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segunda-feira, 28 de junho de 2021

Da Guerra

No próprio dia em que tomou posse do cargo de Vice-Chefe do Estado-Maior General do Exército (*) em 14 de Janeiro, Spínola informou Marcello de que ia finalmente publicar o seu livro. Deixar-se primeiro promover sem palavra de aviso. Agora, comprometido com o governo, avançava contra ele, com aquela mistura de grosseria e de ingenuidade que os Portugueses não tardariam a conhecer. Não hesitou, por exemplo, em se declara magoado por Silva e Cunha não ter permitido que "os rapazes" dele fossem assistir à cerimónia de posse e que a televisão a filmasse. O pequeno régulo queria ser entronizado perante o País com a sua corte à volta. Mais uma vez Marcello lhe explicou que Portugal não era a Guiné, e foi notando que ele precisava de autorização superior para publicar o livro. Spínola fingiu-se escandalizado.

AC

(*) algumas vezes, como aqui, VPV troca nomes de cargos, neste caso o cargo era o de Vice-Chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, enquanto Costa Gomes assumiu o de Chefe.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Da Guerra

O Chefe do Estado-Maior General do Exército, Costa Gomes, com o seu arrepiante realismo, arvorou-se imediatamente em porta-voz da insubordinação junto de Marcello Caetano e, a seguir, em protector dos revolucionários..............Costa Gomes, com muitos mais votos do que Spínola, devia presidir à futura Junta de Salvação Nacional. Os capitães, inteiramente desconhecidos do país, precisavam destas cabeças simbólicas e, depois de alguma controvérsia (Vitor Alves a favor e Vasco Lourenço Contra) tinham-se resignado a suportá-las. Mas, fora alguns fiéis de Spínola, a grande maioria não tencionava por isso encomendar o futuro aos bons ofícios do "ar condicionado". Spínola não percebeu esta realidade elementar. Costa Gomes, que a percebeu, calou-se.

AC

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

Da Guerra

Muitos anos antes, no entanto, cometera um erro político capital, a cujas consequências não podia agora escapar. Com o estranho e perigosíssimo propósito de promover as Forças Armadas perante a Nação e de não alimentar campanhas internacionais, deu logo desde 1968 uma injustificável importância e uma enorme liberdade aos generais-em-chef das colónias. Esperava assim impedir que eles conspirassem contra ele ou que o seu silêncio fosse interpretado como hostilidade ao governo. Em vez de aliados criou rivais. Spínola na Guiné e Kaúlza em Moçambique aproveitaram a oportunidade para se propagandear pelo mundo inteiro e adquirir uma estatura que de outra maneira nunca teriam tido. Spínola, sobretudo, servido por uma coragem lendária e um exibicionismo natural, tomou proporções verdadeiramente extravagantes.

AC

sábado, 23 de janeiro de 2021

Da Guerra

Os capitães do Exército tinham de reagir ou morrer. Muitas centenas deles reagiram, embora debilmente acompanhados pela Marinha e pela Força Aérea, que o decreto não afectava e onde, por razões evidentes, o problema não se tornara tão crítico. Marcello Caetano recuou e em Outubro, mudado o ministro, o decreto de 13 de Julho foi suspenso (contra a opinião dele) e concebidos mesmo alguns benefícios, como um pequeno aumento de ordenado. O decreto foi suspenso mas não foi substituído.

AC

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Da Guerra

Durante o PREC convencionou-se atribuir grande importância à influência ideológica dos milicianos sobre os capitães. Segundo essa absurda interpretação, em que Marcello piamente acreditou, a metamorfose do movimento corporativo dos capitães em movimento revolucionário dever-se-ia  a dois ou três lugares-comuns do marxismo vulgar, trazidos das universidades portuguesas e comunicados, como um vírus, no mato africano. Escreveram-se até livros  sobre o assunto, mas ninguém deu pela evidência de que a única maneira de satisfazer as reivindicações corporativas dos capitães consistia em acabar com a guerra.

AC

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Da Guerra

Em 1973, havia já capitães (milicianos e do quadro) que fingiam apenas cumprir missões, que se afastavam deliberadamente das áreas de risco ou que entravam em tréguas sub-reptícias  com as guerrilhas do seu sector. Em 1974, Spínola, Costa Gomes e Kaúlza declaravam o Exército em processo de dissolução. Não podiam explicar. Dissolução queria dizer que os oficiais superiores não estavam seguros de mandar no Exército do mato. Ou seja que, na verdade, o Exército deixava de existir e que os capitães eram agora manifestamente contra a guerra.

AC

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Da Guerra

Só que num ponto, esses limites já haviam sido largamente excedidos: a capacidade de renovar os oficiais de combate, ou seja, os capitães..........esta circunstância provocou pouco a pouco no Exército uma divisão entre aqueles que faziam a guerra no mato e aqueles que a faziam no ar condicionado............o Exército do mato e o Exército do ar condicionado detestavam-se e essa hostilidade transformou-se eventualmente em pura indisciplina.

AC

domingo, 17 de janeiro de 2021

Da Guerra

A guerra era impopular em Portugal. Mas fora isso, a prosperidade dos anos de Marcello, o alargamento dos chamados" benefícios sociais" e a emigração tornavam a vida mais tolerável do que nunca fora desde o princípio do regime...............O partido comunista continuava a ser o único verdadeiro partido da oposição, agora um pouco trémulo pela concorrência da extrema-esquerda e pelo descrédito ideológico da ortodoxia..............O partido comunista, por exemplo, propunha um "levantamento nacional", sobre cuja natureza, momento e possibilidade prática não se pronunciava.

AC