sábado, 7 de junho de 2025

Como escrevi há dias

A vida é quase sempre muito dura. 

O decorrer do tempo foi alterando em mim muito coisa. Em razão da carreira, em razão da envolvente interna, em razão da envolvente externa.

Os 21 meses de guerra em África (29OUT1971-28JUL1973) modificaram-me muito. Desde logo com a partida para lá, decidida pelo poder instalado, porque me calhava como a outros, e descobri a tempo que na família tentavam que fosse mudado para Luanda.

Fui-me interrogando lentamente, só, comigo próprio, sem partilha, sem entrar em grupos, sem entrar em euforias, sem entrar em secretismos, sempre só, comigo, de certa forma ao estilo daquele imperador romano que, para muitos, não passava de um simplório, que não percebia nada de nada, talvez mesmo um tonto.

A vida familiar foi correndo, como quase para toda a gente. Família, filhos, filhos a crescer, família alargada a aumentar, as dificuldades das mensalidades para pagar casa, para pagar faculdades, etc.

Os idosos na família muito alargada a adoecer, alguns a falecer, um deles, que sendo muito afastado me era muito próximo. Já foi há mais de 30 anos, quando no cemitério dei por mim num canto afastado a chorar.

A vida é muito dura, quase sempre.

Tenho bem presente que prosseguem pelo mundo horrores sem fim, em que crianças e idosos sofrem ou são extintos, pura e simplesmente. Para esses a vida não é dura. Nunca foi vida. 

Mas não é por egoísmo que falo de certo passado e do presente. Porque há-de uma pessoa continuar a penar com quase cem anos? 
Que qualidade de vida?
Sofrendo sempre, desde nova! Mais martirizada particularmente desde há 16 anos.

A ordem natural das coisas é os mais velhos partirem primeiro. A ordem natural das coisas é os filhos aparecerem primeiro que os pais.

A ordem natural das coisas devia ser, os pais partirem primeiro que os filhos. Não foi assim com o meu irmão Jorge.

Faleceu em 27 de Agosto de 2009, oito meses e oito dias de luta com uma feroz leucemia que o levou. Partiu antes dos nossos pais. Foi devastador para eles, para mim, para a família dele.

Pelo que sucedeu a partir daí, fui verificando que "o depósito" das lágrimas estava basicamente vazio. 

Em 22 de Junho do ano passado e ao fim de oito anos de luta faleceu um dos meus grandes amigos, o João Luís. Em Janeiro passado o inesperado falecimento do meu grande amigo (desde 1969) e médico pessoal, e nem uma porra de lágrima me assomou aos olhos, em qualquer dos casos!

A vida é quase sempre muito dura. Os 2023 e 2024 são anos para tentar esquecer, foram muito duros. 2025 não está a ser fácil.

Para pelo menos por momentos esquecer amarguras, e a pensar em lágrimas, recordei-me do poema de António Gedeão sobre lágrimas (e não só). Fui buscar um dos meus livros onde ele está, e aqui recordo a "Lágrima de Preta" de Gedeão.

"Lágrima de Preta"

Encontrei uma preta
que estava a chorar, 
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos
as bases e os sais
as rogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

AC

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