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terça-feira, 9 de junho de 2026

Portugal e o desafio da maturidade industrial na Defesa
(Fernando Figueiredo, Coronel, Consultor de Defesa, SAPO, 20MAI2026)
(sublinhados  da minha responsabilidade)

O momento geopolítico é de uma clareza rara. A Europa rearma-se. O EDIP está operacional. O SAFE disponibiliza financiamento sem precedentes. A NATO aumenta as exigências sobre os aliados europeus. E Portugal está a renegociar compromissos e a tentar afirmar-se como parceiro fiável no flanco sul e no Atlântico.

Portugal gasta em Defesa. Não tanto quanto deveria, e a meta NATO dos 2% do PIB não é totalmente uma realidade consolidada, mas de facto gasta. O problema não é quanto se gasta. O problema é em quê: a esmagadora maioria do investimento em equipamento militar sai do país, financia a indústria de terceiros e não deixa capacidade produtiva instalada em território nacional.

Esta não é, contudo, uma originalidade portuguesa. É a condição crónica de países europeus que compram sistemas acabados em vez de construírem a capacidade de os produzir.

Por mais “defense & innovation, hackathons, summits” ou nomes em inglês que inventem, a verdade é simples: depois das fotografias, dos painéis e dos momentos B2B, se não existir um investidor com capacidade financeira e vontade real de assumir risco, estes encontros acabam muitas vezes por servir apenas para aumentar listas de contactos, alimentar expectativas e produzir mais apresentações do que capacidade real, mas por mais paradoxal que pareça, a diferença entre os programas de Defesa que têm sucesso e os que falham não está exclusivamente nos recursos financeiros. Está na articulação sistemática entre maturidade tecnológica e maturidade produtiva, entre os Technology Readiness Levels (TRL) e os Manufacturing Readiness Levels (MRL) ou em português Níveis de Prontidão Tecnológica e Níveis de Prontidão de Manufatura.

Os TRL medem se uma tecnologia funciona. Vão de TRL 1, observação de princípios básicos em laboratório, até TRL 9, sistema plenamente demonstrado em combate. Os MRL medem algo fundamentalmente diferente: se essa tecnologia pode ser fabricada de forma fiável, económica e em escala. Vão de MRL 1 até MRL 10, sendo que MRL 9 corresponde à capacidade de produção inicial a baixo ritmo e MRL 10 à produção plena com práticas de lean manufacturing (sistema de gestão que visa aumentar a eficiência e a produtividade reduzindo erros e redundâncias na produção industrial).

Um exemplo concreto: imagine uma empresa portuguesa que desenvolve um sistema eletrónico de comunicações táticas de última geração. Os engenheiros constroem um protótipo que funciona de forma excelente, TRL elevado, mas o protótipo exigiu seis meses de trabalho manual, componentes importados de um único fornecedor alemão e três técnicos que são os únicos a saber montá-lo. Se as Forças Armadas pedirem 200 unidades em 18 meses, a empresa não consegue responder. Tecnologia madura, capacidade industrial inexistente. MRL baixo.

A assimetria entre TRL e MRL cria o que a comunidade de aquisições de Defesa chama de Valley of Death, o cemitério de tecnologias que funcionam em laboratório, mas nunca chegam ao campo.

O F-35, por exemplo, é o caso de estudo negativo mais documentado: mais de 990 aeronaves fabricadas antes de concluída a avaliação operacional inicial. Custo total do ciclo de vida estimado em mais de 2 biliões de dólares. O responsável máximo pelas aquisições do Pentágono classificou a decisão de apressar a produção como acquisition malpractice. Outro exemplo, o destroyer Zumwalt começou com um objetivo de 32 navios a 700 milhões cada, construíram-se três, a 7,5 mil milhões cada, o primeiro entregue com 320 deficiências significativas. E quem não se lembra do caso português na participação do NH90? Muito anúncio, muita ambição estratégica, muita fotografia institucional… e no fim ficaram os custos, os recuos, a indeminização e a sensação recorrente de que, na Defesa como em tantas áreas, o entusiasmo político costuma chegar muito antes da sustentabilidade técnica e financeira.

No lado oposto, o Iron Dome israelita foi aprovado em fevereiro de 2007, testado em março de 2009 e ficou operacional em março de 2011. Quatro anos do conceito ao campo. A chave foi o design for manufacturing desde o primeiro dia: o interceptor Tamir custa 40 a 50 mil dólares em produção, ordens de magnitude abaixo dos equivalentes ocidentais. A filosofia da agência central de investigação e desenvolvimento de tecnologia de Defesa de Israel (MAFAT) resume-se à fórmula Capacidade × Disponibilidade = Eficácia, ou seja, uma arma razoavelmente boa, disponível 80% do tempo, é mais eficaz do que uma arma perfeita, disponível 10% do tempo. Isto não é um axioma tecnológico. É um axioma industrial: a eficácia depende da capacidade de produção em massa a baixo custo, ou seja, de MRL elevados.

A Coreia do Sul aplica o princípio do design for mass production desde a fase de conceção. A entrega de carros de combate K2 Black Panther à Polónia concluiu-se em três meses após contrato, prazo impensável sem maturidade industrial MRL 9-10 pré-existente. A Turquia, partindo de 25% de produção nacional em 2000, atingiu 80% e 7,15 mil milhões de dólares em exportações de Defesa em 2024, seguindo precisamente a lógica TRL-MRL: primeiro produção licenciada, depois coprodução, finalmente conceção e fabrico integralmente nacionais.

A União Europeia criou um pipeline implícito TRL→MRL através do Fundo Europeu de Defesa (EDF) e do Programa Europeu de Indústria de Defesa (EDIP). O EDF financia investigação e desenvolvimento até TRL 8; o EDIP, aprovado em dezembro de 2025 com 1,5 mil milhões de euros, financia industrialização, escalonamento de produção e aquisições conjuntas. O programa SAFE disponibiliza empréstimos até 150 mil milhões de euros para aquisições de defesa com pelo menos 65% de componentes europeus.

Mas há um problema estrutural: a Europa não adotou um quadro formal de avaliação MRL. Nos Estados Unidos, desde 2011, a lei impõe a avaliação paralela de TRL e MRL em cada marco de qualquer grande programa de aquisição de Defesa. Na Europa, o termo MRL aparece nos documentos de trabalho do EDF de 2026 exclusivamente como abreviatura de… Multiple Rocket Launcher. A Estratégia Industrial de Defesa Europeia de 2024 reconhece explicitamente um "défice de comercialização" entre investigação e produção, mas não propõe nenhum instrumento de medição.

Isto cria uma assimetria competitiva: uma empresa que conclui um projeto EDF em TRL 6 não tem forma padronizada de demonstrar maturidade industrial para financiamento EDIP. A primeira nação europeia que institucionalizar a acoplagem TRL-MRL adquirirá vantagem estrutural dentro da Base Tecnológica e Industrial de Defesa Europeia (EDTIB).

Portugal tem a sua indústria de Defesa Nacional muito fragmentada, muito dependente de PME, mas apesar de todos os problemas conhecidos nos grandes programas de defesa internacionais, a realidade é que Portugal conseguiu, nos últimos anos, uma integração relevante em consórcios europeus e NATO ligados à defesa, espaço, drones, sistemas autónomos, software crítico e inteligência artificial.

Só entre EDF, PESCO e NATO Innovation Fund, empresas e entidades portuguesas como TEKEVER, Critical Software, GMVIS Skysoft, Visionspace, INESC TEC, INEGI, N3O ou OptimalSatellite participam em dezenas de projetos avaliados em mais de mil milhões de euros. Portugal está hoje presente em 17 projetos EDF selecionados em 2025, participa em 17 projetos PESCO, liderando três, e tornou-se um dos principais beneficiários do NATO Innovation Fund, incluindo o investimento na TEKEVER e no fundo da Faber Venture Capital.

Portugal tem ainda vantagens estruturais difíceis de replicar: posição geoestratégica atlântica, as Lajes, a ligação ao espaço lusófono e competências reais em manutenção aeronáutica, sistemas eletrónicos, comunicações, naval e CBRN (Química, Biológica, Radiológica e Nuclear).

O problema português não é a ausência de talento, investigação ou participação internacional. O verdadeiro problema é Valley of Death: existe capacidade científica e algum desenvolvimento tecnológico, mas raramente se transforma isso em capacidade industrial sustentada e autónoma. Na prática, muitos destes programas acabam por colocar Portugal nas margens da cadeia de valor: montagem final, subcomponentes ou integração limitada, o chamado screwdriver assembly. E o mesmo aconteceu com os offsets das grandes aquisições militares: recebemos trabalho temporário, mas não transferência duradoura de capacidade produtiva. A diferença é fundamental: o trabalho termina quando o contrato acaba; a capacidade fica, gera indústria, exportações e soberania tecnológica.

O roteiro proposto para o que Portugal deveria fazer é o seguinte:

O primeiro passo é conceptual: Portugal precisa de adotar internamente a lógica da dupla avaliação TRL-MRL em todos os contratos de I&D de defesa. Não é necessária legislação nova, basta alterar os cadernos de encargos. Cada contrato de desenvolvimento deveria definir não apenas um TRL exit mas um MRL exit simultâneo: se o objetivo é um protótipo em TRL 6, o contrato deve exigir simultaneamente MRL 5, ou seja, cadeia de fornecimento preliminar identificada, estimativa de custo de produção em escala, pessoal técnico formado.

O segundo passo é institucional: o Ministério da Defesa Nacional através da DGAPDN (Direção-Geral de Armamento e Património da Defesa Nacional) e o Estado-Maior General das Forças Armadas deveriam incorporar avaliações MRL nos processos de aprovação de programas de aquisição, à semelhança do que o Pentágono faz por imposição legal desde 2011. Portugal participará em programas EDIP e utilizará financiamento SAFE, mas sem capacidade de demonstrar maturidade industrial MRL 7+, o risco é acabar como "simples financiador": pagar por sistemas sem participação industrial substantiva, exatamente como aconteceu em tantos offsets anteriores.

O terceiro passo é estratégico: Portugal não pode nem deve ambicionar autossuficiência industrial em Defesa. A geografia, a dimensão da economia e a estrutura das Forças Armadas não o permitem, mas pode, e deve, identificar os seus nichos de excelência e tornarem-se nó especializado e insubstituível dentro da EDTIB. Manutenção e modificação de aeronaves? Sistemas de vigilância marítima? Comunicações táticas? Veículos não tripulados de superfície? A escolha estratégica dos nichos, documentada e fundamentada por avaliações MRL rigorosas, é o que transforma intenção política em capacidade industrial.

O momento geopolítico é de uma clareza rara. A Europa rearma-se. O EDIP está operacional. O SAFE disponibiliza financiamento sem precedentes. A NATO aumenta as exigências sobre os aliados europeus. Portugal está a renegociar compromissos e a tentar afirmar-se como parceiro fiável no flanco sul e no Atlântico.

É precisamente neste momento que a ausência de uma política industrial de Defesa coerente, ancorada na acoplagem TRL-MRL, se torna mais dispendiosa. Não apenas em termos económicos: em termos de soberania estratégica, de credibilidade junto dos aliados, e de capacidade real de contribuir para a segurança coletiva com algo mais do que as Lajes e a boa vontade.

O que falta a Portugal não é dinheiro, não é talento, não é motivação geopolítica. É o tecido conjuntivo — a articulação mensurável, institucionalizada e rigorosamente documentada entre o que se investiga e o que se fabrica, entre o laboratório e o campo de batalha, entre a excelência académica e a capacidade industrial.

Como escreveu o General Platias sobre a Grécia no Roteiro para a Indústria de Defesa Grega, Revista Aérea Helénica, abril de 2026, palavras que se aplicam com igual precisão a Portugal: "O custo da inércia não se limita à ineficiência económica. Exprime-se como prolongamento da dependência estratégica, numa época histórica em que essa dependência evolui rapidamente de fraqueza para ameaça existencial."

A janela está aberta. Por quanto tempo, ninguém sabe!
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Respeito, SEMRE, a opinião de outrem. 
Depois, concordo, discordo, argumento/ comento se me apetecer.

Considero interessante este artigo.
A propósito do tema, a propósito do momento internacional, a propósito do inarrável Nuno Melo, escreverei umas linhas.

Bom dia, boa 3ª Feira.
Saúde, o verdadeiro Euromilhões da vida.
Boa sorte, felicidades.

AC

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

ARMAMENTO
O negócio do armamento é (há décadas que o é) um importante sector para a economia de certos países.
Creio não haver discordâncias ao dizer, como muitos, que os Estados Unidos, Rússia, França, Alemanha e a China são quem controla claramente o mercado mundial de armamento.  
Falo, obviamente, de armamento mais sofisticado, mais brutal, mais destruidor, mísseis, aviões, cavalaria mecanizada, sistemas de defesa aérea, navios de guerra, etc. Donos da maioria do nuclear.

Para onde vendem mais? Médio e Extremo Oriente, África e Ásia.
Ou estou enganado?

Há rivalidades, obviamente, nomeadamente entre os produtores Ocidentais. E casos há em que a cedência/venda de certos equipamentos fica muitas vezes condicionada até para países aliados. 

A Índia e o Paquistão, entre outros, também dominam alguma coisa no plano do nuclear. E a Turquia parece ser relevante a determinado nível de produção de armamento, como se vê na crise/ guerra na Ucrânia.

Nesta área das relações comerciais internacionais temos depois alguns países que têm alguma produção de armamento e munições a uma escala substancialmente mais reduzida, muito reduzida. Até Portugal em tempos (no presente não sei como estão as coisas) exportou umas coisitas.

Como acontece em muitos sectores de actividades (moda, calçado, viaturas, electrónica, agricultura, etc.) também nas indústrias de armamento há por esse mundo fora feiras, muitas feiras!

E estou a lembrar-me disto a propósito de uma série de capangas que de há anos/décadas montaram aquilo a que pomposamente uns políticos do PSD e PS designaram por indústrias de defesa (ID), que é das coisas mais caricatas que eu conheci.
Começou há décadas e foram alterando as designações da ID, as dependências, o que englobavam, e quem por lá se foi passeando.
Amigalhaços, sempre.

E estou a lembrar-me disto porque na actualidade tudo se vem confirmando. Verdadeira agência de viagens!
Há até quem desconfie que certos trutas coloridos no meio da sua pedantice, e além de gostarem muito de viajar, têm por fora uns negócios no dito armamento e até em empresas imobiliárias.

Quanto ao imobiliário percebe-se, claramente, ainda não desbarataram tudo o que existia no Estado.
É como estamos.
AC

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

FULMINADO

Fulminado de nulidade, diz o Tribunal de Contas. Não é de admirar face às criaturas envolvidas, e não há raio dos céus que nos livre das nulidades que vivem à nossa conta, sempre tentando arranjar "graveto" para lhes pagar os serviçinhos, almoços, e sei lá se até viagens, algumas provavelmente à conta também de certas instituições ás vezes até para estagiar lá fora com acompanhante e tudo! 
Em baixo artigo do DN, sublinhados meus.onde realço as partes que considero mais escandalosas.

Contrato "fulminado de nulidade". Ministério da Defesa derrotado de vez pelo Tribunal de Contas
O Ministério da Defesa queria desviar da Marinha cinco milhões de euros para a sua holding, IdD - Portugal Defence, como pagamento para a gestão do programa de aquisição dos seis navios patrulha oceânicos. O Tribunal de Contas já tinha recusado o visto do contrato em junho, o Governo recorreu e os juízes voltaram agora a chumbar, sublinhando que a "violação" dos procedimentos da contratação pública estava "fulminada de nulidade".

Do 10 navios patrulha oceânicos aprovados em 2004, a Marinha ainda só tem quatro. Os próximos seis devem ser comprados até 2030.© Gerardo Santos / Global Imagens Valentina Marcelino 04 Novembro 2022.

O Tribunal de Contas (TdC) chumbou de vez o contrato que o Ministério da Defesa Nacional (MDN) queria fazer com a sua holding, IdD-Portugal Defence, para gerir, até 2030, o programa de aquisição dos seis navios patrulha oceânicos (NPO"s) para a Marinha, pelo valor de cinco milhões de euros, retirados da verba da Lei de Programação Militar (LPM) prevista para aquele ramo das Forças Armadas.

O MDN tinha recorrido do chumbo decretado em junho passado, mas os juízes do TdC mantiveram a decisão alegando, entre outros, que a "violação" dos procedimentos da contratação pública estava "fulminada de nulidade".

A ministra da Defesa, Helena Carreiras, já tinha afirmado que cumpriria a decisão que viesse a ser tomada, não havendo, por isso, lugar a novo recurso.

O anúncio do contrato, que a IdD tinha em grande destaque na sua página da internet, como facto consumado, há vários meses, foi, entretanto, retirado.

Cabe agora à Marinha seguir com o processo de compra dos navios, cuja execução acabou por se atrasar por causa de erros de procedimentos nesta contratação pública.

No acórdão datado de 18 de outubro o TdC reforça os argumentos da anterior decisão, segundo a qual o Governo não utilizou os procedimentos corretos para este tipo de contrato designado "in house", entre o MDN e uma empresa pública dele dependente.

Este contrato, conforme o DN noticiou, foi autorizado por uma Resolução de Conselho de Ministros (RCM) em junho de 2021 e impunha que a Marinha pagasse à IdD cerca de cinco milhões de euros para "a prestação de serviços de gestão do programa" de compra dos NPO"s.

O atual secretário de Estado da Defesa, Marco Capitão Ferreira, é o principal derrotado com este desfecho, pois foi este jurista que preparou todo este processo quando era o presidente da IdD, antes de ir para o MDN, assinando o mesmo.

Marco Capitão Ferreira fez parte do gabinete do ex-ministro João Gomes Cravinho e defendeu as vantagens deste contrato no parlamento.

"Significa que há competências complementares que podem ser usadas para melhor executar o programa e o respetivo impacto na economia de defesa nacional", frisou Marco Capitão Ferreira

Capitão Ferreira entrou no governo pela mão do ex-ministro da Defesa Socialista, Nuno Severiano Teixeira, de quem foi assessor jurídico e entre 2008 e 2011 foi administrador da Empordef (Empresas Portuguesas de Defesa), a antiga holding que geria as participações do Estado nas indústrias de Defesa e que foi extinta em dezembro de 2019.

Cravinho nomeou-o para a Comissão Liquidatária da Empordef, para presidente do Conselho de Administração da Empordef Tecnologias de Informação (ETI) e para administrador não-executivo das OGMA (Indústria Aeronáutica de Portugal), seguindo-se a presidência da IdD, onde devia protagonizar a reestruturação do setor das indústrias de Defesa.

Ministério usou leis erradas
O TdC considerou que "o Governo português não invocou, na sua RCM (...) de forma expressa ou com a invocação de qualquer justificação, o enquadramento do contrato objeto de fiscalização prévia na exceção prevista no Art.º 346.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia".

Este artigo isenta determinados contratos do setor de segurança e defesa das regras gerais impostas pela Diretiva europeia relativa à "coordenação dos procedimentos de adjudicação de contratos pelas entidades nos domínios da defesa e segurança", "quando tal seja estritamente necessário para proteger os seus interesses essenciais de segurança".

Para o TdC "a invocação dessa exceção, no domínio da defesa e da segurança, desenquadrada dos meios específicos (...) e até excecionais (...) que o legislador oferece neste mesmo domínio da atuação pública, não deixa de violar os procedimentos previstos (...) sendo essa violação fulminada de nulidade". Os magistrados já tinham alertado para os riscos da referida contratação "in house".

"Riscos de inibição da concorrência", "grande permeabilidade entre cargos governativos no setor da defesa e cargos de gestão nas empresas controladas pelo Estado nesse mesmo setor", "possíveis financiamentos encobertos de entidades/sociedades públicas" (no caso a IdD é uma empresa participada a 100% pelo Estado) e "situações de distorção do mercado interno", foram alguns alertas do primeiro acórdão.

Além da nulidade referida, o TdC considerou ainda que "a ilegalidade verificada tinha inegável influência no resultado financeiro do contrato".

"Princípio da concorrência, pilar da contratação pública"
Conclui o acórdão, assinado pelos juízes conselheiros Nuno Coelho, Paulo Dá Mesquita e António Martins, que "a contratação in-house é um regime de exceção face a situações em que a contratação é feita dentro de casa, quando a Administração Pública não tem necessidade de recorrer ao mercado para suprir as suas necessidades" e que "essa avaliação terá que ser exigente de forma a não corromper o princípio da concorrência, pilar da contratação pública".

O tribunal refuta ainda o argumento do MDN, segundo o qual "ao proibir a aplicação da exceção ou contratação in-house no setor da defesa, e ao exigir o consequente lançamento de procedimentos pré-contratuais neste contrato de gestão e construção de navios NPO, a decisão recorrida coloca seriamente em causa a segurança nacional e a defesa do Estado Português, sendo também gravemente lesiva do interesse público"

"Na verdade", responde o TdC, "foi o Governo e a entidade fiscalizada que optaram pela integração do contrato em causa no regime-regra do Decreto-Lei n.º 104/2011, não tendo sido acionados os mecanismos de salvaguarda do interesse público previstos neste setor da defesa e da segurança".

O erro na utilização dos regimes é, aliás, bem sublinhado. "Na verdade, a decisão recorrida, e bem, não proibiu a contratação em causa, pois isso estaria fora do alcance da sua jurisdição. Antes considerou inválida a forma como a contratação veio a assumir na sua procedimentalização, recusando por isso o visto em fiscalização prévia".

Por isso, completa, "impõe-se, pois, negar provimento ao recurso em todos os seus fundamentos, confirmando-se o acórdão recorrido".

"Gozar com as Forças Armadas"
Este contrato inédito tinha suscitado inúmeras críticas no setor, levando deputados da oposição a questionar o Governo, não só por se tratar de um desvio de uma verba significativa da Marinha para um serviço para o qual tinha qualificações, mas também porque, no entender de juristas, violava as regras do Orçamento do Estado.

A ex-coordenadora para a Defesa do grupo parlamentar do PSD, Ana Miguel dos Santos, alertou que uma verba destinada à compra dos NPO"s, no âmbito da LPM, não podia servir para pagar esta prestação de serviços, uma das muitas questões também levantadas pelo TdC.

A ex-deputada do PSD não duvidava de que esta despesa era "ilegal" e iria servir "para financiar, de forma ilegal, uma empresa pública".

Além disso, frisou, "num momento em que as Forças Armadas estão a enfrentar dificuldades significativas na sua operacionalidade, sem recursos, despender cinco milhões de euros com a aquisição de serviços para acompanhar a contratação de equipamento militar, é, acima de tudo, gozar com as nossas Forças Armadas".

Confrontada agora com este acórdão, Ana Miguel dos Santos diz que este chumbo era esperado. "Esta decisão não me surpreende. Vem confirmar uma vez mais aquilo que era óbvio para todos, menos para o Senhor Secretário de Estado da Defesa. O que só se compreende se pensarmos que era o presidente da IDD à data da celebração do contrato", sublinha.

Esta especialista em assuntos de Defesa, lamenta "o tempo que se perdeu com uma discussão estéril, sem qualquer justificação, que só vem atrasar ainda mais a entrega de um equipamento tão necessário para o cumprimento da missão da Marinha".

Recorde-se que o programa original relativo à aquisição de navios patrulha oceânicos data de 2004. Dos 10 navios programados, os dois primeiros foram entregues em 2013 e 2014, e outros dois em 2018. Os restantes seis navios fossem construídos e entregues até 2029.

Ana Miguel dos Santos salienta ainda que, além do tempo perdido, houve ainda "recursos públicos gastos para recorrer de uma decisão óbvia, pois, mesmo que, em tese, a questão pudesse ser discutível do ponto de vista jurídico, sempre seria óbvio que, do ponto de vista operacional da aquisição, seria completamente incompreensível e desadequado, por falta de experiência evidente da IdD para gerir um programa desta natureza, quando comparado com a Marinha ou a Direção-Geral de Recursos de Defesa Nacional".

Assinala ainda que "se já existem recursos com competência e provas dadas nesta matéria, não há necessidade de se colocarem outras entidades para assegurar o mesmo propósito, quando não oferecem as mesmas garantias de eficiência e conhecimento. Felizmente, poupam-se 5M€ necessários para as nossas Forças Armadas.

É notável, melhor, é de facto atrevimento estratosférico invocar que ao negar a marosca dos meninos da I&D se coloca seriamente em causa a segurança nacional e a defesa do Estado Português, sendo também gravemente lesiva do interesse público.

5 milhões para gerirem o programa dos NPO. Grandes gestores.

E estamos nisto há décadas. Mas a maioria não quer saber destas maroscas, nem se interessa por esta rede montada há décadas, com saltitões entre cargos governativos, assessorias, gestores na rede, conluios vários, passeatas infindas. E como se diz no artigo, sempre a gozar com as Forças Armadas e concretamente com a Marinha.

Mas é claro, depois dizem que sou azedo. 

Como azedo serão capazes de considerar quem um dia sorriu quando lhe telefonaram para se encarregar de preparar um dado evento, pois um dos navios estaria pronto para o dito evento. Santa ingenuidade.

Como ele previa nada de confirmou. O tal navio foi entregue à Marinha muito depois. Mais uma vez, neste artigo se confirma a pouca vergonha que há anos envolve o plano de construção de 10 patrulhões NPO para a Marinha. Deviam estar 10 feitos.

Portugal, o tal país de marinheiros, com jurisdição sobre uma massa oceânica brutal, o país que agora vai passar pela vergonha (vergonha para mim e outros mas não para estes titulares de órgãos de soberania) de ver a UE com a sua FRONTEX e outras agências a averiguar como tratamos das fronteiras marítimas!

Noticia-se por aí que o governo estará à pressa a olhar para a balbúrdia que nacionalmente gere (????) o mar! Rir ou chorar?

António Cabral