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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

1971 - 1973,  GUINÉ
Na então Guiné portuguesa hoje Guiné Bissau, época da minha vida para onde fui mandado cumprir 21 meses na guerra, vivi como outros as cenas da guerra e as cenas do quotidiano em Bissau. 

De 29OUT1971 a 28JUL1973 estive na guerra, para lá fui mandado cumprir um tempo a bordo de um dos muitos navios que a Marinha (então) de Guerra lá tinha. Hoje como não há guerra é só Marinha. Fui então por 21 meses o chamado oficial imediato, o equiparado a um 2º comandante.

Das cenas da guerra, e tive muitas e bastantes sustos, não me apetece falar agora, mas estou a referir-me a esses já longínquos tempos por me ter recordado de algumas coisas das muitas cenas "curiosas" que vivi, directamente umas, indirectamente outras (as várias que aconteceram, vividas/ testemunhadas por outros).

E recordei-me desses tempos quando estava a consultar velhos arquivos e fotografias dessa altura. Nos arquivos tenho algumas interessantes coisas dos tempos da célebre Operação Mar Verde, apenas parcialmente bem sucedida, e em que participaram imensos dos navios em serviço na Guiné.

Recordei-me de um inarrável arrogante e irascível chefe de Estado-maior do então Comando da Defesa Marítima da Guiné (CDMG), pai de uns igualmente inarráveis e insuportáveis Trotskystas da nossa praça.  

Recordei-me do capitão de mar-e-guerra que era o 2º comandante do dito CDMG e protagonista de cenas hilariantes. Tinha por alcunha "o cabeça silenciosa", pois quem passava por ele e o cumprimentava militarmente ao mesmo tempo que dizia - bom dia sr comandante - recebia invariavelmente apenas um silencioso aceno com o braço levantado, tipo "passe bem".

Uma das cenas hilariantes, que não presenciei mas aconteceu mesmo, tem a ver com uma célebre manhã em que o senhor deu despacho ao oficial que superintendia os recursos humanos do CDMG, e que no essencial foi como descrevo a seguir.

O dito oficial apresentou para sancionamento do dito 2º comandante, uma série de normas do âmbito do seu serviço.
O 2º comandante olhou atentamente, folheou os papéis e depois inquiriu - quem fez isto?

O oficial, de alcunha o "princês", imaginou que o 2º comandante perguntava por quem tinha dactilografado tudo aquilo, e naquele seu ar físico muito peculiar a roçar o ridículo respondeu - "foi a minha secretária".

NÃO, retorquiu o 2º comandante visivelmente irritado. Quem é o cerebrozinho disto?

Ah, fui eu - respondeu o "princês"!

O "cabeça silenciosa" olhou para ele e terá dito - está uma porcaria, arranje isto!

E lá saiu o "princês" com o rabo entre as pernas, sob um sorriso muito  disfarçado da ordenança (negro) do 2º comandante, que era um sabidão, e que informava os oficiais que precisavam de ir a despacho sobre o humor do "cabeça silenciosa" naquele dia, e assim se batia à porta ou se dava meia volta e tentava outro e desejavelmente melhor dia.

António Cabral (AC)

domingo, 14 de dezembro de 2025

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

 ALDEIA  de  MONSANTO

Aqui mostro a capa e contracapa deste magnífico livro agora vindo à luz do dia, livro que em boa hora o meu prezado amigo Joaquim Fonseca e vizinho aqui na aldeia concebeu com a colaboração de várias pessoas mas designadamente da senhora sua mulher, Amélia Fonseca, uma das iniciais e grandes impulsionadoras nomeadamente das Adufeiras de Monsanto. 

Esta senhora como algumas e alguns mais (já poucos, . . . . a lei da vida. . . ) são um "poço" de sabedoria daqui, um poço sem fundo de património imaterial.

Em tempo foi-me pedido um testemunho sobre Monsanto para incluir no livro. Aqui reproduzo parte desse testemunho.

"Falar em poucas linhas sobre a aldeia de Monsanto, na Beira-Baixa, não é tarefa fácil.
Em primeiro lugar, e não se trata de falsa modéstia, para falar de Monsanto faltam-me conhecimentos, falta-me história, falta-me memória.

Em segundo lugar, sou suspeito, pois a aldeia de Monsanto diz-me muito e é, para mim e para a minha família directa, a nossa segunda casa.

Vim pela primeira vez a Monsanto em Novembro de 1969.
A minha mulher tem raízes em Monsanto. O avô materno aqui nasceu.
Sobretudo ele e o seu irmão e o filho deste foram os primeiros a introduzir-me neste extraordinário mundo, e orientaram-me para a descoberta da aldeia de Monsanto. 
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Para falar de Monsanto é preciso falar das suas gentes, falar da quantidade de habitantes, naturais e residentes que existia na freguesia de Monsanto (Monsanto e os vários lugares à volta do Monte Santo, como Carroqueiro, Devesa, Adingeiro, Eugénia, Cidral, Lagar Martins, Relva, Torre, etc.) até ao início da década de 70 do século passado.
Mas também falar das gentes que foram partindo.

Para falar de Monsanto é preciso falar das pessoas, dos seus trajes, das lendas, das canções, das raízes populares, do património material e do património imaterial, falar do rancho folclórico, e das Adufeiras e do Rádio Clube de Monsanto.

Para falar de Monsanto é preciso falar do monte, dos penedos, da geologia única e imponente, do castelo lá no alto, dos caminhos ligando Monsanto e os lugares à sua volta, das ruas estreitas e das casas características havendo uma debaixo de um penedo enorme que lhe serve de telhado. 

Falar de Monsanto remete-nos para passado, história, memória, identidade, cultura, valores, etnografia, música, tradições, mas também presente e futuro.

Este livro trata de tudo isso. 
Livro de grande valor, trata de história, memórias incluindo religiosa, música tradicional e popular portuguesas, é um precioso instrumento para ajudar a promover e a defender a nossa identidade, os valores da Beira-Baixa, os valores culturais de Monsanto, as raízes ancestrais. 
É um excelente instrumento para Memória Futura".
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António Cabral (AC)

quarta-feira, 16 de julho de 2025

sábado, 1 de março de 2025

HABILIDADES  NA  COZINHA

Por razões várias mas, desde logo, porque a minha mãe me colocou a cozinhar aos 15 anos* (a poucas semanas de fazer 16 e para grande escândalo do meu avô materno, já antes escandalizado por fazermos nós a cama) e ao meu irmão como manhoso ajudante, desde cedo que me familiarizei com a cozinha, com os utensílios de cozinha, com receitas, com o preparar e confecionar refeições, pratos de peixe, de carne, entradas, doces, saladas variadas. E nas sopas não me saio nada mal mas é sector onde a minha mulher me bate sem sombra de dúvidas.

No resto e atrás referido, poucas são as coisas onde me superiorizo pois ela é uma excelente cozinheira. Mas em algumas ganho. Se já era batido até 1990, a partir daí e em boa parte em consequência da minha vida profissional, tornei-me bastante razoável como cozinheiro e pasteleiro.

Temos em casa excelentes livros de cozinha, alguns bem antigos e sobretudo muitas receitas muito antigas. Daquelas onde aparece - uma chávena disto, meia chávena daquilo - ou então e pior - um poucochinho de, mais um poucochinho de, etc.

Para além de há décadas o casal se ajeitar muito bem neste ambiente da casa, tivemos a felicidade de usufruir da experiência da velhinha Cecília que, infelizmente, há muito nos deixou.

E vem isto a propósito dela e de um utensílio de cozinha. A Cecília entre as inúmeras excelentes refeições que preparava, os seus pastéis de massa tenra recheados com carne variada eram das coisas mais fabulosas que comi na vida. E comi muitas vezes, e é receita a que periodicamente recorremos.

E aqui entra o tal utensílio, o rolo da massa. A Cecília usava em casa da minha sogra um muito antigo rolo de madeira. Nós também temos o clássico. Mas nos últimos anos tenho recorrido mais a este, pesadote, de boa marca, e muito prático e eficaz. Rolo da massa moderno, de que certamente a Cecília se riria e, provavelmente, se recusaria usar. Mas consigo estender a massa para os pasteis de forma fantástica, fica finíssima.


António Cabral
 (AC)

* Foi há muitas décadas que isso se passou. No tempo em que os vegetais e concretamente as ervilhas eram tenras, não precisavam de ser cozinhadas na panela de pressão como hoje fazemos. 

E a refeição foi ervilhas guisadas, cozinhadas num velhinho fogão a gás, num tacho banal, com a cebolada e o alho e o azeite e o sal e os coentros e a salsa, como a mãe indicara, e depois de cozinhadas e provadas, dois ovos inteiros lá para dentro. E foi o que almoçámos, enquanto os pais sairam depois de verificado que tínhamos almoço de facto.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2025

MEMÓRIAS

As minhas memórias constituem um verdadeiro cartão de identidade

Bom dia, saúde e boa sorte.

AC

segunda-feira, 21 de outubro de 2024

Do PÂNTANO à PANDEMIA
Como já fiz menção antes, no passado de 16 deste mês assisti á apresentação de novo livro de António Correia de Campos (ACC), a cargo de Leonor Beleza e do (como escreveu um dia Vasco Pulido Valente) que se tornou um furioso beato do PS, Vital Moreira.
Foi no Palácio Galveias ao Campo Pequeno, ao final da tarde.

Já comecei a ler - Memórias II, do Pântano à Pandemia.
Tem certamente muitas coisas interessantes, estou numa fase inicial.

O livro tem como que capítulos estes títulos: 
Ministro de Guterres, Quartel de Inverno, Ministro de Sócrates, Diário, Unidade de Saúde Familiar Reforma Estratégica, Saída do XVII Governo Constitucional, No Parlamento Europeu, A direita no poder, Suicídio anunciado da TSU e o resto, BES uma vergonha nacional, Saída de Bruxelas, Eleições presidenciais de 2015 e eleição para o CES, CES tentar gerir a irrelevância, O legado das conferências CES, Epílogo.

Como em tudo na vida, forçosamente que o autor dá a sua visão sobre todos os aspectos que viveu ao longo da sua vida profissional e política.
Concorde-se completamente, parcialmente ou nada com o autor, haverá certamente algumas coisas que, para cada um dos que lerem o livro, poderá suscitar curiosidade em aprofundar um dado tema, ou ter reservas sobre ele.

Sem querer maçar, escolhi os exemplos seguintes:
- Relativamente a remodelações no primeiro governo de Guterres, ACC confessa ter lamentado que para a pasta da defesa Guterres não tenha convidado José Medeiros Ferreira (JMF) que, na opinião de AAC, era um dos civis mais competentes em Portugal para dirigir aquela pasta.

- Sobre a sua primeira experiência governativa como ministro da Saúde, ACC explica com vários detalhes as dificuldades (que, presumo, hoje em dia ainda que num modo diferente se devem parcialmente manter) sentidas os problemas que enfrentou, as pressões da Associação Nacional de Farmácias, as pressões corporativas dos vários sectores no âmbito da saúde, as questões de gestão ao nível das mais diferentes unidades de saúde do país, obras, a quem recorreu (sempre um certo nome a aparecer durante décadas) para questões jurídicas, e a confissão quanto ao orçamento que elaborou.
Sobre esse orçamento - procurei que se aproximasse da estimativa real de despesa e não, como os anteriores, uma mera fantasia necessitando de retificação posterior

Este segundo exemplo é um dos elementos dos muitos que creditam ACC como uma pessoa intelectualmente honesta.

Quanto ao primeiro exemplo, uma curtas palavras.
1º - Qualquer pessoa teria sido melhor ministro da defesa nacional do que aquele que Guterres escolheu. Não sei se o escolheu por ser jurista ou por ligado ao CDS.

2º - O saudoso professor JMF era como todos nós, um homem com qualidades e defeitos.
Mesmo sabendo que sou suspeito (conheci-o fugazmente nos Açores, dele creio que tenho todos os livros publicados) tenho-o como um dos homens superiores que tivemos na nossa história democrática.
Mas, desconhecendo obviamente imensas coisas da política, ainda assim algumas coisas fui conhecendo por razões privadas que para aqui não são chamadas.
Isto dito, sendo certo que as capacidades e competências de JMF eram muito acima da média, gostava de perceber porque era talhado para a defesa e não para outra pasta, como por exemplo Negócios Estrangeiros que bem conhecia.

Um livro que lerei com gosto.
AC

terça-feira, 17 de setembro de 2024

MEMÓRIAS
Não sei bem porquê recordei-me dos geringonços e das geringonças, sempre defendendo a escola pública mas com os filhos nos colégios particulares, "para lhes abrir horizontes", e lembrei-me a seguir e com bastante saudade de algumas coisas de quando andei no então chamado Liceu Nacional de Oeiras. 


Fernão Lopes, entre outras coisas guarda-mor das escrituras da Torre do Tombo no seu tempo, cronista e historiador, Gil Vicente considerado salvo erro o fundador do teatro português, João de Barros, cronista-mor do reino, Damião de Góis que muito se entregou a missões comerciais e diplomáticas e foi também cronista, Pêro Vaz de Caminha e a sua carta do "Achamento do Brasil", Fernão Mendes Pinto e a sua "Peregrinação", Luís de Camões e os "Os Lusíadas", Rodrigues Lobo, poeta e prosador, Padre António Vieira, grande orador, vasta obra de sermões e muitos outros escritos, Nicolau TolentinoBocage com os seus sonetos e poesias, Almeida Garret, poeta, dramaturgo, romanceiro, Alexandre Herculano, romancista, polemista, investigador e historiador, Camilo Castelo Branco escritor de inúmeras obras, Júlio DinisJoão de Deus e a sua famosa "Cartilha Maternal", Antero de Quental e os seus sonetos, Eça de Queirós uma vida recheada de cargos e viagens e senhor de uma prosa fina e acutilante, Ramalho Ortigão, o historiador Oliveira Martins, poeta Cesário VerdeGuerra Junqueiro e o seu célebre "Finis Patriae", Júlio DantasFernando Pessoa e a sua "Mensagem", Florbela EspancaFerreira de Castro e a sua "Selva", Miguel Torga os seus poemas livros de contos  e novelas, José Régio poeta romancista dramaturgo.

Já lá vão muitas décadas.
AC

sexta-feira, 28 de julho de 2023

50

Passam hoje 50 anos sobre o meu regresso da Guerra na Guiné (actual Guiné-Bissau). Cheguei inteiro e, felizmente, sem mazelas físicas incluindo estômago e intestinos, pois cumpri escrupulosamente com a medicação desde um mês antes da partida até ao final de Agosto de 1973. E água sempre filtrada e depois fervida. Em cerca de 3 meses estava OK de espírito. Parece que foi outro dia.

AC

segunda-feira, 10 de julho de 2023

A PROPÓSITO de CHOCOS
Ao caminhar no areal e olhar para esqueletos dos chocos lembrei-me que há uns tempos já não vou a Setúbal à procura de "papar" estes "bicharocos". 

Gosto de choco frito, mas em tiras finas, e não em trambolhos grossos como em vários locais têm por hábito assim os apresentar. 
Gosto deles com e sem tinta. 
Com tinta há por vezes lugar a cenas complicadas, como em tempos sucedeu com um jovem familiar que, menos cuidadoso com o garfo, fez um dos bichos esguichar quase como se estivesse vivo. O problema não foi esguichar …. o problema é que foi parar às costas de um sujeito na mesa ao lado!

Mas observar estes esqueletos nos areais cá para cima ou no Algarve, recorda-me aventuras de menino, e nomeadamente na praia de Paço de Arcos e nas da zona da Parede. É que sou da geração que os usava para construção de barquinhos, que eram apetrechados usando paus fininhos e penas, e lá íamos para as competições. 
Para ver os que se aguentavam não se virando facilmente, até os que se conseguiam aguentar pelos ribeiros pequenos que se formavam entre as rochas pequenas quase enterradas na areia. Bons e sadios tempos.
AC