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quarta-feira, 27 de novembro de 2019

RECORDANDO
O  exemplo
A indústria portuguesa produz por ano 35 000 toneladas de resíduos não recicláveis, que precisam de ser incinerados. O Governo deu por isso pela primeira vez no fim de 1985, quando Carlos Pimenta estabeleceu por decreto as bases de uma política nacional de resíduos. Passaram cinco anos até o Governo abrir concurso para a construção de uma incineradora em Sines. O "povo" protestou e o Governo fugiu. Passaram outros cinco anos e, em 1995, Teresa Gouveia lá convenceu Estarreja a engolir a incineradora. Estava o problema resolvido? Não estava. Em 1997, José Sócrates abandonou o projecto de Estarreja e resolveu entregar a incineração dos resíduos a um consórcio de cimenteiras. Em 1998, esse consórcio propôs quatro sítios possíveis para a co-incineração: Outão, Alhandra, Souselas e Maceira. Elisa Ferreira escolheu Souselas e Maceira. O "povo" protestou e o Governo fugiu. Em 1999, Sócrates, já ministro, removeu o sarilho para uma comissão científica independente, a CCI, como se coubesse a uma comissão científica tomar decisões políticas. Este ano - 2000 - a CCI recomendou, em vez de Souselas e Maceira, Outão e Souselas. O "povo" protestou. Com Manuel Alegre à frente, os deputados de Coimbra prometeram fazer coisas terríveis. Vários cientistas arrasaram as conclusões da CCI. A oposição exigiu em coro que o assunto fosse imediatamente revisto. E agora o Governo, como sempre, hesita. Entretanto, os resíduos não deixaram de se acumular ao acaso. Em 15 anos, 15 anos, não se avançou um milímetro. O Estado pede aos portugueses trabalho, eficiência, dinheiro e sacrifícios - em nome da "modernização". Mas sucede que o exemplo do Estado corrompe a sociedade e é sem dúvida o principal obstáculo à "modernização".
Vasco Pulido Valente assina esta coluna ao sábado e domingo

AC

Ps: Recuperei este artigo de 2000, porquê?
Para lá do caso concreto, não é exemplo lapidar, do muito que continua a acontecer neste tão maltratado País onde, em bom rigor, somos nós os maltratados?
Quando não votam, quando votam nos governos que têm uma grande parte da escória dos governos Sócrates, estão à espera de quê?
Deu-se o 25 de Abril de 1974.
Daí para cá, ainda que se tenha progredido em muitas áreas, FELIZMENTE, o exemplo supra não está acompanhado de centenas de outros exemplos que fazem com que Portugal tenha os bloqueios actuais?

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Ainda a Propósito de António Guterres (AG)
Naturalmente, penso eu, seja a propósito deste político português, seja de outra qualquer personalidade nacional ou estrangeira, ou tema, existirão sempre opiniões concorrentes e divergentes. Mas tentar a isenção parece-me um dever.
Cabendo sempre a outrem a apreciação do que digo escrevo e faço, ainda assim creio que as minhas palavras no post sobre a eleição de AG para SG da ONU e concretamente sobre ele, continuam a parecer-me razoavelmente equilibradas e mesmo decentes.
Até porque as circunstâncias da vida fizeram com que eu tivesse a possibilidade de construir uma opinião sobre ele não pelo - diz que disse - nem pelos media. Além disso, relativamente ao ISTécnico onde se formou com uma brilhantíssima nota, também se sabem algumas coisas.
Os meus olhos focaram-se agora sobre umas breves e recentes frases de Vasco Pulido Valente (VPV) sobre AG e sobre a defesa dele a cargo de Francisco Seixas da Costa (FSC).
Recordaria aos menos atentos que, na minha opinião, VPV tem uma acidez muito própria nas apreciações que faz sobre todos e tudo, raramente se safando quem sai das suas apreciações sem nódoas muito negras, e que FSC tem um conhecimento bom acerca de AG nomeadamente porque integrou o seu governo e, além disso, teve e tem ligações ao PS, o que não é nada de condenável.
VPV diz que AG é fraco, influenciável, indeciso, superficial, com um temor de dizer não e recorda o seu péssimo governo.
Já FSC caracteriza no seu estilo próprio a pena de VPV. E defende AG, naturalmente, compreensivelmente.
Nessa defesa, FSC releva o mérito pessoal de AG e concretamente no processo que o levou a alcançar o cargo de SG, e refere que AG projectou Portugal na cena internacional citando o caso do desafio do euro, Timor e ter sido Alto Comissário das NU para os refugiados.
Porque já vou tendo alguma experiência de vida no que se inclui vivência com diplomatas de altíssima craveira, cá e lá fora, creio saber bem como se contam as histórias e como se compoõem retratos ao logo dos anos.
Isto dito e à laia de complemento ao que escrevi sobre AG direi que:
1. Em relação ao que refere VPV, não tenho a certeza que AG seja um homem fraco e superficial; mas tenho a opinião de que é indeciso, muito influenciável, tem um olhar terrível para quem não lhe for agradável e sim, os seus governos fizeram muito mal a Portugal. Mas VPV devia ter valorizado o que AG tem de bom. Lamentável.
2. Quanto ao que FSC (um dos vários que foi dando o fígado pela pátria, o que deve custar imenso!) escreveu, respeito a sua opinião mas, também tenho bem presente o que o saudoso Sousa Franco registou para a história. E sim, apreciar os governos de AG apenas nos corredores das alcatifas pode toldar um pouco a vista.
E, claro, pela cartilha conhecida, nada de referir um único defeito ou pecha de AG. Igualmente lamentável porque não isento.
Em síntese, AG é para mim um homem intelectualmente brilhante, foi muito hábil na construção da sua carreira política internacional o que não é para todos, só é pena que nunca queira ter tido paciência e a competência para tratar das coisas do seu País, a que fez bastante mal. Como está comprovado com números.
Um homem brilhante, sempre a tratar da vidinha. Mas estou bastante satisfeito por ter ganho o lugar na ONU.
AC