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terça-feira, 19 de maio de 2026

19  MAIO  1973,  2340 HORAS

Hoje, 19 de Maio de 2026, pelas 2340 horas, fará 53 anos que, quando o meu navio (para onde em 29OUT1971 fui mandado para cumprir 21 meses na guerra de então, exercendo o cargo de oficial imediato, que é  equivalente a 2º comandante no Exército) navegava em ocultação total de luzes e em postos de combate/bordadas, fui/ fomos atacámos por bombordo no rio Cacheu, no Norte da Guiné, hoje Guiné-Bissau. 

Como outros, que estávamos no exterior do navio (eu na asa da ponte), tive muita sorte. Muitos estilhaços passaram perto de mim e cravaram-se acima da minha cabeça na armação metálica de suporte da lona cobrindo o exterior da ponte.
Estava uma noite de espectacular luar.

Morreu um comando africano das dezenas que transportávamos, junto a quem rebentou o primeiro e único projéctil/ granada lançado pelos então guerrilheiros do PAIGC. 
Houve feridos, um incêndio, várias explosões de munições da peça da proa, e o navio teve danos vários, inclusive dois pequenos rombos abaixo da linha de água que depois de algum tempo a limitação de avarias de bordo estancou a entrada de água..

Passadas semanas, um relatório da DGS (sucessora da PIDE), confirmou a morte de todo o grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio (as peças de 40 m/m, bazuca, e metralhadoras pesadas) e de todo o armamento ligeiro do pessoal que estava no exterior (comandos africanos, fuzileiros) e que terá durado para aí um minuto e pouco no máximo, varreu com aço literalmente toda a zona. 

Como se viu no local na manhã seguinte ao ataque, uma zona enorme quase circular (diâmetro de talvez 6 a 7 metros) de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos pequenos, sem casca. Tudo branco. O tempo voa, passaram 53 anos!

Eu não esqueço. 
E recordo, com emoção, todos os que estavam comigo, e que não vejo há muitos anos. 
Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. Mas sobretudo não sabem respeitar.

Não respeitam os que como eu andaram na guerra e que felizmente regressaram quase sem sequelas. 
Mas acima de tudo não respeitam nem os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas nem os familiares dos muitos que tombaram pela Pátria. E vergonhosamente, ainda há mortos que jazem em África.

Esquecem muitos além disso, o que a CRP estabelece, e o que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar.
Dever de tutela, respeito pela lei, verticalidade, honestidade intelectual, respeito pela história do País, estes e outros valores são lixo para a “gentinha” de todas as cores que sucessivamente desgraça o País.

Os tempos são outros, a realidade do País é diferente, as missões, os meios designadamente os recursos humanos tem que se conformar ás realidades do presente, e a instituição militar que é o pilar militar da defesa nacional (NÃO É A DFESA NACIONAL) deve estar SEMPRE subordinada aos poderes democráticos legitimamente eleitos.
Poderes democráticos que devem olhar e acautelar o nosso futuro.

Creio deplorável muitas posturas observadas em relação ás Forças Armadas. 

António Cabral (AC)

quarta-feira, 22 de abril de 2026

"Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca
Jorge Luis Borges (1899-1986)

Repito o que periodicamente um muito bom amigo me/ nos recorda, e que ao longo do tempo eu também de vez em quando aqui registo.

Hoje, faço-o na sequência do falecimento de um homem da minha profissão que, como eu, também bateu com "os costados" na Guiné Bissau.
Eu de 29OUT1971 a 28JUL1973, e ele 21 meses antes.

Descansa em Paz meu estimado Duarte.

AC

sábado, 4 de abril de 2026

GUINÉ-BISSAU

Outro dia vi um título de notícia mas a que não pude ligar na altura.
Voltei agora e fui ler com atenção.

Era sobre a Guiné-Bissau.
Uma proclamação de um tal "Conselho Nacional de Transição" (CNT) que acusou o nosso Governo de hostilizar as autoridades lá da terra.
Acrescentou o CNT várias coisas, algumas delirantes, na minha opinião naturalmente.

Uma delas de que por cá se pratica a diplomacia de “conluios de corredor”. Ah, e designaram o seu protesto de "advertência final". Lindo!

Tudo porque Rangel terá andado em conversas no âmbito da CPLP desejando que a Guiné-Bissau volte a ser uma democracia.
E por causa dessas conversas Rangel foi "advertido" pelos poderosos poderes lá por aquelas bandas. Advertido pelas autoridades legítimas daquelas bandas. Achei notável.

Mas uma das mais deliciosas partes, para mim naturalmente, é que os militares que por lá estão no poder avisaram para termos bem presente o seguinte - é que eles estão a gerir tudo para salvar a nação e, portanto, não aceitam que Portugal se arvore em juiz de uma casa que já não é sua”.

De facto e AINDA BEM que aquilo não é nosso. (pena ter sido com décadas de atraso que largámos aquilo) 

Não faço ideia se Rangel ou outros andaram ou andam ou não a conspirar. Lembro-me apenas que o tal de Sissoco que foi posto a andar (aparentemente) mereceu de Marcelo grande desvelo emocional e preocupação profunda e, segundo foi noticiado, foi logo telefonar à criatura quando do tal golpe.

Enfim, é para o lado que durmo melhor, seja à conta de Rangel, de Marcelo ou do tal CNT.

Enfim. 
Tenham um bom dia de Sábado.
Saúde e boa sorte.
Boa Páscoa.
AC

quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

M A R,   OCEANOS

Sobre o MAR, sobre os oceanos, tanto se pode escrever que nunca se esgotarão os temas, as perspectivas, etc. 

Dos oceanos se pode extrair a água, sal, peixe, crustáceos, algas, etc.
Nos oceanos nos banhamos, nos divertimos, nos passeamos.
Dos oceanos recebemos contributo pata o clima.

Para os oceanos, por esse mundo fora particularmente na Ásia, Américas Central e Sul, África, muito lixo se descarrega . . . ainda!
As ilhas de plástico no Índico são um dos muitos exemplos.

Muitos países são banhados por oceanos.
A Guiné Bissau é um deles, banhado pelo Atlântico Sul.

Há umas semanas, a revista do Expresso pela caneta/ computador da jornalista Catarina Marques Rodrigues tinha um interessante artigo que titulou de "Mau Mar". Era sobretudo sobre a Guiné Bissau.

Sobre a miséria das populações, sobre a pesca intensiva por frotas estrangeiras, frotas actuando legalmente umas ilegalmente a maioria, sobre a miserável frota pesqueira da Guiné Bissau que assenta muito em canoas e embarcações artesanais ou seja, nada que possa competir com as frotas estrangeiras.

Certamente muito mais da metade da população do país vive na miséria, na indigência e, provavelmente, no interior e nas zonas rurais a desgraça será ainda maior. Tudo certamente muito preocupando Sissoco Embaló!

A jornalista não escreveu mas, provavelmente como muitas das elites de lá, da esquerdalhada incoerente e inconsequente de cá, e como diz o execrável presidente de Angola (um dos principais sequazes de Eduardo dos Santos, mas agora arvorado em anjo), a culpa dessa desgraça toda é exclusivamente dos portugueses. 
Ainda só passaram 50 anos!

Ainda só passaram 50 anos e neste curto período, tal como em Angola é visível nos musseques onde habitam (???) certamente muitos milhões de angolanos (5 milhões?), na Guiné-Bissau fizeram mais nestes 50 que nós em 500.

Como disse no início um artigo interessante.
Problemas a que, naturalmente, como cidadãos do mundo não podemos ficar indiferentes.

Mas estou a falar disto para dizer que sendo o artigo interessante e mesmo sabendo que ao longo dos anos lá foram aparecendo escassos artigos sobre os nossos problemas relativamente às nossas águas costeiras e às nossas ZEE/ mar imenso sobre o qual temos jurisdição, este Expresso tido como a "referência" não "martela" com regularidade sobre por exemplo, 

- frota pesqueira nacional, que frota?,
- exígua marinha mercante, 
- exígua Marinha para fiscalizar tanto mar,
- os portos nacionais,   
- estratégia nacional para o mar/ oceanos, a real, não o paleio,
- que controlo sobre barcos estrangeiros, científicos por exemplo, 
- que políticas públicas, etc.

Só a espaços olha para um dos nossos grandes problemas, o "mar".
É pena. Irei debruçar-me um pouco sobre isso.

António Cabral (AC)

terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Sob o lema «A Guiné-Bissau não será refém de uma ditadura sissoquista!» membros da comunidade bissau-guineense em Portugal manifestaram-se contra o falso golpe de Estado que suspendeu os resultados das eleições que estavam a decorrer no país. Os manifestantes pedem a soltura de Domingos Simões Pereira, candidato da oposição sequestrado pelo comando militar. 
Lisboa, 6 de Dezembro de 2025
Créditos Manuel de Almeida / Agência Lusa

Marcelo já se terá de novo inteirado se "Embaló" continua bem de saúde e em segurança, depois do terrível golpe de Estado que fizeram contra um tão grande democrata?
Eu por exemplo estou muito preocupado!!!

AC

domingo, 17 de agosto de 2025

Presidente da Guiné-Bissau, Sissoco Embaló, recusa explicar razões de expulsão da Lusa, RTP e RDP.

Embaló . . . . . embalou . . . . . fora com eles!

AC

segunda-feira, 28 de julho de 2025

28 JULHO  -  1973 - 2025
Faz esta tarde mais ou menos pelas 1730 horas, 52 anos que cheguei a casa, regressado da guerra na Guiné, onde cumpri 21 meses de comissão de serviço a bordo do grande patrulha Hidra e onde, com os restantes elementos da guarnição combatemos, e onde a 19 de Maio de 1973 pelas 2340 horas fomos atacados e, felizmente sobrevivemos, excepto um das dezenas de comandos africanos que transportávamos no navio. 
Comandos africanos regressados de célebre e complexa e complicada e feroz operação dentro do Senegal.

52 anos passaram.

Lembro-me de tudo como se fosse hoje.
António Cabral (AC)

quarta-feira, 18 de junho de 2025

Em  BICOS de PÉS

Esta é uma das curiosas expressões da nossa língua.
Temos, quase diariamente, exemplos vários de criaturas nacionais e internacionais a "erguer-se" da sua patética vida pública.
Em Belém reside um desses exemplos, perde oportunidades sobre oportunidades de se manter calado.

Mas estas minhas palavras vêm a propósito do conflito Israel-Irão.
Desde Ursula a Costa, Macron, Metz a muitos outros, vários têm sido os políticos a manifestar-se sobre este conflito e formular apelos à Paz. 

EU, que já praticamente nada me surpreende, confesso que quase abri a boca de espanto. Com quem? Com esta criatura.

O presidente da Guiné - Bissau manifestou-se sobre o conflito.

Confesso, deficiência minha naturalmente, não descortinar a que medidas ele se referiria tomar se a paz não regressasse rapidamente ao terreno.
Tencionará ele mudar de canal de TV para ver as notícias, ou mesmo desligar o televisor?

Não vou dormir bem esta noite à conta desta dúvida. Creio aliás que Kamenei e "Bibi" estão já ainda mais aflitos perante esta ameaça velada de Sissoco Embaló!

AC

segunda-feira, 19 de maio de 2025

19 de MAIO
Hoje, pelas 2340 horas (não vou contar com a diferença de fuso horário) passam 52 anos que o patrulha Hidra para onde eu fui mandado combater (29OUT1971 - 28JUL1973) e onde exerci as funções de oficial imediato, foi atacado por Bombordo.

Eu fiquei com o ouvido esquerdo afectado pelas explosões.
Eu e vários outros podíamos ter morrido, como por exemplo o então marinheiro Agostinho que, a descansar deitado no seu beliche a poucos minutos de ir entrar de quarto na ponte do navio, viu um pedaço de aço furar-lhe a cama a cerca de um palmo abaixo dos genitais. 

Um dos vários pedaços de aço oriundos das explosões no convés e que furaram pavimentos, tendo alguns furado o casco, de dentro para fora, causando pequenos rombos que foram facilmente controlados pela limitação de avarias.

O navio teve esses danos, e um incêndio que demorou algum tempo a controlar, mas continuou operacional, tendo a artilharia massacrado toda a área de onde partira o ataque com RPG. Com resultados trágicos para os autores do ataque, escondidos no arvoredo (tarrafe) perto da margem, como se veio a saber algumas semanas depois.

Houve alguns feridos e faleceu, infelizmente, um dos comandos africanos que transportávamos no exterior, e que havíamos recolhido depois de uma célebre operação ao Senegal.

52 ANOS !

António Cabral (AC) 

quinta-feira, 8 de maio de 2025

ANIVERSÁRIO

A propósito de aniversários, 4ª Feira celebrou os seus 81 anos um homem que conheço há anos, vários anos mais velho que eu, melhor dito, menos novo do que eu!

É um homem que, como eu, como todos nós, tem qualidades e  defeitos.

Sou suspeito, naturalmente, mas é um homem com que sempre simpatizei, um homem diria quase invulgar por várias das suas características. Do meu ponto de vista, de superior inteligência, esperto, muito culto. Fino humor e ironia no tempo certo.

É daqueles homens em que toda a sua vida está recheada de momentos (pelo menos para mim) inesquecíveis, deliciosos.

Por exemplo, creio que casou tarde, e creio que do lado da mulher havia muitas tias velhotas e etc. E, como acontecia naquele tempo, essa senhoras ditaram que o filho que iria nascer se deveria chamar isto e aquilo e etc.

Pois ele, o pai, irritou-se com a coisa e quando foi registar o miúdo recém nascido registou-o com um nome inacreditável para a maioria das pessoas.

Mais, como centenas de milhares de portugueses, esteve na guerra em África, guerra do Ultramar, guerra colonial. Calhou-lhe a então Guiné portuguesa, um dos (porventura o pior) piores buracos da guerra de 1961 a 1974/5.

Quando lá esteve, o Comodoro que comandava o então Comando da Defesa Marítima da Guiné tinha no seio dos militares a alcunha de "burro". Pois a unidade militar que o centro destas palavras integrava  tinha arranjado um burro, de quatro patas.

Que nome puseram ao animal? Isso mesmo . . . . . Comodoro.

Estas e muitas outras histórias ficarão famosas para sempre.

Que o "S" tenha um bom dia de aniversário mas, sobretudo, vida longa com boa saúde apropriada à idade.

AC

segunda-feira, 28 de abril de 2025

REALIDADES

Sou, também, da geração que andou na guerra, concretamente, 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973, como oficial imediato num patrulha grande da Marinha, na então Guiné portuguesa.

Sou da geração que conheceu os tiros, dei várias vezes ordem de fogo para os canhões de 40 m/m do navio, um à proa e outro à popa.

Sou da geração que conheceu o combate a sério, na passagem de 19 para 20 de Maio de 1973. E ao longo desses 21 meses de comissão em África muitos sustos apanhou e vários horrores viu.

Sou dos muito afortunados que regressaram vivos, não estropiado, mas infelizmente com o ouvido esquerdo afectado com as explosões desse ataque ao findar desse 19 de Maio. Ouvido que, com a idade, vai denunciando mais o dano de Maio de 1973.

Ando muito triste com a situação no meu país.

Vivo felizmente no regime de direito democrático. 

Tenho esperança, confio e anseio por um futuro melhor para os meus filhos e netos. Mas o horizonte está cinzento.

Tento perceber o mundo, sempre, e não me fio nos aldrabões que pululam a vertente interna e a externa.

Nunca fui carreirista, acomodado, e apesar de ter subido quase ao topo máximo na carreira, em 2006 ficou evidente a consequência da "cor dos meus olhos e o nunca ter aceitado ser submisso". Mascarando, evidentemente, com normas legais, sabendo-se, como no decorrer dos tempos, as normas foram periodicamente suavizadas para os de olhos de cor bonita.

Sei o que é a honra, tenho coluna vertebral bem direitinha embora às vezes nas S e nas L já surjam sinais do passar dos anos. Revolto-me contra as injustiças, as indignidades, as mentiras, o politicamente correcto, não suporto os acomodados, nem respeito quem não se dá ao respeito, independentemente de muitos lhes dedicarem o respeitinho serôdio porque sim. Borrifo-me para modas, Wokes e quejandos.

Respeito sempre as opiniões de outrem, discordo umas vezes, concordo outras. Sou dono da minha cabeça, do meu coração. Apenas.

António Cabral

domingo, 13 de abril de 2025

CARLOS  de  MATOS  GOMES
Faleceu o coronel Carlos de Matos Gomes.
Sinceras condolências à família.

O triste desaparecimento (prematuro, por doença) deste militar recorda-me várias coisas.
Recorda-me, 
- a guerra em África e concretamente a guerra na então Guiné entre as forças do PAIGC e as nossas forças armadas.
- o difícil ano de 1973, 
- a morte /assassinato de Amílcar Cabral em Janeiro desse ano, 
- o interregno de combates depois disso, PAIGC um pouco aturdido, 
- o reacender ainda mais violento da guerra salvo erro a partir de Março desse ano ,
- o início do abate de aviões por parte do PAIGC,
- o ataque ao navio onde eu servia como oficial imediato no cumprimento da comissão de serviço que me fora determinada,
- e Carlos de Matos Gomes.

Conheci fugazmente este militar do Exército, esteve no navio por duas breves ocasiões.
Foi fácil perceber que era um dos que já conspirava, com outros, pois o 25 de Abril teve como um dos pontos de partida fortes exactamente as reuniões de vários dos oficiais que na Guiné cumpriam comissões de serviço. E sentia-se o fervilhar, mesmo naqueles que como eu e muitos não viviam essa clandestinidade.

Carlos de Matos Gomes foi um dos oficiais que comandaram centenas dos nossos comandos na incursão complexa e difícil Senegal adentro, para destruir uma famosa base do PAIGC, de onde flagelavam os quartéis do Exército, como a mártir Guidage. 
Kumbamori foi destruída.

20 de Maio de 1973, Guiné, ficou para a história da guerra em África.
O dia anterior, 19 de Maio, ficou na minha história de vida e nas dos restantes militares que compunham a guarnição do navio. 
Pelas 2340 horas fomos atacados. 
Podiam ter morrido muitos, eu incluído, mas houve vários feridos e um morto, por sinal um dos nossos comandos negros integrando uma pequena parte da força que retirou do Senegal e que o navio recolheu. 

Sou, certamente, um dos muitos concidadãos que dele quase nada sabe, a não ser o esboço com que dele fiquei na Guiné e que acima já referi mas, sobretudo, o que dele conheço pelos seus livros de que tenho quase todos, pelas suas análises, e pelo que foi escrevendo e dizendo ao longo dos anos.

Mas, atrevimento que possa ser considerado, é do quadro que conheço que classifico este meu concidadão como um Homem Decente, e de Grande Honestidade Intelectual.

Descanse em paz Carlos de Matos Gomes.
António Cabral

domingo, 28 de julho de 2024

28 JULHO  -  1973-2024
Fez esta tarde 51 anos que regressei da Guiné, onde cumpri 21 meses de comissão a bordo do patrulha Hidra, e onde com os restantes elementos da guarnição combatemos e a 19 de Maio de 1973 fomos atacados e sobrevivemos, excepto um das dezenas de comandos  africanos que transportávamos.

51 anos passaram.
Lembro-me de tudo como se fosse hoje.
António Cabral (AC)

terça-feira, 21 de maio de 2024

Do JORNAL SETUBALENSE 

PENSAR SETÚBAL: 
50 anos do 25 de Abril de 1974 (Parte XII): Operação “Mar Verde”
por Giovanni Licciardello
20/05/2024

Hoje vamos falar de uma operação militar denominada Operação “Mar Verde”.
A referida acção militar foi decidida pelo governo de Marcello Caetano, planeada pelas Forças Armadas Portuguesas e realizada em Novembro de 1970, no território da Guiné-Conakry, decorrente da Guerra Colonial na Guiné-Bissau.
Foi concebida e executada pelo fuzileiro capitão-tenente Alpoim Galvão, responsável pelo Centro de Operações Especiais da Guiné-Bissau, com o apoio do brigadeiro António de Spínola que era o governador militar deste território.

Um grupo de soldados desembarcou furtivamente próximo da cidade de Conakry, sob a supervisão de oficiais portugueses. O objectivo era derrubar o governo de Sékou Touré, um dos principais aliados do PAIGC e raptar Amílcar Cabral.
A “Operação Mar Verde” decorreu num contexto mais amplo da guerra entre o regime colonial português e os movimentos de libertação africanos.

Em 1970, o PAIGC controlava quase dois terços do território da Guiné, mas começava a ceder militarmente, uma vez que Portugal tinha intensificado a sua ofensiva.
Para além disso, o plano consistia também em destruir as lanchas rápidas fornecidas pela União Soviética ao PAIGC e libertar vinte e seis prisioneiros de guerra portugueses que tinham sido capturados e que se encontravam na Guiné-Conakry.
E daí que, entre os dias 21 e 22 de Novembro, teve início a operação, com a infiltração via mar do contingente português, composto por cerca 400 fuzileiros que desembarcaram nos arredores de Conakry.

Segundo Mário Salgado, enfermeiro do exército, a referida operação teve o apoio de um contingente militar que se deslocou por terra, passando por Piche, perto de Pirada, próximo da fronteira da Guiné-Conakry, tendo também regressado por aí.
O primeiro alvo foi o quartel-general do PAIGC e as lanchas que foram logo destruídas. De seguida, foram atacados outros objectivos estratégicos tais como a central eléctrica e a prisão onde estavam os referidos prisioneiros portugueses.
A partir daqui, o grupo dividiu-se em dois; o primeiro grupo atacou e destruiu outras instalações do PAIGC e tentou raptar Amílcar Cabral que aí não se encontrava. Esse grupo retirou-se imediatamente via mar.

O segundo grupo, com cerca 200 militares, tentou promover a insurreição da população de Conakry contra o governo, convencidos que iria haver receptividade por parte da população local.
Tal não sucedeu, uma vez que os infiltrados não conseguiram transmitir as mensagens que pretendiam à população, a partir da estação de rádio que tinham, entretanto, ocupado, nem capturar oficiais importantes da defesa local.
Pelo contrário, foram rechaçados pelo exército Conakry e obrigados a retirar rapidamente, tendo sido capturados sessenta militares, entre os quais seis oficiais portugueses.

A Operação Mar Verde não conseguiu os seus objectivos.
Sekou Touré aproveitou de imediato para proceder a uma purga interna, com condenações à morte e assassínios que se estenderão até 1973, atingindo as mais importantes esferas do poder, nomeadamente membros do executivo.
A comunidade internacional reagiu de imediato, acusando Portugal de ter invadido militarmente um estado soberano e violado o direito de autodeterminação da Guiné-Bissau.
A condenação foi sancionada pela Resolução 290 do Conselho de Segurança da ONU, a 8 de Dezembro de 1970 e também por uma moção de rejeição por parte da Organização de Unidade Africana.

Por todo o lado ocorreram manifestações de apoio e solidariedade para com o PAIGC que se traduziu num reforço do armamento, para procurar reequilibrar as suas forças e também para desincentivar ulteriores tentativas de invasão.
A Guerra Colonial foi perdendo progressivamente a aceitação tácita por parte da população que a tinha sempre encarado de uma forma resignada e, sobretudo, dos militares.
Principalmente a partir dos anos 70, o peso da guerra na sociedade portuguesa, tornou-se impossível de manter e continuar.
Quanto à Operação “Mar Verde” foi mais uma peça do puzzle que faltava encaixar na nossa História recente.
Analisando à distância e olhando retrospectivamente, o 25 de Abril assume uma importância e, sobretudo, uma lógica que determinou o seu surgimento, tanto necessário, quanto inevitável.
Fica aqui uma história importante e eventualmente desconhecida do grande público.

AC

terça-feira, 14 de maio de 2024

sexta-feira, 15 de março de 2024

GUERRA, GUINÉ, BOLAMA, MEMÓRIAS
Esta fotografia, que vi num blogue que visito amiúde porque o preciso e a quem respeitosamente peço vénia pelo "roubo", recordou-me tempos idos.

Bolama era um sítio sempre agradável onde ir atracar o navio (eu cumpri 21 meses de comissão na Guiné como oficial imediato de um dos patrulhas que a Marinha lá tinha) para curtos períodos de descanso entre missões.

Bolama tinha onde se comer bem, era local de treino de forças, tinha um ambiente curioso.
Bolama, creio, foi sítio de concentração de parte das forças que depois intervieram na operação a Conakry em Novembro de 1970 salvo erro, operação onde entre outros resultados positivos se libertaram prisioneiros portugueses. 
Operação que em grande parte acabou por em parte se saldar num fracasso pois as informações em que a força se baseou mostraram-se completamente desactualizadas, nem apanharam Sekou Touré, nem Migs, etc.

Bolama tinha uma particularidade no plano das marés e nas facilidades de atracação.
Os navios de maior deslocamento só podiam ficar atracados e amarrados directamente ao cais num período relativamente pequeno dada a pouca profundidade e grande amplitude de marés.
Mas conseguia-se ficar lá muito tempo desde que entre o navio e o cais ficasse uma lancha de desembarque média dado o seu fundo quase chato.

Diziam na altura certas más línguas que havia um navio que emitia bons relatórios de missão e inerente navegação . . . . sempre atracado em Bolama. Desconheço a realidade.

Em 28 de Julho próximo passam 51 anos desde que de lá vim.
Fui para lá a 29 Outubro de 1971.
Parece que foi outro dia! 
AC

quinta-feira, 19 de maio de 2022

ANDANDO  PELO  ARQUIVO  ANTIGO

RECORDAÇÕES. 19 Maio 1973
Para muitos, esse 19 de Maio foi mais um dia, mas nesse já distante 1973 foi para mim um dia muito diferente, e ficou uma data marcante na minha vida. 
E a hora do que então aconteceu não mais a esqueci, 2340 h. 
Eu e outros não morremos nessa noite porque não era a hora.
Estava na Guiné, então território português, colónia/ província ultramarina, a cumprir o mesmo que milhares e milhares de concidadãos, e cumpria a chamada comissão de serviço a bordo deste navio que mostro em baixo, a lancha de fiscalização grande (LFG), o NRP "Hidra" (NRP= Navio da República Portuguesa).

Faz agora anos que nessa noite, quando o navio navegava/ patrulhava em ocultação total de luzes e em postos de combate/ bordadas (metade da guarnição), fomos atacados por bombordo no rio Cacheu, o rio a Norte mais perto do Senegal. 
Como quase todos os outros que estávamos no exterior do navio, tive muita sorte. Estava uma noite de espectacular luar.
Morreu um comando africano, junto a quem rebentou o único projéctil/ granada foguete lançado por um dos então chamados guerrilheiros do PAIGC. Houve vários feridos, um incêndio, e o navio teve danos vários, inclusive rombos abaixo da linha de água.

Passadas semanas, um relatório da DGS (Direcção Geral de Segurança), confirmou a morte de todo o pequeno grupo de guerrilheiros atacantes.
Não era de esperar o contrário, pois tinham que infiltrar-se pelas densas árvores até junto ao rio, e ainda que sem serem vistos de bordo, a reação de fogo do navio e de todo o pessoal armado (dezenas) que estava no exterior e que terá durado muitos segundos mas seguramente menos que um minuto, varreu literalmente com aço toda a zona. 
Verificou-se na manhã seguinte que na margem do local do ataque, havia uma zona quase circular de árvores zurzidas, sem folhagem, sem ramos menos grossos, sem casca. Tudo madeira branca. 
O tempo voa, passaram-se décadas! 

Eu não esqueço. 
E recordo, com emoção, os que estavam comigo, e que nunca mais vi depois do regresso à metrópole.  
Recordo, também, todos os que connosco conviveram naquelas paragens Africanas, de 29 de Outubro de 1971 a 28 de Julho de 1973.
Andam para aí muitos que não esquecem nada, porque quase nada ou mesmo nada sabem. 
Mas sobretudo não sabem respeitar, passado, história, sofrimento, dor. 

Não respeitam os que como eu andaram na guerra e que, felizmente, regressaram quase sem sequelas. 
Mas acima de tudo não respeitam os milhares de portugueses que regressaram de África com sequelas, nem os familiares dos que tombaram pela Pátria. E muitos dos mortos não foram trazidos para Portugal, por lá continuam. 
Um país que trata assim os militares falecidos em combate dá naquilo a que crescentemente se assiste.

Esquecem além disso, o que a Lei Primeira/ Constituição estabelece. Esquecem ou melhor, querem lá saber, do que está em letra de lei na legislação que enquadra a Defesa Nacional e a sua componente militar, pois que defesa nacional tem, além da militar, as componentes, económica, financeira, diplomática, transportes, etc. 
Esquecem, ou melhor, querem lá saber, do dever de tutela, do respeito pela lei, do que é verticalidade ou honestidade intelectual.
Querem lá saber, da história do País e dos que por ele lutaram e muitos deram a própria vida, tudo lixo para a “gentinha” que vai governando (?) o País. Adiante.

A primeira fotografia se não me falha a memória é de época anterior a esta data.
A segunda é, salvo erro, de 10 de Junho do mesmo ano, estando o navio em seco, no estaleiro em Bissau, em reparações, pelas consequências do ataque que sofremos naquela data. 
Coincidentemente ou não, o ataque deu-se logo pouco depois de uma operação portuguesa dentro do Senegal, de que tenho uns "slides" coloridos dos nossos helicópteros a voar por cima do rio Cacheu, para lá e para cá.
Ficou gravado para sempre. 
Lembro-me de praticamente tudo como se fosse hoje.
Passaram-se 49 anos. 
Em 28 de Julho próximo passam 49 anos que acabou esse pesadelo de 21 meses em África, iniciado a 29 de Outubro de 1971.
49 ANOS,……... SAFA, como diria o "outro".

António Cabral (AC)

domingo, 2 de fevereiro de 2020

TEMPOS  da  GUERRA
Guiné, 1973, Bissau e rio Cacheu.
Não fugi, cumpri a minha parte, não gostei, sobrevivi, felizmente quase sem sequelas psíquicas e sem sequelas físicas. 
Ao "vasculhar arquivos" encontrei estas fotografias.
As fotografias estão propositadamente de lado.
A fotografia de baixo é de 10 de Junho de 1973, o navio no plano inclinado do Arsenal em Bissau, para reparação dos danos subsequentes ao ataque sofrido dias antes no rio Cacheu a montante de Ganturé, em 19 de Maio, pelas 2340 horas, e onde tivemos, poucos feridos da guarnição, infelizmente um morto dos comandos Africanos que transportávamos no exterior do navio, e vários danos no navio incluindo rombos abaixo da linha de água.
A fotografia de baixo é de navegação no Cacheu pouco tempo antes desse ataque noturno.
Tempos da guerra, guerra inútil. 
Onde aprendi muito, onde conheci muitos, onde vi muita coisa, onde desconfiei de muita outra coisa.
Para lá fui na noite de 29 de Outubro de 1971, de lá vim em 28 de Julho de 1973.
António Cabral  ( AC )

terça-feira, 10 de setembro de 2019

DESTES  JÁ  NÃO  FAZEM
Destes já não fazem. 
Para cumprir uma comissão de serviço no tempo da guerra cheguei a Bissau a 29 de Outubro de 1971. Inteiro fisicamente, e quase sem abalos psíquicos, saí de lá aliviado em 28 de Julho de 1973.
De entre as recordações que trouxe, um facão enorme, oferecido por um oficial dos fuzileiros especiais, facão que guardo aqui na aldeia, juntamente com outras coisas desse tempo.
Parece que foi ontem que vim de lá, e em Julho perfizeram-se 46 anos.
Quanto ao facão, destes e com a qualidade de aço e o cabo em bauxite se não estou em erro, destes já não se fazem. 
É uma relíquia.

AC