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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

1971 - 1973,  GUINÉ
Na então Guiné portuguesa hoje Guiné Bissau, época da minha vida para onde fui mandado cumprir 21 meses na guerra, vivi como outros as cenas da guerra e as cenas do quotidiano em Bissau. 

De 29OUT1971 a 28JUL1973 estive na guerra, para lá fui mandado cumprir um tempo a bordo de um dos muitos navios que a Marinha (então) de Guerra lá tinha. Hoje como não há guerra é só Marinha. Fui então por 21 meses o chamado oficial imediato, o equiparado a um 2º comandante.

Das cenas da guerra, e tive muitas e bastantes sustos, não me apetece falar agora, mas estou a referir-me a esses já longínquos tempos por me ter recordado de algumas coisas das muitas cenas "curiosas" que vivi, directamente umas, indirectamente outras (as várias que aconteceram, vividas/ testemunhadas por outros).

E recordei-me desses tempos quando estava a consultar velhos arquivos e fotografias dessa altura. Nos arquivos tenho algumas interessantes coisas dos tempos da célebre Operação Mar Verde, apenas parcialmente bem sucedida, e em que participaram imensos dos navios em serviço na Guiné.

Recordei-me de um inarrável arrogante e irascível chefe de Estado-maior do então Comando da Defesa Marítima da Guiné (CDMG), pai de uns igualmente inarráveis e insuportáveis Trotskystas da nossa praça.  

Recordei-me do capitão de mar-e-guerra que era o 2º comandante do dito CDMG e protagonista de cenas hilariantes. Tinha por alcunha "o cabeça silenciosa", pois quem passava por ele e o cumprimentava militarmente ao mesmo tempo que dizia - bom dia sr comandante - recebia invariavelmente apenas um silencioso aceno com o braço levantado, tipo "passe bem".

Uma das cenas hilariantes, que não presenciei mas aconteceu mesmo, tem a ver com uma célebre manhã em que o senhor deu despacho ao oficial que superintendia os recursos humanos do CDMG, e que no essencial foi como descrevo a seguir.

O dito oficial apresentou para sancionamento do dito 2º comandante, uma série de normas do âmbito do seu serviço.
O 2º comandante olhou atentamente, folheou os papéis e depois inquiriu - quem fez isto?

O oficial, de alcunha o "princês", imaginou que o 2º comandante perguntava por quem tinha dactilografado tudo aquilo, e naquele seu ar físico muito peculiar a roçar o ridículo respondeu - "foi a minha secretária".

NÃO, retorquiu o 2º comandante visivelmente irritado. Quem é o cerebrozinho disto?

Ah, fui eu - respondeu o "princês"!

O "cabeça silenciosa" olhou para ele e terá dito - está uma porcaria, arranje isto!

E lá saiu o "princês" com o rabo entre as pernas, sob um sorriso muito  disfarçado da ordenança (negro) do 2º comandante, que era um sabidão, e que informava os oficiais que precisavam de ir a despacho sobre o humor do "cabeça silenciosa" naquele dia, e assim se batia à porta ou se dava meia volta e tentava outro e desejavelmente melhor dia.

António Cabral (AC)

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

segunda-feira, 28 de julho de 2025

28 JULHO  -  1973 - 2025
Faz esta tarde mais ou menos pelas 1730 horas, 52 anos que cheguei a casa, regressado da guerra na Guiné, onde cumpri 21 meses de comissão de serviço a bordo do grande patrulha Hidra e onde, com os restantes elementos da guarnição combatemos, e onde a 19 de Maio de 1973 pelas 2340 horas fomos atacados e, felizmente sobrevivemos, excepto um das dezenas de comandos africanos que transportávamos no navio. 
Comandos africanos regressados de célebre e complexa e complicada e feroz operação dentro do Senegal.

52 anos passaram.

Lembro-me de tudo como se fosse hoje.
António Cabral (AC)

segunda-feira, 19 de maio de 2025

19 de MAIO
Hoje, pelas 2340 horas (não vou contar com a diferença de fuso horário) passam 52 anos que o patrulha Hidra para onde eu fui mandado combater (29OUT1971 - 28JUL1973) e onde exerci as funções de oficial imediato, foi atacado por Bombordo.

Eu fiquei com o ouvido esquerdo afectado pelas explosões.
Eu e vários outros podíamos ter morrido, como por exemplo o então marinheiro Agostinho que, a descansar deitado no seu beliche a poucos minutos de ir entrar de quarto na ponte do navio, viu um pedaço de aço furar-lhe a cama a cerca de um palmo abaixo dos genitais. 

Um dos vários pedaços de aço oriundos das explosões no convés e que furaram pavimentos, tendo alguns furado o casco, de dentro para fora, causando pequenos rombos que foram facilmente controlados pela limitação de avarias.

O navio teve esses danos, e um incêndio que demorou algum tempo a controlar, mas continuou operacional, tendo a artilharia massacrado toda a área de onde partira o ataque com RPG. Com resultados trágicos para os autores do ataque, escondidos no arvoredo (tarrafe) perto da margem, como se veio a saber algumas semanas depois.

Houve alguns feridos e faleceu, infelizmente, um dos comandos africanos que transportávamos no exterior, e que havíamos recolhido depois de uma célebre operação ao Senegal.

52 ANOS !

António Cabral (AC) 

domingo, 28 de julho de 2024

28 JULHO  -  1973-2024
Fez esta tarde 51 anos que regressei da Guiné, onde cumpri 21 meses de comissão a bordo do patrulha Hidra, e onde com os restantes elementos da guarnição combatemos e a 19 de Maio de 1973 fomos atacados e sobrevivemos, excepto um das dezenas de comandos  africanos que transportávamos.

51 anos passaram.
Lembro-me de tudo como se fosse hoje.
António Cabral (AC)

sábado, 29 de outubro de 2022

29 OUTUBRO 1971

Parti para a Guiné, felizmente saí de lá vivo em 28 de Julho de 1973, com boa saúde. Em pouco mais de 3 meses estava a conseguir dormir tranquilamente, vida normal. Felizmente. 

Também neste aspecto fui um felizardo, contrariamente a muitos milhares de meus concidadãos.

António Cabral

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

E L O Q U E N T E

Algum comentário merecerá por parte do MNE, por parte dos principais titulares de órgãos de soberania, por parte de todos os seus antecessores?

AC 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

28 JULHO

Faz hoje a meio da tarde 48 anos. Foi em 1973, que regressei da Guiné depois de para lá ter ido em 29 de Outubro de 1971, para cumprir 21 meses na guerra.

Regressei a bordo de um dos aviões Boeing 707 da nossa Força Aérea, que descolou do aeroporto de Bissau numa subida brutal a fazer estremecer o avião assustadoramente. O objectivo era ganhar altura o mais rápido possível e assim diminuir as hipóteses de se tornar alvo dos mísseis de que nessa altura o PAIGC dispunha. 

Parece que foi outro dia!

Cheguei fisicamente inteiro, felizmente sem danos intestinais e sezões como aconteceu a milhares de portugueses, psicologicamente e psiquicamente relativamente bem, "malgré tout", e em particular dada a ansiedade do período 19 de Maio - 28 Julho de 1973, ansiedade que o ataque sofrido às 2340 horas de 19 de Maio despoletou.

O tempo voa, estou menos novo.

AC

quarta-feira, 19 de maio de 2021

AINDA  SÓ  PASSARAM  48  ANOS !
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 48 anos que, quando
o navio em que eu prestava serviço durante a guerra em África
navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate
/bordadas, fui/ fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, 
na Guiné, hoje Guiné-Bissau, numa zona mais acima da
base dos fuzileiros, Ganturé. 
Eu e outros não morremos porque não era para ser naquele dia
e hora e local. Foi o susto maior de vários durante os 21
meses de comissão de serviço.
48 !!!!!!!
António Cabral

quarta-feira, 17 de março de 2021

MARCELO, o Comandante Supremo  
No próximo dia 25 de Abril completam-se 47 anos sobre, a revolução dos cravos (para uns), mas na realidade sobretudo a ira dos militares pelo cansaço devido à guerra em África desde 1961 e que os fez derrubar o regime que vigorava. E fizeram muito bem.

Como é sabido, fundamentalmente o PCP transformou a revolta militar numa revolução popular. Seguiu-se depois o famoso (!?!?!) PREC, depois a extinção formal do PREC, a seguir uma certa estabilização institucional felizmente com a entrada em vigor da CRP, mais a eleição do Presidente da República, a extinção do Conselho da Revolução e uma já relevante alteração do texto constitucional. Finalmente, a promulgação da lei Freitas do Amaral de 1982 - lei pateticamente chamada da defesa nacional e das Forças Armadas (FA).

Daí para cá a instituição militar foi sofrendo sucessivas transformações (!?!?), pela mão destruidora dos dois maiores partidos (PSD, PS) mas sempre com o beneplácito de todos os restantes partidos na AR e dos presidentes da República/ comandantes supremos das forças armadas, ainda que a extrema esquerda sempre fosse dando uma no cravo e outra na ferradura. 
Uma das delícias destas coisas/ transformações e de que alguns como o meu melhor amigo militar tiveram o privilégio de testemunhar, foi assistir e acompanhar algumas vezes a pomposa comissão parlamentar de defesa, que sempre deu boas evidências do grau de incompetência parlamentar sobre os temas de defesa nacional e incluindo sobre as FA, que se constituem tão só como um dos seus pilares - o pilar militar.

Aquilo a que chamo acima transformações, de propósito, e para ridicularizar, nunca passaram de:
> substituir militares no edifício rosa ao Restelo em frente ao estádio de futebol por uma montanha de civis (não estou a dizer nem bem nem mal, só a lembrar), 
> a encher o ministério da defesa nacional com quadros diversos (antes de 1982 tinha uma dimensão de recursos humanos ridícula), 
> inventar uma lei de programação militar que foi sempre sendo defraudada com cativações, 
> rebentar com o subsistema de saúde dos militares, 
> desfigurar a arquitectura legislativa sobre condição militar,
> paulatina e incessantemente reduzir sempre todos os anos os efectivos das FA, 
> conseguir substituir alguns meios como navios aviões e helicópteros, 
> vender ao desbarato quartéis, hospitais, edifícios vários com a intenção teórica de reverter integralmente esses recursos financeiros para as FA, 
> conseguir ter periodicamente forças e alguns meios ao serviço da NATO e da ONU assim descomprimindo o ambiente interno militar dados os salários e as crescentes dificuldades de ordem diversa,
> conseguir por inação e péssimas políticas haver cada vez menos jovens com interesse em abraçar a profissão militar,
> degradar cada vez mais os salários dos militares, etc.

Isto sinteticamente recordado de uma panóplia maior, pode dizer-se que as FA foram transformadas? Das FA dos tempos em África estão hoje adequadas ao Portugal dos séculos XX e XXI?
Cada cabeça sua sentença, mas eu digo não. E essa demonstração foi sendo feita ao longo dos últimos anos por muitos militares conceituados e por alguns civis.

Naturalmente, nos militares existem os mesmos exactos vícios, virtudes, patriotismo, o servir a comunidade (a esmagadora maioria) ou servir-se e, obviamente também, muito exacerbado narcisismo em certas épocas, e certas vaidades. Tal qual no mundo civil! 

Convirá lembrar a Cravinhos e gentinha da sua laia que - "sendo certo que toda a nação tem o problema intrínseco da sua defesa, esteja ou não organizada politicamente em Estado-Nação, os militares são a certeza formal da sua possibilidade, e as sociedades sempre aceitaram esta especialização dos civis, como forma de garantir a própria organização e eficácia de um sentir colectivo".

A Cravinhos e outros, lembrar que - "as sociedades distinguem os militares, não por razões de deferência temerosa, mas como forma de reconhecimento à diferenciada função em que se empenham, de forma comumente disciplinada e previsível. É que esta opção de vida por um serviço colectivo é valorizada por uns, inutilizada por outros e mesmo vilipendiada, mas ninguém fica indiferente à realidade factual que ela encerra e que, no mais recôndito, alude ao conceito de nacionalidade, âmbito de particular relevância na vida dos homens de todos os tempos".

E nestas coisas há sempre umas criaturas que as olham com soberba, pesporrência, altivez, e mesmo ignorância. Esquecem que esta coisa de fazer distinção entre militares e civis é afinal mais correcto, muito mais correcto, falar em paisanos e militares, porque estes não aparecem desfalcados de cidadania. E são a salvaguarda última de todos nós.

Vem tudo isto a propósito do que escrevi há dias sobre o Conselho Superior de Defesa Nacional que, como previsto se reuniu por tele-conferência na passada 2ª Feira. Como então vaticinei que iria acontecer………aconteceu mesmo, sem surpresa, como o meu melhor amigo militar já me tinha dito que aconteceria. Ele conhece bem não só muitos dos militares que andam por aí como tem uma noção muito razoável da competência desta gente toda, de cima a baixo.

(do sítio da Presidência)
Portanto, a pomposa reforma Cravinho sobre que já escrevi e sobre a qual vieram a público comentários diversos, vai seguir o seu caminho com a solene benção de Marcelo Presidente e de Marcelo Comandante Supremo das Forças Armadas. Permanece a dúvida se é mesmo isto,  comandante!

A nota informativa deste reunião e deste abençoar de Cravinho é esta:
O Conselho Superior de Defesa Nacional reuniu hoje, 15 de Março de 2021, pelas 15h00, em sessão ordinária, por videoconferência, sob a presidência de Sua Excelência o Presidente da República Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, para se inteirar dos projetos de propostas de alteração à lei de Defesa Nacional e Lei Orgânica de Bases da Organização das Forças Armadas (LOBOFA).
Tendo presente que o processo legislativo vai seguir subsequente tramitação, ouvindo o Conselho de Estado e envolvendo aprovação governamental e apreciação e aprovação na Assembleia da Republica, e que, quer na sua tramitação, quer na sua eventual aplicação é fundamental o papel dos Chefes dos três ramos das Forças Armadas, o Conselho deu parecer de princípio favorável aos projetos em questão.”

Em síntese, narcisismos,  floreados,  vaidades,  incompetências várias. Discutir, de uma vez por todas, - que organização do Estado no âmbito da defesa nacional e em consequência que FA deve Portugal ter - isso é tarefa para quem tivesse competências e, além do mais, não dá voto nenhum mas só chatices. E como os militares se esmifram sempre e lá vão conseguindo arranjar um ou dois centos de homens para mandar a missões em África ou Afeganistão, e mais um avião ou um barquito para ir por aí, e não refilam, pode continuar-se com encenações e "crochet", pode continuar-se a apregoar - os melhores dos melhores -  pode-se continuar a pensar em noitadas em quartéis para ver as estrelas e assim atrair jovens para as fileiras, pode-se prosseguir com as não promoções, podem manter-se estrangulamentos estatutários, etc. 
À vista dos bem instalados em sinecuras várias e onde almoçam bem e assim engordam e passam o tempo.
António Cabral (AC)

domingo, 28 de fevereiro de 2021

Fui ao FUNERAL porque ERA AMIGO DELE

(Coronel Matos Gomes, Expresso 19 Fevereiro 2021)

Salvo melhor opinião, uma frase de combatente digno e que, tanto quanto sei, o foi sempre pelas boas leis da guerra. Uma frase que espelha dignidade, não traição a amigos, independentemente de um juízo diferente, justo e frontal no que toca à guerra em África, guerra que muitos enfrentaram (eu também fui um deles). Muito se tem escrito e ouvido acerca do passamento deste português, Marcelino da Mata, nascido na Guiné, deste homem complexo como todos nós, deste militar discutível como todos os militares e particularmente todos os que foram combatentes reais e não de ar condicionado. Por ser sempre prudente observar alguma distância em relação à história e a certos acontecimentos, aguardei uns dias para ponderar sobre o assunto que tem feito correr muita tinta, sobre um homem que nunca pessoalmente conheci, sobre quem ouvi imensas histórias, e a propósito dele muitas histórias ouvi também acerca de quem algumas vezes o comandou no mato levando apenas uma americana calibre 45, tal como sobre certos outros mandantes de então. Histórias, a maioria das quais certamente correspondentes a realidades, incluindo a coisas que muitos de nós, provavelmente, não faríamos, porque não estávamos lá e, quase certamente, por falta de condições físicas psíquicas anímicas e intelectuais para as cometer.

Duas notas antes de prosseguir:

- respeito as opiniões de outrem, sempre, mas já estou cansado dos  Fernandos Rosas e de muitos outros MRPP's incluindo os que se entretêm com sinecuras e vacinas, as Anas Sá Lopes, os Manuéis Loffs, os Rui Tavares, os João Miguel Tavares, os André Venturas, os Ascensos Simões, as Catarinas, as Isabéis, e tantos outros das mesmas cores. Como cansado estou dos vergonhosos passos para limpar os passados de protagonistas e mandantes das violentas FP25 de Abril, relativamente ás quais alguns sem vergonha nenhuma na cara só lhes falta dizer que essas gentes e um dos seus inspiradores foram o êxtase da democracia, e que nunca mataram ninguém, e nem por tal são responsáveis. Como cansado estou dos que fingem, não ter havido MDLP, nem PREC, nem rajadas de metralhadora contra portões só porque sim. Como cansado estou de alguns daqueles que combateram em África, bem próximos de altas figuras do regime de então, e que no PREC se comportaram como uns alienados absolutos. Como cansado estou do endeusamento daqueles que enriqueceram brutalmente apenas com o normal vencimento do Estado/ da política. CANSADO!

- Como outros, como um bom amigo, combati na Guiné, 29OUT1971-28JUL1973, a bordo de um navio da então designada Marinha de Guerra, onde fui o oficial imediato (equivalente a 2º comandante), e quando digo combati é literal. Por exemplo, o navio foi atacado e teve estragos vários, pelas 2340 horas, numa noite de luar fantástico, no rio Cacheu, no já muito distante dia 19 de Maio de 1973, quando navegávamos em ocultação total de luzes e em postos de combate a bordadas, como habitualmente. Eu (por centímetros) e outros, podíamos ter morrido. Não calhou, morreu um comando africano dos muitos que nessa altura transportávamos, depois da operação que eles tinham levado a efeito dias antes sob comando de uma muito conhecida figura. Houve vários feridos. 

Refiro isto para dizer que fui combatente, mas também para dizer que, correndo sempre reais e sérios riscos de vida quando navegando nos estreitos rios, ainda assim esse combate durante 21 meses da comissão de serviço na Guiné foi diferente do combate da tropa especial dos três ramos das Forças Armadas (FA) (fuzileiros, comandos, pára-quedistas) que iam a sítios terríveis, que combateram em circunstâncias muito difíceis, e em que muitos morreram, outros ficaram feridos, outros estropiados para o resto das suas vidasUm combate com sérios e constantes riscos de vida, sim, mas diferente do daquela tropa de quadrícula do Exército, estacionada em determinadas zonas e quartéis disseminados pela Guiné, muitas vezes lá enfiados meses e meses borrados de medo, sob bombardeamentos de canhão sem recuo do PAIGC, umas vezes periódicos, outras quase diárias sobretudo no ano de 1973. Um combate diferente do dos pilotos da Força Aérea que foram derrubados e alguns morreram, ou dos que após Março 1973 foram obrigados a voar o mais alto possível sem algumas vezes conseguir distinguir bem os alvos. 

Voltando a Marcelino da Mata, e como bem recorda quem em África combateu em mais de uma comissão de serviço e é intelectualmente honesto, provavelmente mais de metade dos portugueses que combateram em África era de origem Africana, e Marcelino da Mata como outros em Angola e Moçambique, levou a cabo durante anos uma guerra irregular, muitas vezes quase certamente à margem das leis da guerra, mas que os comandos dessa altura mandavam fazer porque disso precisavam, isso queriam, e de tudo sabiam. E a maioria calou, embora alguns tenham agora rebates de consciência para ficarem de bem junto dos polícias das mentes e do politicamente correcto, e junto dos imbecis que já tiveram a felicidade de não irem à estúpida guerra mas se atrevem a tecer apreciações com os parâmetros de hoje, a preto e branco.

Percebo e comungo da opinião de que Marcelino da Mata nunca foi um herói, pois não tinha um ideal. O que ouvi na Guiné bate certo com o que no presente alguns afirmam sobre Marcelino da Mata, os que são intelectualmente honestos. Que era um militar duro e sereno, porventura violento, acredito mesmo que muito violento no mato, que se preparava muito bem antes de partir com o seu pequeno grupo para as operações que lhe determinavam os comandos brancos na Guiné, a cadeia hierárquica a começar em Spínola, que de tudo se inteirava. Discutir a guerra com seriedade, são poucos os que o fazem, porque a esmagadora maioria "activa sempre o modo" da desonestidade intelectual, e pretendem sempre reescrever a história. Discutir a guerra colonial com seriedade são poucos os que o fazem. 

Marcelino da Mata, foi o mais condecorado dos militares portugueses, mas muitos outros militares, da Marinha de Guerra, do Exército, e da Força Aérea, foram condecorados durante os anos da guerra em África. E houve condecorações de militares pelos seus feitos na guerra, nos matos, e por combate em unidades navais, e por combate com meios aéreos. E, como sempre, houve também condecorações atribuídas a militares pelos bons serviços prestados mas que nunca foram ao mato combater. Mas isso é compreensível, pois havia que suprir com meios humanos os comandos, os estados-maiores, alguém tinha que o fazer, e aí cumprir. E cumpriram.

Quanto à Guiné estou a lembrar-me de alguns que estavam perto de Spínola, em certas e especiais repartições/ departamentos, um dos quais, por exemplo, embarcou no meu navio acompanhando jornalistas franceses (Paris Match) que tinham ido observar a excelência da guerra promovida pelo general, a excelência da gestão administrativa de Spínola, sempre no âmbito da sua campanha no país e no exterior. É compreensível e tem de se respeitar, mas há condecorações e condecorações. Como se passa hoje em democracia, pois basta ser ajudante de um general ou almirante chefe de estado - maior ou ser ajudante do PR por exemplo, para ao fim de um ano e pouco de serviço ser logo agredido com uma medalha. Ou, ao terminar o cargo de chefe militar, automaticamente ser condecorado pelo PR. Ou, depois de ser PM, ser automaticamente condecorado pelo PR, excepto, e bem na minha opinião, o farsante Sócrates.

Marcelino da Mata (MM) praticou crimes de guerra à luz das leis da guerra? Não sei, mas é bem provável. Alguns dizem que é certo, mas bem podiam ter feito essas denúncias logo pelo menos a seguir ao 25 de Novembro de 1975. Quem de certeza não os praticou foram todos aqueles que estavam no ar condicionado em Luanda, em Lourenço Marques, em Bissau. Não os praticou quem esteve meses encurralado em Guidaje, Bigene, Quilege, Farim, etc., esses que se alguma menor pressão por parte do PAIGC tiveram em certos períodos foi por acção, da aviação da FAP, dos comandos, dos pára-quedistas, dos fuzileiros, e de grupos como o de Marcelino da Mata. 

Desculpável, essa parece que certa, prática de crimes de guerra? NÃO. Repito, NÃO. Mas presumo que durante a democracia Marcelino da Mata não cometeu qualquer crime de sangue. Creio que ele o podia afirmar. Assim todos o pudessem dizer.

Alguns avançam que MM nunca foi acusado da prática de crimes de guerra, nem julgado. Nem lhe retiraram as condecorações. Obviamente, pois ele obedeceu a ordens, e as hierarquias, muitas das quais atingiram os postos máximos no Exército já em democracia, presumo que sabiam de tudo. E não esquecer Spínola, que de tudo se inteirava ao detalhe. Não quer dizer que aprovassem atrocidades, a esmagadora maioria não aprovava, óbvia e certamente. Mas, sem desculpar nada do que de horrível se terá passado por lá, na Guiné, quem me diz a mim que em Angola em São Tomé e Principe e Moçambique, não aconteceram coisas idênticas e/ ou piores? Horrores, de ambos os lados da barricada? E que no início das hostilidades, por exemplo sei lá, em Angola, não possa ter havido quem se divertisse "tirando" fotografias a grupos de pessoas com recurso a bazuca? Naturalmente que isto não passa de pura invenção. Como invenção, certamente, a chacina de crocodilos nos rios, a pesca com granadas, etc.

Para tentar terminar este arrazoado, que mexe um pouco comigo pois andei por lá, sempre na vida houve e haverá, condecorados que o não deviam ser, atribuições imerecidas de comendas, nomeações para bons cargos por nepotismo, mandantes que sem vergonha na cara se desculpam por mortes perpetradas pelos seus executivos, quem consegue ser indultado e amnistiado por inconfessáveis razões, quem analise e argumente com honestidade intelectual, quem ofenda quem pensa diferente ainda que civilizadamente, quem fale do que não sabe, quem considere ainda nos dias de hoje que o passado e o presente foram e são coisas a preto e branco. É importante respeitar as opiniões divergentes, e civilizadamente ponderar as questões. 

Massacres? Crimes de guerra? Violações de mulheres e crianças? Aldeias arrasadas? Bombardeamentos aéreos sobre alvos que não se sabia bem se seria ali? SIM, houve certamente de tudo. Eu combati na Guiné, como outros, não propriamente porque fossemos fascistas, ou porque não tivéssemos alternativa. Por exemplo, o meu melhor amigo militar, que é de Marinha, podia ter ido para Luanda e não aceitou que a família disso tratasse, e era tão fácil, dadas as circunstancias da vida. Foi para a Guiné. 

A guerra não justifica tudo, nem horrores nem outras coisas, como aconteceu com alguns que foram para o ar condicionado de Luanda ou Lourenço Marques, quando parece que lhes calhava ir para o Leste de Angola ou Guiné, pelo que em consequência outros foram para onde não deveriam ter ido.

A terminar, confesso que tentei perceber e, talvez por deficiência minha, ainda não consegui encontrar explicação para o que se passou com o falecimento deste português e combatente. Porque esteve no funeral de Marcelino da Mata o PR, mais chefias militares, etc.? Porque houve na AR uma certa homenagem a este destemido militar português ? Porque surgiu tudo isto, e quem o promoveu?

Uma coisa é para mim certa, e não é de agora que assim penso. A guerra não é aceitável. Os portugueses de África e os do Continente e Ilhas,  os africanos e os europeus, foram todos vítimas dum conflito e de um regime que nunca quis resolver as questões por negociação diplomática/ política, como fizeram outros países. A realidade é dura. Houve massacres executados por brancos, por negros e por mestiços, uns contra os outros. A guerra deixa marcas. Em mim, felizmente, muito poucas deixou. Muitos milhares de portugueses não podem dizer o mesmo. Muitos milhares de famílias não podem dizer o mesmo, pois perderam os seus familiares. Infelizmente.

Por todos eles, milhares ainda vivos, militares e milicianos, a todos é devido respeito. É devido respeito pelos que morreram, pelos feridos e estropiados, pelos que combateram no mato, pelos que combateram nos estados-maiores, pelos que combateram no ar, pelos que combateram nos rios, pelas famílias sofridas e pelas famílias destruídas. RESPEITO, é devido.

Falar disto, seja a propósito de um antigo combatente ou não, sem honestidade intelectual e distanciamento, é uma grande falta de respeito por nós todos, nós que lá estivemos, nós que conseguimos regressar, e por nós os que por lá morreram. Dos que por lá morreram, o Estado português materializado designadamente pelos sucessivos PR, governos, e AR, por lá os continua a deixar estar. Muitos restos mortais de portugueses falecidos em combate foram já resgatados e regressados ao Continente, mas muitos outros por lá continuam. E este presidente da República, e este governo, e esta AR e estes deputados, e este ministro da defesa nacional, passam o tempo com discursos e tiradas patéticos, anúncios de reformas tolas, sugestões para noites em quartéis, idiotices sucessivas. Uma total falta de RESPEITO.

António Cabral (AC)

sábado, 28 de março de 2020

ANDANDO  PELO  ARQUIVO  ANTIGO
19 Maio 1973, é uma data marcante na minha vida. 
E a hora do que então aconteceu não mais a esqueci, 2340h. Eu e outros não morremos nessa noite porque não era a hora.
Estava na Guiné, a cumprir o mesmo que milhares e milhares de concidadãos, e cumpria a chamada comissão de serviço a bordo deste navio, o patrulha "Hidra".
A primeira fotografia se não me falha a memória é da época um pouco antes dessa data.
A segunda é de 10 de Junho do mesmo ano, estando o navio em seco, em reparações pelas consequências do ataque que sofremos naquela data. Coincidentemente ou não, o ataque deu-se logo depois de uma operação portuguesa dentro do Senegal.
Ficou gravado para sempre.
Lembrei-me disto agora, em quarentena/ isolamento social, ao andar a vasculhar arquivos mais antigos, nomeadamente documentos, escritos avulsos, fotografias antigas.
Fará 47 anos em Maio próximo, e 47 anos em 28 de Julho próximo que acabou esse pesadelo de 21 meses em África, iniciado a 29 de Outubro de 1971.
47 ANOS, SAFA.
AC

quarta-feira, 25 de março de 2020

ANDANDO PELO ARQUIVO ANTIGO
Um pequeno mas muito interessante livrinho de 133 páginas, publicado em 1989 por um coronel do Exército Português que, logo no início que designou de "explicação conveniente", dá conta de que entre 1958 e Abril de 1961, o Exército Português empreendeu um grande esforço de reorganização tendente a adequar-se às realidade da época e para as que nessa altura se previam já com gravidade.
O livro publica um documento longo, elaborado no seio do Exército e datado de 9 de Abril de 1959.

Antes do documento/ estudo elaborado no Exército, está um longo despacho do ministro do Exército dessa altura, de 28 de Abril do mesmo ano, de leitura interessantíssima, pois ao mesmo tempo que dá uma série de "rabecadas" não deixa de salientar uma certa apreciação pelo lado positivo do documento atentos os contributos para a concretização de uma política militar para o País.

Por outro lado, afirma claramente que tinha autoridade para mandar corrigir o estudo em alguns aspectos, mas entendeu divulgá-lo tal como estava oriundo do departamento do Exército que o elaborara, pois continha utilíssimas sugestões.

Na última página, a conclusão final no documento tem esta interessante frase - importa além do mais, aprender a trabalhar num sentido objectivo e coordenado, falta que tanto se faz notar também nas nossas Forças Armadas, e é pecha nacional apontada pelas entidades mais idóneas, motivando o mau aproveitamento de muitas vontades, de competências, de apreciáveis esforços e recursos...........

Sobre esta conclusão, alguns na nossa sociedade têm batalhado sobre isto. Pessoalmente não me canso de zurzir no mesmo sentido.
E por estas falhas que se estendem no tempo Portugal continua num estado desgraçado, frágil.
AC

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

25 ABRIL 1974, direito à opinião, Liberdade
Goste-se ou não, concorde-se ou não, o 25 de Abril de 1974 teve muito em vista criar uma sociedade diferente e melhor que a anterior onde, apesar de nem tudo ser mau ou estar mal, estava muita coisa mal, era muito o que era mau.
A vida corre, não pára, e no presente existem muitos dos meus concidadãos que nasceram ou pouco antes ou depois do 25 de Abril.
Posso compreender que muitos e muitas tenham alguma dificuldade  (??) em aperceber-se de certas fases da nossa história.
Mas, mesmo para jovens adolescentes, para jovens adultos, não me parece desculpável afirmações e posturas baseadas em nada. 
Os livros e hoje a NET ajudam a esclarecer muita coisa. 
Não me refiro ás patéticas redes sociais da desinformação, do politicamente correcto, do policiamento serôdio e trágico.
Vem isto a propósito de pessoas, como alguns no CDS (existem em outros partidos pantomineiros do mesmo quilate), pois na minha revisão regular pelos media nacionais, acabo de perceber que um político dos novos senhores no CDS demitiu-se.
Penso que nem devia ter sido chamado para os tais orgãos nacionais daquele partido.
Um sujeito que faz determinadas afirmações nunca poderá ser um dirigente político integro no que a honestidade intelectual respeita.
Um sujeito que afirma, por exemplo, que a guerra do Ultramar estava ganha, só pode estar tolinho, e não é desculpa ter nascido depois do 25 de Abril. 
Eu estive na Guiné, 1971-1973, e não me pareceu nada, bem pelo contrário. Zonas em Angola e Moçambique existiam com diferentes nuances da guerra, eu sei, mas ganha.....
Enfim, todos têm direito à liberdade de opinião e de expressão, mas convém saber que os pés são para andar no chão e a cabeça não é só para pentear.
AC

domingo, 2 de fevereiro de 2020

TEMPOS  da  GUERRA
Guiné, 1973, Bissau e rio Cacheu.
Não fugi, cumpri a minha parte, não gostei, sobrevivi, felizmente quase sem sequelas psíquicas e sem sequelas físicas. 
Ao "vasculhar arquivos" encontrei estas fotografias.
As fotografias estão propositadamente de lado.
A fotografia de baixo é de 10 de Junho de 1973, o navio no plano inclinado do Arsenal em Bissau, para reparação dos danos subsequentes ao ataque sofrido dias antes no rio Cacheu a montante de Ganturé, em 19 de Maio, pelas 2340 horas, e onde tivemos, poucos feridos da guarnição, infelizmente um morto dos comandos Africanos que transportávamos no exterior do navio, e vários danos no navio incluindo rombos abaixo da linha de água.
A fotografia de baixo é de navegação no Cacheu pouco tempo antes desse ataque noturno.
Tempos da guerra, guerra inútil. 
Onde aprendi muito, onde conheci muitos, onde vi muita coisa, onde desconfiei de muita outra coisa.
Para lá fui na noite de 29 de Outubro de 1971, de lá vim em 28 de Julho de 1973.
António Cabral  ( AC )