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quinta-feira, 9 de julho de 2026

E  É  ISTO,  a Tugolândia

Um bom amigo acaba de me enviar esta delícia.

Três notas:

- eu tenho um blogue pessoal, vai para 13 anos, mas não tem nada a ver com o que neste delicioso texto se refere. Como expliquei diversas vezes e mais logo repetirei.

sublinhados da minha responsabilidade

- este texto recordou-me isto - um político honesto pergunta o que é que recomenda uma dada pessoa; um político corrupto quem.

António Cabral (AC)

*Confissões de um boy" - Pedro Santa Clara

Entrei para a política aos dezassete anos por convicção. A convicção de que não me apetecia trabalhar.
Sei o que estão a pensar, e é injusto. Trabalhei muito, trabalhei sempre — só que nunca trabalhei em nada. A minha carreira é feita de cargos, não de obras; e os cargos, ao contrário das obras, não se avaliam: sucedem-se. O Zagalo escreveu a vida do Conde de Abranhos por devoção ao amo; eu escrevo a minha por vaidade própria. Ao menos nisso sou moderno.

A vocação

Descobri o meu talento na juventude partidária, a que nós chamamos carinhosamente a Jota. Os outros discutiam ideologia; eu montava as cadeiras. Os outros escreviam moções; eu fotocopiava-as, distribuía-as e, sobretudo, sabia em que momento exato do discurso do líder se devia começar a bater palmas. É uma ciência subtil: cedo demais é bajulação, tarde demais é dissidência. Aos dezanove anos já ninguém batia palmas como eu em todo o distrito.
Na Jota aprende-se cedo a lição que sustenta tudo o resto: as ideias dividem, os lugares unem. Aprende-se também a competência nuclear da profissão — farejar quem vai subir e colar-se-lhe como um selo. Enganei-me uma vez, em noventa e tal, e custou-me dois anos numa comissão de revisão de estatutos. Nunca mais me enganei.

A licenciatura

Pelo caminho, licenciei-me em Direito. Regime pós-laboral, numa universidade privada que entretanto já não existe — o que confere ao meu diploma uma raridade de incunábulo. Demorei sete anos a fazer quatro, porque a política não espera, e o direito, pelo contrário, está sempre lá. Advogado nunca fui: a Ordem tem exame, e exames são para quem não tem alternativa. Mas o canudo cumpriu a sua única função, que é constar. Nos currículos oficiais sou jurista. Nos corredores, sou o Zé.

O assessor

Comecei como assessor. De quê, perguntam os ingénuos. De quem, corrijo eu — a preposição é tudo. Fui assessor de um vereador, depois de um deputado, depois de um secretário de Estado, numa progressão que nada devia ao mérito e tudo à fidelidade, que é o mérito verdadeiro. O trabalho era variado: escrever discursos que ninguém ouvia, marcar almoços que eram o verdadeiro trabalho, atender jornalistas para lhes dizer nada e transportar a pasta do chefe com a gravidade de quem transporta o país.
Um gabinete é uma corte em miniatura, e eu nasci cortesão. Para cima, sou veludo; para os lados, sou cimento armado. Vi cair três chefes e sobrevivi aos três, o que na nossa profissão é uma condecoração.

A escada

Depois vieram os degraus, por ordem litúrgica. Secretário de uma junta de freguesia — poder autárquico, dizem os manuais; eu digo: atestados, festas do pimento e a primeira lição de orçamento, que é haver sempre orçamento para quem o executa. Adjunto numa câmara municipal, onde aprendi que uma rotunda inaugura-se duas vezes: uma quando se faz, outra quando se refaz. Vice-presidente de uma CCDR — coordenação e desenvolvimento regional, duas expressões que, juntas, garantem que ninguém pergunte o que faço. E deputado suplente, que é a sala de espera do poder: substituo o titular quando ele é chamado ao Governo, ou seja, sou tecnicamente um efeito colateral. Sentei-me no hemiciclo tempo suficiente para fazer três perguntas ao Governo, escritas por um estagiário, e para aparecer atrás do líder nos planos de televisão, que é a verdadeira função do deputado moderno: cenografia com direito a voto.

O blog e a televisão

Nos anos dois mil tive um blog, como toda a gente que queria vir a ser alguém. Escrevia sobre a reforma do Estado, que era o que se usava, com hiperligações para relatórios que não tinha lido. O blog morreu, mas cumpriu: hoje os jornalistas apresentam-me como «pensador» e eu não os corrijo.
Da blogosfera saltei para os plateaus. Na televisão sou combativo, frontal, independente — os pontos de conversa chegam-me do partido à sexta-feira, mas a indignação é toda minha. Digo coisas como «o país precisa de reformas estruturais» e «é preciso coragem política», frases que o conselheiro Acácio acharia arrojadas. Dentro do partido sou uma carpete; diante das câmaras, um tigre. A carreira faz-se com os dois pelos, e ai de quem os troque: um tigre no congresso e uma carpete na televisão não chega a deputado suplente.

Os biscates e o primo

Convém dizer que o vencimento público, sendo certo, é modesto, e um homem tem despesas. Fui compondo: umas avenças de consultoria estratégica — «estratégica» quer dizer que não se percebe o que é — uns pareceres jurídicos ao abrigo do incunábulo, umas conferências sobre liderança em hotéis de aeroporto. E há o meu primo, empresário de reconhecido dinamismo, cuja firma tem a felicidade de ganhar adjudicações diretas com uma regularidade que só se explica pelo mérito — o mérito de existir no momento exato, com o alvará exato, no concelho exato.
Eu não decido nada, entenda-se. Apenas apresento pessoas: janto com A, telefono a B, digo ao C que o D é «dos nossos». Sou um facilitador. A palavra inglesa é networker; a portuguesa, mais antiga e mais exata, prefiro não usar. E nada disto é ilegal, sublinho. Li a lei com muita atenção. Ajudei a escrevê-la.

Diretor-Geral e Secretário de Estado

Quando o partido voltou ao Governo, fui nomeado Diretor-Geral. Houve concurso, claro, com entrevista e avaliação de competências; concorri contra dois candidatos que nunca ninguém viu e ganhou o melhor, que por coincidência era eu. Na direção-geral conheci o meu velho amigo burocrata — o das confissões anteriores — do outro lado da secretária. Entendemo-nos imediatamente: ele não queria decidir, eu não sabia. O serviço funcionou em perfeita harmonia durante dois anos, isto é, não funcionou, mas em harmonia.


Depois, a apoteose nacional: Secretário de Estado. Adjunto de um Ministro Adjunto — a redundância é a forma mais pura do poder. Durei dezassete meses, cortei nove fitas, anunciei quatro planos estratégicos com horizonte em duas legislaturas de distância e caí numa remodelação sem ter feito rigorosamente nada, o que em política se chama sair de cabeça erguida. No dia seguinte à queda, o telefone tocou. Era o Partido. O Partido nunca abandona quem nunca o abandonou: é uma agência de emprego com hino.

Bruxelas

E assim cheguei aonde tudo conflui: Bruxelas. O meu amigo burocrata sonha com ela como quem sonha com o céu — estuda para o concurso, decora regulamentos, reza. Eu cheguei de avião, em executiva, com o cartão do partido em vez de bilhete: um gabinete, um cargo com nome comprido em inglês, uma agenda de pequenos-almoços de trabalho. Cá estou, a coordenar a articulação de políticas cuja execução acompanho com elevado interesse e nenhuma consequência. O vencimento é europeu, o imposto é simpático, a escola dos miúdos é internacional e Lisboa fica à distância exata: perto para ir aos congressos, longe para não me pedirem nada.

O segredo

Perguntar-me-ão qual é, afinal, o meu talento. Respondo sem falsa modéstia: a disponibilidade. Dizem que a política atrai os piores; é injusto. A política atrai os disponíveis — os melhores estavam ocupados. Enquanto os meus colegas de curso estudavam para a Ordem, eu montava cadeiras; enquanto faziam carreira, eu fazia congressos; e quando o país precisou de gente para os lugares, quem é que lá estava, pronto, testado, leal? A fila era eu. A fila sou eu. A fila, meus caros, somos nós — e não abrimos exceções.
O custo disto não aparece em nenhum orçamento: é toda a gente capaz que olhou para a política, viu a fila, e foi embora. Chamam-lhe seleção adversa; eu chamo-lhe segurança no emprego.

O que me estragaria a carreira

Há quem fale em reformas, e confesso que algumas me tiram o apetite. Reduzir os gabinetes e os cargos de nomeação política a um décimo. Concursos verdadeiramente competitivos para dirigentes, com júris independentes e atas públicas. Transparência total nas adjudicações — cada contrato, cada beneficiário, cada primo, pesquisável em dois cliques. Declaração obrigatória de filiação e de avenças para quem comenta política na televisão. Limites a saltar de um regulador para o setor regulado e de um gabinete para o fornecedor do gabinete. Nada disto exige génio; exige apenas vontade de fechar a agência de emprego.
Felizmente, quem teria de aprovar estas reformas fui eu, os meus, e os que hão de vir a ser eu. Durmo descansado.

Post scriptum

Preparo as minhas memórias, que sairão em breve com o título «Servir Portugal». O prefácio é de um Ministro que eu fiz; a revisão, de um assessor que herdei; a impressão foi adjudicada, por ajuste direto, à gráfica do meu primo. O lançamento será numa fundação pública, com vinho de honra pago por uma câmara.

Entretanto, o meu afilhado político acaba de entrar na Jota. Tem dezassete anos e já sabe exatamente quando bater palmas.

O país está entregue.

domingo, 26 de março de 2023

As  NEGOCIATAS 

A sociedade portuguesa está cheia delas. A maior parte urdidas na sombra dos gabinetes, na expectativa de que nunca se venham a descobrir. Apesar do lastimável estado comatoso e vendido de muita da comunicação social, existem felizmente várias excepções, quer jornalistas quer no âmbito dos próprios OCS. Neste caso, basta ver a diferença entre o que é noticiado ou silenciado na SIC comparativamente com a TVi.

Das muitas "novidades" que vieram a público ultimamente conta-se a maravilhosa negociata dado autarca Medina com o chamado bibliógrafo argentino de seu nome Manguel. 

Pensei para comigo, certamente um óptimo negócio para a cultura nacional e a cultura Lisboeta em particular.

Mas, depois de ler com mais atenção o que veio a público, entre protocolo, memorando e contrato com o dito argentino, começou a germinar na minha cabeça que, se calhar, foi mais um negócio nada transparente pois não são conhecidos todos os documentos, parece ter sido mais um negócio entre os mesmos do costume. Enfim, mas devo ser eu que sou chato.

AC