quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

IDOSOS, PASSADO, PRESENTE, FUTURO ?

E o FUTURO ? (sublinhados meus)
A questão "idosos" é um dos problemas mais sérios em qualquer sociedade. Como em muitos outros aspectos da vida em sociedade, a evolução dos tempos / da vida contemporânea alterou muito e em diversas áreas direi mesmo RADICALMENTE, o que acontece hoje comparado com, por exemplo, o que acontecia até 1980. Começo o que quero abordar com um extracto de um artigo de jornal.

(...) "Quando o pó pandémico assentar, temos de rever a nossa relação com os velhos. Por exemplo, as casas do futuro não podem ser apenas “verdes” e preocupadas com os ursos da tundra, têm de ser casas preocupadas com os nossos pais. As casas da cidade não podem ser pensadas apenas para a família nuclear, têm de ser pensadas para uma família mais alargada. A par desta mudança arquitectónica, precisamos de uma revolução moral: não podemos continuar a viver no pressuposto de que a velhice dos nossos pais não pode ocupar o nosso espaço, o nosso tempo e o nosso dinheiro. (tempos atrás, H. Raposo, Expresso)

Não existe um Portugal, existem infelizmente muitos Portugais. Açores (e dentro dos Açores vários, basta olhar por exemplo à costa Norte de S. Miguel), Madeira, Trás-os-Montes, Alentejo, Beiras, serra Algarvia, arredores de Lisboa e Porto e Setúbal, etc. Lembremo-nos por exemplo do que se vivia e como se vivia entre 1900 e 1980 do século passado. Para não recuar mais no tempo, épocas que não podem ser esquecidas.

Aquele texto de há várias semanas de H. Raposo sintetiza quanto a mim uma boa parte das questões sobre o tema, e todos nós devíamos ponderar sobre esta realidade, realidade de todas as sociedades, os idosos, o envelhecimento, o fim de vida, e o necessário, merecido e  condigno apoio que a todos sem excepção é devido. Merecido e condigno apoio que milhares (ou mesmo milhões?) nunca tiveram e continuam a não ter. A sociedade portuguesa, o mais depressa que fosse possível, precisa de alterar muita coisa, desde as posturas, à cultura, ao parque habitacional, etc. Morre-se de frio, sim, morre-se de frio em Portugal. Melhor, passadas estas décadas do 25ABRIL continua a morrer-se de frio em Portugal. Só quem pode pagar contas brutais de eletricidade entre meados de Novembro e fins de Fevereiro e pensa além disso nos problemas dos outros, percebe bem o que acontece com milhares de famílias, e sobretudo com os afastados em aldeias e lugarejos quase desertos. 

Sim, quantos vivem em casas húmidas e com infiltrações? Diz-se por aí que, provavelmente, pelo menos dois milhões de portugueses não conseguem manter a sua casa quente. Vários desses usam mantas, parecem uns chouriços com tanta roupa vestida. Quantos portugueses integram o "clube pobreza" ?

Não chega celebrar o dia internacional do idoso ou  outra data relevante relacionada, e muito menos ainda como o fez o aldrabão político chamado António Costa, sempre a fazer propaganda como há poucotempo ao juntar-se a um dos dinossauros das instituições de solidariedade social.

 IDOSOS,  FAMÍLIAS,  LARES

Qual é a real dimensão deste problema da nossa sociedade? Grave, de certeza. E nada se tem como certo, em números, em situações. Há lares e lares, uns legais e muitos ilegais, de duas espécies, a que voltarei.
Dignidade e salvaguarda da sua segurança são duas palavras que se usam quando se fala destas coisas. Mas muitos esquecem, e muitas vezes, de falar no carinho e no conforto físico e moral devido aos idosos. E, sobretudo, para lá da propaganda, esquecem-se de tratar de alterar a realidade que é tão dura e deplorável ainda por todo o lado do país.

Não falo por botabaixismo ou por ser contra este sr Costa. Porque todos os seus antecessores, sem excepção, têm culpas no cartório, TODOS. E se me lembrar dos sucessivos presidentes da República e das suas primeiras damas (!?!?) a começar lá muito atrás na I República, e as suas frequentes visitas a obras de caridade, ainda mais vómitos me provocam.

Falo por conhecer várias e diferentes realidades. Falo por conhecer um lar onde viveu a mãe do meu genro, onde mensalmente para pagarem  a coisa cada um dos dois filhos juntava ainda quase 100 euros á totalidade da reforma da senhora, cerca de 3300,00 €.
Falo por saber de lares que são pequeninas vivendas que não obedecem ás normas da legislação em vigor quanto a requisitos vários incluindo espaços físicos.
Falo por conhecer instalações de Santas Casas de Misericórdias, em zonas da grande Lisboa e na Beira-baixa.
Falo por ter uma ideia de que há pequenos lares de gente fina onde, quando durante a pandemia o ano passado, houve problemas infecciosos como aconteceu por todo o lado mas nunca veio nada nos OCS.
Falo por conhecer o lar em Lisboa onde esteve a minha mãe, um edifício de 4 andares com séculos de existência, e por conhecer o lar onde está desde Maio passado, um edifício com 19 anos com capacidade para 96 utentes tendo agregada uma pequena unidade de cuidados continuados. 
Falo, portanto, com base em algum conhecimento de causa, na minha pequena experiência, e por ter começado a lidar com o tema “Lares” "somente" há cerca de 14 anos.

Mas falando de lares legais e lares ilegais, naturalmente que os legais obedecem às diferentes e diversas normas em vigor, e têm uma relação normal com a segurança social, estão licenciados e, em consequência, recebem algum co-financiamento.
Quanto aos ditos ilegais, haverá muitos que por diferentes razões continuam sem ter (justa ou injustamente) a aprovação formal por parte da segurança social, e muitos estarão em condições de obter licenciamento, mas ao não tê-lo é assim que se evita o co-financiamento e "helas", bendita POUPANÇA! 

Haverá muitos outros, e não só nas zonas interiores do país, que pura e simplesmente são mesmo ilegais, e sendo muitos uma verdadeira enxovia. Vivem do que auferem por cada utente, mensalidade bastante mais baixas, e na esmagadora maioria não têm condições nenhumas para poderem acolher idosos e deles tratar com decência e dignidade. Amontoam aos 3 e 4 num quartinho?

Nesta questão dos lares há aspectos vários a ter em conta, designadamente pelo menos os seguintes: 1) os equipamentos sociais, a infra-estrutra física e inerentes condições e observância ou não ás normas em vigor; 2) os funcionários, trabalhadores em cada instituição; 3) a alimentação; 4) a assistência médica e sanitária); 5) os familiares dos utentes; 6) as inspeções aos lares; 7) ocupação de tempos livres.

1) Os equipamentos sociais - não há milagres, ou se constroem ou não se constroem. O Estado / poderes públicos/ sucessivos governos e AR's podem assumir esse encargo? Nunca tal foi possível economicamente, mas creio que alguma coisa mais podia ter sido feita, entre poder central e poder autárquico. Estou a lembrar-me que se começou a inverter a situação da horrorosa Mitra em Lisboa apenas nos últimos tempos de Santana Lopes na Misericórdia de Lisboa. Um caso/ exemplo eloquente, a meu ver, quanto ao arrastar anos sem fim destas situações. 

2) Trabalhadores - também aqui não há milagres. Que formação? Que nível escolar? Quanto se paga? Atenua-se o baixo salário arranjando forma de poderem levar alguns alimentos para casa? O horário de trabalho, significa ocupação no lar desde as 0900 às 1800h, diariamente, ou há folgas, para poderem descansar e, ao mesmo tempo, poderem acorrer a outros locais de trabalho para arranjar mais uns euros? 

3) Alimentação - Aspecto muito importante, pois existem necessidades diversas, consoante o estado de saúde dos utentes. E, quanto à qualidade? Como é a qualidade geral naqueles que amontoam 2 e 3 pessoas numa pequena divisão e a mensalidade é talvez 750€? Lares existem onde as refeições são confeccionadas nas respectivas cozinhas. Em outros, a alimentação vem sobretudo de "catering". E aos fins de semana? Massa ao almoço e massa ao jantar? Hum..... 

4) Assistência médica e sanitáriaNeste lar onde está a minha mãe, existe médico e pessoal de enfermagem diverso. Bem sei que estamos em pandemia, mas diariamente é tirada a febre e acompanhado o estado geral do utente. Há pessoal de enfermagem no lar durante toda a noite. Logo em Março passado criaram a chamada "Box das Emoções", para proporcionar visitas controladas do ponto de vista médico-sanitário, um pequeno alojamento com ar condicionado, onde cabem até 6 pessoas em pé, colado a um janelão enorme e assim se evitam contactos. Os funcionários entram por uma porta dedicada, antes da qual existe um túnel de desinfecção onde são pulverizados. É assim em todos os lares? Hummmm....

5) Familiares dos utentes - Quanto aos familiares dos utentes de tudo um pouco haverá. Casos de famílias que descarregam os idosos e depois não querem mais saber do caso. Visitas inexistentes ou raras. Haverá familiares que, em dada altura, ficam de súbito com situações muito delicadas, com um dos seus idosos de repente com grande fragilidade física, diminuído, mas ainda com alguma lucidez, e gritando que não quer ir para um lar. 
Mas também há casos como o de uma senhora de quase 96 anos, lúcida e no seu perfeito juízo que, há praticamente 2 anos, na sequência de uma crise de arritmia, consciente então de que era arriscado continuar a viver sozinha e por prezar a sua independência e não querer sobrecarregar a família, decidiu que queria ir para um lar, e foi. 

6) Segurança social, inspeções - Aspecto muito delicado. Qual a capacidade efectiva da segurança social para inspecionar com regularidade, 2 vezes por ano, os lares? A segurança social dispensa-se de visitar/ inspecionar os lares das IPSS? E visita os outros? As autarquias, que postura quanto a este assunto? Lembro-me de meses atrás um presidente de Câmara dizer na TV no início da pandemia que tinha sido informado da existência de X número de lares no seu concelho. Desconhecia.

7) Ocupação de tempos livres - este aspecto é igualmente importante. Que animador social? Que formação para essas pessoas? E ter por exemplo cabeleireira, sobretudo para ajudar lavagens de cabeça a quem, por exemplo, possa por vezes ter alguma falha de equilíbrio? Sei do que falo.

Este tema é muito complexo, e não se pode encarar com leviandade como se vê amiúde. Como será o futuro? A população idosa aumenta.
Como está a ser encarado o imobiliário?
A vida contemporânea em que, por exemplo, os filhos cada vez mais tarde saem de casa dos  pais, é de molde a ter de regresso os avós também para dentro desta casa? A fragilidade e dependência, as questões de mobilidade, variam de caso para caso. Isto é real? Hummmmm.

IPSS, lares legais, lares à espera de legalização, lares mesmo ilegais e que são às centenas, casas de repouso, associações de lares, estruturas residenciais, santas casas, enfim um mundo complexo, descurado há anos, e a realidade da pobreza e dos mal remediados é uma triste realidade que mais complica o problema do envelhecimento.
Não tenho soluções milagrosas. Só procurei abordar aspectos de uma realidade de que conheço alguma coisa. Assunto muito complexo.
AC 

2 comentários:

  1. Muito bem analisado (tambem conheço o lar onde "está" a minha mãe).

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  2. Muito bem analisado (tambem conheço o lar onde "está" a minha mãe).

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