A minha muito idosa e muito fragilizada mãe (nasceu a 8 JUL 1925, continua com excelente cabeça e memória) conversava outro dia comigo sobre a nacionalidade e conexos, nomeadamente a data da fundação da nossa nacionalidade.
Grande ignorante que sou a respeito de quase tudo eu disse-lhe que para mim 1143 continuava a ser a data da fundação da nacionalidade.
A minha mãe avançou dizendo que em 1940 celebraram 8 séculos de história. Ela referia-se à exposição do mundo português.
Repetindo-me, grande ignorante que sou tenho a ideia que Afonso Henriques usava o título de rei desde 1140, atitude que o rei castelhano veio a reconhecer mais tarde também na presença do representante do Papa.
A minha mãe avançou dizendo que em 1940 celebraram 8 séculos de história. Ela referia-se à exposição do mundo português.
Repetindo-me, grande ignorante que sou tenho a ideia que Afonso Henriques usava o título de rei desde 1140, atitude que o rei castelhano veio a reconhecer mais tarde também na presença do representante do Papa.
Aquilo que muitos dizem ser o tratado de Zamora, mas eu sabia de fonte segura/ amiga que não houve tratado nenhum, foi uma conferência.
E portanto eu e a mãe andámos com a fundação à baila em pingue-pongue entre 1140 e 1143.
Encerrámos o assunto dizendo eu à mãe - espera aí, vou maçar um amigo e conceituado historiador e havemos de deslindar isto.
Deixo aqui a resposta dele.
António não és nada ignorante.
Encerrámos o assunto dizendo eu à mãe - espera aí, vou maçar um amigo e conceituado historiador e havemos de deslindar isto.
Deixo aqui a resposta dele.
António não és nada ignorante.
Pelo contrário, colocas até uma questão muito interessante, sobre as origens de Portugal. Vou tentar responder dando a minha interpretação de forma sintética, mas tocando alguns dos pontos que focas.
As referências a acontecimentos que são muitas vezes apresentados como "actos fundadores da Nacionalidade" (Batalha de São Mamede em 1128, Batalha de Ourique em 1139 , Conferência de Zamora em 1143, bula papal Manifestis Probatum em 1179...) são sem dúvida relevantes.
As referências a acontecimentos que são muitas vezes apresentados como "actos fundadores da Nacionalidade" (Batalha de São Mamede em 1128, Batalha de Ourique em 1139 , Conferência de Zamora em 1143, bula papal Manifestis Probatum em 1179...) são sem dúvida relevantes.
Já houve até quem chamasse a 24 de Junho de 1128 "A Primeira Tarde Portuguesa", referindo-se à vitória de Afonso Henriques sobre a mãe e o "partido" galego dos Trava na batalha de São Mamede. Mas a questão é, quanto a mim, mais complexa.
De facto, não há um dia da "inauguração de Portugal".
De facto, não há um dia da "inauguração de Portugal".
Há um processo longo que passa por vários factos e por várias datas. Se o "corte" político com a Galiza foi em 1128 e Afonso Henriques passou a governar o Condado Portucalense, só em 1139-1140 começou a intitular-se rei, no seguimento da vitória em Ourique.
A partir desta data temos, portanto, um auto-intitulado rei de Portugal, mas que só seria reconhecido como tal em 1143 pelo rei de Leão Afonso VII (o Condado era parte do reino leonês), e o Papa, autoridade religiosa, espiritual e diplomática suprema da cristandade ocidental, só reconheceria o título de rei a Afonso Henriques em 1179.
Mas, mesmo assim, o território português ainda não estava definido, pois a Reconquista portuguesa só terminaria em 1249, com a conquista das últimas praças algarvias, no reinado de Afonso III.
Mas, mesmo assim, o território português ainda não estava definido, pois a Reconquista portuguesa só terminaria em 1249, com a conquista das últimas praças algarvias, no reinado de Afonso III.
Além de que a fixação da fronteira com Castela apenas seria estabelecida em 1297, no tratado de Alcanizes, sendo rei D. Dinis. Foi também com este monarca que o Português substituiu o Latim como língua "oficial" da Chancelaria régia, por volta de 1295-96.
Enfim, podemos considerar que a partir de 1139-1140 há um reino de Portugal como entidade política independente, mas que está e estará ainda muito tempo em construção.
Enfim, podemos considerar que a partir de 1139-1140 há um reino de Portugal como entidade política independente, mas que está e estará ainda muito tempo em construção.
A questão da nacionalidade é ainda mais complexa, pois enquanto sentimento relativamente generalizado de pertença a uma comunidade própria, distinta de todas as outras, a sua estabilização será ainda mais prolongada no tempo.
Terá, no final da Idade Média, um ponto alto com a chamada crise ou revolução de 1383-1385, quando se recusa a integração em Castela e se "refunda" o reino com a nova dinastia de Avis.
A tua Mãe tem toda a razão, pois 1940 foi oficialmente considerado "Ano dos Centenários".
A tua Mãe tem toda a razão, pois 1940 foi oficialmente considerado "Ano dos Centenários".
A Grande Exposição do Mundo Português pretendia celebrar 800 anos de "fundação da nacionalidade" e 300 anos de Restauração da Independência.
Num mundo em plena II Guerra Mundial, a exposição organizada pelo governo celebrava um "Mundo Português" antigo de oito séculos, em paz e capaz de grandes realizações.
A História foi mobilizada para essa operação de que os contemporâneos ainda hoje têm memória.
E, apesar dos seus quase 101 anos, a tua Mãe tem, sem dúvida, uma grande memória.
Espero ter respondido à questão que colocavas e peço desculpa pela extensão deste email.
Espero ter respondido à questão que colocavas e peço desculpa pela extensão deste email.
Mas o problema é mais complexo e multifacetado do que o de uma simples e única data.
E teremos ocasião de voltar a isto, em amena conversa Monsantina.
António Cabral (AC)
António Cabral (AC)
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