do grupo europeu de controlo de Portugal constituído pela Alemanha, França e Reino Unido e presidido por James Callaghan, antigo primeiro-ministro britânico e que convencem Kissinger a não desencadear uma ação preventiva violenta do tipo chileno, uma “pinochetada”. 

É ainda Costa Gomes quem nomeia um “grupo militar” nacional para planear a ação que seria determinante no retorno ao redil europeu ocidental, ao padrão de modelo de governo, necessário a proporcionar uma aceitação serena de um regime de democracia de baixa intensidade aos falangistas espanhóis. (Curiosamente a morte de Franco e a ascensão de Juan Carlos à chefia do Estado espanhol para dar um novo e aceitável rosto democrático à ditadura ocorrem nas vésperas do 25 de Novembro de 1975).

À volta de Costa Gomes movem-se dois “segundos” como interlocutores que credibilizam e mobilizam forças internas e externas. Os dois segundos, ou lugares tenentes (embora apenas por força das circunstâncias), serão Mário Soares e Melo Antunes. 
Serão ambos aliados funcionais entre si e de Costa Gomes, ambos realizam tarefas complementares junto da sociedade civil, dos militares portugueses e nas instâncias internacionais, mas agem em tensão permanente: Costa Gomes não é um carismático, nem pretende mais palco do que já teve e tem. É um mestre de xadrez, um adepto das políticas que ficaram conhecidas pela palavra italiana de aggiornamento, que significa “atualização” e que transmitiu a orientação chave do Concílio Vaticano II, convocado pelo Papa João XXIII, em 1962. 

Melo Antunes tem uma personalidade parecida com a da Costa Gomes, de alguém que prefere compor na sombra. 
Resta Mário Soares, o solista, a estrela. 
Mário Soares não quer militares protagonistas políticos
Costa Gomes e Melo Antunes conhecem a extrema flexibilidade tática e ideológica de Mário Soares, a sua ligação muito próxima da subordinação com Carlucci, o embaixador americano, a sua disponibilidade para conseguir acordos de conveniência com quem lhe pareça favorece-lo, que serão substituídos por outros à medida das necessidades, confiado no seu génio para o improviso

Costa Gomes sabe do que Mário Soares é capaz e sabe que não o poderá ter como aliado na ação. 
Sabe que Mário Soares tem um projeto e um programa pessoal e conhece pelas suas vias o que ele está a fazer e agirá para que essas ações não prejudicam a condução da orquestra na sua partitura. 

Costa Gomes e Melo Antunes aliam-se para negociar o 25 de Novembro, com o menor custo possível: estabelecem acordos com Cunhal e com Otelo e também com a NATO e com o embaixador da URSS em Portugal. 
Deixam Mário Soares de fora, obrigando-o a alianças com setores com os quais ele preferira não ter de negociar. 
Uma exclusão que Mário Soares nunca lhes perdoará.

O 25 de Novembro terá, necessariamente, executantes nacionais para que a partitura regida por Costa Gomes seja levada a cabo com o resultado que teve. 
Não ocorreu nenhuma “guerra civil” em Portugal, nem esteve para acontecer, foi apenas um “papão” para criar tensões e adesões, isto porque a “guerra civil” não constava das pautas que Costa Gomes dirigiu, nem estiveram jamais reunidas condições para uma guerra civil em Portugal. 

Nem a instauração da República, nem da ditadura haviam provocado uma guerra civil! 
Podia ter ocorrido um confronto entre unidades militares — o que é bem distinto de uma guerra civil — mas os acordos feitos com Cunhal e Otelo, decorrentes do senso político de ambos, da análise da situação internacional e dos custos de uma aventura de confronto interno, preveniram essa possibilidade

Podia ter ocorrido um tempo de violência política urbana, guevarismo, mas, mais uma vez, os acordos obtidos por Costa Gomes com as organizações com alguma capacidade para desenvolver ações de terrorismo e de desestabilização evitaram-nas, apesar das tentativas que foram feitas por agentes que pretendiam um regresso ao passado, um banho de sangue anticomunista, uma vingança contra a descolonização, uma reparação aos banqueiros e às grandes família agrárias.

A “verdade” sobre o que foi o 25 de Novembro, quais os seus objetivos, tem e continua a ter três versões, o que é elucidativo da diversidade conflitual dentro aliança que se estabeleceu para a sua realização e do papel de Costa Gomes como maestro de naipes tão distintos.

Há um naipe na orquestra do 25 de Novembro que pode ser representada pelos instrumentos de bombos e foguetes, a cargo de executantes como Joaquim Ferreira Torres, destacado ativista do MDLP e contratador do mercenário Ramiro Moreira, que considerou o 25 de Novembro «uma traição» («Do 25 de Abril ao 25 de Novembro», Editora Intervenção). 

Também o cónego Melo, de Braga ficou manifestamente desiludido. Tanto empenho, tanta mobilização das populações arregimentadas pela Igreja e pelos padres, tantos assaltos e destruições de Centros de Trabalho do PCP, tantas bombas, tantos atentados e afinal um tal resultado: liberdades, regime democrático, aprovação da Constituição. 
Desapontamento profundo. 
Não sabe como explicar, mas explica: «O 25 de Novembro foi da total responsabilidade dos marxistas […] foi uma luta de marxistas» (entrevista ao Diário do Minho/Rádio Renascença , 13–3–1999). 

Jaime Neves, num jantar em sua homenagem realizado em Janeiro de 1996, declarou que «o “problema” seria resolvido “muito simplesmente com a prisão do líder do PC”, Álvaro Cunhal» (Público, 11–1–1996). 
Alpoim Calvão, comandante do ELP, numa entrevista a Eduardo Dâmaso, publicada no livro «A Invasão Spinolista», Círculo de Leitores, 1997, p. 98 afirma que apesar do 25 de Novembro, «muitos queriam pegar em armas e vir por aí abaixo matar comunistas». 
É o que teriam feito, pelo que se vê, se tivessem sido eles a impor o resultado. 
E esses grupos têm uma interpretação muito vaga e alargada do que é um comunista.

Uma outra explicação para o 25 de Novembro é a do «Grupo dos Nove», que inclui os militares que ficaram conhecidos como “moderados”. 
Este grupo, com Melo Antunes, tal como Eanes e Costa Gomes, defendia uma solução política da crise
Melo Antunes tem uma intervenção decisiva em impedir que o 25 de Novembro seja uma ação revanchista e restauracionista indo no dia 26 à televisão declarar que «a participação do PCP na construção do socialismo era indispensável». 
Eanes, ao tomar posse como Chefe do Estado-Maior do Exército, no dia 6 de Dezembro, declarou como «objetivos políticos prioritários a independência nacional e a construção de uma nova sociedade democrática e socialista.» (Jornal de Notícias, 7–12–1975).

Resta, por fim, a tese do contragolpe, que é uma explicação recorrente com raízes nas lutas entre fações maçónicas da I República. 
Tal como na I República, os políticos e os jornalistas vindos da oposição ao Estado Novo, justificaram os seus golpes contrarrevolucionários como resposta a golpes revolucionários. 

Foi assim com o golpe Palma Carlos, 28 de Setembro, 11 de Março. No caso, todos os golpes foram explicados pelos seus autores, apoiantes e cúmplices como respostas a golpes ou tentativas de golpes do PCP visando o assalto ao poder. 

Assim sucedeu também no verão quente de 1975, quando começou a ser preparado um novo golpe militar. A tese do contragolpe tem a matriz do Partido Socialista e de Mário Soares e, dada a relevância de ambos na formulação da história de base da III República, a partir da aprovação da Constituição e da formação do primeiro governo constitucional, passou à categoria de doutrina para-oficial e o contragolpe passou a ter origem no comício da Fonte Luminosa (Junho 1975).

Mas há a realidade. 
Um livro bastante esquecido — A Resistência — de Gomes Mota, esclarece que o golpe estava a ser preparado muitos meses antes de Novembro
Segundo José Gomes Mota, o golpe foi preparado pelo «Movimento», que ele define por ser contra o que chama «os dissidentes», os gonçalvistas e o PCP. Fala em «novas estruturas reorganizadas». 
Diz que o «Movimento» deveria ter presença ativa no Conselho da Revolução. 

O «Movimento» chamava a si a preparação e decisão do golpe militar, mas, «preservando e garantindo a legitimidade revolucionária do Presidente da República» Segundo José Gomes Mota, a cúpula efetiva era o «Movimento», que dispunha de dois grupos dirigentes. 
Um «militar», cuja tarefa principal era a «elaboração de um plano de operações» tarefa que «cumpriu rigorosamente», tendo «para isso muito contribuído a liderança de Ramalho Eanes». 

Outro «político», de que faria parte o «Grupo dos Nove», «veio a desempenhar o papel de um verdadeiro estado-maior de Vasco Lourenço», que «assumira a chefia do Movimento». 
A preparação do golpe «para pôr fim a uma situação insustentável» vinha pois de longe. Costa Gomes conhecia o plano e até tinha autorizado a cedência de instalações para o “grupo militar” no edifício do Estado-Maior General das Forças Armadas, sede também do Conselho da Revolução.

Contrariando o que afirmaram os principais executantes do 25 de Novembro, Mário Soares e seus aliados políticos e militares conseguiram impor a tese que os favorece perante a opinião pública nacional e internacional (os políticos vivem da imagem para conquistar votos), a narrativa ficcional de que, no 25 de Novembro, «houve uma tentativa de golpe, animado pela Esquerda Militar e pelo PCP, e uma resposta, […] um contragolpe da parte do sector democrático, isto é, militares moderados. “Grupo dos 9” e PS» (Maria João Avillez, “Soares. Ditadura e Revolução”). 

Esta versão dos acontecimentos foi através dos anos repetida incansavelmente, embora não tenha ocorrido nenhuma ação de forças militares a não ser as dos “Comandos”, que desde o Verão de 1975 contratavam antigos militares já na disponibilidade, e a da Força Aérea, cujo chefe de Estado-maior determinou à margem da hierarquia, em cumprimento de uma estratégia de provocação do confronto delineada noutras instâncias, a alteração do dispositivo militar, com extinção da Base de Paraquedistas em Tancos e a transferência de todos os meios aéreos para a Base da Cortegaça

A tese do contragolpe é apenas uma fábula sem fundamento para criar heróis virtuais, gloriosos resistentes ao golpe totalitário, mas inexistente — um moinho que foi apresentado como um castelo em pé de guerra! Um golpe militar em que não existe um plano de operações e em que nenhuma “unidade golpista” sai dos quartéis para ocupar um qualquer objetivo, por mais insignificante que fosse.

É, ou foi, Costa Gomes quem conseguiu harmonizar as dissonâncias entre os vários naipes de executantes nacionais da ação “normalizadora” e conseguir executar a partitura que tinha como ponto alto e remate a instauração de um regime que adotasse o pronto-a-vestir europeu ocidental, que se integrasse nas instituições europeias sem extravagâncias, que não assustasse os falangistas espanhóis e que deixasse a questão da independência de Angola para ser dirimida pelas superpotências e, feito tudo isto, que reduzisse a tropa ao seu papel de disciplinada guarda da ordem dos interesses do mercado, enfim, que entregasse Portugal higienicamente desinfetado de extravagâncias de poderes populares a um político de confiança: Mário Soares.

Foi ainda Costa Gomes, e é também muito pouco referido esse papel, que controlou a ação dos operacionais da CIA que permaneceram à ordem na embaixada de Lisboa, através de oficiais portugueses próximos dele (Costa Gomes) e que regressaram à sua base nos EUA ainda em Dezembro de 1975, findo o trabalho na retaguarda. 

Graças à maestria de Costa Gomes, o golpe da orquestra, que poderia ser negro e sangrento, resultara sem grandes tumultos, de forma aceitável pelas opiniões públicas europeias. 
A experiência internacional de Costa Gomes deu-lhe a sabedoria do mundo que lhe permitiu conhecer desde o 25 de Abril de 74 que o processo político português seria conduzido do estrangeiro, que o futuro de Portugal após a descolonização era o de um pequeno estado europeu invisível, com um modelo político harmonizado e padronizado. 
Conduziu o processo político de modo a executar essa partitura com o menor número de desafinações possíveis.

É revelador das leituras de conveniência dos adeptos da tese do contragolpe do 25 de Novembro, e do 25 de Novembro como data refundadora da democracia, que estes ignorem e mordam as canelas aos que impuseram a manutenção do calendário para aprovação de uma Constituição, que evitaram confrontos violentos, que impediram prisões e execuções, que resistiram ao MDLP e ao ELP e ao terrorismo, aos que conseguiram impor um Estado de Direito e que teçam loas democrática aos que tinham como plano para o seu 25 de Novembro a instauração de um regime de ditadura presidencialista, de uma assembleia sujeita a um presidente, de ilegalização de partidos políticos, de sujeição da justiça ao governo, de proibição do exercício de diretos fundamentais, de fim da proteção social (leia-se o programa do MDLP/ELP elaborado em Madrid por Pacheco de Amorim e José Miguel Júdice). 

Costa Gomes e foi ele e alguns militares do grupo dos «Nove» (os políticos civis estiveram na onda do golpe violento, com a proposta de se reunirem no Porto e daí desencadearem ações violentas contra o que crismaram junto da opinião pública internacional de “comuna de Lisboa”) que conduziram a travessia desse campo minado.

E assim acabou o desconcerto que Costa Gomes geriu com o maior êxito e reduzido reconhecimento. Ele foi o maestro de Portugal durante o período mais quente da segunda metade do século XX. Merece ser recordado e reconhecido

terça-feira, 25 de novembro de 2025

25  NOVEMBRO  1975

Volto ao tema 25NOV75 depois de ter lido:

- um artigo de opinião do reputado constitucionalista e (creio) sogro da "Leitão" e que um bom amigo me remeteu e recordo em baixo, 

- o artigo de Pacheco Pereira no Perdócio de 22 de Novembro de 2025, e a ele me referirei mais abaixo,

- notícias fresquinhas de certas personagens, civis e militares, e depois de usar a tecnologia depois de jantar para fazer uma passagem rápida pelos discursos na AR, a que não assisti em directo, como não assisti à parada militar nem no TPaço nem pela TV. 

Alguns persistem em ser donos disto! Enquanto alguns como Ventura continuam a não querer perceber que FELIZMENTE, creio, são minoritários. E Ventura demonstrou mais uma vez a ausência de um pingo de educação.


Jorge Miranda recordou o clima de agitação, divisão e luta política e refere no artigo essencialmente o seguinte:

1º - que se obteve em Agosto de 1975 com o documento dos 9 a clarificação de posições políticas,

2º - que a 25 Nov 75 ocorreu a insurreição esquerdista com a ocupação de vários quartéis, bases aéreas, estações de rádio e televisão, a que responderam outras forças militares segundo plano de Ramalho Eanes,

3º - que para impedir uma retaliação da direita Melo Antunes foi à televisão afirmar que todos tinham lugar na construção da democracia abrangendo o PCP que, aliás, prudentemente, não tinha entrado na rebelião,

4º - que o actual governo criou uma comissão para as comemorações do 25 NOV 75 com o que não concorda,

5º - que o 25 NOV seja comemorado não discute, mas não à parte do 25 ABR porque as duas datas estão ligadas, e a vitória do 25 NOV foi a consolidação do próprio 25 ABR.

Sobre o 25 NOV prosseguem as declarações e opiniões. 
Muito recentemente e a que aqui fiz já referência, Vasco Lourenço voltou às críticas à comissão nomeada pelo governo. 
Pessoalmente considero que parte dessas críticas são certeiras, e com elas concordo. 

Mas declarações após declarações, artigos de opinião atrás de artigos de opinião, Expressos da meia-noite, livros a seguir a outros livros, entrevistas atrás de entrevistas ao longo dos anos, para mim tudo continua essencialmente na mesma isto é, persistem algumas dúvidas sobre alguns aspectos, sobre certos protagonistas. 

Ou será só deficiência da minha parte e está tudo clarinho quanto ao que na realidade se passou depois das eleições em 25ABR75 até ao 25NOV mas particularmente de Setembro em diante??

Surgem sempre interpretações e as verdades absolutas por parte de alguns militares do grupo dos 9, de partidos políticos, de jornalistas e comentadores, mas a realidade é que se continua a não dizer tudo com detalhe, rigor e verdade histórica. 
O que, na minha opinião, promove ou facilita que apareçam tentativas de escrever o que convém a alguns. Muito à esquerda. muito á direita.
Como alguns execráveis estão mostrando.

E nestas ausências de clarificação há, quase de certeza, algumas coisas que se passaram, alguns encontros anteriores, algumas combinações que não se querem revelar, alguns acordos que aos olhos de alguns  poderão não ser facilmente engolidos. 
Era bom recordar, clarificar, explicar, as ligações havidas com certas personagens e certos sectores e organizações na sombra.

E quem está vivo e sabe das coisas todas persiste em esconder as realidades acontecidas, ainda que muitas creio estarem já esclarecidas. 

O coronel Rodrigo Sousa e Castro é peremptório - Depois do 25NOV quem é que ficou com o poder? Foram os Nove e os militares à sua volta. Foram os Nove que fizeram o golpe mas fizeram-no em prol da democracia. Depois, gradualmente, o VI governo provisório retomou a actividade, mantendo membros do PCP no executivo.

QUE FIZERAM O GOLPE, disse
Clarinho para todos perceberem.

Para mim a acção a que se refere Sousa e Castro é o contra-golpe. 
E CONCORDO, foi executado para defesa da democracia, e ainda bem que assim foi. 
Ainda bem que assim foi.
Porque há muito estava em preparação e parcial execução o GOLPE.
Ainda que se diga que o PCP não é amigo de golpes de Estado.

Mas designadamente por parte de alguns dos 9 persiste esta mania de suavizar (ou desculpabilizar) alguns, suavizar o que germinou durante semanas e semanas depois de 25 de Abril de 1975 por parte das várias agremiações de extrema esquerda e do PCP. Particularmente de 5SET75 em diante.

Todos têm direito à liberdade de opinião, de expressão, de defender as suas ideias, a direito a serem respeitados. 
Mas também têm o dever democrático de respeitar os outros e as opiniões de outrem.

Numa cerimónia evocativa como a que teve lugar hoje na AR o PCP e a Associação 25 Abril não estiveram presentes. Com toda a legitimidade democrática.
Têm o direito que não concordar com a cerimónia, e de não comparecerem na AR. 
Eu tenho o direito de isso registar, e de registar a coincidência das suas posições.

Recentemente o coronel Sousa e Castro deu aos portugueses mais umas das suas achegas.
Disse (talvez já o tenha dito no passado), que o 25NOV foi um  ajuste de contas entre militares. 
Podia ter esmiuçado. É uma afirmação curiosa.
Como se tudo tivesse acontecido exclusivamente entre militares, nada tendo havido antes.

Claro que desde as agremiações extremistas à esquerda do PCP e o próprio PCP muito agradecem esta declaração. Aplaudem-na, pois assim se mantêm na penumbra da história.

Sousa e Castro foi um dos que esteve junto de Costa Gomes. Tem portanto informação detalhada.
Ele e outros bem podiam acabar com as interpretações.

Porque estas sempre verdades incompletas dão azo a que surjam à direita e à esquerda manipulações e tentativas de escrever uma outra história. Nunca mais saímos desta pessegada.
E a pessegada há muito que devia ter acabado. 

O 25ABR74 trouxe a liberdade, é a data mais importante, a verdadeiramente determinante
Seguiu-se a luta para manter eleições em 25ABR75

Seguiu-se depois um turbilhão e o 25NOV75 data a partir da qual se começou a arrumar a "casa".
Respeito SEMPRE as opiniões de outrem mas confesso, pessoalmente estou farto de propaganda e interpretações e farto de Nunos Melos, Venturas e quejandos, como de Tavares Marianas e quejandos. 
Estou farto de personagens, civis e militares.

Claro que após a assembleia de Tancos em 5 de Setembro de 1975 começou a mudar muita coisa para profundo desagrado de vários marxistas e extremistas.

O resultado dessa assembleia talvez se possa resumir de mais do que uma maneira, mas uma delas talvez possa ser esta - O PCP tirou o tapete a Vasco Gonçalves e à extrema esquerda
E o grupo dos 9 e militares na sua órbita ganharam posições e ascendente.

Creio que é correcto afirmar que o 25NOV inflectiu o curso da revolução. E acabou com o horrendo PREC.
Mas pouco mais alterou, e designadamente as políticas económicas e o que devia ser feito no país e ao país, para o guiar rumo ao combate às imensas desigualdades sociais muitas das quais persistem e algumas aumentam e rumo FINALMENTE ao desenvolvimento. 
Continuamos estagnados apesar das loas de várias personagens.

No artigo que referi no início, Pacheco Pereira puxa dos seus galões e do alto da sua cátedra não se fica por pouco: PONTOS nos iiii !
Este ex ML se a memória não me falha, é tido como autoridade importante e conhecedor da vida e história do PCP. Tem livros sobre isso.

Mas não sabendo eu e muitos outros nem 10 % do que Pacheco Pereira sabe, isso não significa que eu e muitos outros não saibamos algumas coisas e não tenhamos muitas dúvidas, mas também algumas certezas. Pessoalmente sei poucochinho (Costa dixit) mas sei algumas coisas. 

No seu longo artigo Pacheco Pereira coloca muito a tónica no PCP, umas vezes aguilhoando outras suavizando. 
Mas na minha opinião, ao referir claramente "a ronha" comunista em tudo, acaba por de certa maneira e em simultâneo confirmar realidades que muitos escamoteiam e de se contradizer um pouco. 
O seu artigo recorda-me o lençol curto que ora destapa os pés ora os ombros.

E se, na minha opinião naturalmente, Melo Antunes fez bem ao declarar o que declarou na TV em 26 de Novembro de 1975 relativamente à indispensabilidade de todos os portugueses terem direito a estar no processo de construção da nossa democracia, continuo a considerar lamentável esta suavização a que também Pacheco Pereira mais uma vez recorre. 
Indispensável na construção da democracia SIM, isso é uma coisa mas era mais do que tempo de dizer as verdades todas.

Refere nomeadamente o seguinte:
- aponta e bem à parvoíce governamental (um erro crasso de Montenegro que o vai pagar) de entregar as comemorações do 25NOV ao patético Nuno Melo e associados 
- recorda e bem as datas importantes dos anos 1974, 1975 e 1976
- recorda a relação de forças em termos de geopolítica
- recorda a relação de forças interna, partidos, agremiações de extrema esquerda e de extrema direita, militares, Forças Armadas, MFA
- recorda a relação de forças em Portugal, Norte-Sul e o COPCON
- considera que a URSS designadamente através de dois dos seus mais importantes ideólogos nessa época (Suslov e Ponomariev) não quereriam uma Cuba na Europa nomeadamente em consequência da conferência de Helsínquia em 1975
- a progressiva perda de influência do PCP no seio do MFA
- recorda o controlo das ruas por parte das agremiações esquerdistas e os assaltos lastimáveis a sedes partidárias e nomeadamente as do PCP
- aborda a questão de se SIM ou NÃO Cunhal teve e parcialmente encetou a mimetização em Portugal dos passos da revolução bolchevique
10º- nega que tenha havido plano para tomada do poder em 25 de NOV75
11º- afirma que o PCP esteve no 25NOV apenas no princípio mas que não o iniciou
12º- recorda que várias forças militares mais próximas do PCP declinaram cedo meter-se em aventuras e declararam obedecer a Costa Gomes
13º- afirma que se deve comemorar o 25NOV se for com rigor, se for sério, e mostrar os passos na caminhada de construção da democracia.
Absolutamente de acordo.

Quando ao que Pacheco Pereira escreveu e defende breves comentários:
- o seu ponto - estou de acordo
- o seu ponto - não quereriam mas se resultasse será que ficava muito incomodados?
- o seu ponto - não lhe terá mesmo passado pela cabeça?
- o seu ponto 10º - foi Cunhal que lhe disse? E a prevenção de muita 
gente civil e alguns militares e os estudantes da UEC todos preparados para receberem armas, mas depois em cima da hora foram mandados desmobilizar?
- o seu ponto 11º - estou de acordo
- o seu ponto 12º - estou de acordo
- o seu ponto 13º - absolutamente de acordo

O PCP por trás do 25NOV não é uma leitura unânime. 
Mas estou convencido que Álvaro Cunhal nunca engoliu o resultado das eleições de 25ABR75, que lhe foram altamente desfavoráveis.

A ditadura do proletariado e o socialismo duro e puro não se constrói  por decreto. Cunhal nunca esteve à espera desse decreto.
Tal como estou convencido que sobretudo depois das eleições para a Constituinte o PCP fazia uma avaliação constante da correlação de forças, no campo militar e no campo civil.
O que se passou ao certo numa assembleia curiosa, a de 25JUL75, e porque aconteceram certas e notórias ausências?
Porque certos donos disto não contam?

Estou também convencido que Otelo nunca se deixou dominar pelo PCP.

Otelo foi a Cuba. Costa Gomes foi à URSS. 
Quem facilitou e organizou? Foi o espírito santo? Consequências?
Algumas sabem-se, por exemplo relativas a Angola.

Pacheco Pereira salienta realidades importantes desse tempo. Por exemplo o desamparo que presumo o PCP sentiu da parte designadamente do COPCON. E recorda que, compreensível e legitimamente o partido tratou de defender as suas sedes. E certamente havia muitas armas distribuídas por civis e planos para distribuir mais, à cintura industrial e a estudantada. 

Mas creio que além dos deploráveis ataques às suas sedes, creio que o PCP foi gradualmente perdendo o controlo das ruas, das manifestações, muitas determinadas pelas várias agremiações extremistas esquerdistas. Uma verdadeira loucura em crescendo.
O MES por exemplo estaria sobretudo associado ao COPCON e RALIS
Nos fuzileiros haveria grande influência do PCP.
Na Polícia Militar haveria pouca influência do PCP.

Concordo com Pacheco Pereira e outros na afirmação de que o PCP esteve dentro do golpe. Encolheu-se a tempo, até porque Cunhal tinha garantias de quem de direito. Certo?
Quem deu a ordem para os pára-quedista saírem?
Sairam e não foi apenas por razões corporativas, foi mais certamente.
Há de certeza quem no PCP e nos 9 saiba.

Ninguém me tira da cabeça que o PCP tinha um vasto plano subordinado a Jaime Serra.
Ninguém me tira da cabeça que em Outubro Otelo já na prática diária não controlaria as unidades militares, envolvidas numa completa indisciplina. O juramento de bandeira (??) no RALIS é apenas um dos exóticos acontecimentos. Os SUV de triste memória. Tudo surreal.

O texto já vai longo. Tenho presente muita coisa dos imensos livros que já li sobre o tema. Livros, declarações, entrevistas.
E tenho presente . . . . muitas atoardas de civis e militares. 
É a minha opinião sendo certo que admito, como sempre, poder estar enganado ou a ser injusto.
Mas quem não clarifica e profere retóricas do alto da sua cátedra legitima-me que mantenha dúvidas.

Continuo com dúvidas, continuo convicto disto:

* as agremiações ditas de esquerda e sobretudo o próprio  PCP ficaram muito desiludidos com os resultados eleitorais da Constituinte,
* que houve tentativas várias de certos partidos de então para pelo menos adiar as eleições para a Constituinte, 
* depois da Constituinte, à esquerda do PS foram gizando planos para controlar a vida nacional à margem dos trabalhos na Assembleia Constituinte,  e desagregando as forças armadas; a isso claramente se referiu Melo Antunes,
* continua um bocado no limbo o que de facto se passou em certas reuniões havidas e de que resultaram por exemplo, o plano de acção política MFA, o documento aliança Povo-MFA, o documento de concentração de poderes em Otelo (27MAI75), 
* continua um bocado no limbo as reuniões havidas entre Cunhal e melo Antunes,
* continua um bocado no limbo quando é que Ramalho Eanes e outros começaram a delinear o plano que puseram em acção no 25NOV75, plano que estou convicto era totalmente desconhecido de Costa Gomes e foi quase em cima da hora que lho explicaram e explicaram que ia ser assim,
* continua um bocado no limbo os encontros (ou reuniões?) de certos líderes políticos com gente por exemplo do ELP,
* continua um bocado no limbo quando se iniciou a preparação da deslocação dos aviões da força aérea, desfalcando completamente as intenções designadamente do PCP,
* de que havia centenas de milhares de armas distribuídas a civis, muitas e muitos controlados por PCP /Jaime Serra e muitos mais descontroladas,
* de que existem muitos sacos e caixotes de armamento no leito do rio Tejo, designadamente no Mar da Palha, perto da base naval do Alfeite e ao longo das margens até à foz, 
* de que existe muito armamento escondido pelo país, 
* que de 25ABR74 a 254NOV75 dentro do MFA subsistirem imensas divergências quanto à descolonização e quanto ao que adoptar para a organização do Estado,
* com o 25NOV75 e muito liderado por Mário Soares a moderação ganhou, e felizmente perderam os gladiadores que queriam extinguir partidos, 
* Cunhal recuou por verificar à última da hora, ao fazer contas, que afinal a correlação de forças lhe estava muito desfavorável; aviões fora do seu controlo (tudo planeado ainda logo no final de MAR75?), e ainda por cima o que imaginava garantido (a poderosa força de fuzileiros) a submeter-se formalmente a Costa Gomes,
* para perceber o que terá acontecido quanto à questão do borregar dos fuzileiros e da Marinha uma das coisas a fazer é recordar quem lá liderava /comandava nessa altura e seguir depois o seu trajecto de carreira,
* continua um bocado no limbo quando começou o arregimentar de ex- comandos e o papel concreto de Soares Carneiro; e aliás depois interessante seguir a carreira deste militar que, recorde-se, acabou por ser CEMGFA,
* continua a ser curioso para mim convencerem-me que o assalto ao RALIS em 11MAR75 ou o ataque à Polícia Militar no 25NOV aconteceram porque aconteceram; estas coisa não se preparam num dia, 
* continua a ser curioso, para mim naturalmente, a reabilitação de Spínola e a sua elevação a chanceler das ordens, a amnistia de Soares a Otelo.

Há mais, mas chega por agora.

Mantenho o que sempre fiz e como sempre agi ao longo da carreira, não me interessa a posição, seja titular de órgão de soberania, seja chefe militar, seja político, seja quem for, não me interessa o que de muito louvável fez pelo país: se não me fala verdade com rigor e honestidade intelectual e portanto não me respeita enquanto seu concidadão, não me merece respeito. Respeitinho porque sim comigo não dá.

Nada me incomoda celebrar-se e recordar-se que o 25NOV foi decisivo para a nossa vida colectiva.
Mas comemore-se hoje e sempre que entendido, com verdade como refere Pacheco Pereira.

Comemore-se na Assembleia da República, com discursos, façam exposições, debatam com isenção, com decência e educação.
Mas sem paradas militares e tiros de salva de navios de guerra e aviões a sobrevoar.
É dinheiro mal gasto, desperdiçado, que faz falta em tanto lado. 
Que se recorde Soares, Zenha, os 9 e os militares na sua órbita.
Que se recorde que ninguém deve ser ostracizado, mas que a vontade da maioria deve imperar, sem nunca esmagar minorias.

O "dia inicial inteiro e limpo" foi e é o 25 de Abril de 1974.
Além desta determinante data, as mais importantes e igualmente decisivas foram e são a das eleições para a Assembleia Constituinte em 25 de Abril de 1975 onde a palhaçada das ruas teve uma primeira grande derrota, e a de 2 de Abril de 1976, data de aprovação da Constituição da República Portuguesa.

Acabe-se de uma vez por todas com as palhaçadas, de um lado e de outro.
Chega de gente medíocre e chega também de personagens, e chega de donos do regime e do País.

António Cabral (AC)

domingo, 5 de outubro de 2025

Lembrei-me deste boneco depois de ler o artigo que me enviaram, de Pacheco Pereira, de Sábado 13 de Setembro, no "perdócio", e sobretudo pelo alarido que vai por aí sobre a decisão deste governo celebrar os 50 anos passados sobre o 25NOV75.

Uma celebração que devia ser o que, parece, vários não querem que seja, para que eventualmente venha a ser uma palhaçada. 
 
Salvo melhor opinião, este boneco é extraordinário, fala de muitas coisas reais dessa altura, basta reparar no tamanho de cada criatura, nos sorrisos de Cunhal, e sobretudo nas extraordinárias "falas" de alguns dos "bonecos". 
Deixa muitas interrogações e subentendidos, é a minha opinião.

Não tenciono perder tempo a ir ver o que diz a tal resolução ministerial sobre a coisa. 
Basta-me saber que, creio, é Nuno Melo que orienta a coisa e Tomé Pinto a organizar a operação, para eu ter reservas sobre a dita comemoração governamental.

Calhou ouvir outro dia no rádio do carro, na TSF, algumas afirmações e indignações sobre a dita programada comemoração, particularmente do coronel Sousa e Castro, um dos 9, um dos do Documento dos Nove. Fui rever algumas coisas da Associação 25 de Abril. 
Tenho vários livros sobre 25ABR74, e o que se lhe seguiu.

Não tive qualquer participação no 25 de Abril de 1974, nem no 25NOV75.

Sou muito amigo de um oficial dos que estavam na Guiné quando se deu o 25 de Abril de 1974. 
Conheci fugazmente Carlos de Matos Gomes quando esteve a bordo do navio (1972 e 1973) para onde eu fora mandado cumprir 21 meses na guerra, e conheço vários civis e militares de alguma forma ligados ao período 1973/ 1976. Sei de algumas coisas. 
Safei um amigo de uma quase certa forte enrascada pós 25 NOV.

O que adiante escrevo é opinião pessoal, naturalmente. 
Discutível certamente, a respeitar como respeito as opiniões de outrem. Sempre. Concorde ou discorde.

O 25 de Abril de 1974 foi uma acção inédita levada a cabo por militares. 
Por militares, . . . . . . não pela instituição militar do tempo. 

Provavelmente irrepetível. 
Não há guerra colonial, e as questões corporativas no presente são de outra natureza.
Indiscutivelmente, abriu as portas à liberdade e à paz em África.

O 25 de Abril deu-nos a Constituição e a Liberdade, sendo o inicial, decisivo e fundamental primeiro passo para as eleições para a Constituinte em 1975, onde os portugueses votaram em massa. 
Aí se viu a diferença entre o que se grita nas ruas e o que as urnas ditam. 
Tal como acontece hoje.

Creio que é correcto dizer que os principais militares do 25NOV75 foram dos principais em Abril de 1974.

O que em certos sectores, à esquerda e à direita, se continua a dizer sobre o verdadeiro espírito da democracia, mantém em mim a sensação de que, de um lado e outro, persistem incómodos que não querem confessar. Ou que não lhe convém confessar.

O grande espírito da democracia está, para mim naturalmente, no 25 de Abril de 1974. 
É dele que nasceu o país em que felizmente vivo.

O lamentável estado em que estamos? Isso é outra história.

A história mundial e Portugal não é excepção, continua a ser feita de recuos e avanços. Sempre assim foi e será, e há e haverá sempre ofensivas, de muitos sectores.
A mim não me encantam Nunos Melos e menos ainda Chegas!

Mas também nunca me encantaram amanhãs que cantam nem amplas liberdades.
Quanto a tentativas de reescrever a história portuguesa dos últimos 51 anos noto a insistência irracional de uns quantos, mas não creio que o monopólio esteja só à direita.

Do que conheço, e designadamente sobre o 25NOV75, a primeira figura a homenagear é, sem sombra de dúvidas para mim, o general Costa Gomes
O mais inteligente, sensato, equilibrado e visionário de todos. 
Logo na definição do líder da Junta de Salvação Nacional antes de aparecerem de madrugada na TV, se viu a sua lucidez e o ver longe.

Como disse acima, não perco tempo a ir ler a tal resolução governamental.
Comemore-se o 25NOV, com dignidade, com decência, com sobriedade, evocando antes de tudo e todos o nome do general Costa Gomes, recordando o grupo dos 9, o Documento dos Nove, Ramalho Eanes, Salgueiro Maia (nunca integrou o conselho da revolução), Mário Soares. 
Alguns outros nomes que alguns quererão glorificar são mais que questionáveis, na minha opinião naturalmente.

Mas não façam palhaçadas de desfiles militares, de salvas artilheiras de navios de guerra, de sobrevoo de aviões e helicópteros.
Tenham tento na língua. Tenham tento na língua, vergonha na cara.

Se Marcelo Rebelo de Sousa (que formalmente é o comandante supremo das forças armadas, na prática. . . ) tiver vergonha na cara, discordará liminarmente de palhaçadas que, ou muito me engano, ou Nuno Melo e outros quererão concretizar.

Deve ser por isto, por esta eventualidade, que aos microfones da TSF ouvi Sousa e Castro dizer - O 25 de Abril é que foi a operação militar que o Exército português devia comemorar. Mas não comemorando o 25 de Abril, ao menos que tenham tento e que pensem que o Exército português estava praticamente todo do lado do Grupo dos Nove - todo, todo o Exército estava do nosso lado.

TENHAM TENTO, é um excelente resumo!

Lamentavelmente, o 25NOV75 continua a ser um dos episódios mais polémicos e, em alguns aspetos, nebulosos do chamado Processo Revolucionário Português, e concretamente quanto ao tristemente famoso PREC.

DATAS, porventura com interesse:
Não inscrevo aqui as datas das reuniões principais do Movimento dos Capitães, do Movimento de Oficiais das Forças Armadas depois, do MFA depois, nem de várias outras intermédias e de menor participação em casa deste e daquele oficial, tudo desembocando no 25 de Abril de 1974.

31DEZ68 - Vigília na igreja S. Domingos, até 0600 horas 1JAN69
- 12OUT72 - Ribeiro dos Santos assassinado nas instalações do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras
- 30DEZ72 - Vigília na Capela do Rato
- 31DEZ72 - Invasão policial da Capela do Rato
- 4-8 ABR73 - Aveiro, III Congresso Republicano 
- 19ABR73 - Fundação do PS na Alemanha
- 1-3 JUN 73 - Porto, I Congresso de Combatentes
- 28AGO73 - Oficiais em serviço na Guiné enviam uma exposição aos poderes de então
- 17DEZ73 - denunciada tentativa de golpe de Estado liderada por Kaulza de Arriaga
- 16MAR74 - Golpe das Caldas da Rainha
- 27ABR74 - Chegada de Mário Soares a Lisboa
- 30ABR74 - Chegada de Álvaro Cunhal a Lisboa
- 8JUL74 - Criação do COPCON
- 28SET74 - Manifestação da maioria silenciosa 
- 12OUT74 - Penalva do Castelo, primeira explosão de origem criminosa
- 19OUT74 - Henry Kissinger oferece um almoço a várias personalidades, entre elas Costa Gomes e Mário Soares
31OUT 74 - lei sobre os partidos
- JAN75 - Frank Carlucci chega a Lisboa para chefiar a embaixada dos EUA
- 19JAN75 - MFA reafirma assegurar a realização de eleições para a Constituinte
- 24FEV75 - Penalva do Castelo, segunda explosão de origem criminosa
- 11MAR75 - Tentativa de golpe militar de Spínola
- 24MAR75 - Spínola e outros 18 oficiais expulsos das FA
- 14MAR75 - Criação do Conselho da Revolução
- 11ABR75 - CDS, FSP, MDP/CDE, PCP, PPD, PS, assinam Pacto com o MFA
- 1MAI75 - Mário Soares impedido de entrar na tribuna durante as comemorações do 1º de Maio
- 19MAI75 - Início do conflito entre trabalhadores e direcção do jornal República
- 20MAI75 - Kissinger reune-se com Melo Antunes
- 30MAI75 - Em Helsínquia, Kissinger e Gerald Ford têm conversações com Vasco Gonçalves
- 2JUN75 - Abertura solene da Assembleia Constituinte
- 8JUL75 - Institucionalizados, comissões de moradores, comissões de trabalhadores e outros organismos de defesa da revolução
- 11JUL75 - Em conferência de imprensa, Mário Soares afirma - estamos para saber como foram escolhidas as pessoas que compõem a Assembleia do MFA
- 19JUL75 - Comício do PS na Alameda em Lisboa
- 22JUL75 - Carlucci encontra-se com Melo Antunes
-7AGO75 - Comunicado de Melo Antunes e outros contra a facção radical do MFA no Conselho da Revolução
- 8AGO75 - Defendem alguns que é nesta data que começou a ser preparado o 25NOV75 
- 9AGO75 - Franco Charais, Pezarat Correia, Vitor Alves, Melo Antunes, Vitor Crespo, Vasco Lourenço, Sousa e Castro, são suspensos do Conselho de Revolução
- 5SET75 - Assembleia do MFA em Tancos, onde moderados obtêm maioria no Conselho de Revolução
- 5SET75 - II Conselho da Revolução
- SET75 - Depois da criação do AMI (Agrupamento militar de intervenção), o COPCON fica gradualmente esvaziado
- 27SET75 - Embaixada e consulado espanhóis destruídos na sequência de manifestação antifranquista de extrema esquerda liderada por conhecidas e proeminentes figuras públicas do sistema político nacional
- 7NOV75 - Por ordem do Conselho de Revolução destruído à bomba o emissor da Renascença na Buraca
- 11NOV75 - Palácio de S.Bento cercado por uma manifestação de trabalhadores da construção civil, sequestrando deputados e membros do governo
- 16NOV75 - Lisboa invadida por manifestação organizada pelas comissões de trabalhadores da cintura industrial de Lisboa e por UCP alentejanas
- 20NOV75 - Otelo é substituído por Vasco Lourenço no comando da Região Militar de Lisboa
- 23NOV75 - PS enche de novo a Alameda em Lisboa com manifestação de apoio ao VI governo provisório
- 25NOV75 - Presidente Costa Gomes declara o estado de emergência, assume o comando directo das unidades militares da Região Militar de Lisboa, e declara o estado de sítio em Lisboa
- 29NOV75 - Em conferência de imprensa Sá Carneiro acusa o PCP de ser responsável pela insubordinação militar verificada
- FEV76 - II Pacto MFA - partidos políticos
- 2ABR76 - Aprovação da Constituição da República Portuguesa
- 14MAI76 - Ramalho Eanes anuncia a sua candidatura à Presidência da República
- 18MAI76 - PCP anuncia a candidatura de Octávio Pato à Presidência da República
- 18MAI76 - Pinheiro de Azevedo anuncia a sua candidatura à Presidência da República
- 27MAI76 - Otelo anuncia a sua candidatura à Presidência da República

25NOV75. 
- Que 25NOV75?
- Quantos planos militares? Quem os dirigia, quem fazia parte deles?
    - 25NOV do grupo dos 9?
    - grupo militar de Ramalho Eanes?
    - plano dos coronéis?
    - grupo Maria da fonte?
    - grupo CODECO?
- Quantos golpes? 

- Como defende Pacheco Pereira (PP), um 25NOV da ala esquerdista  das Forças Armadas (FA), e o de 26NOV tentando ilegalizar  o PCP?
- Plano de contenção? Que plano de contenção? 
- Quem fazia parte dele?
- Tudo começou porque os pára-quedistas sairam?
- Quem os mandou sair?
- Sairam por razões apenas corporativas?
- Havia quase guerra civil? Poderia vir a haver?

- O grande risco do 25NOV75 como defende Pacheco Pereira, foi o choque (possível? provável?) com os militares esquerdistas, ligados ao COPCON e a alguns mas não todos os sectores gonçalvistas que, se tivesse expressão armada significativa teria provocado  um conflito grave ?
- Comportamento e decisões de Otelo Saraiva de Carvalho?
- Posicionamentos do PCP? E dos grupelhos à sua esquerda?

Não sei, mas há quem sabe e continua a não dizer tudo. 
PORQUÊ?
Interpretações? E que tal a verdade, finalmente ? 
Já passaram 50 anos!

Sem OTELO teria havido o 25ABR74?
Não sei. 
Mas creio que foi determinante para a sua preparação e   concretização.
 
"Conhecer a verdade implica ir à procura  da história das "coisas".
É uma verdade indesmentível, é a minha opinião também, desde há décadas. 
Porque continuam alguns, que se arvoram "donos", a não nos dizerem TODAS as COISAS que se passaram, vir explicar meandros?

O 25NOV75 não foge à regra da história, a nacional e internacional: na história "oficial" que anda em Portugal há muito, obviamente que foram criadas personalidades segundo certas conveniências.

Um dos busílis está porventura aqui, a criação de personalidades, e  certas conveniências.
Por exemplo, no comentário que há tempos ouvi na TSF e já supra referido, na parte final desse comentário saiu . . . . Eanes pôs-se a jeito!

Não faço ideia.

Quando alguns dizem e escrevem que o 25ABR74 - foi obra de um movimento estritamente militar e apartidário sem qualquer componente civil e influências ideológicas determinantes - respeito, e sorrio.

Quem assim escreve e o mantém ao longo de décadas toma-nos por tontos e desmemoriados. 
Demonstram, na minha modesta opinião naturalmente, desonestidade intelectual pura.

É sabido que, particularmente nos últimos anos da guerra em África/ guerra colonial/ guerra do Ultramar, a presença de centenas e centenas de milicianos nas fileiras militares (13 anos de guerra) teve gradual e determinante influência em muitos oficiais, sobretudo do Exército. 

E também houve quem tivesse ligações a certos partidos, como também houve quem lesse muitos livros e publicações, em 1971 por exemplo, até finais de 1974. LEGITIMAMENTE!

Como houve e há, desde 25ABR74, ligações a partidos políticos.
Legitimamente para os fora do activo.

É sabido, mas muitos fingem desconhecer, e infelizmente muitos mais continuam a acreditar que os bebés chegam de Paris embrulhados numa fralda pendurada no bico de uma cegonha, que os tempos contemporâneos nas democracias ocidentais estão muito complicados e que, sorrateiramente, o Estado exerce violência sobre os cidadãos comuns. De maneira sofisticada, já não à antiga.

Os meios de manipulação das opiniões públicas são numerosos, cada vez mais sofisticados, levando multidões a acreditar nas coisas que para muitos, como eu, espanta. Exemplos não faltam.
No PREC, no 25NOV75, houve algo dessa natureza? Manipulações?

Entre muitas outras coisas, para o processo que levou ao 25ABR74 e o que se desenrolou entre 25ABR74 e 1976, creio ter sido determinante isto:

1º - crescente consciência em vários sectores das Forças Armadas, particularmente no seio de oficiais mais jovens, de que a guerra em África devia ser solucionada politicamente,

2º - a acção de Spínola na tentativa (gorada) de convencer Marcelo Caetano e os ultra do regime a resolver politicamente o conflito nomeadamente na Guiné,

3º - crescente politização de vários oficiais e presumo que sargentos e praças nos três ramos das Forças Armadas porventura mais na Marinha de Guerra ( actualmente designada apenas por Marinha), por um lado por vontade própria e LEGÍTIMA de cada militar, e a convivência com milicianos por outro lado,

4º - a questão corporativa no Exército, concretamente a partir do deplorável Decreto-lei nº 353/73, de 13 de Julho,

5º - o 25ABR74 ocorre quando, na cena internacional, se estava em plena guerra fria, quando durante quase dois anos (até ao Verão de 1975) decorreu o processo de Helsínquia em que os dois blocos - Ocidental e Soviético - definiram e acordaram, questões de segurança, questões de alguma cooperação e, naturalmente, a divisão das áreas de interesse e influência. "Détente"!

Salvo melhor opinião, a partir do golpe militar de 25ABR74 que, em escassas horas, se transformou em revolução dada a enorme adesão popular, a questão que se colocava/ colocou, foi a da construção do Estado democrático, dotá-lo de uma Constituição, com as inerentes e óbvias questões da liberdade, de direitos e deveres, do poder e organização do Estado nas suas diversas dimensões, sempre presente que o poder de um  Estado deve ser justo, legítimo.

No 25NOV75 esteve em jogo a questão da dependência de Portugal, para que lado cair, manter-se no bloco Ocidental liderado pelos EUA ou integrar o bloco Leste liderado pela URSS.

O PS teve papel determinante na escolha  das alianças e no caminho a percorrer, e isso garantiu-lhe papel principal na nossa história recente, democrática.

Há quem defenda que do lado URSS terá havido algures manifestação de alguma preocupação junto de alguns dos principais protagonistas políticos moderados dessa altura pelo rumo que se seguia, e que Portugal se deveria manter no bloco NATO, Ocidental.
Não faço ideia se isso aconteceu, mas mesmo tendo sido real, não vejo que isso impedisse que, no terreno, cá, alguns tentassem efectiva  mudança.

Uma coisa é certa: depois do 25NOV75, começou a ser estabelecida uma ordem política, económica, social.

Parece-me que, 
- Costa Gomes comandou as operações a partir de Belém, 
- manteve em Belém junto de si o conselho da revolução, 
- o comandante da região militar de Lisboa nada terá comandado  na prática,
- Otelo Saraiva de Carvalho terá contido nervosismos nos seus fiéis, e que a sua imediata deslocação para Belém esvaziou por completo inconfessáveis desejos de outrem.
 
Continuo a não perceber, 
- porque saíram os pára-quedistas e quem os mandou sair,
- quem mandou os comandos (que creio em grande número recrutados entre elementos que tinham feito a guerra) arrombar os portões do regimento da polícia militar que calmamente (creio) se mantinha dentro de muros cumprindo as ordens de Belém de prevenção rigorosa.
.

Este "brainstorming" vai longo.
Para uns, o 25NOV75 foi uma maquinação para desviar o "processo" da sua pureza inicial.

Para outros, com o 25NOV75 tratou-se de resolver a questão de poder no país, entre facções políticas, e depois distribuir . . . . . e pouco importando o real interesse dos cidadãos comuns, da sociedade, do país.

Para mim, a questão essencial permanece: A verdade toda do 25NOV75 continua por contar.

PORQUÊ ?

António Cabral (AC)