E SABER O QUE NÃO SABEMOS ?
Em 8 de Novembro de 2014, no Expresso, faz hoje exactamente 7 anos, Miguel Sousa Tavares (MST) discorreu sobre a Nação, condecorações, heróis, banalização das condecorações, dignidade, empresários, maçonaria, notáveis, artistas, desportistas, administradores de empresas, intelectuais e muito mais.
MST começou o texto por referir que há mais de 100 anos que não se regista feito militar digno desse nome.
Estou a recordar este artigo de opinião exactamente a propósito de muita coisa da política e da justiça do nosso presente, e a propósito também de quem foi alcandorado a herói e que parece continuar a deixar que o seu nome e prestígio sejam usados por gente (civil e militar) de discutível craveira intelectual e com aparências de a soldo de interesses obscuros de origens diversas, podendo com facilidade vislumbrar-se um ou dois mandantes. Na sombra, claro.
A afirmação supra de que parece continuar a deixar-se usar baseia-se apenas em factos noticiados e que os OCS só saberão se lhes forem facultados. É disso exemplo a referência nos OCS a ter estado numa esplanada com um amigo e ser muito cumprimentado por transeuntes. Para quem se afirma reservado e não querer ser político há qualquer coisa que não parece bater certo. Como não bate certo o desejo de uma vida militar, apenas, e, cumulativamente, haver um corrupio de sucessivos e sempre convenientemente publicitados eventos como, conferências, palestras, visitas, almoços, etc. Nisto tudo, algo parece deslocado. Ou todos os cidadãos comuns são tolos, e tudo interpretam maldosamente?
Nesta sucessão de episódios nitidamente enquadráveis numa campanha muito bem orquestrada e de inédita promoção pessoal existe um elemento essencial, a comunicação social.
A comunicação social é um fazedor de opinião. Os diferentes órgãos de comunicação social são fazedores de opinião. A comunicação social, designadamente em Portugal e concretamente em relação a defesa nacional e muito em particular no referente às Forças Armadas, condiciona a opinião pública. Nas últimas semanas, através de certos textos, tem ficado mais forte a sensação de que alguns órgãos de comunicação social parecem estar subordinados a interesses que é legitimo considerar de inconfessáveis ou, pelo menos, esquisitos. Tem ficado muito claro, quer o escamotear de factos quer uma certa campanha de desinformação da opinião pública.
Nas últimas semanas e em particular nos últimos dias cresceram os textos abordando, a sucessão na chefia da Marinha, as posições e silêncios do Presidente da República (PR), o papel do seu chefe da Casa Militar, o futuro do ex-coordenador da estrutura criada e recentemente encerrada pelo governo para o programa de vacinação Covid. E, nos últimos textos, maior realce vem sendo dado a fontes da defesa (!?!?), a generais em que uns pedem o anonimato e outros não, e chegando-se ao ponto de, sem ser assim explicitado, se alegar ilegitimidade nos normais actos administrativos do actual chefe da Marinha, com o argumento de que esses actos (por exemplo, promoções) competirão a um futuro chefe.
Como recordado pelo PR, quer o chefe da Marinha quer o chefe do Exército foram por si reconduzidos, recondução que, portanto, lhes confere todos os legais poderes durante mais um mandato como chefe do Ramo respectivo. Mandato confirmado para um período de 2 anos. Nenhum desses chefes militares está diminuído nos seus poderes.
Considerarão certos jornalistas e as suas nunca esclarecidas fontes (!?!?), que o actual chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas (CEMGFA) que também foi recentemente reconduzido pelo PR por mais dois anos, se deverá igualmente abster de tomar decisões uma vez que estará no cargo por pouco tempo, e tudo deverá ser "congelado" para decisão do seu sucessor?
Estamos perante um jornalismo de discutível qualidade, um jornalismo que, olhando a muitos outros anteriores exemplos mostra não primar, pelo rigor na informação e pela credibilidade. Um jornalismo que denota recorrer a algumas fontes desconhecidas do cidadão comum mas em relação às quais, atentos os seus "préstimos" inseridos em certos artigos e notícias, se pode legitimamente duvidar da sua isenção, competência e credibilidade.
Aos jornalistas, atenta a legislação que enquadra a sua profissão, é requerido que relatem factos com rigor e exactidão, e relatem uma interpretação honesta e isenta desses factos. Que ouçam de facto as partes. Que cumpram os seus deveres. Que tenham bom senso, soprando para o lado a espuma do tempo. Que critiquem, mas que lutem, pela decência na vida pública, pela transparência, contra o compadrio e que dele se excluam. Que respeitem as regras deontológicas a que estão formal e legalmente obrigados. Que se lembrem que, uma democracia madura, sólida, requer jornalismo e jornalistas que prossigam de acordo com o que acima recordo.
Presta-se um péssimo serviço à democracia e às suas instituições se os valores da, liberdade, independência, imparcialidade, isenção, respeito, responsabilidade, exemplo, civismo, respeitabilidade probidade, não estiverem todos os dias presentes no jornalismo.
Há décadas que se observa que em Portugal muitos servem, muitos serviram, sempre sem se servir. Mas muitos se serviram, muitos se continuam a servir. Lamentável, deplorável. Voltando às últimas notícias a que acima me referi, e concretamente à última do DN, a minha conclusão é de que vários aspectos que indiquei e que são seguidos por vários jornalistas, não parecem estar presentes nestas recentes notícias.
Por exemplo, refere-se uma certa estranheza quando a algum desprezo do PR pela equipa de coordenação do programa de vacinação Covid mas, mais à frente, indicam uma visita ao centro de vacinação de Alcabideche, a 22 de Agosto, com o então coordenador a seu lado, onde o PR não deixou de o felicitar publicamente pelo "grande sucesso da vacinação". Esqueceram-se, também, de lembrar que antes de ter terminado a sua missão, o PR condecorou o então coordenador da vacinação, numa altura em que ainda não tinha terminado a sua missão, facto pouco habitual. Habitual é, quando tal considerado adequado, premiar, louvar, condecorar alguém que se desempenhou com elevado mérito na sua missão. Isso é que é usual, no fim da missão.
Por exemplo, este tipo de jornalismo ao mesmo tempo que ecoa popularidade e prestígio de alguém o faz de um modo tão desproporcionado que a super-exposição do visado o começa progressivamente a prejudicar dadas tão efusivas, excessivas e constantes loas na praça pública. Chegam ao ponto de afirmar que o sonho do ex- coordenador do programa de vacinação Covid é ser chefe da Marinha (CEMA). E se calhar não é, querem-no lá para não correrem o risco de o terem noutro poiso.
Por exemplo, querem docemente convencer o cidadão comum de que foi uma muito infeliz coincidência ter ocorrido a notícia da inqualificável intenção do sr Cravinho em relação ao actual Chefe da Marinha precisamente no dia em que o herói das vacinas deixava funções de coordenação do grupo coordenador do programa de vacinação Covid. É mesmo ter o cidadão comum como parvinho de todo.
Por exemplo, referências a que apuraram ter havido determinados acordos para, depois, colocarem certas curiosas fontes a apresentar dúvidas e perguntas directas.
Por exemplo, referirem sempre fontes da defesa, mas não saberem dessas fontes se o governo tinha de facto uma escolha definida para futura chefia da Marinha. Ainda por cima, com tanto acesso a fontes da defesa podiam, por uma questão de rigor, esclarecer o povo ignaro se a escolha tinha ficado, apenas ao nível informal do ministro da tutela coadjuvado pelo seu conselheiro militar, ou se tinha ficado abordada em conversa deles com o Primeiro-Ministro, ou se tinha sido formalmente discutida e aprovada em conselho de ministros e, em consequência, se tinha sido formalmente apresentada ao PR.
Por exemplo, e certamente de acordo com as suas fontes da defesa, elucidam que tinha sido acertado com o governo a substituição da chefia da Marinha até ao final do corrente mês. Extraordinário detalhe de informação rigorosa.
Por exemplo, certamente baseados em fontes da defesa, sabem que as famílias do PR e do ex-coordenador do programa de vacinação foram muito próximas no tempo colonial. Mais um detalhe interessante. Verdadeiro?
Enfim, como se fossemos todos muito burros.
E saber o que não sabemos? Devíamos ser esclarecidos, com rigor.
Esta, a questão para mim primordial.
Querem fazer crer que o CEMA vai ser corrido até ao fim deste Novembro. Porquê a pressa, quando o ex-coordenador do programa de vacinação não está em risco de passar à reserva por atingir o limite de idade em posto (só no final de 2022)?
A fazer fé nas últimas notícias, porquê tantos generais a pronunciar-se sobre estes pseudo dramas na Marinha, sobre o futuro de um vice-almirante da Marinha, sobre o chefe da Casa Militar, sobre o PR?
Receios de que no próximo governo o ministro da defesa seja uma pessoa completamente diferente do sr Cravinho?
Receios de que a popularidade conquistada pelo ex-coordenador do programa de vacinação Covid e sucessivamente empolada na comunicação social, seja já insuportável para o governo ainda em funções, seja já insuportável para muitos políticos de diferentes partidos, seja já insuportável para muitos conselheiros na sombra, seja improvável que venha a chefiar a Marinha no muitíssimo curto prazo, e seja portanto plausível que o queiram encaixar como Chefe do Estado-Maior general das Forças Armadas em substituição do actual, que se sabe andar cansado, e pretender regressar aquilo que gosta e que é lecionar?
Pois, devíamos saber o que não sabemos.
Uma coisa sei, andam por aí muitos que estão cada vez mais nervosos, não sei se consequência de estarem sempre na sombra. Tão nervosos que, sendo fontes anónimas muito interesseiras, o seu nervosismo está a levá-los a que os serviçais escrevam cada vez mais, escrevam de forma precipitada e nada brilhante, e ao arrepio das regras do jornalismo sério, rigoroso, independente.
Isto tudo me lembra que as balas ás vezes fazem ricochete!
António Cabral (AC)
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