terça-feira, 9 de junho de 2026

Portugal e o desafio da maturidade industrial na Defesa
(Fernando Figueiredo, Coronel, Consultor de Defesa, SAPO, 20MAI2026)
(sublinhados  da minha responsabilidade)

O momento geopolítico é de uma clareza rara. A Europa rearma-se. O EDIP está operacional. O SAFE disponibiliza financiamento sem precedentes. A NATO aumenta as exigências sobre os aliados europeus. E Portugal está a renegociar compromissos e a tentar afirmar-se como parceiro fiável no flanco sul e no Atlântico.

Portugal gasta em Defesa. Não tanto quanto deveria, e a meta NATO dos 2% do PIB não é totalmente uma realidade consolidada, mas de facto gasta. O problema não é quanto se gasta. O problema é em quê: a esmagadora maioria do investimento em equipamento militar sai do país, financia a indústria de terceiros e não deixa capacidade produtiva instalada em território nacional.

Esta não é, contudo, uma originalidade portuguesa. É a condição crónica de países europeus que compram sistemas acabados em vez de construírem a capacidade de os produzir.

Por mais “defense & innovation, hackathons, summits” ou nomes em inglês que inventem, a verdade é simples: depois das fotografias, dos painéis e dos momentos B2B, se não existir um investidor com capacidade financeira e vontade real de assumir risco, estes encontros acabam muitas vezes por servir apenas para aumentar listas de contactos, alimentar expectativas e produzir mais apresentações do que capacidade real, mas por mais paradoxal que pareça, a diferença entre os programas de Defesa que têm sucesso e os que falham não está exclusivamente nos recursos financeiros. Está na articulação sistemática entre maturidade tecnológica e maturidade produtiva, entre os Technology Readiness Levels (TRL) e os Manufacturing Readiness Levels (MRL) ou em português Níveis de Prontidão Tecnológica e Níveis de Prontidão de Manufatura.

Os TRL medem se uma tecnologia funciona. Vão de TRL 1, observação de princípios básicos em laboratório, até TRL 9, sistema plenamente demonstrado em combate. Os MRL medem algo fundamentalmente diferente: se essa tecnologia pode ser fabricada de forma fiável, económica e em escala. Vão de MRL 1 até MRL 10, sendo que MRL 9 corresponde à capacidade de produção inicial a baixo ritmo e MRL 10 à produção plena com práticas de lean manufacturing (sistema de gestão que visa aumentar a eficiência e a produtividade reduzindo erros e redundâncias na produção industrial).

Um exemplo concreto: imagine uma empresa portuguesa que desenvolve um sistema eletrónico de comunicações táticas de última geração. Os engenheiros constroem um protótipo que funciona de forma excelente, TRL elevado, mas o protótipo exigiu seis meses de trabalho manual, componentes importados de um único fornecedor alemão e três técnicos que são os únicos a saber montá-lo. Se as Forças Armadas pedirem 200 unidades em 18 meses, a empresa não consegue responder. Tecnologia madura, capacidade industrial inexistente. MRL baixo.

A assimetria entre TRL e MRL cria o que a comunidade de aquisições de Defesa chama de Valley of Death, o cemitério de tecnologias que funcionam em laboratório, mas nunca chegam ao campo.

O F-35, por exemplo, é o caso de estudo negativo mais documentado: mais de 990 aeronaves fabricadas antes de concluída a avaliação operacional inicial. Custo total do ciclo de vida estimado em mais de 2 biliões de dólares. O responsável máximo pelas aquisições do Pentágono classificou a decisão de apressar a produção como acquisition malpractice. Outro exemplo, o destroyer Zumwalt começou com um objetivo de 32 navios a 700 milhões cada, construíram-se três, a 7,5 mil milhões cada, o primeiro entregue com 320 deficiências significativas. E quem não se lembra do caso português na participação do NH90? Muito anúncio, muita ambição estratégica, muita fotografia institucional… e no fim ficaram os custos, os recuos, a indeminização e a sensação recorrente de que, na Defesa como em tantas áreas, o entusiasmo político costuma chegar muito antes da sustentabilidade técnica e financeira.

No lado oposto, o Iron Dome israelita foi aprovado em fevereiro de 2007, testado em março de 2009 e ficou operacional em março de 2011. Quatro anos do conceito ao campo. A chave foi o design for manufacturing desde o primeiro dia: o interceptor Tamir custa 40 a 50 mil dólares em produção, ordens de magnitude abaixo dos equivalentes ocidentais. A filosofia da agência central de investigação e desenvolvimento de tecnologia de Defesa de Israel (MAFAT) resume-se à fórmula Capacidade × Disponibilidade = Eficácia, ou seja, uma arma razoavelmente boa, disponível 80% do tempo, é mais eficaz do que uma arma perfeita, disponível 10% do tempo. Isto não é um axioma tecnológico. É um axioma industrial: a eficácia depende da capacidade de produção em massa a baixo custo, ou seja, de MRL elevados.

A Coreia do Sul aplica o princípio do design for mass production desde a fase de conceção. A entrega de carros de combate K2 Black Panther à Polónia concluiu-se em três meses após contrato, prazo impensável sem maturidade industrial MRL 9-10 pré-existente. A Turquia, partindo de 25% de produção nacional em 2000, atingiu 80% e 7,15 mil milhões de dólares em exportações de Defesa em 2024, seguindo precisamente a lógica TRL-MRL: primeiro produção licenciada, depois coprodução, finalmente conceção e fabrico integralmente nacionais.

A União Europeia criou um pipeline implícito TRL→MRL através do Fundo Europeu de Defesa (EDF) e do Programa Europeu de Indústria de Defesa (EDIP). O EDF financia investigação e desenvolvimento até TRL 8; o EDIP, aprovado em dezembro de 2025 com 1,5 mil milhões de euros, financia industrialização, escalonamento de produção e aquisições conjuntas. O programa SAFE disponibiliza empréstimos até 150 mil milhões de euros para aquisições de defesa com pelo menos 65% de componentes europeus.

Mas há um problema estrutural: a Europa não adotou um quadro formal de avaliação MRL. Nos Estados Unidos, desde 2011, a lei impõe a avaliação paralela de TRL e MRL em cada marco de qualquer grande programa de aquisição de Defesa. Na Europa, o termo MRL aparece nos documentos de trabalho do EDF de 2026 exclusivamente como abreviatura de… Multiple Rocket Launcher. A Estratégia Industrial de Defesa Europeia de 2024 reconhece explicitamente um "défice de comercialização" entre investigação e produção, mas não propõe nenhum instrumento de medição.

Isto cria uma assimetria competitiva: uma empresa que conclui um projeto EDF em TRL 6 não tem forma padronizada de demonstrar maturidade industrial para financiamento EDIP. A primeira nação europeia que institucionalizar a acoplagem TRL-MRL adquirirá vantagem estrutural dentro da Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia (EDTIB).

Portugal tem a sua indústria de Defesa Nacional muito fragmentada, muito dependente de PME, mas apesar de todos os problemas conhecidos nos grandes programas de defesa internacionais, a realidade é que Portugal conseguiu, nos últimos anos, uma integração relevante em consórcios europeus e NATO ligados à defesa, espaço, drones, sistemas autónomos, software crítico e inteligência artificial.

Só entre EDF, PESCO e NATO Innovation Fund, empresas e entidades portuguesas como TEKEVER, Critical Software, GMVIS Skysoft, Visionspace, INESC TEC, INEGI, N3O ou OptimalSatellite participam em dezenas de projetos avaliados em mais de mil milhões de euros. Portugal está hoje presente em 17 projetos EDF selecionados em 2025, participa em 17 projetos PESCO, liderando três, e tornou-se um dos principais beneficiários do NATO Innovation Fund, incluindo o investimento na TEKEVER e no fundo da Faber Venture Capital.

Portugal tem ainda vantagens estruturais difíceis de replicar: posição geoestratégica atlântica, as Lajes, a ligação ao espaço lusófono e competências reais em manutenção aeronáutica, sistemas eletrónicos, comunicações, naval e CBRN (Química, Biológica, Radiológica e Nuclear).

O problema português não é a ausência de talento, investigação ou participação internacional. O verdadeiro problema é Valley of Death: existe capacidade científica e algum desenvolvimento tecnológico, mas raramente se transforma isso em capacidade industrial sustentada e autónoma. Na prática, muitos destes programas acabam por colocar Portugal nas margens da cadeia de valor: montagem final, subcomponentes ou integração limitada, o chamado screwdriver assembly. E o mesmo aconteceu com os offsets das grandes aquisições militares: recebemos trabalho temporário, mas não transferência duradoura de capacidade produtiva. A diferença é fundamental: o trabalho termina quando o contrato acaba; a capacidade fica, gera indústria, exportações e soberania tecnológica.

O roteiro proposto para o que Portugal deveria fazer é o seguinte:

O primeiro passo é conceptual: Portugal precisa de adotar internamente a lógica da dupla avaliação TRL-MRL em todos os contratos de I&D de defesa. Não é necessária legislação nova, basta alterar os cadernos de encargos. Cada contrato de desenvolvimento deveria definir não apenas um TRL exit mas um MRL exit simultâneo: se o objetivo é um protótipo em TRL 6, o contrato deve exigir simultaneamente MRL 5, ou seja, cadeia de fornecimento preliminar identificada, estimativa de custo de produção em escala, pessoal técnico formado.

O segundo passo é institucional: o Ministério da Defesa Nacional através da DGAPDN (Direção-Geral de Armamento e Património da Defesa Nacional) e o Estado-Maior General das Forças Armadas deveriam incorporar avaliações MRL nos processos de aprovação de programas de aquisição, à semelhança do que o Pentágono faz por imposição legal desde 2011. Portugal participará em programas EDIP e utilizará financiamento SAFE, mas sem capacidade de demonstrar maturidade industrial MRL 7+, o risco é acabar como "simples financiador": pagar por sistemas sem participação industrial substantiva, exatamente como aconteceu em tantos offsets anteriores.

O terceiro passo é estratégico: Portugal não pode nem deve ambicionar autossuficiência industrial em Defesa. A geografia, a dimensão da economia e a estrutura das Forças Armadas não o permitem, mas pode, e deve, identificar os seus nichos de excelência e tornarem-se nó especializado e insubstituível dentro da EDTIB. Manutenção e modificação de aeronaves? Sistemas de vigilância marítima? Comunicações táticas? Veículos não tripulados de superfície? A escolha estratégica dos nichos, documentada e fundamentada por avaliações MRL rigorosas, é o que transforma intenção política em capacidade industrial.

O momento geopolítico é de uma clareza rara. A Europa rearma-se. O EDIP está operacional. O SAFE disponibiliza financiamento sem precedentes. A NATO aumenta as exigências sobre os aliados europeus. Portugal está a renegociar compromissos e a tentar afirmar-se como parceiro fiável no flanco sul e no Atlântico.

É precisamente neste momento que a ausência de uma política industrial de Defesa coerente, ancorada na acoplagem TRL-MRL, se torna mais dispendiosa. Não apenas em termos económicos: em termos de soberania estratégica, de credibilidade junto dos aliados, e de capacidade real de contribuir para a segurança coletiva com algo mais do que as Lajes e a boa vontade.

O que falta a Portugal não é dinheiro, não é talento, não é motivação geopolítica. É o tecido conjuntivo — a articulação mensurável, institucionalizada e rigorosamente documentada entre o que se investiga e o que se fabrica, entre o laboratório e o campo de batalha, entre a excelência académica e a capacidade industrial.

Como escreveu o General Platias sobre a Grécia no Roteiro para a Indústria de Defesa Grega, Revista Aérea Helénica, abril de 2026, palavras que se aplicam com igual precisão a Portugal: "O custo da inércia não se limita à ineficiência económica. Exprime-se como prolongamento da dependência estratégica, numa época histórica em que essa dependência evolui rapidamente de fraqueza para ameaça existencial."

A janela está aberta. Por quanto tempo, ninguém sabe!
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Respeito, SEMRE, a opinião de outrem. 
Depois, concordo, discordo, argumento/ comento se me apetecer.

Considero interessante este artigo.
A propósito do tema, a propósito do momento internacional, a propósito do inarrável Nuno Melo, escreverei umas linhas.

Bom dia, boa 3ª Feira.
Saúde, o verdadeiro Euromilhões da vida.
Boa sorte, felicidades.

AC

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