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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

P O E S I A
(cada vez com maior actualidade)

Sem que discurso eu pedisse,
Ele falou e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

P'ra mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem de trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.

Mentiu com habilidade,
Fez quantas mentiras quis,
Agora fala verdade,
Ninguém crê no que ele diz.

Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério


           António Aleixo


O Aleixo é capaz de ter tido pensamento premonitório, pensou, vão aparecer um dia dois ou três ou quatro mariolas que farão sempre um ar pungido de cada vez que discursarem ou falarem para certas entidades, discursarão longa e insuportavelmente, ficarão muito contentinhos da Silva, esquecendo como escreveu o Aleixo - 

Sem que discurso eu pedisse,
Ele falou e eu escutei.

Eu tomei a decisão de já raramente o escutar ou ler !

António Cabral

sexta-feira, 24 de julho de 2026

ORFEU

A revista Orfeu foi fundada salvo erro em 1915.

Creio não exagerar se disser que esta revista revolucionou muito o conceito de poesia que então se vivia em Portugal.

Lembrei-me disto ao estar a ler certos poemas.

E lembrei-me disto ao pensar em alguns dos nossos excelentes poetas.

A nossa cultura é pouco cuidada pelo Estado, como gostam de dizer as elites. Mas o Estado é sobretudo materializado pelos sucessivos titulares dos órgãos de soberania Assembleia da República e Governo e Presidente da República. 

Materializado por pessoas! Nisto, os tribunais têm escassa responsabilidade.

No passado foi pior, na minha opinião temos melhorado bastante mas devíamos estar melhor.

A nossa cultura é rica, opinião pessoal naturalmente, rica em poetas,  prosadores, escritores.

A nossa cultura é rica, artistas, actores, declamadores, encenadores etc.

A nossa vida política é como a cultura, está cheia de poetas, artistas, declamadores, actores, mas sobretudo cheia de abencerragens, estrelas, palradores, iluminados, cozinheiros de avental, etc. 

É como estamos. Haja democrática paciência para aturar isto.

Bom dia, e uma boa 6ª Feira.
Saúde, o Euromilhões da vida.
Boa sorte e felicidades.

AC

CINCO  HORAS 

Minha mesa no Café, 

quero-lhe tanto . . . A garrida,

toda de pedra brunida,

que linda e que fresca que é!


Sobre ela posso escrever

os meus versos prateados,

com estranheza dos criados

que me olham sem perceber . . . 

. . . . . . 

(Mário de Sá-Carneiro)

AC

sábado, 23 de maio de 2026

"Ó sino da minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro da minha alma" 

(Fernando Pessoa)


Este pedaço da poesia Pessoana faz recordar-me a Torre de Lucano ou do Relógio na minha aldeia favorita (Monsanto)


AC

domingo, 17 de maio de 2026

P O E S I A
(cada vez com maior actualidade)

Sem que discurso eu pedisse,
Ele falou e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

P'ra mentira ser segura
E atingir profundidade,
Tem de trazer à mistura
Qualquer coisa de verdade.

Mentiu com habilidade,
Fez quantas mentiras quis,
Agora fala verdade,
Ninguém crê no que ele diz.

Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério


           António Aleixo


António Cabral

quinta-feira, 9 de abril de 2026

CULTURA

Perdi-me dentro de mim

Porque eu era labirinto,

E hoje, quando me sinto, 

É com saudades de mim.

(Mário de Sá-Carneiro)

AC

terça-feira, 7 de abril de 2026

CULTURA

Por esta solidão, que não consente
Nem do Sol, nem da Lua a claridade,
Ralado o peito já pela saudade,
Dou mil gemidos a Marília ausente:

De seus crimes a mancha ainda recente
Lava Amor, e triunfa de verdade;
A beleza, apesar da falsidade,
Me ocupa o coração, me ocupa a mente:

Lembram-me aqueles olhos tentadores,
Aquelas mãos, aquele riso, aquela
Boca suave, que respira amores. . .

Ah! Trazei-me, ilusões, a ingrata, a bela!
Pintai-me vós, oh sonhos, entre flores
Suspirando outra vez nos braços dela!

(Bocage)

AC

quinta-feira, 2 de abril de 2026

" TRAZES OS BRINCOS COMPRIDOS

AQUELES BRINCOS QE SÃO

COMO AS SAUDADES QUE TEMOS

A PENDER DO CORAÇÃO "


Fernando Pessoa

AC

segunda-feira, 30 de março de 2026

CULTURA

As fadas eu creio nelas!

(….)

Algumas em fonte fria

Escondem-se enquanto é dia

Saem só ao escurecer…

Outras debaixo da terra,

Nas grutas verdes da serra,

É que se vão esconder.


O vestir… são tais riquezas,

Que rainhas, nem princesas

Nenhuma assim se vestiu!

(…..)

(Antero de Quental)

quarta-feira, 11 de março de 2026

UMA QUADRA TEM POUCO ESPAÇO

MAS EU FICO SATISFEITO

QUANDO NUMA QUADRA FAÇO

ALGUMA COISA DE JEITO

(António Aleixo)

AC

 

quarta-feira, 4 de março de 2026

Deixa ficar a flor, 
a morte na gaveta, 
o tempo no degrau.

Conheces o degrau:
o sétimo degrau
depois do patamar;
o que range ao passares;
o que foi esconderijo
do maço de cigarros
fumado às escondidas . . . 

Deixa ficar a flor.

E nem murmures. Deixa
o tempo no degrau,
a morte na gaveta.
. . . . . 
(David Mourão Ferreira)

António Cabral (AC)

segunda-feira, 2 de março de 2026

Repetindo-me, depois deste Domingo solarengo


AS  MÃOS

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema - e são de terra.
Com mãos se faz a guerra - e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedra estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

(Manuel Alegre)

AC

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

CESÁRIO  VERDE
Nasceu em Lisboa em 1855. Morreu jovem (1886).
Deixou por inúmeros jornais e revistas e noutros locais as suas poesias que viriam a ser coligidas por um amigo - "O Livro de Cesário verde".
AC

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

CULTURA

Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

(António Gedeão)

AC