Mostrar mensagens com a etiqueta fragatas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fragatas. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

A  PROPÓSITO  de  FORÇAS  ARMADAS,

Fragatas, Arsenal do Alfeite, viaturas, SAFE . . . . 
SAFA . . . . . 

Como referi num texto anterior vi com  muita atenção (não na própria noite, mais tarde e voltei a ver uma segunda vez usando a tecnologia) a entrevista que o Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA), Almirante Nobre de Sousa, concedeu há tempos à TVI e a que me referi noutro texto. Texto que mantenho integralmente.

Penso ter deixado claro nesse texto que considero que as dúvidas mais que legítimas que todos os concidadãos (como eu) possam ter em relação a este complexo assunto foram grandemente dissipadas nessa entrevista.
Mas não totalmente, não era possível ao CEMA.

Creio aliás que se o ministro (MDN) da defesa dita nacional (não é, como nunca foram os antecessores todos, é só ministro da tropa) tivesse tido um comportamento e postura diferentes, muito daquilo que se foi passando e sendo criticado não teria ocorrido.

Mas faz parte das coisas - se não é do cu é das calças - atacar o governo. Este e todos os anteriores governos, e os que se lhe seguirão, e por isso, TAMBÉM, nunca saímos desta desgraça.

O Almirante CEMA dissipou a maioria das dúvidas que possamos ter.
A mim dissipou muitas mas há muitas mais coisas a considerar, opinião pessoal naturalmente.

Para começar, o país está a embarcar num processo complexo e muito dispendioso. Mas, como é público e notório, Portugal é um país riquíssimo, nada em prosperidade e dinheiro. Assim, "No problema"!

No império colonial a Marinha combateu, com navios e homens.
Nos homens há que recordar designadamente as guarnições dos navios que estavam na Guiné / Guiné Bissau (fiz parte disso) e onde houve combates sérios, e as companhias de fuzileiros e os destacamentos de fuzileiros especiais, em todas as partes do então império.
Morreram muitos homens. 
Muita gentalha na nossa história recente esquece isso, assobia para o lado, despreza isso.

Depois do fim do império, que eu saiba e ainda bem, a Marinha nunca mais combateu.

Toda esta má telenovela se tem desenvolvido muito por culpa dos políticos e, concretamente, do governo actual, com ênfase para o MDN como já referi.

Como em tudo o mais (soberania, direitos de opinião e expressão, independência da comunicação social, política externa, segurança, defesa nacional, forças armadas, forças de segurança, política de imigração, cultura, apoio às crianças e aos idosos, habitação, etc) este assunto devia ser objeto de um amplo consenso político e estar afastado da luta política, ainda que constitucionalmente legítima.

Não me parece que seja isso que acontece na sociedade portuguesa, e daí que eu invoque sistematicamente - a triste realidade da política nacional e a triste realidade da sociedade portuguesa.

No caso do assunto fragatas obviamente que não há consenso nacional.
Desconheço se o PS foi genericamente informado do desenvolvimento deste assunto por parte do governo.
Ou foi e finge que não?

Se calhar o PM informou genericamente o PR da acção que o governo vinha desenvolvendo. Sim ou não?
Lembrar que ao governo cabe constitucionalmente a condução da política de defesa. Facto.
Mas isto não invalida alguns passos informais, que eu digo sensatos, equilibrados, mas que tinham necessariamente de ser superficiais. Enfim!

Mas para lá do navio ser ainda basicamente uma espécie de protótipo, que será em princípio recheado de contemporânea arte da guerra no tocante a, equipamentos, tecnologia, muita informática, muitos chips, muita IA, e a complexa e inerente integração de tudo para que funcione eficazmente e quando preciso, para lá das obras de modernização na Base Naval no Alfeite e muitas outras coisas, a mim fica-me sempre uma dúvida de fundo.

E não se trata apenas da fiabilidade de material, deste material.

A minha maior interrogação é sobre a fiabilidade destes actuais titulares de órgãos de soberania concretamente, deputados, Presidente da República (que parece gostar muito de convocar o CSDN (Conselho Superior de Defesa Nacional)) e governantes, e sobretudo fiabilidade dos antecessores.

Fiabilidade? 
A mim, com raras excepções, nunca me inspiraram confiança, e a fiabilidade que neles sempre vi pelas suas acções e sobretudo inações, 
é/ foi escassa ou nula. 

E estou a falar nisto exactamente a propósito da quase certa compra das fragatas, mas sobretudo a propósito do que, no meu entender naturalmente, deviam ser os apetrechamentos da Marinha e da Força Aérea, num país como o nosso que tem jurisdição e responsabilidades numa massa oceânica descomunal.

Lançaram-se num complexo e super dispendioso programa militar.
Navios, e o PM mais que o inarrável MDN, procuraram convencer da indispensabilidade das fragatas.

Bom, como escrevi noutro texto, estas fragatas e como explicou o almirante CEMA, encaixam neste louco mundo contemporâneo e expectável.

Bom, mas lançando-se num programa destes, envolvendo maquias financeiras descomunais, porque não se lançaram há mais tempo na mobilização dos estaleiros em Viana do Castelo para construção séria de mais patrulhas oceânicos como os poucos que temos que, esses sim, se bem dotados de material, preencheriam muito do que há a fazer em termos de soberania, patrulhamento, fiscalização das nossas ZEE?

Lembro-me bem da história que o meu melhor amigo militar (almirante reformado) me contou acerca dos patrulhas oceânicos, história em que um dado CEMA imaginou que receberia um navio em 2005 a tempo do Dia da Marinha desse ano (a 20 de Maio) poder ser celebrado em Ponta Delgada com a presença de um novo patrulha oceânico, que seria chamado exactamente de NRP Ponta Delgada. 

Mostra a história que não recebeu patrulha oceânico, não foi celebrado o Dia da Marinha de 2005 em Ponta Delgada, e creio que não há nenhum navio com o nome dessa cidade Açoriana.

Corria o maravilhoso ano de 2005, era Sócrates a começar, e como sempre típico das esquerdas, muitas loas a Forças Armadas mas depois, na prática é ver o que acontece. Basta lembrar um pequenino e tristemente famoso MDN.

Portanto, fragatas, mas a realidade é que passam 50 anos sobre 1976 e continuam "estes de cima" (como todos os anteriores "de cima") a não definir que Forças Armadas o país deve ter, depois as missões, depois os meios.

E assim continuamos nesta triste telenovela, compras de material sem um enquadramento global sobre o que como país se nos coloca.
É assim na Marinha , é assim para a Força Aérea.

E assiste-se ao aparecimentos de notícias em catadupa, fragatas, obras no Arsenal do Alfeite, viaturas para estes e viaturas para aqueles, e irá chegar "aos finalmente" a telenovela da substituição dos F-16 da Força Aérea.
Tudo aos solavancos, sem um enquadramento global.
Como se não houvesse guerras, alianças, "drones", e uma evolução tecnológica brutal que forçosamente impõe que se olhe com muito cuidado ao que fazer e como fazer a guerra, HOJE!

Bom dia
Saúde, o verdadeiro Euromilhões da vida
Boa sorte, felicidades

AC

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Um bom amigo militar enviou-me este texto escrito por um oficial da Marinha reformado.

Dá conta de mais um episódio da nossa vida política (que não vi nem li), dá conta da leviandade com que muitos políticos tratam dos assuntos do Estado. 
Neste caso, o actual ministro da chamada defesa nacional, que mais uma vez abriu a boca certamente convencido que estava a fazer uma boa figura mas que, de facto, não passou de uma "triste  figura"
Pronunciou verdadeiras barbaridades, neste texto realçadas com extrema elegância. 
Barbaridades que se confundem com alarvidades.
AC

O CICLO DE VIDA

Há mais de cinquenta anos, desde que me iniciei nas artes da engenharia naval, que me comecei a preocupar com o ciclo de vida. Não, em particular, com o meu, mas com o dos navios e dos seus equipamentos.

Primeiro, foram os professores na Escola Naval a explicarem-me o que era, a sua importância e, em especial, como se calculava o seu custo. “Atenção ao custo do ciclo de vida dos equipamentos!”, diziam-me eles. “Não é só o custo de aquisição; há muitos outros, cuja soma é igual ou superior a esse”, avisavam-me. “Podes comprar um excelente carro, mas, se não tiveres dinheiro para a carta de condução, a gasolina e as revisões, o carro não te serve para nada.”

Depois vieram os embarques e aprendi que nem sempre havia dinheiro para sobressalentes ou reparações. Cedo percebi que as verbas para cobrir o custo desse tal ciclo de vida eram uma manta curta, que deixava muita coisa a descoberto. E, claro, culpava os que deviam ter calculado e assegurado essas verbas e não o tinham feito.

Só que, algum tempo depois, passei a ser um dos que tinham de calcular e assegurar que tais verbas existiam, e percebi que a coisa não era fácil. Havia os malandros dos ministros que não davam essas verbas e, muitas vezes, ainda cortavam as poucas que havia. A manta era cada vez mais curta e, muitas vezes, nem para as emergências chegava. Mesmo para os navios que eram as jóias da nossa Marinha.

Até que fui nomeado responsável pela manta que devia cobrir a manutenção de toda a esquadra. Nós bem nos reuníamos todas as manhãs para tentar remendar uma manta cada vez mais curta e esburacada, mas havia sempre qualquer coisa que nos contrariava. Ou era um incêndio numa corveta nos Açores, ou era a avaria grave de um patrulha no Alfeite, ou era uma fragata que tinha de ir para a Guiné. Havia sempre um imprevisto que piorava a situação. E lá perdia eu mais umas noites de insónia, preocupado por não ser capaz de cumprir a missão.

Eu bem ia todos os meses explicar a situação desastrosa ao Almirante CEMA, mas acabávamos sempre por concluir que, sem dinheiro, não se faziam milagres. E o drama era que os malandros dos ministros que podiam dar esse dinheiro queixavam-se de que também não o tinham. Por isso, decidi ir-me embora e deixar para outros a preocupação com o ciclo de vida dos navios. Decidi, finalmente, preocupar-me apenas com o meu ciclo de vida.

Até que, há uns meses, ouvi o actual ministro da Defesa Nacional, numa audição na Assembleia da República, falar do ciclo de vida das fragatas que estava a adquirir através do programa SAFE da União Europeia. A audição tinha sido requerida por uns deputados muito zangados com outro, que terá dito num jornal que os navios estavam a ser adquiridos em segredo.

Claro que não me vou meter nessa discussão política, mas confesso que fiquei impressionado com o que o ministro disse sobre o temido custo do ciclo de vida das novas fragatas. O ministro falou pelo menos onze vezes do ciclo de vida durante a audiência. Começou por afirmar categoricamente: “Nós estamos a comprar ciclos de vida!”. E depois explicou: “Nós estamos a aproveitar a oportunidade e não queremos fazer, como no passado, comprar fragatas muito boas, certamente, mas porque não se pensava no ciclo de vida, não havendo dinheiro para combustível, ficavam paradas no Arsenal do Alfeite. Pronto. Isso não vai acontecer mais, porque nós estamos a comprar um ciclo de vida!”

Estremeci ao ouvir o senhor ministro. Eu, que andei tantos anos preocupado com o ciclo de vida dos navios, que estive na aquisição de fragatas a pensar no seu ciclo de vida e, principalmente, no seu custo, e que tinha sempre visto a manta para o cobrir reduzida por vários ministros, estava agora a ouvir um deles assegurar-me que ia comprar o ciclo de vida das novas fragatas por 30 anos! Durante 30 anos, nenhuma das três fragatas que o ministro estava a adquirir ficará parada por falta de sobressalentes, de reparações, de modernizações, e até de combustível!

Que inveja tenho dos camaradas que ocuparão o meu lugar! Que inveja tenho das noites descansadas que passarão, sem estarem preocupados com a impossibilidade de manter os navios como desejariam! Finalmente, alguém resolveu o problema do ciclo de vida, comprando-o!

Jorge Bettencourt