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sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

PORQUE RAZÃO DETESTAM a VERDADE
PORQUE RAZÃO NÃO OS DESMENTEM

MENTIR - afirmar como verdadeiro o que se sabe ser falso, ou negar o que se sabe ser verdade; enganar.

Umas das várias coisas para que continuo a não encontrar explicação cabal, convincente, uma explicação clara em que até a minha idosa vizinha lá na aldeia perceberia, é a persistência de se afirmarem coisas como verdadeiras sabendo (não podem deixar de saber) quem assim procede (e muitas vezes até com uma enorme desfaçatez) ser falso o que afirmam. 
Por parte de políticos, dirigentes, responsáveis os mais diversos, quer na pesadíssima máquina do Estado que inclui civis e militares, quer nos organismos e empresas e organizações as mais diversas.

É a continuação da negação da verdade sem que, em regra, sejam desmentidos.
Com raríssimas excepções não são desmentidos.

No presente, naquilo a que chamam a pré-campanha eleitoral, só um surdo não detecta o que por aí vai de demagogia e, não raras vezes, mentiras descaradas.

Há poucos dias, a líder do BE invocou um suposto caso passado com uma sua avó (podia ter referido se materna ou paterna).
Pelo que se lê por aí, e creio até que já foi confrontada olhos nos olhos num canal de TV sobre esse assunto, divagou, encolheu-se, e ficou claro que a história contada por ela tem sustentáculo mais que duvidoso, sustentáculo no éter, para não ser mais rigoroso.
Não perco mais tempo com semelhante criatura.

E no mundo civil, no mundo nomeadamente político nacional, os casos são tantos que duas páginas provavelmente não chegariam para, apenas, listar os inúmeros casos, vergonhosos.

Recordo assim, um caso diferente, militar.

Li por mais de uma vez que haverá um navio "revolucionário", que um estaleiro na Roménia terá a construção a seu cargo, e cujo casco é desejado que seja lançado à água até Janeiro de 2026, e é de concepção portuguesa (????). 
Isto vem sendo regularmente passado para diferentes OCS.
Lançado à água em Janeiro de 2026? 
Um casco de navio que, anunciam, terá se percebi bem um deslocamento de 5000 a 7000 toneladas? Hummm…...

Refiro-me ao navio "revolucionário" capaz de lançar, operar e recuperar veículos não tripulados (vulgarmente conhecidos por drones), sendo a base para o seu controlo e guarda, sejam eles terrestres, marítimos ou aéreos. 
Navio que se espera venha a ser quase todo pago pelo célebre PRR.
Veremos!

O que tem sido propalado é que o conceito é português (????).
Ora, depois de várias pesquisas e, também, a leitura de textos escritos por quem em Portugal sabe destes assuntos e em profundidade, verifica-se que, designadamente no Reino Unido e nos EUA, e há vários anos já (desde pelo menos 2007), foi apresentado um navio deste género, com este conceito. 

Mas do que se sabe, nomeadamente naqueles países, as coisas não correram nada bem, durante muitos anos.
Sei que existem ensaios vários neste âmbito, em outras marinhas de guerra.
Mas há registos de, sucessivas avarias, dificuldades de reconfiguração para diferentes missões, operacionalidade baixa, deficiências de projecto não solucionadas, etc. 
E dinheiro GASTOOOOO, muito DINHEIROOOOOO.

Do que vem sendo periodicamente vertido para a comunicação social, que habitualmente retransmite sem escrutínio, o dito disruptivo, multifuncional e verde navio estará destinado sobretudo para missões civis. 
Pelo que se percebe, aparentemente, está-se perante algo de elevadíssima e diversa tecnologia. 
Toda solidamente comprovada? Tudo inventado em Portugal?

Eu aprecio mais rigor. Nunca apreciei demagogia, aldrabice e e não aprecio egos inchados.
Claro que se vier a dar para o torto (não é esse o meu desejo) entrará em acção o famoso decálogo de projecto.  Sabe-se como acaba.
Vários, nessa altura, bem ao fresco, porventura condecorados.

Porque não se fala com rigor? Porque detestam a verdade?
Porque é que os OCS se ajustam assim?
Porque se esquecem que não há milagres, e que o barato quase sempre sai caro? 

Navios para andar no Atlântico Norte, em toda a brutal massa oceânica onde Portugal tem jurisdição, para o exercício da tão descurada autoridade do Estado, dificilmente por lá poderão andar se pretenderem ser navios tipo Bimby, ter tudo para tudo fazerem.

A Bimby faz sopas, puré, gelados, almôndegas, arroz, carne guisada, peixe, suflê de bacalhau, bolos, eu sei lá. 
Mas se, reconhecidamente, é um bom auxiliar de cozinha (temos uma cá em casa), nada como comida mais a sério, tradicional, portuguesa. 
António Cabral (AC)

Ps: já agora, vou vendo ao longo do tempo anúncios de navios vários (oxalá se concretizem) para a Marinha.
Verifico que tem sido o actual chefe da Marinha a anunciar.
Sabendo das competências que existem, no âmbito do governo e nomeadamente do ministério da defesa dita nacional e do Estado-Maior General das Forças Armadas, só posso presumir que o chefe da Marinha foi sendo devidamente autorizado e mandatado para fazer tais anúncios de aquisição de novos meios para este ramo das forças armadas.

terça-feira, 23 de maio de 2023

NAVIOS para a MARINHA
A palhaçada segue, impante e sonora. 
É conhecida a técnica, mesmo que a malta do Luís não a tenha aconselhado.

Ora bolas, vai ocorrer um evento, cíclico, anual, não há como escapar, é o dia da Marinha, lá tenho que estar, portanto tenho que anunciar qualquer coisa para disfarçar o caos, o qual não se reconhece.

Então, Dona Helena anunciou que exatamente na sexta-feira anterior à cerimónia militar foi formalmente lançado o concurso para seis navios de patrulha oceânica, os conhecidos NPO.

Mas mais, Dona Helena garante, através de fonte do seu ministério (é o que se lê por aí) que o primeiro navio chega em 2026 e os dois últimos desses seis chegam em 2030. Ah valente!

E isto, além das suas palavras a rebater as acusações que recentemente lhe atiraram à cara na comissão parlamentar de defesa, é o "murro" final do governo PS e Dona Helena em particular para arrumar oposições, arrumar botaabaixistas e arrumar com descrentes como eu nesta gentalha sem vergonha na cara.

É preciso não ter nenhum pingo de vergonha na cara.

Esta senhora parece acreditar, na linha dos aldrabões socialistas e sequazes, que um concurso lançado em 19 de Maio passado vai possibilitar o aparecimento de um navio pronto para ser entregue à Marinha até 31 de Dezembro de 2026.

Como se ao concurso aparecessem rapidamente estaleiros navais capazes, como se, por exemplo, os estaleiros privados em Viana do Castelo aceitem fazer os navios de repente ao preço que Dona Helena e o seu chefe querem.
Perdão, falei em chefe? . . .  o chefe dela não quer coisa nenhuma, quer lá saber disto e de muito mais coisas. 
Quer é, viajar, entreter-se a falar para microfones, aldrabar.

Voltando a Dona Helena, é preciso ter lata, por um lado, lá vai desdramatizando o deplorável e conhecido atraso na aquisição dos navios, como fez na comissão parlamentar de defesa segundo se lê por aí para, pouco depois, ter o desplante de fixar datas precisas de entrega dos seis navios, como se controlasse todo o processo, e como se existisse a garantia de manutenção de meios financeiros na Lei de Programação Militar. O histórico mostra como particularmente os socialistas têm actuado nos últimos anos.

Ou já está esquecida do ridículo que se passou com uma cena sobre o famoso navio de "drones" do almirante Gouveia e Melo? 
Alguém se chegou à frente?

Alguém que lhe explique o que o meu melhor amigo militar, que é almirante, já me explicou. 
Que um anterior Chefe da Marinha pensava ir ter um navio novo para o mostrar em Ponta Delgada em Maio de 2005, e não teve
E NÃO TEVE.

António Cabral

terça-feira, 2 de maio de 2023

MEMÓRIAS

O nº 76 da Visão História/ Abril/Maio de 2023, páginas 50 a 57 traz um artigo/ testemunho de Pedro Lauret intitulado - "Guiné, o princípio do fim". 
Este testemunho, trouxe-me à memória muitas coisas e nomeadamente todo o ano de 1973 que ambos vivemos na Guiné, onde se inclui aquela fase concreta e trágica que ele relata.

Tenho ainda boa memória mas, naturalmente, não me lembro 100 % de tudo e pode acontecer que, quer em relação aos meus tempos de África 29OUT1971 - 28JUL1973 e que aqui me importa agora, quer em relação a outros tempos da minha vida privada e profissional, possa escapar-me um ou outro detalhe ou ter hoje alguma dúvida sobre acontecimentos passados.

Ele poderá confirmar, ou o Lupi se ler estas linhas, mas se a memória não me atraiçoa muito, o NRP Hidra para onde fui mandado cumprir uma comissão de serviço e ali fui oficial imediato do meu estimado então comandante o então 1º Tenente Blanc Lupi, (primo do cavaleiro) esteve no rio Cacine naquela zona, depois do NRP Orion ter participado em tudo aquilo que está descrito na Visão. Foi uma missão no rio Cacine que recordo ter sido complicada.

Mas o relato do Pedro Lauret fez recordar-me outros eventos e outras datas. Dois ou três exemplos.

Relativamente à minagem da estrada para Binta em Maio de 1973, o meu navio foi rio Cacheu acima poucos dias depois e, mais uma vez se a memória não me atraiçoa, creio que embarcámos pessoal do destacamento de fuzileiros comandado pelo saudoso camarada de armas Alves de Jesus.

Recordo, também, ter fotografado vários dos nossos helicópteros Allouette a passar sobre o Cacheu, e rumo a Norte!!!!!!
Recordo, também, termos recebido a bordo quem tinha vindo de Norte, e confessar-nos na câmara de oficiais - tenho os pés todos f******!

Recordo, também, os últimos dias de Março de 1973, tinha eu vindo a Lisboa creio que por uma semana, e estava cá há dois dias quando o primeiro avião Fiat foi abatido.

Recordo, também, que não muitos dias antes de 20 de Janeiro de 1973, com o navio atracado em Ganturé, ouvi (eu e outros) de boca importante e já não entre nós - "se tivermos sorte qualquer dia o Amílcar desaparece".
Passaram poucos dias, e Amílcar Cabral foi assassinado naquele dia 20. Felizmente há quem se recorde bem deste período histórico.

Recordo, também, com saudade, camaradas de armas com quem convivi naquele período em África. 
Infelizmente, alguns já nos deixaram, como é o caso do Coelho Rita, então comandante do NRP Orion, com quem convivi muito em Bissau pois ele era então um solteirão inveterado e eu solteiro geográfico.

Recordo, para terminar, o mês de Maio de 1973 e, particularmente, o final do dia 19, quando pelas 2340 horas navegando rio Cacheu acima, o navio foi atacado por Bombordo. 
Evento que anualmente aqui recordo.

Evento que me marcou para toda a vida, evento de guerra em que, com a infeliz excepção de um militar Comando, nesses dia ninguém mais morreu, tendo ficado feridos sem gravidade alguns militares da guarnição.

Deixo fotografias da época nomeadamente a do NRP Hidra:
1ª - diferentes actividades no rio Cacheu,
2ª - descrição sumária do navio,
3ª - a navegar no rio Cacheu
4ª - no plano inclinado dos estaleiros navais em Bissau, a reparar os estragos decorrentes do ataque de 19 de Maio de 1973. 

Parece que foi outro dia.
António Cabral

terça-feira, 14 de março de 2023

MARINHA, a REVOLTA na MADEIRA
. . . . . . 
Aquele ramo das Forças Armadas acrescenta ainda que "as guarnições dos navios são treinadas para operar em modo degradado, estando preparadas para lidar com os riscos inerentes, o que faz parte da condição militar".
. . . . . .
Estive a RELER as notícias veiculadas em diferentes orgãos de comunicação social sobre este inusitado acontecimento.

O trecho que republico em cima é claro, diz que os militares da Marinha são treinados para lidar com riscos e operar em modo degradado. Repito, em MODO DEGRADADO.

Ora a fazer fé,
>  no que se lê nas notícias desde há anos, 
> nas declarações das várias associações de militares, 
> nas declarações de anteriores chefes da Marinha, como por exemplo designadamente sobre pessoal aquele (que nada incomodou os políticos) que foi Chefe máximo dos militares e agora substituído por um general do Exército,
> nas declarações de muitos políticos,

a conclusão que obviamente se tira é que a Marinha vive há anos em MODO DEGRADADO.
Portanto, a outra óbvia conclusão a tirar é que, contrariamente ao referido no comunicado, na MARINHA NÃO TREINAM!

Paralelamente, interessante verificar, segundo se lê, que a missão a que 4 sargentos e 9 praças se recusaram era para seguir/ acompanhar/ vigiar a passagem de um perigosíssimo navio Russo . . . . . . um quebra-gelos!

Aguardemos pelos próximos desenvolvimentos, sobre a Marinha, sobre obsolescência, incompetência, disciplina militar, ausência de manutenção, cortes na Lei de Programação Militar, quadros de pessoal por preencher, escassez de meios humanos financeiros e materiais, degradação de vencimentos, insatisfação geral.

António Cabral (AC)

domingo, 5 de fevereiro de 2023

MARINHA,  MEIOS NAVAIS

Vejo muito pouca TV. 

Sexta-feira chamaram-se à sala - António, vão falar sobre os navios da Marinha - e lá fui.

Uma pequena reportagem que não me deu novidades.

Pergunto-me, quem terá encomendado esta peça ao sr Moniz ?

A senhora que formalmente é ministra?

O inarrável que a coadjuva?

O CEMGFA?

O CEMA?

Alguém dentro do EMGFA?

Alguém dentro da Marinha?

Alguém de um partido?

Uma coisa é certa, um imagem muito triste.

Que dizer deste Presidente da República que formalmente é o Comandante Supremo das Forças Armadas, mas que cada vez mais é um patético comandante palrador?

Que dizer dos seus antecessores?

Que dizer deste governo intrujão e de todos os seus antecessores designadamente desde 1991?

Que dizer dos deputados designadamente desde 1991 e das sucessivas comissões parlamentares de defesa, onde pontificaram e pontificam estrelas (???) como um tal Perestrelo?

Mas, quantos portugueses se interessam e incomodam com tal situação?

António Cabral

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A propósito de MARINHA 
1. Aqui, mais uma vez no sossego da aldeia, além de ler, caminhar, fruir da companhia dos netos, fotografar, cozinhar, é uma das alturas em que percorro mais demoradamente os arquivos e livros arrumados na prateleira. Olhei agora com atenção para um texto recente.

2. O texto/ artigo é o que não há muito tempo o jornal Expresso (tido (??) por - a referência) deu a conhecer aos portugueses. Falo de um longo artigo escrito aparentemente por um dos jornalistas tido (presumo eu) como perito em assuntos militares, geopolítica, assuntos do mar, e sobre uma ideia atribuída ao actual chefe da Marinha nacional. 

3. Digo aparentemente e, sublinho, sem qualquer intuito ofensivo pois, como alguns saberão, os artigos que lemos nos OCS são escritos, na maioria das vezes, integralmente pelos jornalistas mas, outras vezes, muito provavelmente, dão o nome a textos que recebem, ou apresentam coisas previamente combinadas. Na gíria popular, encomendas, favores, fretes. 
É a noção que tenho de há muito mas admito, como sempre, poder estar enganado. É a noção que tenho dado o histórico no país.

4. Um artigo curioso, para dizer o mínimo, sobre um DESIGNADO novo navio da Marinha. Não existe nada, NADA, mas escreveu-se o "novo navio".
Do que li, vi uma caricatura, vislumbrei um desejo.  
Como classificar o artigo? (entrevista?)

5. Antes de prosseguir: não sou, jornalista, arquitecto naval, "spin  doctor", político, membro de "discretas", engenheiro, CEO de estaleiro naval, essa coisa que designam de "influencer", lobista. 
Além disso, a forma, o que ficou pendurado, legitimam as minhas muitas dúvidas e por isso o que escrevo a seguir.

6. Tenho uma ligeira noção sobre como nasce um navio de guerra.
Noção baseada não só mas designadamente na experiência internacional do meu melhor amigo militar, um almirante reformado que, entre outras coisas e andanças por esse mundo, conheceu em detalhe a fase inicial de desenho de um navio de guerra estrangeiro. 
Fase que decorreu durante basicamente 2 anos e, antes dessa fase, tinham já sido definidos os chamados requisitos operacionais. 

7. O que está no parágrafo anterior traduz-se em linguagem simples. Tudo começou com a avaliação da ameaça então conhecida e que se desejava enfrentar com um novo navio de guerra. Tudo começou com uma definição do que se pretendia que esse novo navio pudesse realizar.
E também nessa fase inicial e portanto antes da fase de desenho do desejado navio, foi ponderado com que estaleiro naval o grupo de trabalho receberia o apoio técnico indispensável de modo a chegar-se a um projecto exequível de ser construído. Nesses quase dois anos, houve reuniões mensais no estaleiro naval, concretamente em Antuérpia, para se ir afinando o desenho e características do navio.

8. Não é possível fazer o desenho de um navio de guerra, imaginá-lo, sem que desde o início do processo haja o concurso de um estaleiro naval habituado e habilitado a construir navios de guerra. 

9. Naturalmente que em qualquer sociedade é fundamental avançar, fazer avançar as instituições, o país. É de aplaudir o sangue novo, novas ideias, e decisões, mas decisões fundamentadas.

10. Em Portugal arrastam-se os estudos e os grupos de trabalho. 
Lembro o caso do aeroporto ou da substituição da espingarda G3 que equipa as Forças Armadas desde alturas da guerra colonial.
Mas quanto a decisões convém, como dizia outro dia uma jornalista a propósito de um tal Sérgio, que "não nos tomem a todos por tolinhos". Isto é muito importante.

11. Da leitura do tal artigo do Expresso, do tal navio de guerra revolucionário, chamado novo, reproduzo 14 frases que mais me chamaram à atenção, sublinhando a cor algumas partes:
- conceito criado por Gouveia e Melo; *
- o governo está convencido; para tal, terá dotado 130 milhões €;
- Portugal está a preparar a construção de um navio pioneiro com este conceito;
- Gouveia e Melo teve de convencer muita gente, do topo do poder político a empresas e universidades, para o Governo aceitar inscrever verba avultada no Programa de Recuperação e Resiliência (PRR) para um tipo de navio que não existe; 
- nenhuma Marinha de Guerra tem um navio multifunções com o conceito que Gouveia e Melo inventou e deu a conhecer num ensaio em 2019, nos “Cadernos Navais”;
- o objetivo é Portugal ter este navio modelar equipado com drones aéreos, de superfície e subaquáticos; 
- somos os primeiros a conceber um navio destes diz o almirante;
- temos uma Marinha pequena e um espaço marítimo do tamanho da Europa: se não for através da tecnologia, não conseguimos chegar lá, diz o almirante; 
- que tem aparecido em sondagens como o preferido dos portugueses para as próximas presidenciais. O almirante não comenta;
- estamos a congregar a indústria nacional e a academia para desenvolver partes do projeto e termos maior propriedade da tecnologia, diz o CEMA;
- nem só de guerra se fará o navio “multifunções”. “Tem a capacidade de vigiar grandes zonas, para fiscalizar as pescas, a poluição, e todo o tipo de atividades ilícitas; e haverá uma componente científica
- pode funcionar como navio polivalente logístico e navio hospital e de transporte, em caso de emergência.
- concurso internacional público foi lançado em Junho, com financiamento de €94 milhões no PRR para a construção e €30 milhões adicionais para desenvolver os primeiros robôs. “Custa um quarto de uma fragata, diz Gouveia e Melo, que prevê um prazo de três anos para o navio estar pronto;
- a Marinha está a fazer roadshows para congregar a indústria nacional e o tecido académico para desenvolver partes do projeto, para termos maior propriedade da tecnologia.

* (o tal crismado de herói das vacinas, potencial candidato a Belém)

12. Como interessado cidadão e curioso destas coisas, o artigo e em particular as 14 frases que destaco, colocam-me interrogações diversas.
Em primeiro lugar e depois de o ter lido recordei as palavras, coragem, frontalidade, inovação, entusiasmo, liderança, sangue novo, modernização, ideias novas.
Mas numa segunda leitura ocorreram-me as palavras, sustentabilidade, noção das responsabilidades, noção das realidades, competências, demagogia, auto-promoção, arrogância, escrutínio, leviandade, propaganda.

13. Este artigo suscita muitas interrogações. 
Legitimamente me faz desconfiar, suscita interrogações sobre se o "brinquedo" se enquadra em assuntos sérios do Estado. 
E, antes de continuar, quero sublinhar que me pronuncio sobre o que li. Se o que li não corresponde ao que anda a ser feito não tenho culpa. Cinjo-me aos factos apresentados. Não estou no campo dos maus juízos porque sim.
O que foi apresentado e como foi apresentado, respeitosa e sinceramente não me cheira a sério. Ainda por cima quando se sucedem outros artigos no mesmo sentido, laudatórios, superficiais, para encher chouriços.

14. O ARTIGO
Respeitando quer o jornalista quer o "alvo", uma leitura atenta do artigo deixa campo a que, legitimamente, se conclua poder estar-se perante um frete. 
Ficam muitas perguntas no ar. 
Além disso, o que escrevi em 6, 7, e 8 baseiam-se num caso concreto, real, e desde o início dos trabalhos para definir os requisitos operacionais até ao fim da fase de desenho do navio decorreram mais ou menos 3 anos. Navio no papel e computador! APENAS!
Agora, com a maior naturalidade, diz-se aos portugueses que uma nova maravilha dos mares estará pronto para navegar em 3 anos. 
3 anos? Típico do estado em que estamos. 
É ler bem as frases que destaco em 11.

15. ESTRATÉGIA NACIONAL
Já por mais de uma vez referi a questão e insurjo-me há anos contra a história do existente "Conceito estratégico de defesa nacional" (CEDN) relativamente ao qual a senhora formalmente titular da pasta da defesa já nomeou uns "sábios" (OCS dixit) para o rever e actualizar.
E insurjo-me porque de há muito advogo um conceito estratégico nacional (CEN). 
Mas não, continuamos com fantochadas (opinião pessoal, naturalmente): agora é que vai ser, a defesa; agora é que vai ser, o mar; agora é que vai ser, a floresta, etc. 
Num país organizado e estruturado, num país com CEN, não haveria lugar a brincadeiras, fosse em que sector fosse do todo nacional. 
No CEN (nada prolixo como o CEDN que temos) haveria uma definição global de rumo para o país, e a definição de prioridades, atentos os recursos, limitações, desafios, riscos, ameaças. 
Continuamos a brincar e a inchar os peitos a uns ditos sábios alguns dos quais com estágios pagos lá fora sabe-se lá com que proveito nacional.

16. DEFESA NACIONAL (DN)
A DN como as pessoas intelectualmente honestas e letradas sabem, têm diversas componentes sendo a componente militar uma delas. 
A componente militar é materializada pelas Forças Armadas (FA). Estamos a caminho dos 50 anos passados sobre o 25 de Abril de 1974, e continua o desgraçado e maltratado país sem ter uma definição concreta e rigorosa sobre se deve ou não ter FA e, tendo-as, que FA. 
O execrável Putin agrediu a Ucrânia e logo saltitaram Marcelo e Costa, e Carreiras, e sábios diversos - agora é que vai ser quanto a guerra, defesa e FA
Sorrateiramente, apareceram depois uns discursos frouxos a colocar algum travão nas primeiras proclamações. Dizem que Putin se preocupou com os arrufos nacionais dessa altura. Mas já sossegou!

Estamos num país com três Zonas Económicas Exclusivas enormes e com a possibilidade de um dia poder ver positivamente sancionada pela ONU a extensão da plataforma Continental. 
MAR, e MAR, e MAR, que uns cromos quererão talvez patrulhar com barquitos pindéricos quase oferecidos exactamente para nos ludibriar.

17. FORÇAS ARMADAS
A chamada crise nas FA arrasta-se pelo menos desde 1991. Arrasta-se penosamente, e particularmente desde 1995 com o premeditado gradual estrangulamento financeiro.
Face ao aduzido até aqui é assim surpreendente o que se noticia sobre um tal de "navio novo" repleto de "drones" de todos os tamanhos e feitios. Miraculosamente a ser parido pelo PRR. 
Já não é surpresa nenhuma que o senhor jornalista nada se questione sobre realidades concretas do mundo da construção naval, o que legitima a teoria do frete cumulativo com propaganda e promoção pessoais.

18. POLÍTICA NACIONAL
A política nacional e particularmente com o actual inquilino de S.Bento e formalmente chefe do governo mostra que hoje diz-se e promete-se uma qualquer coisa, mas sabe-se que amanhã pode vir-se a assobiar para o ar. 
O PRR não fugirá a esta regra Costiana! 
Quando falo em política quero referir-me em concreto à política de defesa que não própria e exclusivamente quando à sua vertente militar. 
Que política de DN consistente para o país definiram Guterres/ Vitorino, Barroso/ Portas, Sócrates/ Santos Silva, Costa/Cravinho?
Temos sobretudo Marcelo a palrar.

19. PROJECTOS PESSOAIS
Faz parte da natureza humana certas pessoas por vezes inebriarem-se.
Iludirem-se. 
Estou a lembrar-me de um certo e relativamente recente candidato presidencial que só tarde se terá apercebido de que o suposto e forte apoio de um grande partido afinal não era bem "favas contadas". 
E tantos outros exemplos. 
A esmagadora maioria dos que se entusiasmam excessivamente, dos que se iludem, nunca percebem que a maioria dos cargos para onde os remetem são exactamente definidos para que não incomodem mais politicamente, para que fiquem controlados.

20. NAVIOS de GUERRA e correlacionados
a. No agudizar da latente crise China - Taiwan noticiou-se a existência à volta da ilha de um moderno e recente navio de guerra Chinês cheio de "drones". Quase apetece perguntar, o adido de defesa Chinês acreditado na embaixada da China em Lisboa, conheceu anos atrás a ideia do almirante Gouveia e Melo e levou-a para Pequim?

b. Deixando a brincadeira de lado, o assunto é demasiado sério para ser tratado com a ligeireza e superficialidade que legitimamente se retira do artigo do Expresso. 
E volto a repetir, pronuncio-me com base no que foi apresentado.

c. Presente o que escrevi acima (6º, 7º, 8º parágrafos) o brinquedo como lhe chamei foi apresentado no Expresso parecendo-me que sem a necessária adequação ao que tem de ser considerado num processo de construção /aquisição de um navio de guerra e, particularmente, um protótipo peculiar que, as marinhas NATO creio nada têm de equivalente. 
É num "road show" que se define o contrato com um estaleiro?
O concurso internacional anunciado é para a construção? 
Já, assim de repente, para tal bastando pouco mais que um escrito de 2019?
Lá fora levam pelo menos 3 anos para definir requisitos operacionais e depois concluir a fase de desenho de um navio de guerra ou seja, ter em papel e computador os desenhos que habilitem um estaleiro naval a construi-lo.
Ora cá em Portugal, pelos vistos, uma "luminária" convence o governo (será mesmo assim?) que em três anos terá um navio de guerra inovador que ninguém no mundo tem, e pronto a navegar imediatamente. Importa-se de repetir?

d. Será que explicaram tudo à Sra Carreiras que esta pretendida inovação não tem igual no mundo e que mesmo assim é num instante que se constrói, além de lhe assegurarem que não existem riscos de espécie nenhuma neste pretendido projecto?

e. Será que explicaram tudo á Sra Carreiras sobre, manutenção de navios, logística, formação no estrangeiro, necessidade de preparar a construção de pelo mais mais dois navios do mesmo tipo deste super protótipo? Ou que os "drones" vão todos ser construídos em Tróia?

f. Investir na Marinha nomeadamente baseado no que em parte acima referi, é uma evidência para qualquer ser intelectualmente honesto e que repare na circunstância geográfica de Portugal. Seja isto inconveniente a quem for.
Talvez fosse mais que tempo dos senhores jornalistas serem mais  rigorosos, deixarem-se de loas a certas criaturas, e não tomarem todos os portugueses por tolinhos! e fazerem perguntas concretas (*)

g. Sim, nas nossas ZEE temos problemas diversos a encarar tal como actividades a realizar e assim, podemos lembrar as drogas, trasfegas ilegais de petróleo, pesca ilegal, rotas de imigração ilegal, a necessidade de vigilância das nossas águas, evitar explorações de fundo não autorizadas, investigação científica não autorizada e ainda   as responsabilidades nacionais a cargo da Marinha e Força Aérea no que concerne à segurança e salvamento no mar. 

h. Não creio que tudo isto como descrito pelo Expresso e outros se coadune com projectos pessoais. Sejamos sérios.
Conheço bem "Os Lusíadas". 
 
Sei bem que a opinião sobre cada um a outrem pertence. 
Ainda assim, não me tomem por tolinho, e não sou velho do Restelo exactamente porque nunca me conformei nem o meu melhor amigo militar com os CEDN e a doutrinação de anos e anos de generais e doutores. 
Nem me conformo com a persistência dos avençados que periodicamente gargarejam loas a certas criaturas.
Não tenho a menor dúvida sobre o que devia existir nas FA e nomeadamente na Marinha e na Força Aérea tendo nomeadamente em conta o nosso MAR. 
E não tenho dúvida alguma de que há muito devíamos estar a fazer diferente.
Mas, repito, não me tomem por tolinho.
António Cabral

(*) - perguntarem por exemplo por há apenas este ou aquele meio quer da Marinha quer da Força Aérea para as ilhas e gigantesca ZEE dos Açores.
Perguntarem por exemplo porque não se discute publicamente na Assembleia da República (AR) a distribuição de meios militares pelo país e se trata das coisas meio às escondidas entre a comissão parlamentar de defesa, o conselho superior de defesa nacional e o comandantezinho das forças armadas.
Tentarem perceber porque não se discute publicamente em plenário na AR quer as questões orçamentais, quer as questões de meios, ou porque ano após ano a Lei de Programação Militar é mordida com cativações e etc.
Tentarem, perceber o que é rotação de meios. Etc.

sábado, 27 de agosto de 2022

BRINCADEIRAS do JORNAL EXPRESSO 

O tido por muitos como um jornal de referência, traz na sua edição de 26 de Agosto de 2022 uma brincadeira sobre o que na edição anterior designou por "novo navio" da Marinha. Não há "novo navio nenhum"!
É uma graçola sobre o tal "navio" inventado/ definido pelo actual chefe da Marinha vulgarmente crismado como "o herói das vacinas".

Metem na graçola, o próprio almirante Gouveia e Melo, a sua aparente vontade de concorrer à Presidência da República, a lancha da GNR que se espetou nos rochedos à entrada da barra Norte de Lisboa, e as características do dito "navio", num gozo natural, e que se aceita perfeitamente num país com liberdade de expressão, com liberdade de imprensa, com direito de opinião.

Mas exactamente pelos direitos à opinião e à liberdade de expressão, é que afirmo que um jornal que se arvora como grande referência, a par deste tipo de brincadeiras, talvez pudesse também olhar para o assunto com seriedade e profundidade. Talvez o venha a fazer.

Por enquanto, o que fica é, a graçola de hoje e o artigo da semana passada, o qual  tem um "perfume" de mais um grande favor dos OCS nacionais ao actual chefe da Marinha. A superficialidade desse artigo legitima que eu suspeite tratar-se de uma encomenda!

Sobre os aspectos sérios a que me refiro, reservo-me para texto separado.
António Cabral

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

O  MAIS  PODEROSO 
O navio o mais poderoso do mundo, avançam agora, será Chinês.
Ao ler a notícia fiquei muito curioso.
Mas depois consultei o meu melhor amigo militar, que é almirante, e disse para comigo, ….. difícil de ter a certeza. 
Já vou à minha dúvida.

A tensão continua a crescer entre a China e Taiwan, com o senhor Xi a exibir a sua força. Aparentemente, ao mesmo tempo, a pretender ir falar com o caquético presidente americano. 
Não sei se, também e à semelhança de outro presidente, fazer uma deslocação oficial para aproveitar para visitar a filha que por lá andará a estudar.

Pelas notícias, aparentemente, uma das demonstrações de força da marinha Chinesa terá sido a exibição de um moderno navio o qual, de entre outras, terá a capacidade para controlar "drones" e mini submarinos. E terá muitos mísseis.

Voltando à minha curiosidade, é esta, e faz-me lembrar a questão da galinha e do ovo:
Será que China influenciou um conhecido militar?
Ou foi sobre o pensamento desse militar que a China construiu este holístico navio?

Sei que os Chineses são tramados……
AC

domingo, 26 de junho de 2022

COISAS  do  MAR 

Agora que vem aí a conferência da ONU para os oceanos...
AC

quinta-feira, 19 de maio de 2022

ANDANDO  PELO  ARQUIVO  ANTIGO

RECORDAÇÕES. 19 Maio 1973
Para muitos, esse 19 de Maio foi mais um dia, mas nesse já distante 1973 foi para mim um dia muito diferente, e ficou uma data marcante na minha vida. 
E a hora do que então aconteceu não mais a esqueci, 2340 h. 
Eu e outros não morremos nessa noite porque não era a hora.
Estava na Guiné, então território português, colónia/ província ultramarina, a cumprir o mesmo que milhares e milhares de concidadãos, e cumpria a chamada comissão de serviço a bordo deste navio que mostro em baixo, a lancha de fiscalização grande (LFG), o NRP "Hidra" (NRP= Navio da República Portuguesa).

Faz agora anos que nessa noite, quando o navio navegava/ patrulhava em ocultação total de luzes e em postos de combate/ bordadas (metade da guarnição), fomos atacados por bombordo no rio Cacheu, o rio a Norte mais perto do Senegal. 
Como quase todos os outros que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Estava uma noite de espectacular luar.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o único projéctil/ granada foguete lançado por um dos então chamados guerrilheiros do PAIGC. Houve vários feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive rombos abaixo da linha de água.

Passadas semanas, um relatório da DGS (Direcção Geral de Segurança), confirmou a morte de todo o pequeno grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores até junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado (dezenas) que estava no exterior e que terá durado muitos segundos mas seguramente menos que um minuto, varreu literalmente com aço toda a zona. 
Verificou-se na manhã seguinte que na margem do local do ataque, havia uma zona quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos menos grossos, sem casca. Tudo madeira branca. 
O tempo voa, passaram-se décadas! 

Eu não esqueço. 
E recordo, com emoção, os que estavam comigo, e que nunca mais vi depois do regresso à metrópole.  
Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. 
Mas sobretudo não sabem respeitar, passado, história, sofrimento, dor. 

Não respeitam os que como eu andaram na guerra e que, felizmente, regressaram quase sem sequelas. 
Mas acima de tudo não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas, nem os familiares dos que tombaram pela Pátria. E muitos dos mortos não foram trazidos para Portugal, por lá continuam. 
Um país que trata assim os militares falecidos em combate dá naquilo a que crescentemente se assiste.

Esquecem além disso, o que a Lei Primeira/ Constituição estabelece. Esquecem ou melhor, querem lá saber, do que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar, pois que defesa nacional tem, além da militar, as componentes, económica, financeira, diplomática, transportes, etc. 
Esquecem, ou melhor, querem lá saber, do dever de tutela, do respeito pela lei, do que é verticalidade ou honestidade intelectual.
Querem lá saber, da história do País e dos que por ele lutaram e muitos deram a própria vida, tudo lixo para a “gentinha” que vai governando (?) o País. Adiante.

A primeira fotografia se não me falha a memória é de época anterior a esta data.
A segunda é, salvo erro, de 10 de Junho do mesmo ano, estando o navio em seco, no estaleiro em Bissau, em reparações, pelas consequências do ataque que sofremos naquela data. 
Coincidentemente ou não, o ataque deu-se logo pouco depois de uma operação portuguesa dentro do Senegal, de que tenho uns "slides" coloridos dos nossos helicópteros a voar por cima do rio Cacheu, para lá e para cá.
Ficou gravado para sempre. 
Lembro-me de praticamente tudo como se fosse hoje.
Passaram-se 49 anos. 
Em 28 de Julho próximo passam 49 anos que acabou esse pesadelo de 21 meses em África, iniciado a 29 de Outubro de 1971.
49 ANOS,……... SAFA, como diria o "outro".

António Cabral (AC)

domingo, 16 de janeiro de 2022

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Fui ao FUNERAL porque ERA AMIGO DELE

(Coronel Matos Gomes, Expresso 19 Fevereiro 2021)

Salvo melhor opinião, uma frase de combatente digno e que, tanto quanto sei, o foi sempre pelas boas leis da guerra. Uma frase que espelha dignidade, não traição a amigos, independentemente de um juízo diferente, justo e frontal no que toca à guerra em África, guerra que muitos enfrentaram (eu também fui um deles). Muito se tem escrito e ouvido acerca do passamento deste português, Marcelino da Mata, nascido na Guiné, deste homem complexo como todos nós, deste militar discutível como todos os militares e particularmente todos os que foram combatentes reais e não de ar condicionado. Por ser sempre prudente observar alguma distância em relação à história e a certos acontecimentos, aguardei uns dias para ponderar sobre o assunto que tem feito correr muita tinta, sobre um homem que nunca pessoalmente conheci, sobre quem ouvi imensas histórias, e a propósito dele muitas histórias ouvi também acerca de quem algumas vezes o comandou no mato levando apenas uma americana calibre 45, tal como sobre certos outros mandantes de então. Histórias, a maioria das quais certamente correspondentes a realidades, incluindo a coisas que muitos de nós, provavelmente, não faríamos, porque não estávamos lá e, quase certamente, por falta de condições físicas psíquicas anímicas e intelectuais para as cometer.

Duas notas antes de prosseguir:

- respeito as opiniões de outrem, sempre, mas já estou cansado dos  Fernandos Rosas e de muitos outros MRPP's incluindo os que se entretêm com sinecuras e vacinas, as Anas Sá Lopes, os Manuéis Loffs, os Rui Tavares, os João Miguel Tavares, os André Venturas, os Ascensos Simões, as Catarinas, as Isabéis, e tantos outros das mesmas cores. Como cansado estou dos vergonhosos passos para limpar os passados de protagonistas e mandantes das violentas FP25 de Abril, relativamente ás quais alguns sem vergonha nenhuma na cara só lhes falta dizer que essas gentes e um dos seus inspiradores foram o êxtase da democracia, e que nunca mataram ninguém, e nem por tal são responsáveis. Como cansado estou dos que fingem, não ter havido MDLP, nem PREC, nem rajadas de metralhadora contra portões só porque sim. Como cansado estou de alguns daqueles que combateram em África, bem próximos de altas figuras do regime de então, e que no PREC se comportaram como uns alienados absolutos. Como cansado estou do endeusamento daqueles que enriqueceram brutalmente apenas com o normal vencimento do Estado/ da política. CANSADO!

- Como outros, como um bom amigo, combati na Guiné, 29OUT1971-28JUL1973, a bordo de um navio da então designada Marinha de Guerra, onde fui o oficial imediato (equivalente a 2º comandante), e quando digo combati é literal. Por exemplo, o navio foi atacado e teve estragos vários, pelas 2340 horas, numa noite de luar fantástico, no rio Cacheu, no já muito distante dia 19 de Maio de 1973, quando navegávamos em ocultação total de luzes e em postos de combate a bordadas, como habitualmente. Eu (por centímetros) e outros, podíamos ter morrido. Não calhou, morreu um comando africano dos muitos que nessa altura transportávamos, depois da operação que eles tinham levado a efeito dias antes sob comando de uma muito conhecida figura. Houve vários feridos. 

Refiro isto para dizer que fui combatente, mas também para dizer que, correndo sempre reais e sérios riscos de vida quando navegando nos estreitos rios, ainda assim esse combate durante 21 meses da comissão de serviço na Guiné foi diferente do combate da tropa especial dos três ramos das Forças Armadas (FA) (fuzileiros, comandos, pára-quedistas) que iam a sítios terríveis, que combateram em circunstâncias muito difíceis, e em que muitos morreram, outros ficaram feridos, outros estropiados para o resto das suas vidasUm combate com sérios e constantes riscos de vida, sim, mas diferente do daquela tropa de quadrícula do Exército, estacionada em determinadas zonas e quartéis disseminados pela Guiné, muitas vezes lá enfiados meses e meses borrados de medo, sob bombardeamentos de canhão sem recuo do PAIGC, umas vezes periódicos, outras quase diárias sobretudo no ano de 1973. Um combate diferente do dos pilotos da Força Aérea que foram derrubados e alguns morreram, ou dos que após Março 1973 foram obrigados a voar o mais alto possível sem algumas vezes conseguir distinguir bem os alvos. 

Voltando a Marcelino da Mata, e como bem recorda quem em África combateu em mais de uma comissão de serviço e é intelectualmente honesto, provavelmente mais de metade dos portugueses que combateram em África era de origem Africana, e Marcelino da Mata como outros em Angola e Moçambique, levou a cabo durante anos uma guerra irregular, muitas vezes quase certamente à margem das leis da guerra, mas que os comandos dessa altura mandavam fazer porque disso precisavam, isso queriam, e de tudo sabiam. E a maioria calou, embora alguns tenham agora rebates de consciência para ficarem de bem junto dos polícias das mentes e do politicamente correcto, e junto dos imbecis que já tiveram a felicidade de não irem à estúpida guerra mas se atrevem a tecer apreciações com os parâmetros de hoje, a preto e branco.

Percebo e comungo da opinião de que Marcelino da Mata nunca foi um herói, pois não tinha um ideal. O que ouvi na Guiné bate certo com o que no presente alguns afirmam sobre Marcelino da Mata, os que são intelectualmente honestos. Que era um militar duro e sereno, porventura violento, acredito mesmo que muito violento no mato, que se preparava muito bem antes de partir com o seu pequeno grupo para as operações que lhe determinavam os comandos brancos na Guiné, a cadeia hierárquica a começar em Spínola, que de tudo se inteirava. Discutir a guerra com seriedade, são poucos os que o fazem, porque a esmagadora maioria "activa sempre o modo" da desonestidade intelectual, e pretendem sempre reescrever a história. Discutir a guerra colonial com seriedade são poucos os que o fazem. 

Marcelino da Mata, foi o mais condecorado dos militares portugueses, mas muitos outros militares, da Marinha de Guerra, do Exército, e da Força Aérea, foram condecorados durante os anos da guerra em África. E houve condecorações de militares pelos seus feitos na guerra, nos matos, e por combate em unidades navais, e por combate com meios aéreos. E, como sempre, houve também condecorações atribuídas a militares pelos bons serviços prestados mas que nunca foram ao mato combater. Mas isso é compreensível, pois havia que suprir com meios humanos os comandos, os estados-maiores, alguém tinha que o fazer, e aí cumprir. E cumpriram.

Quanto à Guiné estou a lembrar-me de alguns que estavam perto de Spínola, em certas e especiais repartições/ departamentos, um dos quais, por exemplo, embarcou no meu navio acompanhando jornalistas franceses (Paris Match) que tinham ido observar a excelência da guerra promovida pelo general, a excelência da gestão administrativa de Spínola, sempre no âmbito da sua campanha no país e no exterior. É compreensível e tem de se respeitar, mas há condecorações e condecorações. Como se passa hoje em democracia, pois basta ser ajudante de um general ou almirante chefe de estado - maior ou ser ajudante do PR por exemplo, para ao fim de um ano e pouco de serviço ser logo agredido com uma medalha. Ou, ao terminar o cargo de chefe militar, automaticamente ser condecorado pelo PR. Ou, depois de ser PM, ser automaticamente condecorado pelo PR, excepto, e bem na minha opinião, o farsante Sócrates.

Marcelino da Mata (MM) praticou crimes de guerra à luz das leis da guerra? Não sei, mas é bem provável. Alguns dizem que é certo, mas bem podiam ter feito essas denúncias logo pelo menos a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Quem de certeza não os praticou foram todos aqueles que estavam no ar condicionado em Luanda, em Lourenço Marques, em Bissau. Não os praticou quem esteve meses encurralado em Guidaje, Bigene, Quilege, Farim, etc., esses que se alguma menor pressão por parte do PAIGC tiveram em certos períodos foi por acção, da aviação da FAP, dos comandos, dos pára-quedistas, dos fuzileiros, e de grupos como o de Marcelino da Mata. 

Desculpável, essa parece que certa, prática de crimes de guerra? NÃO. Repito, NÃO. Mas presumo que durante a democracia Marcelino da Mata não cometeu qualquer crime de sangue. Creio que ele o podia afirmar. Assim todos o pudessem dizer.

Alguns avançam que MM nunca foi acusado da prática de crimes de guerra, nem julgado. Nem lhe retiraram as condecorações. Obviamente, pois ele obedeceu a ordens, e as hierarquias, muitas das quais atingiram os postos máximos no Exército já em democracia, presumo que sabiam de tudo. E não esquecer Spínola, que de tudo se inteirava ao detalhe. Não quer dizer que aprovassem atrocidades, a esmagadora maioria não aprovava, óbvia e certamente. Mas, sem desculpar nada do que de horrível se terá passado por lá, na Guiné, quem me diz a mim que em Angola em São Tomé e Principe e Moçambique, não aconteceram coisas idênticas e/ ou piores? Horrores, de ambos os lados da barricada? E que no início das hostilidades, por exemplo sei lá, em Angola, não possa ter havido quem se divertisse "tirando" fotografias a grupos de pessoas com recurso a bazuca? Naturalmente que isto não passa de pura invenção. Como invenção, certamente, a chacina de crocodilos nos rios, a pesca com granadas, etc.

Para tentar terminar este arrazoado, que mexe um pouco comigo pois andei por lá, sempre na vida houve e haverá, condecorados que o não deviam ser, atribuições imerecidas de comendas, nomeações para bons cargos por nepotismo, mandantes que sem vergonha na cara se desculpam por mortes perpetradas pelos seus executivos, quem consegue ser indultado e amnistiado por inconfessáveis razões, quem analise e argumente com honestidade intelectual, quem ofenda quem pensa diferente ainda que civilizadamente, quem fale do que não sabe, quem considere ainda nos dias de hoje que o passado e o presente foram e são coisas a preto e branco. É importante respeitar as opiniões divergentes, e civilizadamente ponderar as questões. 

Massacres? Crimes de guerra? Violações de mulheres e crianças? Aldeias arrasadas? Bombardeamentos aéreos sobre alvos que não se sabia bem se seria ali? SIM, houve certamente de tudo. Eu combati na Guiné, como outros, não propriamente porque fossemos fascistas, ou porque não tivéssemos alternativa. Por exemplo, o meu melhor amigo militar, que é de Marinha, podia ter ido para Luanda e não aceitou que a família disso tratasse, e era tão fácil, dadas as circunstancias da vida. Foi para a Guiné. 

A guerra não justifica tudo, nem horrores nem outras coisas, como aconteceu com alguns que foram para o ar condicionado de Luanda ou Lourenço Marques, quando parece que lhes calhava ir para o Leste de Angola ou Guiné, pelo que em consequência outros foram para onde não deveriam ter ido.

A terminar, confesso que tentei perceber e, talvez por deficiência minha, ainda não consegui encontrar explicação para o que se passou com o falecimento deste português e combatente. Porque esteve no funeral de Marcelino da Mata o PR, mais chefias militares, etc.? Porque houve na AR uma certa homenagem a este destemido militar português ? Porque surgiu tudo isto, e quem o promoveu?

Uma coisa é para mim certa, e não é de agora que assim penso. A guerra não é aceitável. Os portugueses de África e os do Continente e Ilhas,  os africanos e os europeus, foram todos vítimas dum conflito e de um regime que nunca quis resolver as questões por negociação diplomática/ política, como fizeram outros países. A realidade é dura. Houve massacres executados por brancos, por negros e por mestiços, uns contra os outros. A guerra deixa marcas. Em mim, felizmente, muito poucas deixou. Muitos milhares de portugueses não podem dizer o mesmo. Muitos milhares de famílias não podem dizer o mesmo, pois perderam os seus familiares. Infelizmente.

Por todos eles, milhares ainda vivos, militares e milicianos, a todos é devido respeito. É devido respeito pelos que morreram, pelos feridos e estropiados, pelos que combateram no mato, pelos que combateram nos estados-maiores, pelos que combateram no ar, pelos que combateram nos rios, pelas famílias sofridas e pelas famílias destruídas. RESPEITO, é devido.

Falar disto, seja a propósito de um antigo combatente ou não, sem honestidade intelectual e distanciamento, é uma grande falta de respeito por nós todos, nós que lá estivemos, nós que conseguimos regressar, e por nós os que por lá morreram. Dos que por lá morreram, o Estado português materializado designadamente pelos sucessivos PR, governos, e AR, por lá os continua a deixar estar. Muitos restos mortais de portugueses falecidos em combate foram já resgatados e regressados ao Continente, mas muitos outros por lá continuam. E este presidente da República, e este governo, e esta AR e estes deputados, e este ministro da defesa nacional, passam o tempo com discursos e tiradas patéticos, anúncios de reformas tolas, sugestões para noites em quartéis, idiotices sucessivas. Uma total falta de RESPEITO.

António Cabral (AC)