LEÃO IV
Soube que o Papa tem que ser submetido a uma intervenção cirúrgica por lhe ter sido detectado algo menos bom num pulmão.
Por lamentável experiência da vida, tenho alguma noção indirecta do que isso é, um dos meus melhores amigos (falecido, fez dois anos no passado dia 22 de Junho) foi operado a um pulmão há pouco mais de sete anos, porque algo de menos bom foi descoberto num pulmão. Parte do pulmão afectado foi extraído.
Passaram alguns anos e o terrível aconteceu.
Oxalá algo diferente aconteça com o Papa.
Mas a propósito de saúde e doença, recordo que há tempos o Papa condenou veementemente a legalização do aborto, e a eutanásia "sob pretexto de falsa compaixão".
O Papa tem razão (na minha opinião, naturalmente) quando afirma que o que é legal não é necessariamente moral.
Eu quase não tenho certezas nesta vida.
Naturalmente, é minha opinião, que não pode ser considerado normal / trivial o acto de pôr fim a uma vida na forma medicamente assistida.
Não afirmo que o Papa não tenha a noção de que existem quadros terríveis, patologias específicas, dores físicas e muitas vezes dores íntimas quando o corpo deixou de ter dignidade mas o cérebro continua a funcionar em boa parte.
Uma lei não deve fazer-nos perder a certeza da dignidade, é evidente para qualquer de nós, pessoas decentes, sensatas, humanistas, fraternas, solidárias.
As pessoas têm o direito de ser apoiadas na velhice e na doença, e uma sociedade organizada e sadia tem que cuidar dos mais debilitados.
O Papa tem razão (na minha opinião, naturalmente) quando afirma que o que é legal não é necessariamente moral.
Eu quase não tenho certezas nesta vida.
Mas tenho dúvidas, tenho cada vez mais dúvidas neste mundo tresloucado.
E uma das dúvidas que tenho é exactamente sobre esta questão terrível - a morte medicamente assistida !
O Papa defende veementemente que a morte medicamente assistida deve ser firmemente rejeitada, deve ser rejeitada a tentação de tirar a vida sob o pretexto de uma falsa compaixão.
Naturalmente, é minha opinião, que não pode ser considerado normal / trivial o acto de pôr fim a uma vida na forma medicamente assistida.
Mas a realidade da vida mostra que por vezes ocorrem, desenvolvem-se, fragilidades terríveis.
E também aqui se coloca, sem sombra de dúvida, a questão indeclinável - a dignidade da pessoa humana
Não afirmo que o Papa não tenha a noção de que existem quadros terríveis, patologias específicas, dores físicas e muitas vezes dores íntimas quando o corpo deixou de ter dignidade mas o cérebro continua a funcionar em boa parte.
E aí surge o sofrimento horrível, o sofrimento de constactar que o corpo está ali, embrulhado em fraldas, na cama, quase inerte, ausência completa de forças, a designada vida de porco - comer e estar ali - e, portanto, a questão:
- não será legítimo e razoável interrogarmos-nos se, um ser humano, nessas condições, cérebro ainda lúcido, corpo quase inerte, sem forças para nada, sempre na cama, com a probabilidade de assim permanecer meses, fralda mudada periodicamente, é um ser humano ungido de dignidade?
Tenho dúvidas!
Uma lei não deve fazer-nos perder a certeza da dignidade, é evidente para qualquer de nós, pessoas decentes, sensatas, humanistas, fraternas, solidárias.
As pessoas têm o direito de ser apoiadas na velhice e na doença, e uma sociedade organizada e sadia tem que cuidar dos mais debilitados.
Mas tenho a maior das dúvidas se não deve estar em letra de lei, para quem o quiser assumir, em tempo de vida activa, sadia, e de forma juridicamente clara e rigorosa, definir que, se um dia estiver em determinadas condiçoes de saúde muito diminuídas, ao fim de X tempo ao seu sofrimento deve ser posto fim na forma de medicamente assitida.
Aos profissionais de saúde é exigível cuidar dedicadamente de todas as pessoas doentes e em sofrimento.
Tenho portanto dúvidas quando a isto, a morte medicamente assistida.
Mas não tenho dúvidas NENHUMAS de que é TRÁGICO e NADA DIGNO diariamente observar uma pessoa com mais de 101 anos com o cérebro ainda a funcionar a bem mais de 70%, com o corpo já sem dignidade nenhuma, e diariamente implorar - oh meu Deus, que é que eu estou aqui a fazer?
O Papa acha que assim deve permanecer indefinidamente.
Eu tenho muitas dúvidas.
António Cabral (AC)
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