4 MARÇO 2001
Foi há vinte anos que desapareceram de entre nós 59 pessoas, 36 das quais nunca encontradas e, portanto, nunca as famílias puderam fazer o que é normal quando desaparece um familiar.
Escreve-se agora nos jornais que daí para cá tudo mudou quanto a inspeções a tudo o que é pontes, túneis, aquedutos, viadutos, etc.
Escreve-se agora nos jornais, é uma força de expressão, melhor será dizer - papagueiam o que lhes dizem, ou repetem os papéis que lhes dão para copiarem. Ouvem e lêem e zás, sai notícia. Contraditório? Dúvidas?
Nunca lhes ocorre, NADA lhes ocorre, nem uma duvidazinha os assalta! Compram tudo sem pestanejar. Também por isso estamos como estamos.
Logo pouco depois da tragédia Jorge Coelho, hábil e matreiro como é, demitiu-se e com a célebre frase - a culpa não pode morrer solteira!
Mas, na realidade, a culpa morreu mesmo solteira isto é, a ponte ruiu por obra e graça do espírito santo. Nada, nem ninguém teve culpa daquilo ter acontecido. ZERO culpados. Voltemos ao - tudo mudou daí para cá!
Ora bem, eu que não percebo nada destas coisas leio - tudo mudou daí para cá - e se fosse eu o jornalista ao ouvir o técnico dizer isto, parava uns segundos e a seguir - desculpe, se tudo mudou daí para cá, quer dizer então que a periodicidade das inspeções ás infra-estruturas, a profundidade ou a superficialidade dessas inspeções não eram PORTANTO as adequadas? Não concorda? Ou seja, há anos que se andou a não fazer o que devia ser feito, ou não? Eu sei que passam 20 anos, mas face ao que me diz, nessa altura havia muita negligência, ou não?
E eu continuaria - e outra coisa se fizer favor, como quase sempre acontece na vida, essa tragédia teve muito provavelmente causas várias, e não só uma, não concorda?
Portanto, voltando à tragédia, voltando 20 anos atrás, voltando a Jorge Coelho, a realidade é que o ministro deu à sola, ninguém desse ministério nem das IP veio publicamente confessar se faziam inspeções, que inspeções faziam, as datas de todas as inspeções, e muitos etc. etc., tal como nenhuma empresa das que durante anos andaram a tirar areias e com isso a ganhar dinheiro veio a público dizer desde quando o faziam, com que periodicidade, se tinham autorização para tal, e se pagavam as taxas devidas, etc., etc., tal como todas as autoridades com superintendência sobre o rio e sobre todas as actividades nele realizadas não vieram confessar-se sobre autorizações dadas ou não, sobre fiscalizações, ou sobre ausência de meios para fazer fiscalizações. ETC!
Em síntese, e deixando de lado muitas outras coisas, em tribunal tudo bem, tudo foi ilibado, a culpa morreu solteira.
Só faltou escreverem que culpados foram as 59 vítimas que não tinham nada que andar a deslocar-se de carro e autocarro.
Que desgraça de país mas, sobretudo, que vergonhosos poderes públicos de então. Cheira-me que foi nessa noite que Guterres tomou a decisão de se pirar e ir tratar da vidinha assim que pudesse.
António Cabral

Sem comentários:
Enviar um comentário