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quinta-feira, 19 de maio de 2022

ANDANDO  PELO  ARQUIVO  ANTIGO

RECORDAÇÕES. 19 Maio 1973
Para muitos, esse 19 de Maio foi mais um dia, mas nesse já distante 1973 foi para mim um dia muito diferente, e ficou uma data marcante na minha vida. 
E a hora do que então aconteceu não mais a esqueci, 2340 h. 
Eu e outros não morremos nessa noite porque não era a hora.
Estava na Guiné, então território português, colónia/ província ultramarina, a cumprir o mesmo que milhares e milhares de concidadãos, e cumpria a chamada comissão de serviço a bordo deste navio que mostro em baixo, a lancha de fiscalização grande (LFG), o NRP "Hidra" (NRP= Navio da República Portuguesa).

Faz agora anos que nessa noite, quando o navio navegava/ patrulhava em ocultação total de luzes e em postos de combate/ bordadas (metade da guarnição), fomos atacados por bombordo no rio Cacheu, o rio a Norte mais perto do Senegal. 
Como quase todos os outros que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Estava uma noite de espectacular luar.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o único projéctil/ granada foguete lançado por um dos então chamados guerrilheiros do PAIGC. Houve vários feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive rombos abaixo da linha de água.

Passadas semanas, um relatório da DGS (Direcção Geral de Segurança), confirmou a morte de todo o pequeno grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores até junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado (dezenas) que estava no exterior e que terá durado muitos segundos mas seguramente menos que um minuto, varreu literalmente com aço toda a zona. 
Verificou-se na manhã seguinte que na margem do local do ataque, havia uma zona quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos menos grossos, sem casca. Tudo madeira branca. 
O tempo voa, passaram-se décadas! 

Eu não esqueço. 
E recordo, com emoção, os que estavam comigo, e que nunca mais vi depois do regresso à metrópole.  
Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. 
Mas sobretudo não sabem respeitar, passado, história, sofrimento, dor. 

Não respeitam os que como eu andaram na guerra e que, felizmente, regressaram quase sem sequelas. 
Mas acima de tudo não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas, nem os familiares dos que tombaram pela Pátria. E muitos dos mortos não foram trazidos para Portugal, por lá continuam. 
Um país que trata assim os militares falecidos em combate dá naquilo a que crescentemente se assiste.

Esquecem além disso, o que a Lei Primeira/ Constituição estabelece. Esquecem ou melhor, querem lá saber, do que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar, pois que defesa nacional tem, além da militar, as componentes, económica, financeira, diplomática, transportes, etc. 
Esquecem, ou melhor, querem lá saber, do dever de tutela, do respeito pela lei, do que é verticalidade ou honestidade intelectual.
Querem lá saber, da história do País e dos que por ele lutaram e muitos deram a própria vida, tudo lixo para a “gentinha” que vai governando (?) o País. Adiante.

A primeira fotografia se não me falha a memória é de época anterior a esta data.
A segunda é, salvo erro, de 10 de Junho do mesmo ano, estando o navio em seco, no estaleiro em Bissau, em reparações, pelas consequências do ataque que sofremos naquela data. 
Coincidentemente ou não, o ataque deu-se logo pouco depois de uma operação portuguesa dentro do Senegal, de que tenho uns "slides" coloridos dos nossos helicópteros a voar por cima do rio Cacheu, para lá e para cá.
Ficou gravado para sempre. 
Lembro-me de praticamente tudo como se fosse hoje.
Passaram-se 49 anos. 
Em 28 de Julho próximo passam 49 anos que acabou esse pesadelo de 21 meses em África, iniciado a 29 de Outubro de 1971.
49 ANOS,……... SAFA, como diria o "outro".

António Cabral (AC)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Recordações
(19 de Maio, 1973, pelas 2340 horas locais; portanto, a pouco mais de 2 meses de terminar a comissão de serviço na Guiné (29 Out 1971 - 28 Jul 1973))
Hoje, 19 de Maio, pelas 2340 horas, fará 44 anos que, quando o navio onde eu cumpria a minha comissão de serviço (NRP Hidra, onde desempenhava funções de oficial imediato) navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate/ bordadas ou seja, com metade da guarnição pronta para responder a qualquer ataque, fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, na Guiné, hoje Guiné-Bissau. 
Como muitos outros, que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Estava uma noite de espectacular luar, a navegação fazia-se por indicações verbais para o homem do leme, viam-se as margens claramente.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o primeiro e único projéctil/ granada lançado pelos então guerrilheiros do PAIGC. 
Houve vários feridos, deflagrou um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive um pequeno rombo abaixo da linha de água. 
Teve que ser reparado no plano inclinado, nas oficinas navais em Bissau.
Passadas semanas, um relatório da PIDE/ DGS, confirmou a morte de todo o grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores mesmo até junto ao rio, e ainda que sem serem avistados de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado que estava no exterior (dezenas de comandos africanos e alguns fuzileiros) e que terá durado talvez 20 a 30 segundos, varreu com aço, literalmente, toda a zona na margem. 
Como se viu no local na manhã seguinte ao ataque, uma zona enorme quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos pequenos, sem casca. Tudo branco. 
O tempo voa, 44 anos passaram!
Eu não esqueço. 
E recordo, com emoção, todos os que estavam comigo, muitos que nunca mais encontrei, vários que não vejo há muitos anos. 
Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas. 
E lembro vários, da Marinha e do Exército, que conheci naquele período, incluindo uns quantos que, após o 25 de Abril de 1974, ficaram figuras públicas. 
Recordo por exemplo um que, depois de embarcar no navio, após o regresso da operação dentro do Senegal (ataque a Kumbamori) , tirou as botas e mostrou uns desgraçados pés. Mostrou-os, uma lástima, e teve um desabafo brutal super vernáculo, aqui não possível de reproduzir.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. 
Mas sobretudo não sabem respeitar.
Não respeitam os que, como eu, andaram na guerra e que felizmente regressaram quase sem sequelas. 
Mas, acima de tudo, não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas, e os familiares dos que tombaram pela Pátria. 
Esquecem além disso, o que a CRP estabelece, e o que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar que são as Forças Armadas.
Dever de tutela, respeito pela lei, verticalidade, honestidade intelectual, respeito pela história do País, estes e outros valores são lixo para a “gentinha” que, paulatinamente, e em todos os quadrantes, desgraça o País.
António Cabral (AC)