A PROPÓSITO das ELEIÇÕES 10MAR2024
QUE TAL RECORDAR OS PEIXES?
QUE TAL RECORDAR OS PEIXES?
(13 Junho 1654, a propósito dos índios do Maranhão)
"Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes!
Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Ua só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter.
Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume se não sente. . .
A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda pior.
Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos.
Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.
Olhai como estranha isto Santo Agostinho: Homines, pravis proeversisque cupiditatibus, facti sunt veluti pisces invicem se devorantes.
Os homens com as suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes que se comem uns aos outros.
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e eu que prego aos peixes, para que vejais quão feio e abominável é, quero que o vejais nos homens.
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Para cá, para cá; para a cidade é que haveis de olhar.
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Descendo ao particular, direi, peixes, o que tenho contra alguns de vós.
E começando aqui pela nossa costa: no mesmo dia em que cheguei a ela, ouvindo os roncadores e vendo o seu tamanho, tanto me moveram o riso como a ira.
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Mas é regra geral que Deus não quer roncadores e que tem particular cuidado de abater e humilhar aos que muito roncam.
Duas coisas há nos homens, que os costumam fazer roncadores, porque ambas incham: o saber e o poder.
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De alguns animais de menos força e indústria se conta que vão seguindo de longe os leões na caça, para se sustentarem do que a eles sobeja.
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Com os voadores tenho também uma palavra, e não é pequena a queixa.
Dizei-me voadores, não vos fez Deus para os peixes?
Pois porque vos meteis a ser aves?
O mar fê-lo Deus para vós e o ar para elas. Contentais-vos com o mar e com o nadar, e não queirais voar, pois sois peixes.
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Aos outros peixes do alto, mata-os o anzol ou a fisga; a vós, sem fisga nem anzol, mata-vos a vossa presunção e o vosso capricho.
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Mas vede, peixes, o castigo da ambição.
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À vista deste exemplo, peixes, tomai todos na memória esta sentença: quem quer mais do que lhe convém, perde o que quer e o que tem.
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E debaixo desta aparência tão modesta, ou desta hipocrisia tão santa, o dito polvo é o maior traidor do mar.
Consiste esta traição do polvo primeiramente em se vestir ou pintar das mesmas cores de todas aquelas coisas a que está pegado.
As cores que no camaleão são gala, no polvo são malícia; as figuras que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício.
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E daqui que sucede?
Sucede que outro peixe inocente da traição, vai passando desacautelado, e o salteador, que está emboscado dentro do seu próprio engano, lança-lhe os braços de repente, fá-lo prisioneiro.
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Vê, peixe aleivoso e vil, qual é a tua maldade, pois Judas em tua comparação já é menos traidor.
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António Cabral (AC
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