domingo, 5 de julho de 2026

PORTUGAL
Ao passar os olhos pelas gordas via NET apercebi-me que o governo iniciou o processo para as comemorações dos 900 anos da fundação de Portugal, centrando a data na batalha de S. Mamede, ocorrida em 24 de Junho de 1128. 
A tal pancadaria basicamente o filho a bater na mãe! 
Eis o país resultante 😎😎😎😎

Aparentemente, parece que não esquecerão duas datas igualmente importantes do início da nossa história, e evocarão ao que agora se diz por aí a Batalha de Ourique acontecida em 1139 e o que designam por Tratado de Zamora de 1143.

A este propósito vou a seguir reproduzir um texto com algum tempo e já aqui publicado. 
Depois escreverei umas palavras breves acerca da posição do PCP sobre o assunto e sobre a nomeação governamental de Paulo Portas para coordenador da dita comissão das comemorações dos 900 anos.

O meu texto sobre datas históricas.

A  PROPÓSITO  de  NACIONALIDADE 

A minha muito idosa e muito fragilizada mãe (nasceu a 8 JUL 1925, continua com excelente cabeça e memória, 101 no próximo 8 JUL) conversava outro dia comigo sobre a nacionalidade e conexos, nomeadamente a data da fundação da nossa nacionalidade.

Grande ignorante que sou a respeito de quase tudo eu disse-lhe que para mim 1143 continuava a ser a data da fundação da nacionalidade.

A minha mãe avançou dizendo que em 1940 celebraram 8 séculos de história. Ela referia-se à exposição do mundo português.

Repetindo-me, grande ignorante que sou tenho a ideia que Afonso Henriques usava o título de rei desde 1140, atitude que o rei castelhano veio a reconhecer mais tarde também na presença do representante do Papa. 
Aquilo que muitos dizem ser o tratado de Zamora, mas eu sabia de fonte segura/ amiga que não houve tratado nenhum, foi uma conferência, importante.
E portanto eu e a mãe andámos com a fundação à baila em pingue-pongue entre 1140 e 1143.

Encerrámos o assunto dizendo eu à mãe - espera aí, vou maçar um amigo e conceituado historiador e havemos de deslindar isto.

Deixo aqui a resposta dele.

António não és nada ignorante. 
Pelo contrário, colocas até uma questão muito interessante, sobre as origens de Portugal. Vou tentar responder dando a minha interpretação de forma sintética, mas tocando alguns dos pontos que focas.

As referências a acontecimentos que são muitas vezes apresentados como "actos fundadores da Nacionalidade" (Batalha de São Mamede em 1128, Batalha de Ourique em 1139 , Conferência de Zamora em 1143, bula papal Manifestis Probatum em 1179...) são sem dúvida relevantes. 

Já houve até quem chamasse a 24 de Junho de 1128 "A Primeira Tarde Portuguesa", referindo-se à vitória de Afonso Henriques sobre a mãe e o "partido" galego dos Trava na batalha de São Mamede. Mas a questão é, quanto a mim, mais complexa. 

De facto, não há um dia da "inauguração de Portugal". 

Há um processo longo que passa por vários factos e por várias datas. Se o "corte" político com a Galiza foi em 1128 e Afonso Henriques passou a governar o Condado Portucalense, só em 1139-1140 começou a intitular-se rei, no seguimento da vitória em Ourique. 

A partir desta data temos, portanto, um auto-intitulado rei de Portugal, mas que só seria reconhecido como tal em 1143 pelo rei de Leão Afonso VII (o Condado era parte do reino leonês), e o Papa, autoridade religiosa, espiritual e diplomática suprema da cristandade ocidental, só reconheceria o título de rei a Afonso Henriques em 1179. 

Mas, mesmo assim, o território português ainda não estava definido, pois a Reconquista portuguesa só terminaria em 1249, com a conquista das últimas praças algarvias, no reinado de Afonso III. 

Além de que a fixação da fronteira com Castela apenas seria estabelecida em 1297, no tratado de Alcanizes, sendo rei D. Dinis. Foi também com este monarca que o Português substituiu o Latim como língua "oficial" da Chancelaria régia, por volta de 1295-96.

Enfim, podemos considerar que a partir de 1139-1140 há um reino de Portugal como entidade política independente, mas que está e estará ainda muito tempo em construção. 

A questão da nacionalidade é ainda mais complexa, pois enquanto sentimento relativamente generalizado de pertença a uma comunidade própria, distinta de todas as outras, a sua estabilização será ainda mais prolongada no tempo. 
Terá, no final da Idade Média, um ponto alto com a chamada crise ou revolução de 1383-1385, quando se recusa a integração em Castela e se "refunda" o reino com a nova dinastia de Avis.

A tua Mãe tem toda a razão, pois 1940 foi oficialmente considerado "Ano dos Centenários". 

A Grande Exposição do Mundo Português pretendia celebrar 800 anos de "fundação da nacionalidade" e 300 anos de Restauração da Independência. 

Num mundo em plena II Guerra Mundial, a exposição organizada pelo governo celebrava um "Mundo Português" antigo de oito séculos, em paz e capaz de grandes realizações. 
A História foi mobilizada para essa operação de que os contemporâneos ainda hoje têm memória. 

E, apesar dos seus quase 101 anos, a tua Mãe tem, sem dúvida, uma grande memória.

Espero ter respondido à questão que colocavas e peço desculpa pela extensão deste email. 
Mas o problema é mais complexo e multifacetado do que o de uma simples e única data. 
E teremos ocasião de voltar a isto, em amena conversa Monsantina.

António Cabral (AC)

Voltando ao assunto.

Parece-me legítimo haver interpretações diversas. 
Parece-me legítimo os historiadores terem divergências, convicções.
O que me custa a compreender é alguns falarem em Tratado de Zamora quando não existe nenhum tratado escrito, assinado pelas partes; mas existe sim uma referência á conferência acontecida em Zamora, que foi importante, e onde a presença do representante do Papa acrescentou importância.

O actual governo também entende que 11 de Junho de 1128 é a primeira tarde portuguesa. Legitimamente, não perco tempo com isso.

Indo à posição do PCP sobre a decisão governamental, entendo que se centra em dois aspectos:
1º - que o governo / a AD se aproveitarão do assunto para créditos políticos (palavras minhas),

2º - a escolha de Paulo Portas

Quanto ao primeiro aspecto, creio que o PCP tem alguma razão; todos os governos aproveitam tudo para se vangloriar, para se auto-elogiar

Quanto ao segundo aspecto (Portas) creio que tem razão também quando diz que a escolha não é consensual. Acrescenta que não é adequada.
Muitos outros possíveis nomes seriam considerados da mesma forma pelo PCP e não só - não consensual.

Se é adequado ou não não tenho competências para me pronunciar.
Pessoalmente nunca gostei de Portas. Não invalida que lhe reconheça cultura, e qualidades a par de imensos defeitos.

Já o PCP referir que as comemorações poderão - ocultar o posicionamento de quem executa uma política que põe em causa a soberania e independência nacionais”- já me cheira a "cassete".

Aguardemos pelos próximos capítulos.

AC

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