terça-feira, 19 de maio de 2015

Recordações. 

E,  já agora, a propósito do advogado formalmente designado Ministro da Defesa Nacional (MDN).
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 42 anos que, quando o meu navio navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate/bordadas, e o meu comandante estava na ponte alta com o comandante dos comandos africanos que levávamos a bordo, fui/ fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, na Guiné, hoje Guiné-Bissau. Como outros, que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Imensa sorte.

Estava uma noite de espectacular luar.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o primeiro e único projéctil/ granada lançado pelos então guerrilheiros do PAIGC. Houve feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive um rombo abaixo da linha de água.
Passadas semanas, um relatório da PIDE/DGS, confirmou a morte de todo o grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado que estava no exterior do navio e portanto fora do seu ambiente terrestre natural, e que terá durado para aí um minuto no máximo, varreu com aço literalmente toda a zona. Como se viu no local na manhã seguinte ao ataque, havia uma zona enorme quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos mais pequenos, sem casca. Tudo branco. 
O tempo voa, 42 anos! 


Eu não esqueço. E recordo, com emoção, todos os que estavam comigo naquela altura, e não vejo há muitos anos. Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973. Muitos dos que conheci e com quem ao longo dos anos se partilharam experiências, estão felizmente ainda vivos.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. Mas sobretudo não sabem respeitar
Não respeitam os que como eu andaram na guerra e que felizmente regressaram quase sem sequelas. 
Mas acima de tudo não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas e os familiares dos que tombaram pela Pátria. Esquecem além disso, o que a Constituição da República Portuguesa (CRP) estabelece, e o que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar. 
Dever de tutela, respeito pela lei, verticalidade, honestidade intelectual, respeito pela história do País, estes e outros valores são lixo para a “gentinha” que desgraça o País.

Os tempos são outros, a realidade do País é diferente, as missões e os meios e designadamente os recursos humanos tem naturalmente que se conformar ás realidades do presente, mas devendo olhar e acautelar o futuro.
Concretamente, o advogado que formalmente foi empossado como MDN, manifesta constantemente, sem qualquer pingo de vergonha, uma postura deplorável em relação ás Forças Armadas. Tem conseguido com variações próprias, algumas para pior, continuar na senda lastimável dos seus antecessores, TODOS. E quanto à consensualização com as chefias militares que sempre vaidosamente apregoa, muito haveria a dizer.
Lamentável. E sobretudo deplorável o teor eleitoralista e em algumas fases verdadeiramente falacioso, da longa entrevista que o actual titular do cargo concedeu há poucos dias a jornalistas da Antena 1. 

E se falo em eleitoralismo é simplesmente porque, constitucionalmente, as forças armadas são apartidárias e estão apenas ao serviço do povo português, não devendo nunca ser evocadas em verdadeira e nojenta pré-campanha eleitoral. Uma entrevista que pareceu muito um frete combinado, pois foram feitas várias afirmações a que nenhum dos dois jornalistas quis exercer o seu dever de imediato pedir aprofundados esclarecimentos. Uma vergonha, de parte a parte. 
Vou voltar a escutar a entrevista, e regressarei ao assunto.
António Cabral, cAlmirante, reformado.

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