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terça-feira, 20 de janeiro de 2026

REPUBLICANDO
(sublinhados da minha responsabilidade)

O Estado e o mundo rural

• Henrique Pereira dos Santos • 31 Dezembro 2019

Um destes dias, a propósito da gestão de uma propriedade, falavam-me no controlo de matos sem gradagem, sem mobilização do solo, só com corta mato. Naturalmente, perguntei as razões para não se usarem ovelhas, que fariam o mesmo serviço, estrumavam o solo, nas gastariam energias fósseis e talvez ainda dessem rendimento.

A primeira parte da resposta é um clássico: não há pessoal. Na verdade, o que esta resposta quer verdadeiramente dizer é que o rendimento da criação de ovelhas não é tão atractivo que permita pagar melhor, o que torna o trabalho de pastor menos competitivo face às alternativas
A segunda parte da resposta é a que me interessa para esta crónica: é muito fácil roubar gado miúdo, a probabilidade de tal acontecer é altíssima. Não foi a primeira vez em que me falaram de roubos no mundo rural.

São os produtores de pinhão que se queixam das quebras por causa das doenças, mas também dos roubos de pinha, são os produtores de cortiça que vêem as pilhas diminuir, são os empreiteiros florestais que não podem deixar as máquinas no monte sem ficarem sem gasóleo, são os produtores de regadio que vêem ser roubados os metais dos sistemas de rega, são os produtores de cereja a começar a vedar e fiscalizar as áreas de produção, são os produtores de azeitona a queixar-se de um dia acordarem sem a azeitona no olival, são as castanhas que se evaporam, a juntar aos já citados roubos de gado e muitos outros.

No outro dia, à procura de uma estrada, passo pelo posto da GNR de uma grande aldeia, e resolvo pedir indicações. O posto estava fechado, bati à porta, apareceu um agente a quem pedi indicações debalde: “não sou de cá, amigo, não faço ideia de onde será essa estrada, com a falta de pessoal, aos fins-de-semana mandam para aqui pessoal de fora só para o posto não estar fechado, de maneira que eu não conheço esta zona”.

Bem me explicava outro proprietário que às duas da manhã tinha visto umas luzes no outro lado da albufeira, e tinha ligado para a GNR, mas com a falta de pessoal, só conseguiram ir ver o que se passava três horas depois, inutilmente, claro.

E, no entanto, este é o Estado que passa a vida a falar na valorização do interior – Portugal deve ser o único país do mundo em que o interior começa a uns vinte quilómetros da costa – tem até umas secretarias de Estado catitas espalhadas por aqui e ali, fala dos milhões que os contribuintes europeus despejam nessas tais regiões da convergência territorial.

O problema é grande parte do dinheiro chegar através de autarquias que pagam festas de Verão, piscinas, auditórios vazios, empresas inviáveis, pensando que estão a resolver os problemas do interior.

É o mesmo Estado que tinha uma missão para a valorização do interior – depois passou a secretaria de estado, vai agora num ministério da coesão territorial – que apresentou umas dezenas largas de medidas para valorizar o interior e de que cito apenas uma: “Projeto de difusão de espetáculos produzidos e coproduzidos pelo Teatro D. Maria II visando alcançar territórios onde a oferta teatral é ocasional ou irregular”.

A sensação com que fico é a de que todos estes milhões, organismos, estudos, planos e afins, são como um fogo-de-artifício com que se tapa o essencial: na sua missão básica de garantir a segurança de pessoas e bens, o Estado tem recuado muito para lá do aceitável, deixando ao abandono as pessoas que continuam empenhadas em criar riqueza nas suas regiões.

E, para juntar insulto à injúria, o Estado usa os escassos recursos da GNR para perseguir os malandros que não cumprem as leis iníquas e absurdas de defesa da floresta contra incêndios, em vez de se empenhar em, primeiro, assegurar a segurança de pessoas e bens, depois, estar lá quando as pessoas precisam para as conhecer, apoiar e ajudar nas vidas difíceis que levam.

Se o Estado se preocupasse mais com as pessoas, e menos em garantir o gigantismo de autarquias, que muitas vezes são o principal agente social e económico de cada concelho, absorvendo grande parte dos recursos em actividades muito pouco eficientes, cumpriria bem melhor a sua missão.

O mundo rural agradeceria, de bom grado, melhor e maior segurança para as suas actividades quotidianas, pagamento da gestão de serviços de ecossistema e racionalidade na gestão do fogo. Estou convencido de que facilmente abdicaria dos milhões gastos em ideias geniais e nas acções e projectos simbólicos que visam assinalar o amor acrisolado do Estado pelo mundo rural, para ter um módico de decência no relacionamento do Estado com os agentes económicos e sociais do mundo rural.

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

 ALDEIA  de  MONSANTO

Aqui mostro a capa e contracapa deste magnífico livro agora vindo à luz do dia, livro que em boa hora o meu prezado amigo Joaquim Fonseca e vizinho aqui na aldeia concebeu com a colaboração de várias pessoas mas designadamente da senhora sua mulher, Amélia Fonseca, uma das iniciais e grandes impulsionadoras nomeadamente das Adufeiras de Monsanto. 

Esta senhora como algumas e alguns mais (já poucos, . . . . a lei da vida. . . ) são um "poço" de sabedoria daqui, um poço sem fundo de património imaterial.

Em tempo foi-me pedido um testemunho sobre Monsanto para incluir no livro. Aqui reproduzo parte desse testemunho.

"Falar em poucas linhas sobre a aldeia de Monsanto, na Beira-Baixa, não é tarefa fácil.
Em primeiro lugar, e não se trata de falsa modéstia, para falar de Monsanto faltam-me conhecimentos, falta-me história, falta-me memória.

Em segundo lugar, sou suspeito, pois a aldeia de Monsanto diz-me muito e é, para mim e para a minha família directa, a nossa segunda casa.

Vim pela primeira vez a Monsanto em Novembro de 1969.
A minha mulher tem raízes em Monsanto. O avô materno aqui nasceu.
Sobretudo ele e o seu irmão e o filho deste foram os primeiros a introduzir-me neste extraordinário mundo, e orientaram-me para a descoberta da aldeia de Monsanto. 
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. . . . . .
Para falar de Monsanto é preciso falar das suas gentes, falar da quantidade de habitantes, naturais e residentes que existia na freguesia de Monsanto (Monsanto e os vários lugares à volta do Monte Santo, como Carroqueiro, Devesa, Adingeiro, Eugénia, Cidral, Lagar Martins, Relva, Torre, etc.) até ao início da década de 70 do século passado.
Mas também falar das gentes que foram partindo.

Para falar de Monsanto é preciso falar das pessoas, dos seus trajes, das lendas, das canções, das raízes populares, do património material e do património imaterial, falar do rancho folclórico, e das Adufeiras e do Rádio Clube de Monsanto.

Para falar de Monsanto é preciso falar do monte, dos penedos, da geologia única e imponente, do castelo lá no alto, dos caminhos ligando Monsanto e os lugares à sua volta, das ruas estreitas e das casas características havendo uma debaixo de um penedo enorme que lhe serve de telhado. 

Falar de Monsanto remete-nos para passado, história, memória, identidade, cultura, valores, etnografia, música, tradições, mas também presente e futuro.

Este livro trata de tudo isso. 
Livro de grande valor, trata de história, memórias incluindo religiosa, música tradicional e popular portuguesas, é um precioso instrumento para ajudar a promover e a defender a nossa identidade, os valores da Beira-Baixa, os valores culturais de Monsanto, as raízes ancestrais. 
É um excelente instrumento para Memória Futura".
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. . . . . 

António Cabral (AC)

terça-feira, 24 de outubro de 2023

Há pouco tempo escrevi este texto

COMPRA  de  CASAS  GRANÍTICAS

Sou alfacinha, nascido em Lisboa, como milhares de muitos da minha geração e das gerações próximas e, portanto, de S. Sebastião da Pedreira. Por razões que a maior parte dos de hoje não saberá.

Convivo com a Beira-Baixa desde 1969 e, muito particularmente, com os concelhos de Castelo Branco, Fundão, Penamacor e Idanha-a-Nova, sendo o ponto central a aldeia de Monsanto.

Conheço, portanto, um pouco mais que "poucochinho" (Costa Dixit) do mundo Beirão. 

Neste mundo, do que havia em 1969 pouco resta a não ser evidentemente o que não é fácil fazer desaparecer, designadamente penedos, muita pedra, montes, casario pouco degradado/ destruído. Casario onde está omnipresente o granito.

O jornal Expresso publicou recentemente um pequeno texto e fotografias sobre casas graníticas, e informou que há e haverá crescente procura para esse tipo de casas, e identificou até alguns preços de aquisição, variando entre 3 000,00 e 30 000,00 Euros! 

A dada altura do texto há uma relativa abordagem para os problemas concretos inerentes ao assunto. Nomeadamente a questão da reconstrução dessas casas graníticas.

O texto da notícia não aborda com detalhe concreto os diversos e diferentes problemas inerentes à reconstrução das casas graníticas. 

Do meu ponto de vista passa superficialmente sobre a real situação de todo o interior.

Sei bem do que estou a falar.

A compra de casas por exemplo no distrito de Castelo Branco.

Basta consultar os sítios das conhecidas imobiliárias com sede em Castelo Branco por exemplo para ficar com uma ideia de realidades. Realidades algo diferentes do noticiado.

Quase cada casa é um caso diferente. Seja dentro ou fora de uma quinta de 3 a 6 ou 8 hectares.

Há muitas casas em que as paredes exteriores estão bem preservadas, direitas e sólidas, não precisando de ser demolidas/ desmanchadas parcialmente para as "endireitar".

Hã muitas casas destelhadas, outras nem tanto, bastante menos com telhado e estrutura de madeira em boas condições. 

Há muitas casas em que se aproveitam apenas as paredes exteriores.

A reconstrução depende, naturalmente, do ponto de partida/ que tipo de casa/ estado de conservação, dos meios financeiros, do gosto do proprietário. 

Nos casos de casas em aldeias históricas, nos casos em que a lei vigente impõe controlo específico sobre a reconstrução, tudo se torna mais complicado. A burocracia surge em todo o seu português esplendor, o exercício de poderes funcionais acontece por vezes com um descaramento inacreditável, as licenças camarárias demoram por vezes imenso, etc.

Mas a reconstrução impõe que o proprietário arranje quem lhe faça o projecto de arquitectura, que lhe trate do processo junto da câmara municipal, que os projectos técnicos igualmente sejam aprovados, etc.

Mas decisivo, o projecto de arquitectura tem de ser apreciado por quem se encarregará da reconstrução. Alguém que apresentará a proposta de orçamento. A prudência aconselha obter mais de uma proposta.

E logo aqui podem começar os problemas. E começam. Exemplos que bem conheço no distrito de Castelo Branco, há muito poucos que têm capacidade/ estrutura para trabalho sério, começado e terminado dentro dos prazos acordados. Executado com qualidade.

E, descendo a coisas ainda mais concretas e que conheço bem, em casas graníticas e variando de caso para caso, um aspecto crucial tem a ver com os operários que trabalham em pedra. E há muito poucos nos concelhos de Idanha-a-Nova, Castelo Branco, Penamacor. Conheço alguns, designadamente da aldeia de Escalos de Cima, que para mim já trabalharam, três deles de elevadíssima qualidade técnica, Têm um problema, atingirão nos próximos meses a idade da reforma. Substitutos? Não foram ainda encontrados.

Este problema supra explicado é idêntico quando se pensa em canalizadores, electricistas etc.

Casas graníticas? Sim, há casos e casos, tal como quintas de 2, 3, 4, 5, ou um pouco mais de hectares. Há diferenças entre Trás-os-Montes e Beiras por exemplo. A ideia que tenho e baseada em vários casos concretos dos últimos 20 anos particularmente na Beira-Baixa, é de que está cada vez mais difícil adquirir e depois reconstruir. De Outubro de 1991 até ao presente há diferenças abissais, repito abissais, preços, empresas, operários, câmaras municipais, legislação, etc.

Fico por aqui. Não vou abordar a questão da crescente especulação, de estrangeiros (endinheirados, que conheço, e outros a roçar os pés descalços e andam pelo interior de certos concelhos) e de nacionais, nem de questões (algumas inacreditáveis) inerentes aos processos administrativos e às câmaras municipais e inerentes também à estrutura actual e legislação relativas a aldeias históricas.

Mas possuir uma boa casa granítica, bem reconstruída, respeitando a região mas com o conforto contemporâneo é, de facto, uma maravilha, porventura um luxo. Está-se muito bem na aldeia!

AC

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VOLTO AO ASSUNTO, depois de ler o Expresso de 6ª Feira passada falar de - Trocar a cidade pela aldeia e ficar a ganhar.(pags 18 e 19 caderno de Economia)

Um pouco diferentemente de artigo anterior que me levou às considerações supra, não falam expressamente em casas graníticas.

Apresentam 5 (cinco) casos, de quem passou da cidade para o interior.

E apresentam casos concretos de gastos em casa no interior.

Um dos casos que me chamou à atenção, é o de uma senhora que afirma ter investido 1,2 milhões € na compra de uma ruína! Depois, mais à frente, a mesma senhora confessa que o custo de vida é muito mais barato agora na sua "ruína"! Não está indicado quanto custou modernizar a dita ruína.

Num dos casos indicados, um meu concidadão toca numa das questões mais determinantes, afirma ele - o problema reside na falta de mão de obra na construção civil, não há operários, e quando conseguimos ajustar uma obra já marcam para 2025.

Outro caso dos cinco é o de um concidadão que se mudou para uma das aldeias que conheço muito bem, a Soalheira, aldeia pequena, de facto com boa ligação à A23 e ….. tem queijos óptimos.

Em síntese, e salvo melhor opinião, sim mudar para o interior é uma óptima ideia, o pior são as realidades.

Sim, é fácil o trabalho à distância, sim a vida é mais barata, sim em vários locais já existe fibra óptica e rapidez de acesso a auto-estradas, etc. Mas quem tiver filhos pequenos, quem ponderar seriamente as questões de apoio na saúde, a escolaridade, a construção civil, talvez encontre algumas pedras pelo caminho.

E sim, há sítios óptimos, mas duvido que 99,9% dos que pensam e gostariam de abandonar as cidades tenham no mínimo 100 000,00€ para reconstruções. E, de certeza que raros serão os que irão investir uns "cêntimos " em ruínas baratinhas como o indicado no Expresso.

Enfim, artigo para encher chouriços. Se calhar isto explica parcialmente a brutalidade da dívida que têm!

AC

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

A N T I G A M E N T E

Para lá do Marão mandam os que lá estão!

A C T U A L M E N T E

Para lá do Marão são poucos e velhos os que ainda lá estão!

AC

quarta-feira, 3 de julho de 2019

PERITOS  em  ANUNCIAR  OBRA
Dos maiores peritos em anunciar obras não há dúvida que o intrujão-mor e seus acólitos estão e continuam imbatíveis.
Aparentemente, o tribunal de contas anda um bocado desconfiado deles.
Entre os muitos exemplos que se podem apontar, seja no SNS, na justiça, na educação, nas supostas reformas do estado, o que fica quase sempre "é o caminho apontado", expressão entre o pornográfico e o patético utilizada pelo controlador Jorge Coelho.
Um dos bons exemplos é a telenovela acerca do tristemente famoso itinerário na zona de Coimbra, o tal IP3.
Passei lá muito recentemente, com muita cautela e a horas em que a coisa anda menos sinistra.
Esse desgraçado troço de estrada está há décadas amaldiçoado, e recomendo só por lá passar como último recurso.
Quando começarão as obras?
Não se sabe, não foi definido. 
MAS QUE FOI ANUNCIADO COM POMPA FOI. 
Uma das boas razões para o cara de velha ter ido para Bruxelas. Neófito de Vieira da Silva. 
Mas nem com um dos caciques do PS, o novamente presidente da câmara municipal de Coimbra o desgraçado IP3 arranca. 
Como não arrancam muitas outras coisas, seja na região de Coimbra seja em outras paragens do interior.
Basta andar uns km, pelas áreas de Castelo de Vide, Portalegre, Crato, Castelo Branco, Serpa e, depois, andar um bocado a pé e fotografar.
Observar as realidades, não se ficar pelos anúncios.
AC

domingo, 1 de maio de 2016