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terça-feira, 28 de julho de 2026

28  JULHO  1973

Foi a 28 de Julho de 1973. Parece que foi há meia dúzia de semanas!

Mas não, não foi há meia dúzia de semanas, fez hoje 53 anos que embarquei em Bissau. Embarquei eu e muitos mais, num dos Boeing 707 que nessa altura a Força Aérea (FAP) tinha.

À conta da ameaça dos mísseis Strella que o PAIGC tinha desde Março de 1973 e em que nesse mês abateu vários dos aviões da FAP, as partidas do aeroporto de Bissau eram precedidas de voos de helicópteros Allouette com helicanhão  num perímetro alargado em redor do aeroporto. Ao levantar, os aviões subiam o mais rapidamente possível. Foi uma sensação estranha, o Boeing a estremecer todo com a trepidação devido ao esforço da subida e eu, e certamente muitos outros, a pensar - será que nos safamos ou agora no final é que levamos com um míssil?

Horas depois aterrar em Lisboa, e fim do martírio de 21 meses de guerra, a bordo do navio para onde fora mandado em 29 de Outubro de 1971.

Com um ataque pelo meio da comissão, concretamente às 2340 horas de 19 de Maio de 1973, tendo havido um morto e vários feridos na tropa comando que transportávamos no exterior do navio. Danos vários no navio. Eu e outros podíamos ter morrido, mas não estava destinado que assim fosse. Não era para. ser naquele dia. Será noutro.

Parece que foi ontem.

A minha querida mulher sugere-me periodicamente que escreva uma espécie de memórias. Só à conta dos 21 meses de Guiné tenho pano para muitas mangas!

António Cabral (AC)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

RECORDAÇÕES
. . . . . .
"Antes do 25 de Abril, não era possível discutir os problemas africanos.
Depois do 25 de Abril, tudo se passa como se não fosse necessário, ou melhor, como se já não fosse necessário"
. . . . . 
(Eduardo Lourenço)

AC

quinta-feira, 9 de abril de 2026

9 ABRIL 
DIA DO ANTIGO COMBATENTE

Malhei com o cabedal na Guiné, entre 29 de Outubro de 1971 e 28 de Julho de 1973.

Depois de alguns "sustos" em 1971 e 1972, às 2340 horas de 19 de Maio de 1973, no Norte no rio Cacheu, sofremos um ataque, ia lá ficando, eu e outros, mas tivemos muita sorte. Tivemos infelizmente um morto. Houve alguns feridos ligeiros.


Tenho um "PIN" que vinha dentro desta caixinha, 


e tenho este cartão, 

e tenho desconto em alguns medicamentos, 

e uso o cartão Navegante sem pagar nada.

Está perto de fazer 53 anos que regressei de África.

NUNCA MAIS LÁ PUS OS PÉS, NEM POREI.

Tenham uma boa 5ª Feira. Saúde e boa sorte.

António Cabral (AC)

terça-feira, 14 de maio de 2024

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

PORTUGAL, ÁFRICA, AMÍLCAR CABRAL
Hoje, 20 de Janeiro, perfaz 50 anos que o então dirigente do PAIGC foi assassinado a tiro.
Com Amílcar Cabral tenho em comum, sermos seres humanos do sexo masculino nascidos em Portugal (eu no Continente, ele na então colónia/ província ultramarina Guiné), o último apelido, e África (eu apenas um pouco menos de 8 anos, ele quase toda a vida).

De África tenho, quase seis anos vividos em Angola/ Luanda (fui para lá com 3 meses, regressei com praticamente seis anos), duas passagens por Cabo Verde por razões da profissão, e 21 meses de Guiné (29OUT71-28JUL73) onde cumpri a minha obrigação militar a bordo de um navio da Marinha. 

Como milhares de outros concidadãos estive do outro lado, em oposição a Amílcar e seus combatentes.
Na Guiné fui/ fomos atacados na noite de 19 de Maio de 1973, sofremos um morto e vários feridos, e danos diversos no navio ainda que mantendo a operacionalidade completa.

Amílcar Cabral,  formado em Lisboa, gradualmente ganhou prestígio internacional. 
A história continua a guardar segredos sobre os detalhes exactos acerca do seu assassinato. 
O dono do dedo no gatilho assassino foi logo identificado, mas o autor (es) da ordem de execução permanece incógnito, havendo como sempre acontece diferentes teorias sobre a congeminação de que resultou o assassinato.

Durante o tempo em que o general António de Spínola foi governador e comandante-chefe da Guiné, e que me recorde, terá havido tentativas de dialogo com o PAIGC sempre não aceites pelo regime em Lisboa, sendo certo que Spínola esteve pelo menos uma vez com o presidente senegalês Senghor. 

Além  disso, e desconhecendo os detalhes, Spínola tentou chegar à fala com o PAIGC recordando-me que emissários seus seriam massacrados na selva (o episódio dos majores).

Uma das hipóteses avançadas quanto ao "mandante" do assassinato sempre apontou o regime em Lisboa e designadamente a DGS como estando por trás do que aconteceu.
Não faço a menor ideia.

Mas uma coisa sei, pois a memória não me atraiçoa ainda.
Sei o que os meus ouvidos e os de outros que estão ainda vivos ouviram uma noite no aquartelamento em Ganturé, a Norte do rio Cacheu, poucos dias antes do assassinato - se houver sorte, um dia o Amílcar morre.

Isto não interessa para nada, mas recordo bem o que então ouvi. 
E muito pouco tempo depois dessa noite, chegou o dia 20 de Janeiro de 1973. 
Passaram-se a seguir várias semanas, até que o atordoamento no seio do PAIGC passou finalmente, e começaram a abater aviões com os mísseis  Strella. 
A guerra mudou completamente.

AC

terça-feira, 19 de maio de 2020

R E C O R D A Ç Õ E S
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 47 anos que, quando o  navio em que eu prestava serviço durante a guerra em África navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate/bordadas, fui/ fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, na Guiné, hoje Guiné-Bissau, numa zona mais acima da base dos fuzileiros, Ganturé. 
Como todos, menos um, dos que estavam no exterior do navio, tive muita sorte. Estava uma noite de espectacular luar.
Morreu um comando africano, dos vários que transportávamos depois de uma incursão no Senegal e junto a quem rebentou o primeiro e único projéctil/ granada lançado pelos então guerrilheiros do PAIGC. 
Houve feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive um rombo abaixo da linha de água.
Passadas semanas, um relatório da DGS (Direção Geral de Segurança), confirmou a morte de todo o grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, ficavam enrodilhados no espesso arvoredo. A reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado que estava no exterior e era muito, e que terá durado para aí um minuto no máximo, varreu com aço literalmente toda a zona. 
Como se viu no local na manhã seguinte ao ataque, uma zona enorme quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos pequenos, sem casca. Tudo branco. O tempo voa, 47 anos!
Eu não esqueço. 
E recordo, com emoção, todos os que estavam comigo, e que depois do final de 1973 nunca mais encontrei. Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. 
Mas sobretudo não sabem respeitar.
Não respeitam os que como eu andaram na guerra e que felizmente regressaram quase sem sequelas. 
Mas acima de tudo não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas e os seus familiares, e não respeitam os familiares dos que tombaram pela Pátria. 
Esquecem além disso, o que a CRP estabelece, e o que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar, que é constituída pelas Forças Armadas.
Dever de tutela, respeito pela lei, verticalidade, honestidade intelectual, respeito pela história do País, estes e outros valores são lixo para a “gentinha” que desgraça o País.

António Cabral (AC)