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quarta-feira, 13 de maio de 2026

RECORDAÇÕES
. . . . . .
"Antes do 25 de Abril, não era possível discutir os problemas africanos.
Depois do 25 de Abril, tudo se passa como se não fosse necessário, ou melhor, como se já não fosse necessário"
. . . . . 
(Eduardo Lourenço)

AC

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

RECORDANDO

terça-feira, 30 de maio de 2017

O PR e o seu irmão gémeo, o Cte Supremo das FA
O Presidente da República esteve hoje na Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA) e fez uma intervenção.
Pelo que leio nos jornais uma intervenção bonita mas……..

O actual titular do órgão de soberania Presidente da República (Artº 110º CRP) é um bom palestrante, é um excelente comunicador, fala muito bem, é de uma inteligência superior. Inteligente como é, e sendo um homem do regime desde o 25 de Abril e filho de um político importante de antes do 25 de Abril, defende-se. Percebe-se.
Mas, porque doura tanto a pílula? Sublinhados meus.

Terá afirmado -  “houve uma desatenção em relação a estes heróis”, combatentes da guerra colonial, e que “o Estado português está aos poucos a fazer-lhes justiça, é muito lento, já passaram mais de 40 anos, mas continuamos a lutar por essa justiça, eles continuam a lutar por essa justiça, e o Presidente da República continua a apoiá-los nessa luta”.

O PR terá também dito - ....“homens que, com sentimento patriótico e espírito de altruísmo, defenderam o seu país quando a isso foram chamados”.....“O Presidente da República manifesta aqui perante todos vós a rendida admiração, penhorada, de todos os portugueses”.

Um remate final terá sido - “Mesmo quando alguns dos mais responsáveis demoraram ou demoram a fazer-vos integral justiça, Portugal, que o mesmo é dizer milhões de portugueses, não vos esqueceram, não vos esquecem, não esquecem a vossa doação nacional. Não esquecem hoje, e nunca esquecerão no futuro. Muito obrigado”.

Como sempre respeito as opiniões alheias. 
Oxalá respeitem as minhas.
Antes de continuar, sou um dos milhares de felizardos que não trouxeram sequelas especiais da guerra em África.
Mas muitos milhares de portugueses não tiveram essa sorte e muitos portugueses morreram em África.

Começo por aqui. 
Antes do 25 de Abril, o que fizeram os políticos às famílias enlutadas?
O que fizeram pelos estropiados, física psicológica e moralmente?

Mas continuo, perguntando, e depois do 25 de Abril, o que lhes fizeram os políticos do regime, com especiais culpas para todos os deputados mas particularmente para os políticos e governantes do CDS, PS e PSD partido a que pertence Marcelo Rebelo de Sousa? 
E o que fizeram os sucessivos Presidentes da República depois de Ramalho Eanes?

De maneira que, quando leio certas partes do discurso do actual PR sinto algo que não sei bem descrever. Muito afecto, nada de concreto. Mas há muitos que gostam.  
Pode dizer-se, outros houve que não se sensibilizaram. Certo. 
Alturas houve que os representantes das várias associações de militares entre elas a ADFA, nem lugar sentado lhes atribuíam nas tribunas durante cerimónias militares. 
Mas é esta ternura que resolve os problemas aos deficientes?

Justiça lenta? Qual, em concreto?
Os portugueses não vos esqueceram, nem esquecem?
Eu não me esqueço, e anualmente falo sobre isto.

Uma coisa tenho como segura, a esmagadora maioria dos políticos desde 25 de Abril de 1974 esteve e está-se........(como é que dizia aquela criatura que é formalmente a 2ª figura do Estado?.....pois) para as Forças Armadas, para os deficientes das FA, para os traumatizados.
Um claro exemplo do Portugal no seu melhor.
AC

segunda-feira, 28 de abril de 2025

REALIDADES

Sou, também, da geração que andou na guerra, concretamente, 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973, como oficial imediato num patrulha grande da Marinha, na então Guiné portuguesa.

Sou da geração que conheceu os tiros, dei várias vezes ordem de fogo para os canhões de 40 m/m do navio, um à proa e outro à popa.

Sou da geração que conheceu o combate a sério, na passagem de 19 para 20 de Maio de 1973. E ao longo desses 21 meses de comissão em África muitos sustos apanhou e vários horrores viu.

Sou dos muito afortunados que regressaram vivos, não estropiado, mas infelizmente com o ouvido esquerdo afectado com as explosões desse ataque ao findar desse 19 de Maio. Ouvido que, com a idade, vai denunciando mais o dano de Maio de 1973.

Ando muito triste com a situação no meu país.

Vivo felizmente no regime de direito democrático. 

Tenho esperança, confio e anseio por um futuro melhor para os meus filhos e netos. Mas o horizonte está cinzento.

Tento perceber o mundo, sempre, e não me fio nos aldrabões que pululam a vertente interna e a externa.

Nunca fui carreirista, acomodado, e apesar de ter subido quase ao topo máximo na carreira, em 2006 ficou evidente a consequência da "cor dos meus olhos e o nunca ter aceitado ser submisso". Mascarando, evidentemente, com normas legais, sabendo-se, como no decorrer dos tempos, as normas foram periodicamente suavizadas para os de olhos de cor bonita.

Sei o que é a honra, tenho coluna vertebral bem direitinha embora às vezes nas S e nas L já surjam sinais do passar dos anos. Revolto-me contra as injustiças, as indignidades, as mentiras, o politicamente correcto, não suporto os acomodados, nem respeito quem não se dá ao respeito, independentemente de muitos lhes dedicarem o respeitinho serôdio porque sim. Borrifo-me para modas, Wokes e quejandos.

Respeito sempre as opiniões de outrem, discordo umas vezes, concordo outras. Sou dono da minha cabeça, do meu coração. Apenas.

António Cabral

domingo, 13 de abril de 2025

 

AC

CARLOS  de  MATOS  GOMES
Faleceu o coronel Carlos de Matos Gomes.
Sinceras condolências à família.

O triste desaparecimento (prematuro, por doença) deste militar recorda-me várias coisas.
Recorda-me, 
- a guerra em África e concretamente a guerra na então Guiné entre as forças do PAIGC e as nossas forças armadas.
- o difícil ano de 1973, 
- a morte /assassinato de Amílcar Cabral em Janeiro desse ano, 
- o interregno de combates depois disso, PAIGC um pouco aturdido, 
- o reacender ainda mais violento da guerra salvo erro a partir de Março desse ano ,
- o início do abate de aviões por parte do PAIGC,
- o ataque ao navio onde eu servia como oficial imediato no cumprimento da comissão de serviço que me fora determinada,
- e Carlos de Matos Gomes.

Conheci fugazmente este militar do Exército, esteve no navio por duas breves ocasiões.
Foi fácil perceber que era um dos que já conspirava, com outros, pois o 25 de Abril teve como um dos pontos de partida fortes exactamente as reuniões de vários dos oficiais que na Guiné cumpriam comissões de serviço. E sentia-se o fervilhar, mesmo naqueles que como eu e muitos não viviam essa clandestinidade.

Carlos de Matos Gomes foi um dos oficiais que comandaram centenas dos nossos comandos na incursão complexa e difícil Senegal adentro, para destruir uma famosa base do PAIGC, de onde flagelavam os quartéis do Exército, como a mártir Guidage. 
Kumbamori foi destruída.

20 de Maio de 1973, Guiné, ficou para a história da guerra em África.
O dia anterior, 19 de Maio, ficou na minha história de vida e nas dos restantes militares que compunham a guarnição do navio. 
Pelas 2340 horas fomos atacados. 
Podiam ter morrido muitos, eu incluído, mas houve vários feridos e um morto, por sinal um dos nossos comandos negros integrando uma pequena parte da força que retirou do Senegal e que o navio recolheu. 

Sou, certamente, um dos muitos concidadãos que dele quase nada sabe, a não ser o esboço com que dele fiquei na Guiné e que acima já referi mas, sobretudo, o que dele conheço pelos seus livros de que tenho quase todos, pelas suas análises, e pelo que foi escrevendo e dizendo ao longo dos anos.

Mas, atrevimento que possa ser considerado, é do quadro que conheço que classifico este meu concidadão como um Homem Decente, e de Grande Honestidade Intelectual.

Descanse em paz Carlos de Matos Gomes.
António Cabral

domingo, 19 de maio de 2024

AINDA  SÓ  PASSARAM  51 ANOS
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 51 anos que, quando o  navio em que eu prestava serviço durante a guerra em África navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate/bordadas, fui/ fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, na Guiné, hoje Guiné-Bissau, numa zona mais acima da base dos fuzileiros, Ganturé. 

Sobrevivi, eu e quase todos, alguns feridos ligeiros, um comando africano faleceu e o navio teve danos diversos mas que nada impediram que continuasse operacional.

51 !!!!!!!
António Cabral

terça-feira, 14 de maio de 2024

sexta-feira, 19 de maio de 2023

MEMÓRIAS
Em 19 de Maio de 2015 publiquei este texto: 

Recordações. 
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 42 anos que, quando o meu navio navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate/bordadas, fui/ fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, na Guiné, hoje Guiné-Bissau. Como outros, que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Estava uma noite de espectacular luar.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o primeiro e único projéctil/ granada lançado pelos então guerrilheiros do PAIGC. Houve feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive um rombo abaixo da linha de água.
Passadas semanas, um relatório da PIDE/DGS, confirmou a morte de todo o grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado que estava no exterior e que terá durado para aí um minuto no máximo, varreu com aço literalmente toda a zona. Como se viu no local na manhã seguinte ao ataque, uma zona enorme quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos pequenos, sem casca. Tudo branco. O tempo voa, 42 anos!
Eu não esqueço. E recordo, com emoção, todos os que estavam comigo, e não vejo há muitos anos. Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. Mas sobretudo não sabem respeitar.


Hoje, pelas 2340 horas terão passado 50 anos. 
Continua a parecer-me que ocorreu há poucos meses.

António Cabral

terça-feira, 2 de maio de 2023

MEMÓRIAS

O nº 76 da Visão História/ Abril/Maio de 2023, páginas 50 a 57 traz um artigo/ testemunho de Pedro Lauret intitulado - "Guiné, o princípio do fim". 
Este testemunho, trouxe-me à memória muitas coisas e nomeadamente todo o ano de 1973 que ambos vivemos na Guiné, onde se inclui aquela fase concreta e trágica que ele relata.

Tenho ainda boa memória mas, naturalmente, não me lembro 100 % de tudo e pode acontecer que, quer em relação aos meus tempos de África 29OUT1971 - 28JUL1973 e que aqui me importa agora, quer em relação a outros tempos da minha vida privada e profissional, possa escapar-me um ou outro detalhe ou ter hoje alguma dúvida sobre acontecimentos passados.

Ele poderá confirmar, ou o Lupi se ler estas linhas, mas se a memória não me atraiçoa muito, o NRP Hidra para onde fui mandado cumprir uma comissão de serviço e ali fui oficial imediato do meu estimado então comandante o então 1º Tenente Blanc Lupi, (primo do cavaleiro) esteve no rio Cacine naquela zona, depois do NRP Orion ter participado em tudo aquilo que está descrito na Visão. Foi uma missão no rio Cacine que recordo ter sido complicada.

Mas o relato do Pedro Lauret fez recordar-me outros eventos e outras datas. Dois ou três exemplos.

Relativamente à minagem da estrada para Binta em Maio de 1973, o meu navio foi rio Cacheu acima poucos dias depois e, mais uma vez se a memória não me atraiçoa, creio que embarcámos pessoal do destacamento de fuzileiros comandado pelo saudoso camarada de armas Alves de Jesus.

Recordo, também, ter fotografado vários dos nossos helicópteros Allouette a passar sobre o Cacheu, e rumo a Norte!!!!!!
Recordo, também, termos recebido a bordo quem tinha vindo de Norte, e confessar-nos na câmara de oficiais - tenho os pés todos f******!

Recordo, também, os últimos dias de Março de 1973, tinha eu vindo a Lisboa creio que por uma semana, e estava cá há dois dias quando o primeiro avião Fiat foi abatido.

Recordo, também, que não muitos dias antes de 20 de Janeiro de 1973, com o navio atracado em Ganturé, ouvi (eu e outros) de boca importante e já não entre nós - "se tivermos sorte qualquer dia o Amílcar desaparece".
Passaram poucos dias, e Amílcar Cabral foi assassinado naquele dia 20. Felizmente há quem se recorde bem deste período histórico.

Recordo, também, com saudade, camaradas de armas com quem convivi naquele período em África. 
Infelizmente, alguns já nos deixaram, como é o caso do Coelho Rita, então comandante do NRP Orion, com quem convivi muito em Bissau pois ele era então um solteirão inveterado e eu solteiro geográfico.

Recordo, para terminar, o mês de Maio de 1973 e, particularmente, o final do dia 19, quando pelas 2340 horas navegando rio Cacheu acima, o navio foi atacado por Bombordo. 
Evento que anualmente aqui recordo.

Evento que me marcou para toda a vida, evento de guerra em que, com a infeliz excepção de um militar Comando, nesses dia ninguém mais morreu, tendo ficado feridos sem gravidade alguns militares da guarnição.

Deixo fotografias da época nomeadamente a do NRP Hidra:
1ª - diferentes actividades no rio Cacheu,
2ª - descrição sumária do navio,
3ª - a navegar no rio Cacheu
4ª - no plano inclinado dos estaleiros navais em Bissau, a reparar os estragos decorrentes do ataque de 19 de Maio de 1973. 

Parece que foi outro dia.
António Cabral

quinta-feira, 19 de maio de 2022

ANDANDO  PELO  ARQUIVO  ANTIGO

RECORDAÇÕES. 19 Maio 1973. 
Para muitos, esse 19 de Maio foi mais um dia, mas nesse já distante 1973 foi para mim um dia muito diferente, e ficou uma data marcante na minha vida. 
E a hora do que então aconteceu não mais a esqueci, 2340 h. 
Eu e outros não morremos nessa noite porque não era a hora.
Estava na Guiné, então território português, colónia/ província ultramarina, a cumprir o mesmo que milhares e milhares de concidadãos, e cumpria a chamada comissão de serviço a bordo deste navio que mostro em baixo, a lancha de fiscalização grande (LFG), o NRP "Hidra" (NRP= Navio da República Portuguesa).

Faz agora anos que nessa noite, quando o navio navegava/ patrulhava em ocultação total de luzes e em postos de combate/ bordadas (metade da guarnição), fomos atacados por bombordo no rio Cacheu, o rio a Norte mais perto do Senegal. 
Como quase todos os outros que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Estava uma noite de espectacular luar.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o único projéctil/ granada foguete lançado por um dos então chamados guerrilheiros do PAIGC. Houve vários feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive rombos abaixo da linha de água.

Passadas semanas, um relatório da DGS (Direcção Geral de Segurança), confirmou a morte de todo o pequeno grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores até junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado (dezenas) que estava no exterior e que terá durado muitos segundos mas seguramente menos que um minuto, varreu literalmente com aço toda a zona. 
Verificou-se na manhã seguinte que na margem do local do ataque, havia uma zona quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos menos grossos, sem casca. Tudo madeira branca. 
O tempo voa, passaram-se décadas! 

Eu não esqueço. 
E recordo, com emoção, os que estavam comigo, e que nunca mais vi depois do regresso à metrópole.  
Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. 
Mas sobretudo não sabem respeitar, passado, história, sofrimento, dor. 

Não respeitam os que como eu andaram na guerra e que, felizmente, regressaram quase sem sequelas. 
Mas acima de tudo não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas, nem os familiares dos que tombaram pela Pátria. E muitos dos mortos não foram trazidos para Portugal, por lá continuam. 
Um país que trata assim os militares falecidos em combate dá naquilo a que crescentemente se assiste.

Esquecem além disso, o que a Lei Primeira/ Constituição estabelece. Esquecem ou melhor, querem lá saber, do que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar, pois que defesa nacional tem, além da militar, as componentes, económica, financeira, diplomática, transportes, etc. 
Esquecem, ou melhor, querem lá saber, do dever de tutela, do respeito pela lei, do que é verticalidade ou honestidade intelectual.
Querem lá saber, da história do País e dos que por ele lutaram e muitos deram a própria vida, tudo lixo para a “gentinha” que vai governando (?) o País. Adiante.

A primeira fotografia se não me falha a memória é de época anterior a esta data.
A segunda é, salvo erro, de 10 de Junho do mesmo ano, estando o navio em seco, no estaleiro em Bissau, em reparações, pelas consequências do ataque que sofremos naquela data. 
Coincidentemente ou não, o ataque deu-se logo pouco depois de uma operação portuguesa dentro do Senegal, de que tenho uns "slides" coloridos dos nossos helicópteros a voar por cima do rio Cacheu, para lá e para cá.
Ficou gravado para sempre. 
Lembro-me de praticamente tudo como se fosse hoje.
Passaram-se 49 anos. 
Em 28 de Julho próximo passam 49 anos que acabou esse pesadelo de 21 meses em África, iniciado a 29 de Outubro de 1971.
49 ANOS,……... SAFA, como diria o "outro".

António Cabral (AC)

quarta-feira, 28 de julho de 2021

28 JULHO

Faz hoje a meio da tarde 48 anos. Foi em 1973, que regressei da Guiné depois de para lá ter ido em 29 de Outubro de 1971, para cumprir 21 meses na guerra.

Regressei a bordo de um dos aviões Boeing 707 da nossa Força Aérea, que descolou do aeroporto de Bissau numa subida brutal a fazer estremecer o avião assustadoramente. O objectivo era ganhar altura o mais rápido possível e assim diminuir as hipóteses de se tornar alvo dos mísseis de que nessa altura o PAIGC dispunha. 

Parece que foi outro dia!

Cheguei fisicamente inteiro, felizmente sem danos intestinais e sezões como aconteceu a milhares de portugueses, psicologicamente e psiquicamente relativamente bem, "malgré tout", e em particular dada a ansiedade do período 19 de Maio - 28 Julho de 1973, ansiedade que o ataque sofrido às 2340 horas de 19 de Maio despoletou.

O tempo voa, estou menos novo.

AC

quarta-feira, 19 de maio de 2021

AINDA  SÓ  PASSARAM  48  ANOS !
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 48 anos que, quando
o navio em que eu prestava serviço durante a guerra em África
navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate
/bordadas, fui/ fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, 
na Guiné, hoje Guiné-Bissau, numa zona mais acima da
base dos fuzileiros, Ganturé. 
Eu e outros não morremos porque não era para ser naquele dia
e hora e local. Foi o susto maior de vários durante os 21
meses de comissão de serviço.
48 !!!!!!!
António Cabral

quarta-feira, 17 de março de 2021

MARCELO, o Comandante Supremo  
No próximo dia 25 de Abril completam-se 47 anos sobre, a revolução dos cravos (para uns), mas na realidade sobretudo a ira dos militares pelo cansaço devido à guerra em África desde 1961 e que os fez derrubar o regime que vigorava. E fizeram muito bem.

Como é sabido, fundamentalmente o PCP transformou a revolta militar numa revolução popular. Seguiu-se depois o famoso (!?!?!) PREC, depois a extinção formal do PREC, a seguir uma certa estabilização institucional felizmente com a entrada em vigor da CRP, mais a eleição do Presidente da República, a extinção do Conselho da Revolução e uma já relevante alteração do texto constitucional. Finalmente, a promulgação da lei Freitas do Amaral de 1982 - lei pateticamente chamada da defesa nacional e das Forças Armadas (FA).

Daí para cá a instituição militar foi sofrendo sucessivas transformações (!?!?), pela mão destruidora dos dois maiores partidos (PSD, PS) mas sempre com o beneplácito de todos os restantes partidos na AR e dos presidentes da República/ comandantes supremos das forças armadas, ainda que a extrema esquerda sempre fosse dando uma no cravo e outra na ferradura. 
Uma das delícias destas coisas/ transformações e de que alguns como o meu melhor amigo militar tiveram o privilégio de testemunhar, foi assistir e acompanhar algumas vezes a pomposa comissão parlamentar de defesa, que sempre deu boas evidências do grau de incompetência parlamentar sobre os temas de defesa nacional e incluindo sobre as FA, que se constituem tão só como um dos seus pilares - o pilar militar.

Aquilo a que chamo acima transformações, de propósito, e para ridicularizar, nunca passaram de:
> substituir militares no edifício rosa ao Restelo em frente ao estádio de futebol por uma montanha de civis (não estou a dizer nem bem nem mal, só a lembrar), 
> a encher o ministério da defesa nacional com quadros diversos (antes de 1982 tinha uma dimensão de recursos humanos ridícula), 
> inventar uma lei de programação militar que foi sempre sendo defraudada com cativações, 
> rebentar com o subsistema de saúde dos militares, 
> desfigurar a arquitectura legislativa sobre condição militar,
> paulatina e incessantemente reduzir sempre todos os anos os efectivos das FA, 
> conseguir substituir alguns meios como navios aviões e helicópteros, 
> vender ao desbarato quartéis, hospitais, edifícios vários com a intenção teórica de reverter integralmente esses recursos financeiros para as FA, 
> conseguir ter periodicamente forças e alguns meios ao serviço da NATO e da ONU assim descomprimindo o ambiente interno militar dados os salários e as crescentes dificuldades de ordem diversa,
> conseguir por inação e péssimas políticas haver cada vez menos jovens com interesse em abraçar a profissão militar,
> degradar cada vez mais os salários dos militares, etc.

Isto sinteticamente recordado de uma panóplia maior, pode dizer-se que as FA foram transformadas? Das FA dos tempos em África estão hoje adequadas ao Portugal dos séculos XX e XXI?
Cada cabeça sua sentença, mas eu digo não. E essa demonstração foi sendo feita ao longo dos últimos anos por muitos militares conceituados e por alguns civis.

Naturalmente, nos militares existem os mesmos exactos vícios, virtudes, patriotismo, o servir a comunidade (a esmagadora maioria) ou servir-se e, obviamente também, muito exacerbado narcisismo em certas épocas, e certas vaidades. Tal qual no mundo civil! 

Convirá lembrar a Cravinhos e gentinha da sua laia que - "sendo certo que toda a nação tem o problema intrínseco da sua defesa, esteja ou não organizada politicamente em Estado-Nação, os militares são a certeza formal da sua possibilidade, e as sociedades sempre aceitaram esta especialização dos civis, como forma de garantir a própria organização e eficácia de um sentir colectivo".

A Cravinhos e outros, lembrar que - "as sociedades distinguem os militares, não por razões de deferência temerosa, mas como forma de reconhecimento à diferenciada função em que se empenham, de forma comumente disciplinada e previsível. É que esta opção de vida por um serviço colectivo é valorizada por uns, inutilizada por outros e mesmo vilipendiada, mas ninguém fica indiferente à realidade factual que ela encerra e que, no mais recôndito, alude ao conceito de nacionalidade, âmbito de particular relevância na vida dos homens de todos os tempos".

E nestas coisas há sempre umas criaturas que as olham com soberba, pesporrência, altivez, e mesmo ignorância. Esquecem que esta coisa de fazer distinção entre militares e civis é afinal mais correcto, muito mais correcto, falar em paisanos e militares, porque estes não aparecem desfalcados de cidadania. E são a salvaguarda última de todos nós.

Vem tudo isto a propósito do que escrevi há dias sobre o Conselho Superior de Defesa Nacional que, como previsto se reuniu por tele-conferência na passada 2ª Feira. Como então vaticinei que iria acontecer………aconteceu mesmo, sem surpresa, como o meu melhor amigo militar já me tinha dito que aconteceria. Ele conhece bem não só muitos dos militares que andam por aí como tem uma noção muito razoável da competência desta gente toda, de cima a baixo.

(do sítio da Presidência)
Portanto, a pomposa reforma Cravinho sobre que já escrevi e sobre a qual vieram a público comentários diversos, vai seguir o seu caminho com a solene benção de Marcelo Presidente e de Marcelo Comandante Supremo das Forças Armadas. Permanece a dúvida se é mesmo isto,  comandante!

A nota informativa deste reunião e deste abençoar de Cravinho é esta:
“O Conselho Superior de Defesa Nacional reuniu hoje, 15 de Março de 2021, pelas 15h00, em sessão ordinária, por videoconferência, sob a presidência de Sua Excelência o Presidente da República Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, para se inteirar dos projetos de propostas de alteração à lei de Defesa Nacional e Lei Orgânica de Bases da Organização das Forças Armadas (LOBOFA).
Tendo presente que o processo legislativo vai seguir subsequente tramitação, ouvindo o Conselho de Estado e envolvendo aprovação governamental e apreciação e aprovação na Assembleia da Republica, e que, quer na sua tramitação, quer na sua eventual aplicação é fundamental o papel dos Chefes dos três ramos das Forças Armadas, o Conselho deu parecer de princípio favorável aos projetos em questão.”

Em síntese, narcisismos,  floreados,  vaidades,  incompetências várias. Discutir, de uma vez por todas, - que organização do Estado no âmbito da defesa nacional e em consequência que FA deve Portugal ter - isso é tarefa para quem tivesse competências e, além do mais, não dá voto nenhum mas só chatices. E como os militares se esmifram sempre e lá vão conseguindo arranjar um ou dois centos de homens para mandar a missões em África ou Afeganistão, e mais um avião ou um barquito para ir por aí, e não refilam, pode continuar-se com encenações e "crochet", pode continuar-se a apregoar - os melhores dos melhores -  pode-se continuar a pensar em noitadas em quartéis para ver as estrelas e assim atrair jovens para as fileiras, pode-se prosseguir com as não promoções, podem manter-se estrangulamentos estatutários, etc. 
À vista dos bem instalados em sinecuras várias e onde almoçam bem e assim engordam e passam o tempo.
António Cabral (AC)

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Fui ao FUNERAL porque ERA AMIGO DELE

(Coronel Matos Gomes, Expresso 19 Fevereiro 2021)

Salvo melhor opinião, uma frase de combatente digno e que, tanto quanto sei, o foi sempre pelas boas leis da guerra. Uma frase que espelha dignidade, não traição a amigos, independentemente de um juízo diferente, justo e frontal no que toca à guerra em África, guerra que muitos enfrentaram (eu também fui um deles). Muito se tem escrito e ouvido acerca do passamento deste português, Marcelino da Mata, nascido na Guiné, deste homem complexo como todos nós, deste militar discutível como todos os militares e particularmente todos os que foram combatentes reais e não de ar condicionado. Por ser sempre prudente observar alguma distância em relação à história e a certos acontecimentos, aguardei uns dias para ponderar sobre o assunto que tem feito correr muita tinta, sobre um homem que nunca pessoalmente conheci, sobre quem ouvi imensas histórias, e a propósito dele muitas histórias ouvi também acerca de quem algumas vezes o comandou no mato levando apenas uma americana calibre 45, tal como sobre certos outros mandantes de então. Histórias, a maioria das quais certamente correspondentes a realidades, incluindo a coisas que muitos de nós, provavelmente, não faríamos, porque não estávamos lá e, quase certamente, por falta de condições físicas psíquicas anímicas e intelectuais para as cometer.

Duas notas antes de prosseguir:

1ª - respeito as opiniões de outrem, sempre, mas já estou cansado dos  Fernandos Rosas e de muitos outros MRPP's incluindo os que se entretêm com sinecuras e vacinas, as Anas Sá Lopes, os Manuéis Loffs, os Rui Tavares, os João Miguel Tavares, os André Venturas, os Ascensos Simões, as Catarinas, as Isabéis, e tantos outros das mesmas cores. Como cansado estou dos vergonhosos passos para limpar os passados de protagonistas e mandantes das violentas FP25 de Abril, relativamente ás quais alguns sem vergonha nenhuma na cara só lhes falta dizer que essas gentes e um dos seus inspiradores foram o êxtase da democracia, e que nunca mataram ninguém, e nem por tal são responsáveis. Como cansado estou dos que fingem, não ter havido MDLP, nem PREC, nem rajadas de metralhadora contra portões só porque sim. Como cansado estou de alguns daqueles que combateram em África, bem próximos de altas figuras do regime de então, e que no PREC se comportaram como uns alienados absolutos. Como cansado estou do endeusamento daqueles que enriqueceram brutalmente apenas com o normal vencimento do Estado/ da política. CANSADO!

2ª - Como outros, como um bom amigo, combati na Guiné, 29OUT1971-28JUL1973, a bordo de um navio da então designada Marinha de Guerra, onde fui o oficial imediato (equivalente a 2º comandante), e quando digo combati é literal. Por exemplo, o navio foi atacado e teve estragos vários, pelas 2340 horas, numa noite de luar fantástico, no rio Cacheu, no já muito distante dia 19 de Maio de 1973, quando navegávamos em ocultação total de luzes e em postos de combate a bordadas, como habitualmente. Eu (por centímetros) e outros, podíamos ter morrido. Não calhou, morreu um comando africano dos muitos que nessa altura transportávamos, depois da operação que eles tinham levado a efeito dias antes sob comando de uma muito conhecida figura. Houve vários feridos. 

Refiro isto para dizer que fui combatente, mas também para dizer que, correndo sempre reais e sérios riscos de vida quando navegando nos estreitos rios, ainda assim esse combate durante 21 meses da comissão de serviço na Guiné foi diferente do combate da tropa especial dos três ramos das Forças Armadas (FA) (fuzileiros, comandos, pára-quedistas) que iam a sítios terríveis, que combateram em circunstâncias muito difíceis, e em que muitos morreram, outros ficaram feridos, outros estropiados para o resto das suas vidas. Um combate com sérios e constantes riscos de vida, sim, mas diferente do daquela tropa de quadrícula do Exército, estacionada em determinadas zonas e quartéis disseminados pela Guiné, muitas vezes lá enfiados meses e meses borrados de medo, sob bombardeamentos de canhão sem recuo do PAIGC, umas vezes periódicos, outras quase diárias sobretudo no ano de 1973. Um combate diferente do dos pilotos da Força Aérea que foram derrubados e alguns morreram, ou dos que após Março 1973 foram obrigados a voar o mais alto possível sem algumas vezes conseguir distinguir bem os alvos. 

Voltando a Marcelino da Mata, e como bem recorda quem em África combateu em mais de uma comissão de serviço e é intelectualmente honesto, provavelmente mais de metade dos portugueses que combateram em África era de origem Africana, e Marcelino da Mata como outros em Angola e Moçambique, levou a cabo durante anos uma guerra irregular, muitas vezes quase certamente à margem das leis da guerra, mas que os comandos dessa altura mandavam fazer porque disso precisavam, isso queriam, e de tudo sabiam. E a maioria calou, embora alguns tenham agora rebates de consciência para ficarem de bem junto dos polícias das mentes e do politicamente correcto, e junto dos imbecis que já tiveram a felicidade de não irem à estúpida guerra mas se atrevem a tecer apreciações com os parâmetros de hoje, a preto e branco.

Percebo e comungo da opinião de que Marcelino da Mata nunca foi um herói, pois não tinha um ideal. O que ouvi na Guiné bate certo com o que no presente alguns afirmam sobre Marcelino da Mata, os que são intelectualmente honestos. Que era um militar duro e sereno, porventura violento, acredito mesmo que muito violento no mato, que se preparava muito bem antes de partir com o seu pequeno grupo para as operações que lhe determinavam os comandos brancos na Guiné, a cadeia hierárquica a começar em Spínola, que de tudo se inteirava. Discutir a guerra com seriedade, são poucos os que o fazem, porque a esmagadora maioria "activa sempre o modo" da desonestidade intelectual, e pretendem sempre reescrever a história. Discutir a guerra colonial com seriedade são poucos os que o fazem. 

Marcelino da Mata, foi o mais condecorado dos militares portugueses, mas muitos outros militares, da Marinha de Guerra, do Exército, e da Força Aérea, foram condecorados durante os anos da guerra em África. E houve condecorações de militares pelos seus feitos na guerra, nos matos, e por combate em unidades navais, e por combate com meios aéreos. E, como sempre, houve também condecorações atribuídas a militares pelos bons serviços prestados mas que nunca foram ao mato combater. Mas isso é compreensível, pois havia que suprir com meios humanos os comandos, os estados-maiores, alguém tinha que o fazer, e aí cumprir. E cumpriram.

Quanto à Guiné estou a lembrar-me de alguns que estavam perto de Spínola, em certas e especiais repartições/ departamentos, um dos quais, por exemplo, embarcou no meu navio acompanhando jornalistas franceses (Paris Match) que tinham ido observar a excelência da guerra promovida pelo general, a excelência da gestão administrativa de Spínola, sempre no âmbito da sua campanha no país e no exterior. É compreensível e tem de se respeitar, mas há condecorações e condecorações. Como se passa hoje em democracia, pois basta ser ajudante de um general ou almirante chefe de estado - maior ou ser ajudante do PR por exemplo, para ao fim de um ano e pouco de serviço ser logo agredido com uma medalha. Ou, ao terminar o cargo de chefe militar, automaticamente ser condecorado pelo PR. Ou, depois de ser PM, ser automaticamente condecorado pelo PR, excepto, e bem na minha opinião, o farsante Sócrates.

Marcelino da Mata (MM) praticou crimes de guerra à luz das leis da guerra? Não sei, mas é bem provável. Alguns dizem que é certo, mas bem podiam ter feito essas denúncias logo pelo menos a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Quem de certeza não os praticou foram todos aqueles que estavam no ar condicionado em Luanda, em Lourenço Marques, em Bissau. Não os praticou quem esteve meses encurralado em Guidaje, Bigene, Quilege, Farim, etc., esses que se alguma menor pressão por parte do PAIGC tiveram em certos períodos foi por acção, da aviação da FAP, dos comandos, dos pára-quedistas, dos fuzileiros, e de grupos como o de Marcelino da Mata. 

Desculpável, essa parece que certa, prática de crimes de guerra? NÃO. Repito, NÃO. Mas presumo que durante a democracia Marcelino da Mata não cometeu qualquer crime de sangue. Creio que ele o podia afirmar. Assim todos o pudessem dizer.

Alguns avançam que MM nunca foi acusado da prática de crimes de guerra, nem julgado. Nem lhe retiraram as condecorações. Obviamente, pois ele obedeceu a ordens, e as hierarquias, muitas das quais atingiram os postos máximos no Exército já em democracia, presumo que sabiam de tudo. E não esquecer Spínola, que de tudo se inteirava ao detalhe. Não quer dizer que aprovassem atrocidades, a esmagadora maioria não aprovava, óbvia e certamente. Mas, sem desculpar nada do que de horrível se terá passado por lá, na Guiné, quem me diz a mim que em Angola em São Tomé e Principe e Moçambique, não aconteceram coisas idênticas e/ ou piores? Horrores, de ambos os lados da barricada? E que no início das hostilidades, por exemplo sei lá, em Angola, não possa ter havido quem se divertisse "tirando" fotografias a grupos de pessoas com recurso a bazuca? Naturalmente que isto não passa de pura invenção. Como invenção, certamente, a chacina de crocodilos nos rios, a pesca com granadas, etc.

Para tentar terminar este arrazoado, que mexe um pouco comigo pois andei por lá, sempre na vida houve e haverá, condecorados que o não deviam ser, atribuições imerecidas de comendas, nomeações para bons cargos por nepotismo, mandantes que sem vergonha na cara se desculpam por mortes perpetradas pelos seus executivos, quem consegue ser indultado e amnistiado por inconfessáveis razões, quem analise e argumente com honestidade intelectual, quem ofenda quem pensa diferente ainda que civilizadamente, quem fale do que não sabe, quem considere ainda nos dias de hoje que o passado e o presente foram e são coisas a preto e branco. É importante respeitar as opiniões divergentes, e civilizadamente ponderar as questões. 

Massacres? Crimes de guerra? Violações de mulheres e crianças? Aldeias arrasadas? Bombardeamentos aéreos sobre alvos que não se sabia bem se seria ali? SIM, houve certamente de tudo. Eu combati na Guiné, como outros, não propriamente porque fossemos fascistas, ou porque não tivéssemos alternativa. Por exemplo, o meu melhor amigo militar, que é de Marinha, podia ter ido para Luanda e não aceitou que a família disso tratasse, e era tão fácil, dadas as circunstancias da vida. Foi para a Guiné. 

A guerra não justifica tudo, nem horrores nem outras coisas, como aconteceu com alguns que foram para o ar condicionado de Luanda ou Lourenço Marques, quando parece que lhes calhava ir para o Leste de Angola ou Guiné, pelo que em consequência outros foram para onde não deveriam ter ido.

A terminar, confesso que tentei perceber e, talvez por deficiência minha, ainda não consegui encontrar explicação para o que se passou com o falecimento deste português e combatente. Porque esteve no funeral de Marcelino da Mata o PR, mais chefias militares, etc.? Porque houve na AR uma certa homenagem a este destemido militar português ? Porque surgiu tudo isto, e quem o promoveu?

Uma coisa é para mim certa, e não é de agora que assim penso. A guerra não é aceitável. Os portugueses de África e os do Continente e Ilhas,  os africanos e os europeus, foram todos vítimas dum conflito e de um regime que nunca quis resolver as questões por negociação diplomática/ política, como fizeram outros países. A realidade é dura. Houve massacres executados por brancos, por negros e por mestiços, uns contra os outros. A guerra deixa marcas. Em mim, felizmente, muito poucas deixou. Muitos milhares de portugueses não podem dizer o mesmo. Muitos milhares de famílias não podem dizer o mesmo, pois perderam os seus familiares. Infelizmente.

Por todos eles, milhares ainda vivos, militares e milicianos, a todos é devido respeito. É devido respeito pelos que morreram, pelos feridos e estropiados, pelos que combateram no mato, pelos que combateram nos estados-maiores, pelos que combateram no ar, pelos que combateram nos rios, pelas famílias sofridas e pelas famílias destruídas. RESPEITO, é devido.

Falar disto, seja a propósito de um antigo combatente ou não, sem honestidade intelectual e distanciamento, é uma grande falta de respeito por nós todos, nós que lá estivemos, nós que conseguimos regressar, e por nós os que por lá morreram. Dos que por lá morreram, o Estado português materializado designadamente pelos sucessivos PR, governos, e AR, por lá os continua a deixar estar. Muitos restos mortais de portugueses falecidos em combate foram já resgatados e regressados ao Continente, mas muitos outros por lá continuam. E este presidente da República, e este governo, e esta AR e estes deputados, e este ministro da defesa nacional, passam o tempo com discursos e tiradas patéticos, anúncios de reformas tolas, sugestões para noites em quartéis, idiotices sucessivas. Uma total falta de RESPEITO.

António Cabral (AC)

terça-feira, 10 de setembro de 2019

DESTES  JÁ  NÃO  FAZEM
Destes já não fazem. 
Para cumprir uma comissão de serviço no tempo da guerra cheguei a Bissau a 29 de Outubro de 1971. Inteiro fisicamente, e quase sem abalos psíquicos, saí de lá aliviado em 28 de Julho de 1973.
De entre as recordações que trouxe, um facão enorme, oferecido por um oficial dos fuzileiros especiais, facão que guardo aqui na aldeia, juntamente com outras coisas desse tempo.
Parece que foi ontem que vim de lá, e em Julho perfizeram-se 46 anos.
Quanto ao facão, destes e com a qualidade de aço e o cabo em bauxite se não estou em erro, destes já não se fazem. 
É uma relíquia.

AC

sexta-feira, 14 de junho de 2019

E o RESTO, as COISAS da VIDA?
Para o Presidente da República, as experiências de guerra e as “indeléveis consequências ao longo da vida” tornam legítimo “conceder o direito” de ouvir os ex-combatente.
Só faltava que não considerasse legítimo.
Mas não passa das palavras, não passa das citações como  - os melhores dos melhores - mas forçar a sério para se alterar pelo menos uma parte do que há anos os ex-combatentes reclamam, isso é que não.
Palavreado inconsequente que enjoa e está a centímetros de começar a repugnar.
Sim, sou ex-combatente, e estou completamente farto das discursatas balofas, que nada resolvem na vida real das pessoas, dos ex-combatentes e das suas famílias.
AC

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Recordações
(19 de Maio, 1973, pelas 2340 horas locais; portanto, a pouco mais de 2 meses de terminar a comissão de serviço na Guiné (29 Out 1971 - 28 Jul 1973))
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 44 anos que, quando o navio onde eu cumpria a minha comissão de serviço (NRP Hidra, onde desempenhava funções de oficial imediato) navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate/ bordadas ou seja, com metade da guarnição pronta para responder a qualquer ataque, fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, na Guiné, hoje Guiné-Bissau. 
Como muitos outros, que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Estava uma noite de espectacular luar, a navegação fazia-se por indicações verbais para o homem do leme, viam-se as margens claramente.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o primeiro e único projéctil/ granada lançado pelos então guerrilheiros do PAIGC. 
Houve vários feridos, deflagrou um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive um pequeno rombo abaixo da linha de água. 
Teve que ser reparado no plano inclinado, nas oficinas navais em Bissau.
Passadas semanas, um relatório da PIDE/ DGS, confirmou a morte de todo o grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores mesmo até junto ao rio, e ainda que sem serem avistados de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado que estava no exterior (dezenas de comandos africanos e alguns fuzileiros) e que terá durado talvez 20 a 30 segundos, varreu com aço, literalmente, toda a zona na margem. 
Como se viu no local na manhã seguinte ao ataque, uma zona enorme quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos pequenos, sem casca. Tudo branco. 
O tempo voa, 44 anos passaram!
Eu não esqueço. 
E recordo, com emoção, todos os que estavam comigo, muitos que nunca mais encontrei, vários que não vejo há muitos anos. 
Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas. 
E lembro vários, da Marinha e do Exército, que conheci naquele período, incluindo uns quantos que, após o 25 de Abril de 1974, ficaram figuras públicas. 
Recordo por exemplo um que, depois de embarcar no navio, após o regresso da operação dentro do Senegal (ataque a Kumbamori) , tirou as botas e mostrou uns desgraçados pés. Mostrou-os, uma lástima, e teve um desabafo brutal super vernáculo, aqui não possível de reproduzir.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. 
Mas sobretudo não sabem respeitar.
Não respeitam os que, como eu, andaram na guerra e que felizmente regressaram quase sem sequelas. 
Mas, acima de tudo, não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas, e os familiares dos que tombaram pela Pátria. 
Esquecem além disso, o que a CRP estabelece, e o que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar que são as Forças Armadas.
Dever de tutela, respeito pela lei, verticalidade, honestidade intelectual, respeito pela história do País, estes e outros valores são lixo para a “gentinha” que, paulatinamente, e em todos os quadrantes, desgraça o País.
António Cabral (AC)

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Recordações. 

Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 43 anos que, quando o navio onde eu cumpria a minha comissão de serviço em África navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate/bordadas, e o meu comandante estava na ponte alta com o comandante dos comandos africanos que levávamos a bordo, fui/ fomos atacados por bombordo no rio Cacheu, na Guiné, hoje Guiné-Bissau. Como outros, que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Imensa sorte. E tiveram muita sorte, felizmente e sobretudo, o artilheiro e o municiador da peça de vante perto da qual rebentou o projéctil inimigo. Como sorte teve o marinheiro que no pavimento inferior descansava na sua cama, a qual foi atravessada por parte de um projéctil sem o atingir nas pernas. Agostinho, chamava-se.

Estava uma noite de espectacular luar. O que então sucedeu foi um dos muitos acontecimentos de guerra que se seguiram ao assassinato de Amílcar Cabral.
Lamentavelmente morreu um comando africano, junto a quem rebentou o primeiro e único projéctil/ granada lançado pelos então guerrilheiros do PAIGC. Houve feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive um rombo abaixo da linha de água.
Passadas semanas, um relatório da PIDE/DGS, confirmou a morte de todo o grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores junto ao rio e, ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado que estava no exterior do navio e portanto fora do seu ambiente terrestre natural, e que terá durado para aí um minuto no máximo, varreu com aço, literalmente, toda a zona. Como se viu no local, na manhã seguinte ao ataque, havia uma zona enorme quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos mais pequenos, sem casca. Tudo branco. O tempo voa, 43 anos!

Eu não esqueço. Recordo, com emoção, todos os que estavam comigo naquela altura, e não vejo há décadas. Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973. Muitos dos que conheci e com quem ao longo dos anos se partilharam experiências, estão felizmente ainda vivos.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem.

Mas sobretudo não sabem respeitar.
Não respeitam os que, como eu, andaram na guerra e que, felizmente, regressaram quase sem sequelas.
Mas acima de tudo não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas, e os familiares dos que tombaram pela Pátria.


Esquecem além disso, o que a Constituição da República Portuguesa (CRP) estabelece, e o que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar.
Dever de tutela, respeito pela lei, verticalidade, honestidade intelectual, respeito pela história do País, estes e outros valores são lixo para a “gentinha” que desgraça o País, há anos seguidos.

António Cabral (AC)

terça-feira, 19 de maio de 2015

Recordações. 

E,  já agora, a propósito do advogado formalmente designado Ministro da Defesa Nacional (MDN).
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 42 anos que, quando o meu navio navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate/bordadas, e o meu comandante estava na ponte alta com o comandante dos comandos africanos que levávamos a bordo, fui/ fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, na Guiné, hoje Guiné-Bissau. Como outros, que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Imensa sorte.

Estava uma noite de espectacular luar.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o primeiro e único projéctil/ granada lançado pelos então guerrilheiros do PAIGC. Houve feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive um rombo abaixo da linha de água.
Passadas semanas, um relatório da PIDE/DGS, confirmou a morte de todo o grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado que estava no exterior do navio e portanto fora do seu ambiente terrestre natural, e que terá durado para aí um minuto no máximo, varreu com aço literalmente toda a zona. Como se viu no local na manhã seguinte ao ataque, havia uma zona enorme quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos mais pequenos, sem casca. Tudo branco. 
O tempo voa, 42 anos! 


Eu não esqueço. E recordo, com emoção, todos os que estavam comigo naquela altura, e não vejo há muitos anos. Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973. Muitos dos que conheci e com quem ao longo dos anos se partilharam experiências, estão felizmente ainda vivos.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. Mas sobretudo não sabem respeitar. 
Não respeitam os que como eu andaram na guerra e que felizmente regressaram quase sem sequelas. 
Mas acima de tudo não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas e os familiares dos que tombaram pela Pátria. Esquecem além disso, o que a Constituição da República Portuguesa (CRP) estabelece, e o que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar. 
Dever de tutela, respeito pela lei, verticalidade, honestidade intelectual, respeito pela história do País, estes e outros valores são lixo para a “gentinha” que desgraça o País.

Os tempos são outros, a realidade do País é diferente, as missões e os meios e designadamente os recursos humanos tem naturalmente que se conformar ás realidades do presente, mas devendo olhar e acautelar o futuro.
Concretamente, o advogado que formalmente foi empossado como MDN, manifesta constantemente, sem qualquer pingo de vergonha, uma postura deplorável em relação ás Forças Armadas. Tem conseguido com variações próprias, algumas para pior, continuar na senda lastimável dos seus antecessores, TODOS. E quanto à consensualização com as chefias militares que sempre vaidosamente apregoa, muito haveria a dizer.
Lamentável. E sobretudo deplorável o teor eleitoralista e em algumas fases verdadeiramente falacioso, da longa entrevista que o actual titular do cargo concedeu há poucos dias a jornalistas da Antena 1. 

E se falo em eleitoralismo é simplesmente porque, constitucionalmente, as forças armadas são apartidárias e estão apenas ao serviço do povo português, não devendo nunca ser evocadas em verdadeira e nojenta pré-campanha eleitoral. Uma entrevista que pareceu muito um frete combinado, pois foram feitas várias afirmações a que nenhum dos dois jornalistas quis exercer o seu dever de imediato pedir aprofundados esclarecimentos. Uma vergonha, de parte a parte. 
Vou voltar a escutar a entrevista, e regressarei ao assunto.
António Cabral, cAlmirante, reformado.