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domingo, 5 de outubro de 2025

Lembrei-me deste boneco depois de ler o artigo que me enviaram, de Pacheco Pereira, de Sábado 13 de Setembro, no "perdócio", e sobretudo pelo alarido que vai por aí sobre a decisão deste governo celebrar os 50 anos passados sobre o 25NOV75.

Uma celebração que devia ser o que, parece, vários não querem que seja, para que eventualmente venha a ser uma palhaçada. 
 
Salvo melhor opinião, este boneco é extraordinário, fala de muitas coisas reais dessa altura, basta reparar no tamanho de cada criatura, nos sorrisos de Cunhal, e sobretudo nas extraordinárias "falas" de alguns dos "bonecos". 
Deixa muitas interrogações e subentendidos, é a minha opinião.

Não tenciono perder tempo a ir ver o que diz a tal resolução ministerial sobre a coisa. 
Basta-me saber que, creio, é Nuno Melo que orienta a coisa e Tomé Pinto a organizar a operação, para eu ter reservas sobre a dita comemoração governamental.

Calhou ouvir outro dia no rádio do carro, na TSF, algumas afirmações e indignações sobre a dita programada comemoração, particularmente do coronel Sousa e Castro, um dos 9, um dos do Documento dos Nove. Fui rever algumas coisas da Associação 25 de Abril. 
Tenho vários livros sobre 25ABR74, e o que se lhe seguiu.

Não tive qualquer participação no 25 de Abril de 1974, nem no 25NOV75.

Sou muito amigo de um oficial dos que estavam na Guiné quando se deu o 25 de Abril de 1974. 
Conheci fugazmente Carlos de Matos Gomes quando esteve a bordo do navio (1972 e 1973) para onde eu fora mandado cumprir 21 meses na guerra, e conheço vários civis e militares de alguma forma ligados ao período 1973/ 1976. Sei de algumas coisas. 
Safei um amigo de uma quase certa forte enrascada pós 25 NOV.

O que adiante escrevo é opinião pessoal, naturalmente. 
Discutível certamente, a respeitar como respeito as opiniões de outrem. Sempre. Concorde ou discorde.

O 25 de Abril de 1974 foi uma acção inédita levada a cabo por militares. 
Por militares, . . . . . . não pela instituição militar do tempo. 

Provavelmente irrepetível. 
Não há guerra colonial, e as questões corporativas no presente são de outra natureza.
Indiscutivelmente, abriu as portas à liberdade e à paz em África.

O 25 de Abril deu-nos a Constituição e a Liberdade, sendo o inicial, decisivo e fundamental primeiro passo para as eleições para a Constituinte em 1975, onde os portugueses votaram em massa. 
Aí se viu a diferença entre o que se grita nas ruas e o que as urnas ditam. 
Tal como acontece hoje.

Creio que é correcto dizer que os principais militares do 25NOV75 foram dos principais em Abril de 1974.

O que em certos sectores, à esquerda e à direita, se continua a dizer sobre o verdadeiro espírito da democracia, mantém em mim a sensação de que, de um lado e outro, persistem incómodos que não querem confessar. Ou que não lhe convém confessar.

O grande espírito da democracia está, para mim naturalmente, no 25 de Abril de 1974. 
É dele que nasceu o país em que felizmente vivo.

O lamentável estado em que estamos? Isso é outra história.

A história mundial e Portugal não é excepção, continua a ser feita de recuos e avanços. Sempre assim foi e será, e há e haverá sempre ofensivas, de muitos sectores.
A mim não me encantam Nunos Melos e menos ainda Chegas!

Mas também nunca me encantaram amanhãs que cantam nem amplas liberdades.
Quanto a tentativas de reescrever a história portuguesa dos últimos 51 anos noto a insistência irracional de uns quantos, mas não creio que o monopólio esteja só à direita.

Do que conheço, e designadamente sobre o 25NOV75, a primeira figura a homenagear é, sem sombra de dúvidas para mim, o general Costa Gomes
O mais inteligente, sensato, equilibrado e visionário de todos. 
Logo na definição do líder da Junta de Salvação Nacional antes de aparecerem de madrugada na TV, se viu a sua lucidez e o ver longe.

Como disse acima, não perco tempo a ir ler a tal resolução governamental.
Comemore-se o 25NOV, com dignidade, com decência, com sobriedade, evocando antes de tudo e todos o nome do general Costa Gomes, recordando o grupo dos 9, o Documento dos Nove, Ramalho Eanes, Salgueiro Maia (nunca integrou o conselho da revolução), Mário Soares. 
Alguns outros nomes que alguns quererão glorificar são mais que questionáveis, na minha opinião naturalmente.

Mas não façam palhaçadas de desfiles militares, de salvas artilheiras de navios de guerra, de sobrevoo de aviões e helicópteros.
Tenham tento na língua. Tenham tento na língua, vergonha na cara.

Se Marcelo Rebelo de Sousa (que formalmente é o comandante supremo das forças armadas, na prática. . . ) tiver vergonha na cara, discordará liminarmente de palhaçadas que, ou muito me engano, ou Nuno Melo e outros quererão concretizar.

Deve ser por isto, por esta eventualidade, que aos microfones da TSF ouvi Sousa e Castro dizer - O 25 de Abril é que foi a operação militar que o Exército português devia comemorar. Mas não comemorando o 25 de Abril, ao menos que tenham tento e que pensem que o Exército português estava praticamente todo do lado do Grupo dos Nove - todo, todo o Exército estava do nosso lado.

TENHAM TENTO, é um excelente resumo!

Lamentavelmente, o 25NOV75 continua a ser um dos episódios mais polémicos e, em alguns aspetos, nebulosos do chamado Processo Revolucionário Português, e concretamente quanto ao tristemente famoso PREC.

DATAS, porventura com interesse:
Não inscrevo aqui as datas das reuniões principais do Movimento dos Capitães, do Movimento de Oficiais das Forças Armadas depois, do MFA depois, nem de várias outras intermédias e de menor participação em casa deste e daquele oficial, tudo desembocando no 25 de Abril de 1974.

31DEZ68 - Vigília na igreja S. Domingos, até 0600 horas 1JAN69
- 12OUT72 - Ribeiro dos Santos assassinado nas instalações do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras
- 30DEZ72 - Vigília na Capela do Rato
- 31DEZ72 - Invasão policial da Capela do Rato
- 4-8 ABR73 - Aveiro, III Congresso Republicano 
- 19ABR73 - Fundação do PS na Alemanha
- 1-3 JUN 73 - Porto, I Congresso de Combatentes
- 28AGO73 - Oficiais em serviço na Guiné enviam uma exposição aos poderes de então
- 17DEZ73 - denunciada tentativa de golpe de Estado liderada por Kaulza de Arriaga
- 16MAR74 - Golpe das Caldas da Rainha
- 27ABR74 - Chegada de Mário Soares a Lisboa
- 30ABR74 - Chegada de Álvaro Cunhal a Lisboa
- 8JUL74 - Criação do COPCON
- 28SET74 - Manifestação da maioria silenciosa 
- 12OUT74 - Penalva do Castelo, primeira explosão de origem criminosa
- 19OUT74 - Henry Kissinger oferece um almoço a várias personalidades, entre elas Costa Gomes e Mário Soares
31OUT 74 - lei sobre os partidos
- JAN75 - Frank Carlucci chega a Lisboa para chefiar a embaixada dos EUA
- 19JAN75 - MFA reafirma assegurar a realização de eleições para a Constituinte
- 24FEV75 - Penalva do Castelo, segunda explosão de origem criminosa
- 11MAR75 - Tentativa de golpe militar de Spínola
- 24MAR75 - Spínola e outros 18 oficiais expulsos das FA
- 14MAR75 - Criação do Conselho da Revolução
- 11ABR75 - CDS, FSP, MDP/CDE, PCP, PPD, PS, assinam Pacto com o MFA
- 1MAI75 - Mário Soares impedido de entrar na tribuna durante as comemorações do 1º de Maio
- 19MAI75 - Início do conflito entre trabalhadores e direcção do jornal República
- 20MAI75 - Kissinger reune-se com Melo Antunes
- 30MAI75 - Em Helsínquia, Kissinger e Gerald Ford têm conversações com Vasco Gonçalves
- 2JUN75 - Abertura solene da Assembleia Constituinte
- 8JUL75 - Institucionalizados, comissões de moradores, comissões de trabalhadores e outros organismos de defesa da revolução
- 11JUL75 - Em conferência de imprensa, Mário Soares afirma - estamos para saber como foram escolhidas as pessoas que compõem a Assembleia do MFA
- 19JUL75 - Comício do PS na Alameda em Lisboa
- 22JUL75 - Carlucci encontra-se com Melo Antunes
-7AGO75 - Comunicado de Melo Antunes e outros contra a facção radical do MFA no Conselho da Revolução
- 8AGO75 - Defendem alguns que é nesta data que começou a ser preparado o 25NOV75 
- 9AGO75 - Franco Charais, Pezarat Correia, Vitor Alves, Melo Antunes, Vitor Crespo, Vasco Lourenço, Sousa e Castro, são suspensos do Conselho de Revolução
- 5SET75 - Assembleia do MFA em Tancos, onde moderados obtêm maioria no Conselho de Revolução
- 5SET75 - II Conselho da Revolução
- SET75 - Depois da criação do AMI (Agrupamento militar de intervenção), o COPCON fica gradualmente esvaziado
- 27SET75 - Embaixada e consulado espanhóis destruídos na sequência de manifestação antifranquista de extrema esquerda liderada por conhecidas e proeminentes figuras públicas do sistema político nacional
- 7NOV75 - Por ordem do Conselho de Revolução destruído à bomba o emissor da Renascença na Buraca
- 11NOV75 - Palácio de S.Bento cercado por uma manifestação de trabalhadores da construção civil, sequestrando deputados e membros do governo
- 16NOV75 - Lisboa invadida por manifestação organizada pelas comissões de trabalhadores da cintura industrial de Lisboa e por UCP alentejanas
- 20NOV75 - Otelo é substituído por Vasco Lourenço no comando da Região Militar de Lisboa
- 23NOV75 - PS enche de novo a Alameda em Lisboa com manifestação de apoio ao VI governo provisório
- 25NOV75 - Presidente Costa Gomes declara o estado de emergência, assume o comando directo das unidades militares da Região Militar de Lisboa, e declara o estado de sítio em Lisboa
- 29NOV75 - Em conferência de imprensa Sá Carneiro acusa o PCP de ser responsável pela insubordinação militar verificada
- FEV76 - II Pacto MFA - partidos políticos
- 2ABR76 - Aprovação da Constituição da República Portuguesa
- 14MAI76 - Ramalho Eanes anuncia a sua candidatura à Presidência da República
- 18MAI76 - PCP anuncia a candidatura de Octávio Pato à Presidência da República
- 18MAI76 - Pinheiro de Azevedo anuncia a sua candidatura à Presidência da República
- 27MAI76 - Otelo anuncia a sua candidatura à Presidência da República

25NOV75. 
- Que 25NOV75?
- Quantos planos militares? Quem os dirigia, quem fazia parte deles?
    - 25NOV do grupo dos 9?
    - grupo militar de Ramalho Eanes?
    - plano dos coronéis?
    - grupo Maria da fonte?
    - grupo CODECO?
- Quantos golpes? 

- Como defende Pacheco Pereira (PP), um 25NOV da ala esquerdista  das Forças Armadas (FA), e o de 26NOV tentando ilegalizar  o PCP?
- Plano de contenção? Que plano de contenção? 
- Quem fazia parte dele?
- Tudo começou porque os pára-quedistas sairam?
- Quem os mandou sair?
- Sairam por razões apenas corporativas?
- Havia quase guerra civil? Poderia vir a haver?

- O grande risco do 25NOV75 como defende Pacheco Pereira, foi o choque (possível? provável?) com os militares esquerdistas, ligados ao COPCON e a alguns mas não todos os sectores gonçalvistas que, se tivesse expressão armada significativa teria provocado  um conflito grave ?
- Comportamento e decisões de Otelo Saraiva de Carvalho?
- Posicionamentos do PCP? E dos grupelhos à sua esquerda?

Não sei, mas há quem sabe e continua a não dizer tudo. 
PORQUÊ?
Interpretações? E que tal a verdade, finalmente ? 
Já passaram 50 anos!

Sem OTELO teria havido o 25ABR74?
Não sei. 
Mas creio que foi determinante para a sua preparação e   concretização.
 
"Conhecer a verdade implica ir à procura  da história das "coisas".
É uma verdade indesmentível, é a minha opinião também, desde há décadas. 
Porque continuam alguns, que se arvoram "donos", a não nos dizerem TODAS as COISAS que se passaram, vir explicar meandros?

O 25NOV75 não foge à regra da história, a nacional e internacional: na história "oficial" que anda em Portugal há muito, obviamente que foram criadas personalidades segundo certas conveniências.

Um dos busílis está porventura aqui, a criação de personalidades, e  certas conveniências.
Por exemplo, no comentário que há tempos ouvi na TSF e já supra referido, na parte final desse comentário saiu . . . . Eanes pôs-se a jeito!

Não faço ideia.

Quando alguns dizem e escrevem que o 25ABR74 - foi obra de um movimento estritamente militar e apartidário sem qualquer componente civil e influências ideológicas determinantes - respeito, e sorrio.

Quem assim escreve e o mantém ao longo de décadas toma-nos por tontos e desmemoriados. 
Demonstram, na minha modesta opinião naturalmente, desonestidade intelectual pura.

É sabido que, particularmente nos últimos anos da guerra em África/ guerra colonial/ guerra do Ultramar, a presença de centenas e centenas de milicianos nas fileiras militares (13 anos de guerra) teve gradual e determinante influência em muitos oficiais, sobretudo do Exército. 

E também houve quem tivesse ligações a certos partidos, como também houve quem lesse muitos livros e publicações, em 1971 por exemplo, até finais de 1974. LEGITIMAMENTE!

Como houve e há, desde 25ABR74, ligações a partidos políticos.
Legitimamente para os fora do activo.

É sabido, mas muitos fingem desconhecer, e infelizmente muitos mais continuam a acreditar que os bebés chegam de Paris embrulhados numa fralda pendurada no bico de uma cegonha, que os tempos contemporâneos nas democracias ocidentais estão muito complicados e que, sorrateiramente, o Estado exerce violência sobre os cidadãos comuns. De maneira sofisticada, já não à antiga.

Os meios de manipulação das opiniões públicas são numerosos, cada vez mais sofisticados, levando multidões a acreditar nas coisas que para muitos, como eu, espanta. Exemplos não faltam.
No PREC, no 25NOV75, houve algo dessa natureza? Manipulações?

Entre muitas outras coisas, para o processo que levou ao 25ABR74 e o que se desenrolou entre 25ABR74 e 1976, creio ter sido determinante isto:

1º - crescente consciência em vários sectores das Forças Armadas, particularmente no seio de oficiais mais jovens, de que a guerra em África devia ser solucionada politicamente,

2º - a acção de Spínola na tentativa (gorada) de convencer Marcelo Caetano e os ultra do regime a resolver politicamente o conflito nomeadamente na Guiné,

3º - crescente politização de vários oficiais e presumo que sargentos e praças nos três ramos das Forças Armadas porventura mais na Marinha de Guerra ( actualmente designada apenas por Marinha), por um lado por vontade própria e LEGÍTIMA de cada militar, e a convivência com milicianos por outro lado,

4º - a questão corporativa no Exército, concretamente a partir do deplorável Decreto-lei nº 353/73, de 13 de Julho,

5º - o 25ABR74 ocorre quando, na cena internacional, se estava em plena guerra fria, quando durante quase dois anos (até ao Verão de 1975) decorreu o processo de Helsínquia em que os dois blocos - Ocidental e Soviético - definiram e acordaram, questões de segurança, questões de alguma cooperação e, naturalmente, a divisão das áreas de interesse e influência. "Détente"!

Salvo melhor opinião, a partir do golpe militar de 25ABR74 que, em escassas horas, se transformou em revolução dada a enorme adesão popular, a questão que se colocava/ colocou, foi a da construção do Estado democrático, dotá-lo de uma Constituição, com as inerentes e óbvias questões da liberdade, de direitos e deveres, do poder e organização do Estado nas suas diversas dimensões, sempre presente que o poder de um  Estado deve ser justo, legítimo.

No 25NOV75 esteve em jogo a questão da dependência de Portugal, para que lado cair, manter-se no bloco Ocidental liderado pelos EUA ou integrar o bloco Leste liderado pela URSS.

O PS teve papel determinante na escolha  das alianças e no caminho a percorrer, e isso garantiu-lhe papel principal na nossa história recente, democrática.

Há quem defenda que do lado URSS terá havido algures manifestação de alguma preocupação junto de alguns dos principais protagonistas políticos moderados dessa altura pelo rumo que se seguia, e que Portugal se deveria manter no bloco NATO, Ocidental.
Não faço ideia se isso aconteceu, mas mesmo tendo sido real, não vejo que isso impedisse que, no terreno, cá, alguns tentassem efectiva  mudança.

Uma coisa é certa: depois do 25NOV75, começou a ser estabelecida uma ordem política, económica, social.

Parece-me que, 
- Costa Gomes comandou as operações a partir de Belém, 
- manteve em Belém junto de si o conselho da revolução, 
- o comandante da região militar de Lisboa nada terá comandado  na prática,
- Otelo Saraiva de Carvalho terá contido nervosismos nos seus fiéis, e que a sua imediata deslocação para Belém esvaziou por completo inconfessáveis desejos de outrem.
 
Continuo a não perceber, 
- porque saíram os pára-quedistas e quem os mandou sair,
- quem mandou os comandos (que creio em grande número recrutados entre elementos que tinham feito a guerra) arrombar os portões do regimento da polícia militar que calmamente (creio) se mantinha dentro de muros cumprindo as ordens de Belém de prevenção rigorosa.
.

Este "brainstorming" vai longo.
Para uns, o 25NOV75 foi uma maquinação para desviar o "processo" da sua pureza inicial.

Para outros, com o 25NOV75 tratou-se de resolver a questão de poder no país, entre facções políticas, e depois distribuir . . . . . e pouco importando o real interesse dos cidadãos comuns, da sociedade, do país.

Para mim, a questão essencial permanece: A verdade toda do 25NOV75 continua por contar.

PORQUÊ ?

António Cabral (AC)

segunda-feira, 31 de março de 2025

PUBLICO como RECEBI, sem comentários

(Sublinhados da minha responsabilidade)
(não consegui apurar autor)

Carta aberta ao anormal do Ramalho Eanes.

Caro General Ramalho Eanes, ultimamente o Portugal que serviu enquanto Presidente da República tem-se chocado com o aproveitamento que muitos membros da nossa classe politica interpretam. Somos o país que consegue sentir o choque do ridículo mas que normaliza tais comportamento porque, como sabemos, “todos os políticos são iguais”.

Ficamos surpreendidos quando soubemos que em média, entre 2006 e 2013, os nossos governantes gastaram 295 euros por refeição. Ficamos admirados com a notícia de José Conde Rodrigues , ex-secretário de Estado da Justiça, que gastou 13.657 euros dos fundos públicos na compra de 729 livros para beneficio próprio.
Ficamos pasmados com o caso da ex-ministra da Saúde Ana Jorge, ao ter usado um cartão de crédito em nome do Estado (para despesas urgentes de trabalho) em lojas de roupa, ourivesarias ou no El Corte Inglés.
Ficamos boquiabertos com o ex-ministro da economia, Manuel Pinho, que recebeu 1 milhão de euros na sua Offshore depois de beneficiar a EDP em vários contratos de parceria.
Ficamos espantados, mais recentemente, com o ministro-adjunto deste executivo que embora advogado de elite disse desconhecer a lei que o impedia de acumular cargos públicos com outros cargos em empresas privadas.

Enquanto grande parte da nação ajoelha-se boquiaberta e volta a esquecer estes abusos, como se um anulasse o anterior, não consigo esquecer o Presidente da República que num período de grandes dificuldades financeiras, consta que vendeu a sua própria casa de férias para pagar os custos que a presidência não conseguia suportar. Não consigo deixar de relembrar o individuo que tinha apenas dois fatos e que recebia as visitas ao Palácio de Belém com um chá depois da hora de jantar, para evitar custos desnecessários. Esse foi o senhor.

Em julho de 2017 o país ficou a conhecer o caso dos três secretários de Estado que beneficiaram de viagens pagas pela empresa Galp, antes de ser aprovado um benefício fiscal em dezenas de milhões de euros à mesma empresa. José Sócrates defendeu que as críticas se tratavam de “um excesso de patriotismo”, considerando que as suspeitas sobre os governantes eram “estapafúrdias” e António Costa não hesitou em reforçar a “relevante e dedicada colaboração dos três Secretários de Estado nas funções desempenhadas no XXI Governo Constitucional”.

Em abril de 2018 chegou a público os milhares de euros de que vários deputados beneficiaram ao receberem em duplicado o valor das viagens que faziam em “nome do interesse nacional”. Carlos César, líder parlamentar do partido socialista e parte desse grupo, logo declarou não se sentir culpado por não ter feito “nada de errado”, sendo que o “atual modelo vigora há décadas e foi utilizado por altos cargos do Estado”. Eduardo Ferro Rodrigues, presidente da Assembleia da Republica, declarou a inocência dos parlamentares que nas suas palavras não tinham “cometido nenhuma ilegalidade”.

Não esqueço o homem que RECUSOU receber 1 milhão de euros do erário publico, com o acumular de dezenas de anos sem receber a subvenção que tinha direito, após o parecer do Provedor de Justiça em 2008 ter defendido que todos os Presidentes deviam ser tratados de igual forma.

Deparamo-nos com um ex-primeiro ministro que fez da acção política o benefício dos seus interesses pessoais, onde até históricos como Arons de Carvalho defendeu não achar “reprovável uma pessoa viver com dinheiro emprestado"
Vivemos na realidade de vários governantes e parlamentares que acumulam os vencimentos com ajudas de custo e subvenções vitalícias, de dezenas de nomes da política que acabaram nas administrações de grandes Bancos e Grupos Económicos, uma Assembleia da Republica onde se misturam os escritórios de advogados e as grandes empresas com as leis que se aprovam e propostas, como a do grupo parlamentar do partido socialista a janeiro deste ano, para tornar o lobby, a representação dos interesses de particulares nos corredores do poder, numa profissão reconhecida pela lei.

Aqueles que fazem da desaprovação o consentimento, esquecem-se que Portugal já teve como líder máximo um individuo que promulgou a lei que o impediria de acumular o salário presidencial com as restantes pensões a que teria direito, abrindo mão da pensão choruda de General. Só serviu os interesses de quem o elegeu e não de quem o tentou financiar.

Por isso, tenho orgulho em afirmar que por muito chocante que possa parecer, António dos Santos Ramalho Eanes, o primeiro Presidente da República democraticamente eleito após o 25 de abril, é o anormal no meio de um panorama político podre que para muitos é a norma controladora.

Sei que o senhor não é perfeito e podemos até ter as nossas divergências ideológicas, mas pelo menos tenho a certeza de que nunca fez parte do grupo que se aproveita do poder para se apoderar dos recursos que pertencem apenas aos portugueses. É para mim uma honra recordar uma Nação inteira que se deprime com os muitos que a serve, de que nem “todos os políticos são iguais” e de que enquanto houver quem no senhor se inspire haverá sempre esperança. Ao contrário do que alguns dirão, recordá-lo não é “estar preso ao passado” senão querer um futuro onde o mais simples português não tenha de voltar a justificar a miséria do país com os políticos que são “sempre iguais” e que insistem em “não mudar”.

Por muito mau que o presente possa parecer eu não o esqueço, senhor presidente.

Tenho dito.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

DECÊNCIA  e  RECTIDÃO
O ser humano que nasceu em Alcains, cresceu, esteve em África, foi figura central nos primeiros anos do Portugal democrático, e mesmo nessa época tendo cometido alguns erros porque humano, mesmo nos anos turbulentos PREC e pós PREC, 
Ramalho Eanes sempre demonstrou ser um homem equilibrado, humanista, decente, sempre demonstrou ser uma referência de cidadania.

Sempre avesso a mordomias e homenagens, acabou por aceitar receber há dias um prémio, no Porto, apenas a sua parte simbólica, não a pecuniária, um prémio de reconhecimento pela sua luta por valores, por ser um Português em quem nos podemos rever com muita honra e orgulho, por ser um exemplo de cidadania.

Um exemplo de serviço, um exemplo de homem que teve poder formal, bastante poder, que serviu, e nunca se serviu do cargo, nem na altura, nem depois.

O seu anseio quanto - ao povo poder criar o "futuro que deseja e merece", "um futuro com sentido e propósito que possa trazer felicidade à maioria dos portugueses" - nesta parte creio que Eanes talvez por educação não quis referir o que noutras ocasiões sublinhou, que isso é um desejo que está agrilhoado pelos que há mais de três décadas tomaram de assalto o Estado, embora batam no peito e berrem ética republicana por todos os poros.
AC

domingo, 21 de abril de 2024

BRILHANTE

EIS O QUE É UM SENHOR

Acabei de ver a entrevista de Ramalho Eanes na SIC.

Como sempre, respeito todas as opiniões. Depois concordo ou discordo. A minha é esta:

- Aprendam, Passos Coelho, Ferro Rodrigues, Marcelo, Sócrates, Augusto Santos Silva, António Costa, Guterres, e tantos mais.

- E tenham vergonha, deviam ter vergonha do estado em que estamos, do estado a que conduziram a sociedade, com centenas de milhares de portugueses na pobreza miserável, inqualificável.

- Cambada.

AC

sexta-feira, 19 de abril de 2024

Gen. Ramalho Eanes, ex-Presidente da República
Acabei de almoçar uma magníficas iscas de fígado de vitela, acompanhadas de um bom vinho tinto de Pegões, amaciadas depois com duas muito boas maçãs assadas. 
Tudo feito em casa, menos o vinho, naturalmente. 
Preparado e cozinhado por "MOI"!

Depois do café fui usar a tecnologia para ver e escutar a entrevista que passou ontem na RTP1, com Fátima Campos Ferreira a entrevistar o ex-titular do órgão de soberania.

E aqui estou.
Do que ouvi saliento apenas algumas coisas para não ser demasiado maçador.
Mas antes do concreto, dizer que dá gosto ouvir um homem sereno, culto, muito sóbrio, sabedor, e nada parvo. 

Foi muito claro quanto ao 25 de Novembro de 1975.
Mas mesmo com homens como Eanes, que concordou e concorda inteiramente, E BEM, que nenhum partido devia ter sido ilegalizado naquela época, como aliás nenhum deve ser agora ilegalizado pelo mesmo tipo de razões então invocadas, é lamentável que muitos continuem a tentar desmentir o que tentaram e o que se passou, e passou-me muita coisa má, e muitos desses tiveram responsabilidades directas. 
Depois andaram, por exemplo, à pressa, a tentar desfazer-se de armas.
Eanes foi muito claro, certas esquerdas, naquela altura, nada ajudaram a democracia. 
Eu sei que houve também, deploravelmente, MDLP e etc., alguns dos quais hoje inchados de soberba, no comentariado e etc.

Como Eanes, lamento que estigmatizem o 25NOV75, e DEPLORO que safardanas se queiram apropriar dessa data como donos exclusivos, nomeadamente ultra-radicais.

Como Eanes, não tenho dúvidas que entre 25 de Abril de 1974, e 25 Novembro de 1975 houve, muita má fé, muita fixação ideológica, e muita pouca vergonha.

Como Eanes, os fundos Europeus deram boas ajudas até agora, na actualização de empresas, na formação de trabalhadores, etc.

Mas, digo eu, os primeiros anos dos fundos sobretudo para empresas e formações deram a alguns gabirus uma liquidez brutal que permitiu depois adquirirem grande parte das maiores empresas nacionais. Uma pouca vergonha, a par de ausência de controlos nesses anos.

Como Eanes, as eleições livres é que devem determinar o rumo do país, e são os cidadãos através delas que substituem deputados, governantes, Presidentes da República.

Como Eanes, deploro que sobretudo PSD e PS continuem de candeias às avessas, o que impossibilita consensos alargados para resolver problemas essenciais da nossa sociedade.

Como Eanes, deplorável o grau de pobreza existente e crescente na nossa sociedade.
Esta é, indiscutivelmente, uma NEGRA marca do regime democrático.
A sociedade portuguesa não é uma sociedade unida, salientou Eanes e eu concordo em absoluto.

Quanto às forças armadas, Eanes fez considerações várias com a quais concordo na grande maioria.

Desde logo a frase - quase tudo está mal nas forças armadas.

Eanes abordou levemente a norma constitucional que define o PR como Comandante Supremo das Forças Armadas, e percebi que discorda dela, nos termos práticos existentes. Eu também.

Eanes podia ter aproveitado para esclarecer porque vetou no final de 1982 a Lei de Defesa Nacional (conhecida por Lei Freitas do Amaral), sendo depois obrigado à sua promulgação.

Como Eanes referiu, e eu no meu blogue ao longo do tempo nisso tenho falado, no presente Portugal fabrica praticamente zero no que respeita a armamento, componentes e sobressalentes.
Mas temos gentalha que tem vivido à conta das "pomposas indústrias de defesa"! 
O estado do Arsenal do Alfeite é um dos exemplos mais eloquentes do que certa gente tem feito ao longo dos anos.

Eanes lembrou a pouca vergonha de tudo à volta da "condição militar", que tem legislação diversa de enquadramento, em que grande parte está por cumprir por responsabilidade directa de sucessivos governos PSD e PS, mas com ainda maiores responsabilidades dos Rosa!

Às tantas, face ao momento nacional e sobretudo internacional, FCFerreira interrogou se não se devia equacionar um governo de unidade nacional. Enfim! 
Eanes respondeu-lhe bem.

Enfim, não quero maçar mas Eanes podia, por exemplo, ter elaborado  sobre as revisões constitucionais nomeadamente a de 1982 (sussurrou umas coisita), sobre o Conselho da Revolução, sobre os seus tempos iniciais de acumulação como Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, etc.

Tenham um bom fim de semana. Saúde.

António Cabral (AC)

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

COMEMORAÇÕES - 50 anos 25 ABRIL 1974

No dia 17 de Dezembro escrevi isto.

OLHA  OLHA………..INTERESSANTE…….
Do Expresso online - Divergência entre Eanes e Vasco Lourenço levam Marcelo ao comando das comemorações dos 50 anos de Abril. Ao contrário do que estava previsto, já não será Ramalho Eanes mas sim Marcelo Rebelo de Sousa a presidir à Comissão Nacional das Comemorações dos 50 anos do 25 de abril.

Não é, curioso, interessante, intrigante, …….patético talvez?
Porque terá sido? 
Como a transparência é aquele grande activo conhecido deste Portugalinho e, portanto, os cidadãos comuns não têm direito a saber o que se passa nas "altas esferas" (altas…. !?!?) será assim legítimo imaginar potenciais razões para o desaguisado que agora se vê anunciado no Expresso.
Eanes foi PR. Vasco sempre se manifesta como um donozinho disto.
Quando foi do 25 de Novembro de 1975 as coisas correram bem entre eles? Será resquícios dessa época? 
Bom, tenho mais que fazer do que perder tempo com esta coisinha.
AC

Acabei de ler agora o último Expresso, jornal completo. Li dois textos, página 13 e contra-capa do caderno primeiro, que abordam esta questão da estrutura das ditas comemorações e de certos senhores, a qual pode ou não, envolver cerejas em cima de bolos!
E lido o semanário vou então perder um "poucochinho" mais de tempo com isto, pois fez-me voltar, mais uma vez, ao que sempre tem acontecido em Portugal, e que neste período democrático infelizmente se mantém como marca de água deste regime, por acção de senhores que teimam em se considerar muito importantes e muito acima dos cidadãos comuns. Mais uma vez, com a desfaçatez de vários protagonistas, está à vista a transparência, um dos mais valiosos activos deste tão maltratado país.

E do que se lê no Expresso, o que é legítimo concluir?
> Que Eanes se fartou há seis meses (expressão minha) e Marcelo soube logo.
> Dos porquês da coisa, o povo ignaro não tem de saber.
> Ramalho Eanes e Vasco Lourenço não estão agora na tal estrutura para as ditas comemorações.
> Marcelo Rebelo de Sousa assumiu o comando da coisa.
> Os donozinhos disto quase tudo não farão de figurantes decorativos.
> Os dois militares deixam de estar na estrutura, mas contam sempre com eles, diz o Expresso, sem explicar se é a pensar já nos lugares protocolares onde se sentarão em tribunas etc.
> Vasco Lourenço já teve problemas com Eanes (só?) no passado! Oh! 

Por este tipo de coisas e outras, não é de admirar que os cidadãos comuns se cansem de certos protagonistas, e de certas coisas.
Eu há anos que não tenho paciência para certo tipo de criaturas, nem para este tipo de coisas, nem para esta "transparência" (!?!?) tão politiqueira que acaba por, devagar, minar o que devia estar sempre nos nossos corações, pelo ideal e pureza iniciais. 
Mas o ego de certas criaturas inchadas de soberba, e não só…………..
AC

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

OLHA  OLHA………..INTERESSANTE…….
Do Expresso online - Divergência entre Eanes e Vasco Lourenço levam Marcelo ao comando das comemorações dos 50 anos de Abril. Ao contrário do que estava previsto, já não será Ramalho Eanes mas sim Marcelo Rebelo de Sousa a presidir à Comissão Nacional das Comemorações dos 50 anos do 25 de abril.

Não é, curioso, interessante, intrigante, …….patético talvez?
Porque terá sido? 
Como a transparência é aquele grande activo conhecido deste Portugalinho e, portanto, os cidadãos comuns não têm direito a saber o que se passa nas "altas esferas" (altas…. !?!?) será assim legítimo imaginar potenciais razões para o desaguisado que agora se vê anunciado no Expresso.
Eanes foi PR. Vasco sempre se manifesta como um donozinho disto.
Quando foi do 25 de Novembro de 1975 as coisas correram bem entre eles? Será resquícios dessa época? 
Bom, tenho mais que fazer do que perder tempo com esta coisinha.
AC

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

CONDECORAÇÕES  e  CONDECORADOS

Este assunto é periodicamente "glosado" e "gozado", e refiro-me concretamente às decisões de todos os Presidentes da República desde 1976. Naturalmente, é sempre difícil e discutível avaliar os critérios dos vários PR incluindo o actual inquilino em Belém. Olha-se ao que está descrito para requisitos de cada uma das comendas e condecorações e, em vários casos e desde há anos, que não se pode deixar de ficar surpreso com alguns nomes alcandorados e condecorados.

Uma das coisas mais interessantes neste tema, para mim naturalmente, é por vezes ver invocar como justificação para certas "prebendas" a expressão - espírito patriótico! Ainda vamos ver Eduardo Cabrita na lista.

Sendo certo que todas as pessoas têm defeitos e qualidades (até Al Capone tinha uma ou, talvez, duas qualidades) quando olho para os milhares de nomes desde 1976 com coisas penduradas ao pescoço fico estarrecido com alguns dos exemplares contemplados! 

Pessoalmente há pessoas que sempre me pareceu da maior justiça terem sido condecoradas, pelo trabalho encetado e realizado, pelo caminho aberto. Há muitos. Um exemplo claro: Mariano Gago. 

Não vou referir nenhum dos (para mim) trastes que sempre considerei uma ofensa aos cidadãos comuns o terem sido agraciados pelos PR Ramalho Eanes, Mário Soares, Jorge Sampaio, Cavaco Silva e Marcelo Sousa. Os factos vieram demonstrar quão estranho e vergonhoso foi um determinado e razoável número de condecorações atribuídas. E, por isso, há aquela graçola que diz que, séculos atrás, penduravam ladrões na cruz, enquanto nos tempos actuais colocam cruzes ao pescoço de certa gentalha (Vitorino dixit)!

AC

terça-feira, 27 de julho de 2021

Declaração do ex-Presidente Ramalho Eanes
"A notícia da morte do Otelo Saraiva de Carvalho magoou-me e surpreendeu-me. Magoou-me, por se tratar de mais um amigo que parte. Surpreendeu-me, porque estive, recentemente, com o Otelo, no funeral da sua mulher, e achei-o, naturalmente, abatido, mas, aparentemente, com vigor e saúde.
Conheci o Otelo na Guiné, onde o substituí na Direcção da Secção de Radiodifusão e Imprensa do Comando-Chefe. Tornámo-nos amigos. Foi, aliás, essa amizade que me levou a testemunhar em seu favor no julgamento a que foi submetido, apesar de muitos reparos e apelos para que o não fizesse.
O Otelo era um homem bom, generoso, embora, por vezes, pouco prudente, pouco realista – contraditório, mesmo. Adorava representar, até na vida real, esquecendo que a representação exige um espaço delimitado, em que tudo o que aí é normal não o é na vida real.
Para mim, e apesar de todas as contradições, o Otelo tem direito a um lugar de proeminência histórica. E tem esse direito, apesar da autoria de desvios políticos perversos, de nefastas consequências, porque foi ele quem liderou a preparação operacional do 25 de Abril, a mobilização dos jovens capitães, o comando da operação militar bem-sucedida.
E penso assim porque entendo que um Homem é uma unidade e continuidade, uma totalidade complexa, e que só é bem julgado quando considerando, historicamente, esse quadro e o seu contexto. Mas há homens que, num momento histórico especial, se ultrapassam, ganhando dimensão nacional, indiscutível, porque souberam perceber e explorar uma oportunidade histórica única, e sentir os anseios mais profundos do seu povo.
Otelo é uma dessas personalidades. A ele a pátria deve a liberdade e a democracia. E esta é dívida que nada, nem ninguém, tem o direito de recusar.
António Ramalho Eanes"


Todas as opiniões devem ser respeitadas, concorde-se ou discorde-se.
Permiti-me aqui trazer as palavras do nosso primeiro Presidente da República em Democracia na sequência do falecimento do camarada de armas do Exército, Otelo Saraiva de Carvalho. 
Estive uma única vez com o então Capitão em 1972, quando embarcou no navio onde eu prestava serviço acompanhando vários jornalistas estrangeiros convidados do general António de Spínola, evento dos vários que constituíram boa parte da campanha de promoção daquele então governador da Guiné e Comandante-Chefe.

Concordo com tudo o que o general Ramalho Eanes entendeu partilhar com os seus concidadãos. 
Sublinho a amarelo o que para mim é evidente e não deve ser calado.
Sublinho a vermelho a referência feita com elegância a tudo o que de muito perverso e trágico aconteceu, infelizmente. 
Descanse em paz Otelo.

António Cabral

quinta-feira, 2 de abril de 2020

UM  GRANDE  SENHOR
Todos temos defeitos e qualidades.
Todos, ao longo da vida, teremos tomado decisões que mais tarde venhamos a reconhecer que foram bem patetas.
Penso que isto tudo se me aplica mas, o que quero referir, é que o estou a escrever a propósito de um concidadão mais velho do que eu, e que foi o meu/ nosso Presidente de República eleito após o famigerado e detestável PREC.
Do muito pouco que vejo no televisor (excepto alguns filmes) assisti com imenso prazer à entrevista que ontem o general Ramalho Eanes concedeu a uma jornalista da RTP que com frequência devia medir melhor as palavras.
Eanes demonstrou a meu ver, mais uma vez, o que é honestidade intelectual, seriedade, calma, lucidez, amor ao próximo, honradez.
Independentemente de algumas coisas mais que dispensáveis ao longo da sua vida, por exemplo um dos negativos pontos altos que foi a "cena" do PRD (para mim obviamente em grande parte por retribuição do ódio que Soares lhe votava), demonstrou o que é ser um grande senhor.
Muitas criaturas que se pavoneiam na nossa vida pública deviam olhar para este exemplo de seriedade.
UM GRANDE SENHOR.
AC

sábado, 25 de janeiro de 2020

LIDO por AÍ
Numa caixa de comentários, a propósito da postura do General Ramalho Eanes, um anónimo escreveu uma frase de que retirei esta parte............curiosa:
................"e muito obrigada pela sua correcta postura sempre a favor deste país que tem a memória muito curta e se esquece muitas vezes dos seus mais fiéis defensores em prol de gente que não vale os tomates dum gato"...
AC

sábado, 7 de julho de 2018

AS FORÇAS ARMADAS NACIONAIS e o GUETO
Se não estou enganado, e creio não estar, mas não recordo já onde vi o que adiante relembro, há tempos atrás o General Ramalho Eanes terá tido um comentário/ desabafo em que a dada altura terá dito ou sugerido que estavam gradualmente a meter as FA num gueto.
Não vou comentar, concordar ou discordar.
Vem isto a propósito de ter visto agora na minha habitual visita "ao sítio da Presidência" uma série de fotografias retratando o encerramento de um seminário realizado há poucos dias sob o lema / Tema - “A Segurança, a Defesa Nacional e as Forças Armadas” promovido pelo GREI - Grupo de Reflexão Estratégica Independente.
Para mim são curiosas várias das fotografias que lá estão. Muito curiosas.
Mas gosto particularmente desta, em que a legenda poderia ser, por exemplo - esteja descansado, que eu nunca permitirei que as FA sejam metidas num gueto, ainda que, como sabe, constitucionalmente, a política de defesa nacional como outras é uma competência do governo e eu respeito a separação poderes!
António Cabral (AC)

Ps: como sempre acontece, em nenhuma fotografia se mostra qual terá sido a participação neste evento. 
Pessoalmente tinha muita curiosidade para ver quem, além destes académicos que se veem na fotografia e deste logo o da direita, e que pelos vistos são fervorosos defensores das FA, quem mais (académicos, políticos, deputados, etc) se interessou por um evento realizado sob o alto patrocínio do PR. 
Eu não fui por estar fora de Lisboa, senão tinha lá ido escutar o que disseram, e particularmente o PR.

domingo, 4 de fevereiro de 2018

GENERAL RAMALHO EANES
Como todos nós, ao longo da sua vida este nosso primeiro Presidente da República pós 25 Abril algumas coisas desejaria não ter feito.
Mas tenho um grande respeito por este homem de bem, intelectualmente honesto, humilde, honrado, com coluna vertebral e não colagénio no sítio das vértebras.

Como têm existido poucos na nossa história recente.
Procurou sempre servir, e creio que nunca se serviu, ao contrário de uma esmagadora maioria das chamadas elites.
António Cabral