quarta-feira, 4 de dezembro de 2024

AINDA O 25 NOVEMBRO 1975

Estive a ler no sítio da TSF e com todo o cuidado a entrevista concedida por Carlos Matos Gomes, coronel reformado do Exército.

Já passaram várias décadas, mas estou bem recordado dos aspectos mais relevantes que recordo das estadas do então capitão dos comandos Carlos Matos Gomes a bordo do navio para onde eu fora mandado cumprir 21 meses (29OUT1971/ 28JUL1973). Se a memória não me falha foi nomeadamente por ocasião de uma operação e da posterior recolha de comandos pelo meu e outros navios.

Tal como recordo o então major Otelo Saraiva de Carvalho, acompanhando jornalistas estrangeiros que por lá de vez em quando apareciam e dos quais, tempos mais tarde, encontrávamos artigos sobre Spínola e a guerra na Guiné, por exemplo se recordo bem, na Paris Match. Tudo no âmbito da propaganda laboriosamente urdida por aquele governador.

Da entrevista retiro os seguintes tópicos (comento a azul):
- afirma haver em todo o processo uma narrativa do PS, a de que Portugal corria o risco de cair numa ditadura comunista (creio que Mário Soares e o PS construíram a narrativa com um certo fundo de verdade dada a situação no terreno, até porque como refere o entrevistado e está mais abaixo, havia lura séria pelo poder entre PS e PCP, em que muitos esquerdistas radicais estragavam a coisa; pessoalmente rejeito sistema e regime diferentes do Europeu Ocidental)

- recorda que o então coronel Soares Carneiro  realizou várias visitas visitas ao Regimento de Comandos. (não foi por acaso que mais tarde veio a ser CEMGFA; adivinhem por mão de quem? refiro-me quem propôs e quem era o PR que anuiu, todo contente))

- na célebre Assembleia do MFA em Tancos, em que era ainda oficialmente o delegado do Regimento de Comandos e da Região Militar de Lisboa, é como que desautorizado por Jaime Neves; (muito curioso)

- sabia da preparação do golpe e de movimentações ligadas ao grupo dos Nove;

- considera que a preparação militar do golpe é feita à margem dos Nove, sob o comando do Ramalho Eanes; (é para se concluir que os Nove, ou pelo menos alguns deles, foram uns idiotas úteis?)

- salienta que a revolução portuguesa introduziu como fator de perturbação o surgimento de um movimento popular, num Estado da NATO, pondo em causa o equilíbrio de forças e fundamentalmente enfraquecendo estrategicamente o flanco sul da NATO;

- considera que Portugal era uma pedra não controlável (não era? Foi controlada em poucos meses)

- explica com algum detalhe o jogo da geopolítica entre os dois blocos, EUA/ NATO versus URSS/ Pacto de Varsóvia; (nada de novo)

- recorda que quinze dias depois da demissão de Spínola se realizou uma reunião em Washington, entre Henry Kissinger e Costa Gomes e Mário Soares, e recorda a célebre conversa entre Kissinger e Mário Soares - "O senhor vai ser o Kerensky português" ao que Mário Soares responde: "Mas eu não quero ser o Kerensky".  E Kissinger retorquiu -  "Mas o Kerensky também não queria ser o Kerensky":

- recorda o papel do embaixador dos EUA em Lisboa, Frank Carlucci;

- refere que os EUA através de um grupo da Internacional Socialista, transferiu milhões de dólares para a Europa, permitindo investir fortemente nas eleições do 25 de Abril de 1975, que o PS vence. (desses milhões, para além do PS, para além de estar garantida uma boa parte para pagar a mercenários, nada terá ido parar a quem estava fora e colocava bombas e etc?)
 

- que o homem deste processo é Melo Antunes, que terá sido escolhido por Carlucci para ser o seu homem em Portugal, e com um primeiro objetivo, derrubar o V Governo provisório em que Vasco Gonçalves é PM. (provavelmente Carlucci teria vários homens na mão; Pacheco Amorim por exemplo diz que Carlucci se virou para Mário Soares; nada me custa a aceitar que Carlucci e outros mandantes jogassem em vários tabuleiros)

- terá havido uma chantagem por parte de Carlucci - ou Vasco Gonçalves sai do Governo ou não há aviões americanos para fazer a ponte aérea de Angola para Portugal.

 - Melo Antunes escolhe Ramalho Eanes para chefe do Grupo Militar (não creio que isto cole com o acima dito, de que Ramalho Eanes conduziu a preparação do golpe à margem do grupo dos None; ou então era melo Antunes que sendo proeminente dentro do Grupo dos Nove, jogava por conta própria em outros círculos?) . 

- refere que quer o PS quer o PCP não controlavam as massas; o Partido Comunista não tinha o controle sobre os seus militantes e sobre os seus aderentes. (estou pessoalmente convencido que o não controlo se verificava também dentro das Forças Armadas (FA), onde haveria ligações ao PCP e ligações a vários das extremas esquerdas)

- refere que o que é específico no processo político português e causa alarme, é a força do movimento popular e é a sua inorganicidade; (obviamente e, provavelmente sobretudo a partir de inícios de 1975 isso preocupou nomeada e crescentemente Soares e Cunhal)

- aponta duas razões para o 25NOV: a primeira para os pobres de espírito e crentes em toda a verdade, de que havia o papão do PCP e, portanto, se trocaria a água-pé pela vodka e todos passariam a dançar a kalinka em vez do Vira, e muita gente nisso acreditou, e que a Igreja Católica assumiu esse tipo de discurso. 

- a segunda razão, real, expressa no documento dos Nove, a necessidade que o Estado seja forte; Que haja um Estado que imponha a ordem e um Estado que represente a sociedade portuguesa em termos internacionais (e é errado?).

- havia um objectivo primordial para o plano que culmina no 25NOV, era necessário que o Estado não fosse o Estado responsável pela descolonização, e refere que curiosamente a independência de Angola se concretiza em 11 de Novembro, 14 dias antes do 25NOV; assim, o novo regime já não podia ser acusado das questões que vão ficar com a descolonização de Angola, e que serão dirimidas entre EUA e URSS.

- lembra que se implantou em Portugal um modelo padronizado de regime de representação parlamentar, idêntico ao de todos os outros países Europeus e que vêm desde a Segunda Guerra Mundial.

- afirma que era fundamental haver sangue e que estava previsto que, se não houvesse sangue ali, haveria bombardeamentos aéreos feitos, por exemplo, sobre o Ralis (portanto, o chefe da Força Aérea estava feito com os Nove?).

- refere nenhum sentido haver para o ataque das chamadas Forças Democráticas ao quartel a 200 metros da Presidência da República e que o processo do 25NOV é conduzido claramente por Melo Antunes, que, aliás, tem um discurso preparado e que profere logo a 26 (afigura-se-me pertinente).

- convicto de que Costa Gomes estava muito limitado nas suas capacidades de comando, eventualmente até sequestrado pelo Grupo dos Nove e pelo Grupo militar, e afirma que é por isso que Vasco Lourenço estava em Belém.

- recorda que Otelo Saraiva de Carvalho sai da sede do seu comando do COPCON e apresenta-se ao Presidente da República ou seja, nessa altura o Presidente da República, enquanto comandante-chefe, passou a ter o comando do COPCON do seu lado, o que muito alterou a situação.

- recorda a posterior limpeza e saneamento das Forças Armadas, da função pública e da comunicação social (limpeza na comunicação social? hummm….).

- afirma que o 25NOV teve várias componentes, uma mais institucional ligada a Melo Antunes e ao Grupo dos Nove, outra ligada à Associação de Comandos e ao Regimento de Comandos, que funciona à parte, e uma outra componente clandestina que está ligada a Alpoim Calvão, ao ELP e ao MDLP. (quem sou eu para desdizer isto; mas é curioso observar esta descrição, de uma certa separação de componentes, e verificar que outros como Pacheco de Amorim afirmam sem tibiezas que por exemplo Jaime Neves telefonava para o MDLP em Madrid)

- recorda o estranho processo do contrato de militares que estavam já há alguns anos na disponibilidade (estranho é dizer pouco, que papel tiveram nisso, Costa Gomes, o Conselho da revolução, o VI governo provisório, os Nove?).

- não vê a relação do PCP no processo com cumplicidades nem com traições, mas como uma atuação dentro de um pensamento estratégico muito elaborado e muito consistente, conveniente para todos, pois que o regime português tinha de ter o mesmo modelo dos outros regimes Europeus.

- enfatiza que a grande questão do processo revolucionário português é o movimento popular, porque a questão da luta entre o Partido Socialista e o Partido Comunista é uma luta clássica de partidos pelo domínio do aparelho de Estado (claro, Mario Soares disputou o terreno com cunhal, acabou por ganhar no essencial).

- afirma que os três D’s da Revolução não têm nada de revolucionário. 

- afirma que o que é revolucionário é logo nas primeiras horas Otelo abrir a revolução ao povo.

- considera Otelo, muito inteligente, muito sensato, com experiência militar, e com a noção de que o pior que pode acontecer numa sociedade é uma guerra civil (por isso se aquietou e foi apresentar-se a Costa Gomes; pelo que se sabe, posteriormente não me parece que tenha demonstrado sensatez).

- afirma que ao nível do COPCON havia uma noção perfeita sobre o que os embaixadores estrangeiros em Lisboa diziam, o que os EUA andavam a fazer, o que a NATO pensava do processo político, e que "do outro lado" havia uma facção que não hesitaria em lançar o país numa guerra civil (creio que a questão - guerra civil - não era uma pura divagação). 

-afirma que se sabia, que os Estados Unidos tinham colocado quantidades significativas de armamento à disposição de vários grupos, das transferências de dinheiro para pagar mercenários, de redes clandestinas dispostas a causar uma guerra civil, provocando pequenas explosões caóticas ao longo do país, o que, aliás, foi ensaiado pelo ELP e o MDLP no Norte de Portugal. (isto cola com a entrevista de Pacheco de Amorim)

- afirma que Otelo não autorizou a saída dos fuzileiros, não autorizou a distribuição de armas a civis pelo forte de Almada. (esta parte é muito interessante; presumo que não foi Otelo directamente, de viva voz por telefone, para o chefe da Marinha, ou para o chefe máximo da estrutra fuzileiros, que disse não saiam; a narrativa diz que foi um muito conhecido oficial da Marinha que levou a ordem; há dias, uma reportagem da RTP3 mostrava um sorridente Rosa Coutinho dizendo que tinha segurado os fuzileiros)

- explica as saídas dos pára-quedistas pelas provocações e irregularidades e ilegalidades executadas pelo então chefe da Força Aérea. (quando isto aconteceu, quando iniciou as tais irregularidades, qu terá feito o Conselho da Revolução?)

- recorda o general Lemos Ferreira da Força Aérea.

- recorda a dignidade com que foi tratado por Ramalho Eanes.

- recorda os grandes valores da humanidade, como a justiça, a justiça social, a liberdade, os direitos individuais, o direito à palavra, à expressão, todos adquiridos a 25ABR74 (plenamente de acordo, e ainda bem que esses valores foram adquiridos nessa altura; mas mantenho, com o 25ABR74 adquiriu-se a liberdade, e com o 25NOV75 a liberdade não se perdeu, e temos formalmente um regime do tipo Europeu Ocidental).

António Cabral (AC)

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