António Cabral (AC)
CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA
Entre 2016 e 2018 fui Presidente da Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM). Nesse período testemunhei, e tentei lutar, contra o desmantelamento dos mecanismos de controle construídos para trazer exigência e rigor ao sistema educativo.
Rankings de escolas, Metas de Aprendizagem, Programas escolares coerentes e exigentes, exames nacionais no final de cada ciclo de aprendizagem, avaliação de manuais escolares. Estes pilares de sustentação foram sendo colocados 2000 e 2015 por governos e ministros de diferentes cores politicas. Em consequência deste conjunto coerente de medidas verificou-se um progresso extraordinário nos estudos PISA e TIMSS. Portugal foi considerado um caso de estudo; em 2015 ultrapassou a mítica Finlândia.
A partir de 2016 tudo mudou. O sistema foi desmantelado e cada um destes pilares foi sendo destruído, por vezes porque sim. Os exames nacionais de 4º e 6º ano foram eliminados por mero comércio politico. As Metas e os Programas passaram a letra morta, sendo substituídas por “Aprendizagens Essenciais” que, na prática, reduziram em até 25% os conteúdos programáticos.
Para o justificar teoricamente foi definido em 2017 um patético “Perfil do Aluno para o século XXI”, em que se afirmava que os alunos agora eram diferentes, não precisavam de aprender conteúdos e que o importante era o acesso à Internet.
E, ainda mais recentemente, foram definidas “Novas Aprendizagens Essenciais” (que este ano entram em vigor em todo o Secundário), que completaram o caminho de desvalorização do conhecimento.
A SPM, enquanto sociedade científica para a Matemática e parceira do Ministério, tentou lutar contra este processo de degradação acelerada do sistema educativo.
A SPM, enquanto sociedade científica para a Matemática e parceira do Ministério, tentou lutar contra este processo de degradação acelerada do sistema educativo.
No entanto, e pela primeira vez desde o 25 de Abril de 1974, um Ministro da Educação recusou a colaboração da SPM. Criou grupos de trabalho para as AEs e vetou sempre, liminarmente, a nossa participação nesses grupos ou a nossa colaboração com o Ministério. A defesa da exigência e do rigor teriam sido certamente incómodas.
Porque é que só agora isto é visível?
Porque é que só agora isto é visível?
A SPM, em particular através do seu Presidente (yours truly), foi o mais vocal possível em relação a este processo entre 2016 e 2018.
Mas os efeitos de políticas públicas em Educação só se vêem a médio-longo prazo; e, com honrosas excepções, não houve no momento grande atenção ao assunto.
Aconteceu-nos um pouco como ao sapo mergulhado em água quente: tudo aconteceu lentamente e agora descobrimos que estamos cozidos. Ou fritos.
Todo este deprimente processo fez-nos retroceder um quarto de século. Pelo menos o PISA obriga-nos a olhar de frente para a realidade.
Todo este deprimente processo fez-nos retroceder um quarto de século. Pelo menos o PISA obriga-nos a olhar de frente para a realidade.
Jorge Buescu
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