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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

1971 - 1973,  GUINÉ
Na então Guiné portuguesa hoje Guiné Bissau, época da minha vida para onde fui mandado cumprir 21 meses na guerra, vivi como outros as cenas da guerra e as cenas do quotidiano em Bissau. 

De 29OUT1971 a 28JUL1973 estive na guerra, para lá fui mandado cumprir um tempo a bordo de um dos muitos navios que a Marinha (então) de Guerra lá tinha. Hoje como não há guerra é só Marinha. Fui então por 21 meses o chamado oficial imediato, o equiparado a um 2º comandante.

Das cenas da guerra, e tive muitas e bastantes sustos, não me apetece falar agora, mas estou a referir-me a esses já longínquos tempos por me ter recordado de algumas coisas das muitas cenas "curiosas" que vivi, directamente umas, indirectamente outras (as várias que aconteceram, vividas/ testemunhadas por outros).

E recordei-me desses tempos quando estava a consultar velhos arquivos e fotografias dessa altura. Nos arquivos tenho algumas interessantes coisas dos tempos da célebre Operação Mar Verde, apenas parcialmente bem sucedida, e em que participaram imensos dos navios em serviço na Guiné.

Recordei-me de um inarrável arrogante e irascível chefe de Estado-maior do então Comando da Defesa Marítima da Guiné (CDMG), pai de uns igualmente inarráveis e insuportáveis Trotskystas da nossa praça.  

Recordei-me do capitão de mar-e-guerra que era o 2º comandante do dito CDMG e protagonista de cenas hilariantes. Tinha por alcunha "o cabeça silenciosa", pois quem passava por ele e o cumprimentava militarmente ao mesmo tempo que dizia - bom dia sr comandante - recebia invariavelmente apenas um silencioso aceno com o braço levantado, tipo "passe bem".

Uma das cenas hilariantes, que não presenciei mas aconteceu mesmo, tem a ver com uma célebre manhã em que o senhor deu despacho ao oficial que superintendia os recursos humanos do CDMG, e que no essencial foi como descrevo a seguir.

O dito oficial apresentou para sancionamento do dito 2º comandante, uma série de normas do âmbito do seu serviço.
O 2º comandante olhou atentamente, folheou os papéis e depois inquiriu - quem fez isto?

O oficial, de alcunha o "princês", imaginou que o 2º comandante perguntava por quem tinha dactilografado tudo aquilo, e naquele seu ar físico muito peculiar a roçar o ridículo respondeu - "foi a minha secretária".

NÃO, retorquiu o 2º comandante visivelmente irritado. Quem é o cerebrozinho disto?

Ah, fui eu - respondeu o "princês"!

O "cabeça silenciosa" olhou para ele e terá dito - está uma porcaria, arranje isto!

E lá saiu o "princês" com o rabo entre as pernas, sob um sorriso muito  disfarçado da ordenança (negro) do 2º comandante, que era um sabidão, e que informava os oficiais que precisavam de ir a despacho sobre o humor do "cabeça silenciosa" naquele dia, e assim se batia à porta ou se dava meia volta e tentava outro e desejavelmente melhor dia.

António Cabral (AC)

sexta-feira, 22 de agosto de 2025

segunda-feira, 28 de julho de 2025

28 JULHO  -  1973 - 2025
Faz esta tarde mais ou menos pelas 1730 horas, 52 anos que cheguei a casa, regressado da guerra na Guiné, onde cumpri 21 meses de comissão de serviço a bordo do grande patrulha Hidra e onde, com os restantes elementos da guarnição combatemos, e onde a 19 de Maio de 1973 pelas 2340 horas fomos atacados e, felizmente sobrevivemos, excepto um das dezenas de comandos africanos que transportávamos no navio. 
Comandos africanos regressados de célebre e complexa e complicada e feroz operação dentro do Senegal.

52 anos passaram.

Lembro-me de tudo como se fosse hoje.
António Cabral (AC)

segunda-feira, 19 de maio de 2025

19 de MAIO
Hoje, pelas 2340 horas (não vou contar com a diferença de fuso horário) passam 52 anos que o patrulha Hidra para onde eu fui mandado combater (29OUT1971 - 28JUL1973) e onde exerci as funções de oficial imediato, foi atacado por Bombordo.

Eu fiquei com o ouvido esquerdo afectado pelas explosões.
Eu e vários outros podíamos ter morrido, como por exemplo o então marinheiro Agostinho que, a descansar deitado no seu beliche a poucos minutos de ir entrar de quarto na ponte do navio, viu um pedaço de aço furar-lhe a cama a cerca de um palmo abaixo dos genitais. 

Um dos vários pedaços de aço oriundos das explosões no convés e que furaram pavimentos, tendo alguns furado o casco, de dentro para fora, causando pequenos rombos que foram facilmente controlados pela limitação de avarias.

O navio teve esses danos, e um incêndio que demorou algum tempo a controlar, mas continuou operacional, tendo a artilharia massacrado toda a área de onde partira o ataque com RPG. Com resultados trágicos para os autores do ataque, escondidos no arvoredo (tarrafe) perto da margem, como se veio a saber algumas semanas depois.

Houve alguns feridos e faleceu, infelizmente, um dos comandos africanos que transportávamos no exterior, e que havíamos recolhido depois de uma célebre operação ao Senegal.

52 ANOS !

António Cabral (AC) 

segunda-feira, 28 de abril de 2025

REALIDADES

Sou, também, da geração que andou na guerra, concretamente, 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973, como oficial imediato num patrulha grande da Marinha, na então Guiné portuguesa.

Sou da geração que conheceu os tiros, dei várias vezes ordem de fogo para os canhões de 40 m/m do navio, um à proa e outro à popa.

Sou da geração que conheceu o combate a sério, na passagem de 19 para 20 de Maio de 1973. E ao longo desses 21 meses de comissão em África muitos sustos apanhou e vários horrores viu.

Sou dos muito afortunados que regressaram vivos, não estropiado, mas infelizmente com o ouvido esquerdo afectado com as explosões desse ataque ao findar desse 19 de Maio. Ouvido que, com a idade, vai denunciando mais o dano de Maio de 1973.

Ando muito triste com a situação no meu país.

Vivo felizmente no regime de direito democrático. 

Tenho esperança, confio e anseio por um futuro melhor para os meus filhos e netos. Mas o horizonte está cinzento.

Tento perceber o mundo, sempre, e não me fio nos aldrabões que pululam a vertente interna e a externa.

Nunca fui carreirista, acomodado, e apesar de ter subido quase ao topo máximo na carreira, em 2006 ficou evidente a consequência da "cor dos meus olhos e o nunca ter aceitado ser submisso". Mascarando, evidentemente, com normas legais, sabendo-se, como no decorrer dos tempos, as normas foram periodicamente suavizadas para os de olhos de cor bonita.

Sei o que é a honra, tenho coluna vertebral bem direitinha embora às vezes nas S e nas L já surjam sinais do passar dos anos. Revolto-me contra as injustiças, as indignidades, as mentiras, o politicamente correcto, não suporto os acomodados, nem respeito quem não se dá ao respeito, independentemente de muitos lhes dedicarem o respeitinho serôdio porque sim. Borrifo-me para modas, Wokes e quejandos.

Respeito sempre as opiniões de outrem, discordo umas vezes, concordo outras. Sou dono da minha cabeça, do meu coração. Apenas.

António Cabral

domingo, 28 de julho de 2024

28 JULHO  -  1973-2024
Fez esta tarde 51 anos que regressei da Guiné, onde cumpri 21 meses de comissão a bordo do patrulha Hidra, e onde com os restantes elementos da guarnição combatemos e a 19 de Maio de 1973 fomos atacados e sobrevivemos, excepto um das dezenas de comandos  africanos que transportávamos.

51 anos passaram.
Lembro-me de tudo como se fosse hoje.
António Cabral (AC)

terça-feira, 21 de maio de 2024

Do JORNAL SETUBALENSE 

PENSAR SETÚBAL: 
50 anos do 25 de Abril de 1974 (Parte XII): Operação “Mar Verde”
por Giovanni Licciardello
20/05/2024

Hoje vamos falar de uma operação militar denominada Operação “Mar Verde”.
A referida acção militar foi decidida pelo governo de Marcello Caetano, planeada pelas Forças Armadas Portuguesas e realizada em Novembro de 1970, no território da Guiné-Conakry, decorrente da Guerra Colonial na Guiné-Bissau.
Foi concebida e executada pelo fuzileiro capitão-tenente Alpoim Galvão, responsável pelo Centro de Operações Especiais da Guiné-Bissau, com o apoio do brigadeiro António de Spínola que era o governador militar deste território.

Um grupo de soldados desembarcou furtivamente próximo da cidade de Conakry, sob a supervisão de oficiais portugueses. O objectivo era derrubar o governo de Sékou Touré, um dos principais aliados do PAIGC e raptar Amílcar Cabral.
A “Operação Mar Verde” decorreu num contexto mais amplo da guerra entre o regime colonial português e os movimentos de libertação africanos.

Em 1970, o PAIGC controlava quase dois terços do território da Guiné, mas começava a ceder militarmente, uma vez que Portugal tinha intensificado a sua ofensiva.
Para além disso, o plano consistia também em destruir as lanchas rápidas fornecidas pela União Soviética ao PAIGC e libertar vinte e seis prisioneiros de guerra portugueses que tinham sido capturados e que se encontravam na Guiné-Conakry.
E daí que, entre os dias 21 e 22 de Novembro, teve início a operação, com a infiltração via mar do contingente português, composto por cerca 400 fuzileiros que desembarcaram nos arredores de Conakry.

Segundo Mário Salgado, enfermeiro do exército, a referida operação teve o apoio de um contingente militar que se deslocou por terra, passando por Piche, perto de Pirada, próximo da fronteira da Guiné-Conakry, tendo também regressado por aí.
O primeiro alvo foi o quartel-general do PAIGC e as lanchas que foram logo destruídas. De seguida, foram atacados outros objectivos estratégicos tais como a central eléctrica e a prisão onde estavam os referidos prisioneiros portugueses.
A partir daqui, o grupo dividiu-se em dois; o primeiro grupo atacou e destruiu outras instalações do PAIGC e tentou raptar Amílcar Cabral que aí não se encontrava. Esse grupo retirou-se imediatamente via mar.

O segundo grupo, com cerca 200 militares, tentou promover a insurreição da população de Conakry contra o governo, convencidos que iria haver receptividade por parte da população local.
Tal não sucedeu, uma vez que os infiltrados não conseguiram transmitir as mensagens que pretendiam à população, a partir da estação de rádio que tinham, entretanto, ocupado, nem capturar oficiais importantes da defesa local.
Pelo contrário, foram rechaçados pelo exército Conakry e obrigados a retirar rapidamente, tendo sido capturados sessenta militares, entre os quais seis oficiais portugueses.

A Operação Mar Verde não conseguiu os seus objectivos.
Sekou Touré aproveitou de imediato para proceder a uma purga interna, com condenações à morte e assassínios que se estenderão até 1973, atingindo as mais importantes esferas do poder, nomeadamente membros do executivo.
A comunidade internacional reagiu de imediato, acusando Portugal de ter invadido militarmente um estado soberano e violado o direito de autodeterminação da Guiné-Bissau.
A condenação foi sancionada pela Resolução 290 do Conselho de Segurança da ONU, a 8 de Dezembro de 1970 e também por uma moção de rejeição por parte da Organização de Unidade Africana.

Por todo o lado ocorreram manifestações de apoio e solidariedade para com o PAIGC que se traduziu num reforço do armamento, para procurar reequilibrar as suas forças e também para desincentivar ulteriores tentativas de invasão.
A Guerra Colonial foi perdendo progressivamente a aceitação tácita por parte da população que a tinha sempre encarado de uma forma resignada e, sobretudo, dos militares.
Principalmente a partir dos anos 70, o peso da guerra na sociedade portuguesa, tornou-se impossível de manter e continuar.
Quanto à Operação “Mar Verde” foi mais uma peça do puzzle que faltava encaixar na nossa História recente.
Analisando à distância e olhando retrospectivamente, o 25 de Abril assume uma importância e, sobretudo, uma lógica que determinou o seu surgimento, tanto necessário, quanto inevitável.
Fica aqui uma história importante e eventualmente desconhecida do grande público.

AC

sábado, 27 de abril de 2024

Comunicado da Presidência do Conselho de Ministros

1. As relações do povo português com todos os povos dos Estados que foram antigas colónias de Portugal são verdadeiramente excelentes, assentes no respeito mútuo e na partilha da história comum. O mesmo se diga das relações institucionais Estado a Estado, como bem provam as comemorações dos cinquenta anos do 25 de Abril de 1974. 

2. A propósito da questão da reparação a esses Estados e aos seus povos pelo passado colonial do Estado português, importa sublinhar que o Governo actual se pauta pela mesma linha dos Governos anteriores.

3. Não esteve e não está em causa nenhum processo ou programa de acções específicas com esse propósito.

4. Ainda assim, o Estado português, através dos seus órgãos de soberania - designadamente, do Presidente da República e do Governo -, tem tido gestos e programas de cooperação de reconhecimento da verdade histórica com isenção e imparcialidade.

5. Assim se compreende, a título de exemplo, a assunção do contributo decisivo da luta desses povos pela sua independência para o fim da ditadura ou o pedido de desculpas pelo trágico massacre de Wyriamu.

6. No quadro da cooperação cultural e histórica, o Estado Português financiou, em Angola, o Museu da Luta de Libertação Nacional; em Cabo Verde, a musealização do campo de concentração do Tarrafal; em Moçambique, a recuperação da rampa dos escravos na Ilha de Moçambique.

7. A tudo isso acresce, globalmente, a prioridade dada às políticas gerais de cooperação e à sua materialização em áreas tão significativas como a educação, a formação, a língua, a cultura ou a promoção da saúde, para além da cooperação financeira, orçamental e económica.

8. A linha do Governo português é e será sempre esta: aprofundamento das relações mútuas, respeito pela verdade histórica e cooperação cada vez mais intensa e estreita, assente na reconciliação de povos irmãos.


Salvo melhor opinião, bem escrito, sentido de Estado, ausência de, Wokismo, demagogia e politicamente correcto, e consciência clara de ter havido coisas profundamente erradas, como o comunicado explicitamente reconhece apontando um desses casos.

Sentido de Estado, serenidade, dignidade, ausência de servilismo.

António Cabral

sexta-feira, 15 de março de 2024

GUERRA, GUINÉ, BOLAMA, MEMÓRIAS
Esta fotografia, que vi num blogue que visito amiúde porque o preciso e a quem respeitosamente peço vénia pelo "roubo", recordou-me tempos idos.

Bolama era um sítio sempre agradável onde ir atracar o navio (eu cumpri 21 meses de comissão na Guiné como oficial imediato de um dos patrulhas que a Marinha lá tinha) para curtos períodos de descanso entre missões.

Bolama tinha onde se comer bem, era local de treino de forças, tinha um ambiente curioso.
Bolama, creio, foi sítio de concentração de parte das forças que depois intervieram na operação a Conakry em Novembro de 1970 salvo erro, operação onde entre outros resultados positivos se libertaram prisioneiros portugueses. 
Operação que em grande parte acabou por em parte se saldar num fracasso pois as informações em que a força se baseou mostraram-se completamente desactualizadas, nem apanharam Sekou Touré, nem Migs, etc.

Bolama tinha uma particularidade no plano das marés e nas facilidades de atracação.
Os navios de maior deslocamento só podiam ficar atracados e amarrados directamente ao cais num período relativamente pequeno dada a pouca profundidade e grande amplitude de marés.
Mas conseguia-se ficar lá muito tempo desde que entre o navio e o cais ficasse uma lancha de desembarque média dado o seu fundo quase chato.

Diziam na altura certas más línguas que havia um navio que emitia bons relatórios de missão e inerente navegação . . . . sempre atracado em Bolama. Desconheço a realidade.

Em 28 de Julho próximo passam 51 anos desde que de lá vim.
Fui para lá a 29 Outubro de 1971.
Parece que foi outro dia! 
AC

sexta-feira, 28 de julho de 2023

50

Passam hoje 50 anos sobre o meu regresso da Guerra na Guiné (actual Guiné-Bissau). Cheguei inteiro e, felizmente, sem mazelas físicas incluindo estômago e intestinos, pois cumpri escrupulosamente com a medicação desde um mês antes da partida até ao final de Agosto de 1973. E água sempre filtrada e depois fervida. Em cerca de 3 meses estava OK de espírito. Parece que foi outro dia.

AC

sexta-feira, 19 de maio de 2023

MEMÓRIAS
Em 19 de Maio de 2015 publiquei este texto: 

Recordações. 
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 42 anos que, quando o meu navio navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate/bordadas, fui/ fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, na Guiné, hoje Guiné-Bissau. Como outros, que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Estava uma noite de espectacular luar.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o primeiro e único projéctil/ granada lançado pelos então guerrilheiros do PAIGC. Houve feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive um rombo abaixo da linha de água.
Passadas semanas, um relatório da PIDE/DGS, confirmou a morte de todo o grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado que estava no exterior e que terá durado para aí um minuto no máximo, varreu com aço literalmente toda a zona. Como se viu no local na manhã seguinte ao ataque, uma zona enorme quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos pequenos, sem casca. Tudo branco. O tempo voa, 42 anos!
Eu não esqueço. E recordo, com emoção, todos os que estavam comigo, e não vejo há muitos anos. Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. Mas sobretudo não sabem respeitar.


Hoje, pelas 2340 horas terão passado 50 anos. 
Continua a parecer-me que ocorreu há poucos meses.

António Cabral

sábado, 29 de outubro de 2022

29 OUTUBRO 1971

Parti para a Guiné, felizmente saí de lá vivo em 28 de Julho de 1973, com boa saúde. Em pouco mais de 3 meses estava a conseguir dormir tranquilamente, vida normal. Felizmente. 

Também neste aspecto fui um felizardo, contrariamente a muitos milhares de meus concidadãos.

António Cabral

quinta-feira, 19 de maio de 2022

ANDANDO  PELO  ARQUIVO  ANTIGO

RECORDAÇÕES. 19 Maio 1973
Para muitos, esse 19 de Maio foi mais um dia, mas nesse já distante 1973 foi para mim um dia muito diferente, e ficou uma data marcante na minha vida. 
E a hora do que então aconteceu não mais a esqueci, 2340 h. 
Eu e outros não morremos nessa noite porque não era a hora.
Estava na Guiné, então território português, colónia/ província ultramarina, a cumprir o mesmo que milhares e milhares de concidadãos, e cumpria a chamada comissão de serviço a bordo deste navio que mostro em baixo, a lancha de fiscalização grande (LFG), o NRP "Hidra" (NRP= Navio da República Portuguesa).

Faz agora anos que nessa noite, quando o navio navegava/ patrulhava em ocultação total de luzes e em postos de combate/ bordadas (metade da guarnição), fomos atacados por bombordo no rio Cacheu, o rio a Norte mais perto do Senegal. 
Como quase todos os outros que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Estava uma noite de espectacular luar.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o único projéctil/ granada foguete lançado por um dos então chamados guerrilheiros do PAIGC. Houve vários feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive rombos abaixo da linha de água.

Passadas semanas, um relatório da DGS (Direcção Geral de Segurança), confirmou a morte de todo o pequeno grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores até junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado (dezenas) que estava no exterior e que terá durado muitos segundos mas seguramente menos que um minuto, varreu literalmente com aço toda a zona. 
Verificou-se na manhã seguinte que na margem do local do ataque, havia uma zona quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos menos grossos, sem casca. Tudo madeira branca. 
O tempo voa, passaram-se décadas! 

Eu não esqueço. 
E recordo, com emoção, os que estavam comigo, e que nunca mais vi depois do regresso à metrópole.  
Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. 
Mas sobretudo não sabem respeitar, passado, história, sofrimento, dor. 

Não respeitam os que como eu andaram na guerra e que, felizmente, regressaram quase sem sequelas. 
Mas acima de tudo não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas, nem os familiares dos que tombaram pela Pátria. E muitos dos mortos não foram trazidos para Portugal, por lá continuam. 
Um país que trata assim os militares falecidos em combate dá naquilo a que crescentemente se assiste.

Esquecem além disso, o que a Lei Primeira/ Constituição estabelece. Esquecem ou melhor, querem lá saber, do que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar, pois que defesa nacional tem, além da militar, as componentes, económica, financeira, diplomática, transportes, etc. 
Esquecem, ou melhor, querem lá saber, do dever de tutela, do respeito pela lei, do que é verticalidade ou honestidade intelectual.
Querem lá saber, da história do País e dos que por ele lutaram e muitos deram a própria vida, tudo lixo para a “gentinha” que vai governando (?) o País. Adiante.

A primeira fotografia se não me falha a memória é de época anterior a esta data.
A segunda é, salvo erro, de 10 de Junho do mesmo ano, estando o navio em seco, no estaleiro em Bissau, em reparações, pelas consequências do ataque que sofremos naquela data. 
Coincidentemente ou não, o ataque deu-se logo pouco depois de uma operação portuguesa dentro do Senegal, de que tenho uns "slides" coloridos dos nossos helicópteros a voar por cima do rio Cacheu, para lá e para cá.
Ficou gravado para sempre. 
Lembro-me de praticamente tudo como se fosse hoje.
Passaram-se 49 anos. 
Em 28 de Julho próximo passam 49 anos que acabou esse pesadelo de 21 meses em África, iniciado a 29 de Outubro de 1971.
49 ANOS,……... SAFA, como diria o "outro".

António Cabral (AC)

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

E L O Q U E N T E

Algum comentário merecerá por parte do MNE, por parte dos principais titulares de órgãos de soberania, por parte de todos os seus antecessores?

AC 

quarta-feira, 28 de julho de 2021

28 JULHO

Faz hoje a meio da tarde 48 anos. Foi em 1973, que regressei da Guiné depois de para lá ter ido em 29 de Outubro de 1971, para cumprir 21 meses na guerra.

Regressei a bordo de um dos aviões Boeing 707 da nossa Força Aérea, que descolou do aeroporto de Bissau numa subida brutal a fazer estremecer o avião assustadoramente. O objectivo era ganhar altura o mais rápido possível e assim diminuir as hipóteses de se tornar alvo dos mísseis de que nessa altura o PAIGC dispunha. 

Parece que foi outro dia!

Cheguei fisicamente inteiro, felizmente sem danos intestinais e sezões como aconteceu a milhares de portugueses, psicologicamente e psiquicamente relativamente bem, "malgré tout", e em particular dada a ansiedade do período 19 de Maio - 28 Julho de 1973, ansiedade que o ataque sofrido às 2340 horas de 19 de Maio despoletou.

O tempo voa, estou menos novo.

AC

quarta-feira, 19 de maio de 2021

AINDA  SÓ  PASSARAM  48  ANOS !
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 48 anos que, quando
o navio em que eu prestava serviço durante a guerra em África
navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate
/bordadas, fui/ fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, 
na Guiné, hoje Guiné-Bissau, numa zona mais acima da
base dos fuzileiros, Ganturé. 
Eu e outros não morremos porque não era para ser naquele dia
e hora e local. Foi o susto maior de vários durante os 21
meses de comissão de serviço.
48 !!!!!!!
António Cabral

quarta-feira, 17 de março de 2021

MARCELO, o Comandante Supremo  
No próximo dia 25 de Abril completam-se 47 anos sobre, a revolução dos cravos (para uns), mas na realidade sobretudo a ira dos militares pelo cansaço devido à guerra em África desde 1961 e que os fez derrubar o regime que vigorava. E fizeram muito bem.

Como é sabido, fundamentalmente o PCP transformou a revolta militar numa revolução popular. Seguiu-se depois o famoso (!?!?!) PREC, depois a extinção formal do PREC, a seguir uma certa estabilização institucional felizmente com a entrada em vigor da CRP, mais a eleição do Presidente da República, a extinção do Conselho da Revolução e uma já relevante alteração do texto constitucional. Finalmente, a promulgação da lei Freitas do Amaral de 1982 - lei pateticamente chamada da defesa nacional e das Forças Armadas (FA).

Daí para cá a instituição militar foi sofrendo sucessivas transformações (!?!?), pela mão destruidora dos dois maiores partidos (PSD, PS) mas sempre com o beneplácito de todos os restantes partidos na AR e dos presidentes da República/ comandantes supremos das forças armadas, ainda que a extrema esquerda sempre fosse dando uma no cravo e outra na ferradura. 
Uma das delícias destas coisas/ transformações e de que alguns como o meu melhor amigo militar tiveram o privilégio de testemunhar, foi assistir e acompanhar algumas vezes a pomposa comissão parlamentar de defesa, que sempre deu boas evidências do grau de incompetência parlamentar sobre os temas de defesa nacional e incluindo sobre as FA, que se constituem tão só como um dos seus pilares - o pilar militar.

Aquilo a que chamo acima transformações, de propósito, e para ridicularizar, nunca passaram de:
> substituir militares no edifício rosa ao Restelo em frente ao estádio de futebol por uma montanha de civis (não estou a dizer nem bem nem mal, só a lembrar), 
> a encher o ministério da defesa nacional com quadros diversos (antes de 1982 tinha uma dimensão de recursos humanos ridícula), 
> inventar uma lei de programação militar que foi sempre sendo defraudada com cativações, 
> rebentar com o subsistema de saúde dos militares, 
> desfigurar a arquitectura legislativa sobre condição militar,
> paulatina e incessantemente reduzir sempre todos os anos os efectivos das FA, 
> conseguir substituir alguns meios como navios aviões e helicópteros, 
> vender ao desbarato quartéis, hospitais, edifícios vários com a intenção teórica de reverter integralmente esses recursos financeiros para as FA, 
> conseguir ter periodicamente forças e alguns meios ao serviço da NATO e da ONU assim descomprimindo o ambiente interno militar dados os salários e as crescentes dificuldades de ordem diversa,
> conseguir por inação e péssimas políticas haver cada vez menos jovens com interesse em abraçar a profissão militar,
> degradar cada vez mais os salários dos militares, etc.

Isto sinteticamente recordado de uma panóplia maior, pode dizer-se que as FA foram transformadas? Das FA dos tempos em África estão hoje adequadas ao Portugal dos séculos XX e XXI?
Cada cabeça sua sentença, mas eu digo não. E essa demonstração foi sendo feita ao longo dos últimos anos por muitos militares conceituados e por alguns civis.

Naturalmente, nos militares existem os mesmos exactos vícios, virtudes, patriotismo, o servir a comunidade (a esmagadora maioria) ou servir-se e, obviamente também, muito exacerbado narcisismo em certas épocas, e certas vaidades. Tal qual no mundo civil! 

Convirá lembrar a Cravinhos e gentinha da sua laia que - "sendo certo que toda a nação tem o problema intrínseco da sua defesa, esteja ou não organizada politicamente em Estado-Nação, os militares são a certeza formal da sua possibilidade, e as sociedades sempre aceitaram esta especialização dos civis, como forma de garantir a própria organização e eficácia de um sentir colectivo".

A Cravinhos e outros, lembrar que - "as sociedades distinguem os militares, não por razões de deferência temerosa, mas como forma de reconhecimento à diferenciada função em que se empenham, de forma comumente disciplinada e previsível. É que esta opção de vida por um serviço colectivo é valorizada por uns, inutilizada por outros e mesmo vilipendiada, mas ninguém fica indiferente à realidade factual que ela encerra e que, no mais recôndito, alude ao conceito de nacionalidade, âmbito de particular relevância na vida dos homens de todos os tempos".

E nestas coisas há sempre umas criaturas que as olham com soberba, pesporrência, altivez, e mesmo ignorância. Esquecem que esta coisa de fazer distinção entre militares e civis é afinal mais correcto, muito mais correcto, falar em paisanos e militares, porque estes não aparecem desfalcados de cidadania. E são a salvaguarda última de todos nós.

Vem tudo isto a propósito do que escrevi há dias sobre o Conselho Superior de Defesa Nacional que, como previsto se reuniu por tele-conferência na passada 2ª Feira. Como então vaticinei que iria acontecer………aconteceu mesmo, sem surpresa, como o meu melhor amigo militar já me tinha dito que aconteceria. Ele conhece bem não só muitos dos militares que andam por aí como tem uma noção muito razoável da competência desta gente toda, de cima a baixo.

(do sítio da Presidência)
Portanto, a pomposa reforma Cravinho sobre que já escrevi e sobre a qual vieram a público comentários diversos, vai seguir o seu caminho com a solene benção de Marcelo Presidente e de Marcelo Comandante Supremo das Forças Armadas. Permanece a dúvida se é mesmo isto,  comandante!

A nota informativa deste reunião e deste abençoar de Cravinho é esta:
O Conselho Superior de Defesa Nacional reuniu hoje, 15 de Março de 2021, pelas 15h00, em sessão ordinária, por videoconferência, sob a presidência de Sua Excelência o Presidente da República Prof. Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, para se inteirar dos projetos de propostas de alteração à lei de Defesa Nacional e Lei Orgânica de Bases da Organização das Forças Armadas (LOBOFA).
Tendo presente que o processo legislativo vai seguir subsequente tramitação, ouvindo o Conselho de Estado e envolvendo aprovação governamental e apreciação e aprovação na Assembleia da Republica, e que, quer na sua tramitação, quer na sua eventual aplicação é fundamental o papel dos Chefes dos três ramos das Forças Armadas, o Conselho deu parecer de princípio favorável aos projetos em questão.”

Em síntese, narcisismos,  floreados,  vaidades,  incompetências várias. Discutir, de uma vez por todas, - que organização do Estado no âmbito da defesa nacional e em consequência que FA deve Portugal ter - isso é tarefa para quem tivesse competências e, além do mais, não dá voto nenhum mas só chatices. E como os militares se esmifram sempre e lá vão conseguindo arranjar um ou dois centos de homens para mandar a missões em África ou Afeganistão, e mais um avião ou um barquito para ir por aí, e não refilam, pode continuar-se com encenações e "crochet", pode continuar-se a apregoar - os melhores dos melhores -  pode-se continuar a pensar em noitadas em quartéis para ver as estrelas e assim atrair jovens para as fileiras, pode-se prosseguir com as não promoções, podem manter-se estrangulamentos estatutários, etc. 
À vista dos bem instalados em sinecuras várias e onde almoçam bem e assim engordam e passam o tempo.
António Cabral (AC)