PORTUGAL - EUA - PORTUGAL
Portugal e os EUA nas duas guerras mundiais:
a procura do plano bi-lateral
a procura do plano bi-lateral
Socorrendo-me sobretudo de um estudo de José Medeiros Ferreira (JMF, Doutor em História Institucional e Política, infelizmente já não entre nós) de que acima mostro o início, voltei a debruçar-me sobre aspectos das relações entre o nosso país e os EUA, particularmente quanto à questão dos Açores / base das Lajes.
De algum modo conexo com isso há a questão/ criação da Fundação Luso-Americana sediada em Lisboa, cuja criação creio não assentar exactamente na narrativa habitualmente divulgada, nem quanto aos créditos de que alguns importantes se reclamavam.
Dos dois ou três que assistiram à conversa inicial num certo gabinete, poucos são os vivos que (como é muito costume) não falam e deixam que continue a narrativa que, tanto quanto saber, não é completamente exacta.
Mas vamos ao que antecede o presente.
E o presente a que me refiro é o conjunto de episódios e declarações anteriores e subsequentes aos aviões americanos que recentemente estacionaram nas Lajes para os bombardeamentos sobre o Irão.
O que antecede é exactamente o que o estudo de JMF aborda e explica e é muito interessante.
E que devia ser tido em conta no tempo contemporâneo.
Mas que, de uma ponta a outra, creio que ou desconhecem ou. . .
No decreto referido na página da segunda fotografia havia um 4º artigo sobre o direito ao comércio (sobretudo comércio marítimo) lícito da potência declarada como neutral, direito sobretudo consagrado na Conferência de Paris de 1856 que terminou com a guerra da Crimeia.
Portugal usou largamente este direito.
Um aspecto interessante /curioso é o do reconhecimento imediato da I República por parte dos EUA.
O reconhecimento aconteceu mal a Constituinte proclamou o regime como Republicano. Aliás, havia uma instrução do Departamento de Estado dos EUA para tal acontecer logo que a Constituinte confirmasse o regime.
A 3 de Agosto de 1911 o representante dos EUA apresentou credenciais ao nosso Presidente da República.
O Reino Unido demorou mais tempo a reconhecer a I República.
Em 25 de Julho de 1917 chegaram 5 navios de guerra americanos à ilha de S. Miguel.
A este acontecimento seguiram-se depois outros, e outros pedidos americanos.
Mas o governo nacional de então antes de dar respostas aos EUA envolveu nos assuntos o Reino Unido.
É um aspecto interessante da diplomacia nacional.
Data portanto da I GG o início de concessão de facilidades nos Açores aos EUA.
A diplomacia nacional ao tempo de Salazar geriu as respostas às pretensões americanas da mesma maneira que décadas atrás, envolvendo sempre o Reino Unido nos assuntos.
JMF explica que com a chegada da II GG os Açores vão ser encarados pelas potências marítimas de duas formas:
- como fronteira entre o "perturbador continental" e as potências marítimas,
- ou, mais tarde, como zona de articulação entre as margens do Atlântico.
Neste âmbito, JMF recorda as memórias de Churchill e as suas várias descrições sobre o esforço de guerra, e concretamente sobre os comboios marítimos e as rotas diferentes tomadas em função designadamente da cobertura aérea disponível ou não.
Os americanos foram os primeiros a apreciar a importância dos Açores para a sua aviação.
JMF recorda também o papel de Humberto Delgado em apoio aos estudos americanos e ingleses para escolha/ definição da localização das diferentes facilidades, por exemplo pistas / aeroportos.
JMF explica um certo atraso verificado na implementação das facilidades nos Açores.
Isso deveu-se ao facto das potências marítimas quererem primeiro assegurar-se da impossibilidade da Alemanha nazi invadir a Península Ibérica.
Daí a guerra no Norte de África, e as vitórias dos aliados.
Com derrota nazi ficou claro um certo enfraquecimento do poderio nazi.
Ocorrem por outro lado intensas negociações com Lisboa em 1943.
As facilidade concedidas na ilha de Sta Maria ficaram ligadas ao problema de Timor-Leste ocupada pelos japoneses.
A negociação diplomática para a cedência da Base das Lajes foi sobretudo feita com Londres mas veio a ser Washington a mais decisivamente utilizar as facilidades na ilha.
Em 28 de Novembro de 1944 foi assinado um acordo Portugal-EUA para a construção de um aeroporto na ilha de Sta Maria.
Conexo com isto, acordado que os EUA garantiria que Timor -Leste regressaria à posse de Portugal.
Durante a II GG os Açores foram encarados também como um "teatro de refúgio".
As facilidades nos Açores tiveram características que se mantiveram depois da guerra.
Os Açores sempre foram encarados pelos EUA depois da II GG como importante base.
Um estudo militar americano de 19 de Outubro de 1945 incluiu os Açores no conjunto das "Primary Base Áreas" a estabelecer em várias partes do planeta.
Em 2 de Junho de 1946 o aeroporto de Sta Maria regressou ao controlo português.
Em 3 de Julho de 1947 iniciaram-se conversações oficiais para a continuação de facilidades na base das Lajes.
Em 5 de Janeiro de 1951 foi assinado um novo acordo.
Daí para cá sabe-se o fundamental do que se passou antes e depois de 1974.
Os presidentes americanos sucederam-se.
O Congresso (Senado + Câmara de Representantes) teve maiorias diferentes ao longo do tempo.
A tecnologia aumentou e continua a aumentar a permanência no ar sem reabastecimento de aeronaves e "veículos não tripulados/ drones".
Os interesses americanos variaram alguma coisa ao longo dos últimos 80 anos.
A localização geográfica dos Açores é a mesma.
António Cabral (AC)


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