Mostrar mensagens com a etiqueta Sonetos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Sonetos. Mostrar todas as mensagens

sábado, 4 de outubro de 2025

CULTURA

O tempo de si mesmo pede conta,
Porque chega da conta o breve tempo.
Mas quem gastou sem conta tanto tempo
Como dará, sem tempo, tanta conta?

Não quer levar o tempo tempo em conta,
Pois conta se não faz de dar-se o tempo,
Quando só para a conta houvera tempo
Se na conta do tempo houvesse conta.

Que conta pode dar quem não tem tempo?
Em que tempo dará quem não tem conta?
Que a quem a conta falta, falta o tempo.

Agora sem ter tempo e sem ter conta
Sabendo que hei-de dar conta do tempo
Vejo chegado o tempo de dar conta.


Soneto de 1790 com o qual um frade administrador de uma fazenda de gado na ilha de Marajá (Estado do Pará – Brasil) respondeu ao Geral da Ordem, que o intimara a prestar contas em prazo de tempo por lhe ter constado que ele as não tinha muito regularizadas.
Copiado de um livro velho sem capa nem rosto, ignorando-se portanto o autor.

(publico como recebi)

AC

sexta-feira, 5 de abril de 2019

SONETO
Se me vem tanta glória só de olhar-te,
É pena desigual deixar de ver-te;
Se presumo com obras merecer-te,
Grã paga de um engano é desejar-te.

Se aspiro por quem és a celebrar-te,
Sei certo por quem sou que hei-de ofender-te;
Se mal me quero a mim por bem querer-te,
Que prémio querer posso mais que amar-te?

Porque um tão raro amor não me socorre?
Ó humano tesouro! Ó doce glória!
Ditoso quem à morte por ti corre!

Sempre escrita estarás nesta memória;
E esta alma viverá, pois por ti morre,
Porque ao fim da batalha é a vitória.
(Luís de Camões, Sonetos, texto integral, edição anotada, livros de bolso Europa-América, nº 106, Julho 1985)
AC

sexta-feira, 18 de maio de 2018

SONETOS

Decomposição
"Eu não sou dos que a Pátria só adoram",
Como adora o regato a própria  serra:
Deus numa gleba apenas não se encerra;
Se visita esses mundos, que demoram

De céu a céu, também cafres o imploram,
Mas deixai que uma lágrima sincera
Possam os olhos dar, olhando-a, à terra
Donde a primeira vez aos céus se foram.

Sim, ver-te, Portugal! eu choro ao ver-te!..
Como ao Leão gigante do Ocidente
Lhe cai a garra, e em nada se converte!..

Não é isto o que eu choro: o que me dói
É como aquela juba omnipotente 
Em penas de pavão se decompõe!..

(Coimbra, Janeiro, 1863, Antero de Quental)
AC