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terça-feira, 19 de maio de 2026

COINCIDÊNCIAS, APENAS ?

A fazer fé no que leio por aí José Pedro Aguiar-Branco terá 34 cargos extra às suas actuais funções, sendo que 31 desses cargos estarão sem informação acessível no registo de interesses entregue à Entidade para a Transparência (EpT) porque os dados estarão protegidos por sigilo profissional. 

Aguiar-Branco já terá justificado tudo e que estará tudo dentro das regras e da legislação em vigor, quase tudo funções de advogado.

A legislação em causa, nomeadamente o artigo 17.º da Lei n.º 52/2019, estabelece que não são objeto de acesso público “a discriminação dos serviços prestados no exercício de atividades sujeitas a sigilo profissional”. 

Pessoalmente estou-me borrifando para tudo isto, nem vou perder tempo a tentar perceber se está tudo legal ou não, etc.

O que registo é que sucedem-se coisas destas sobre o actual nº 2 na hierarquia do Estado.

Será por acaso, apenas coincidências?

Ou alguém a pretender mostrar-lhe algumas outras partes do "reality show" que ele elencou há semanas num discutível discurso por ocasião do 52º aniversário sobre o 25ABR74 ?

Temos aqui o ditado popular - com ferro . . . 

AC

REALITY  SHOW

Como aqui referi por diversas vezes e nomeadamente quanto a discursos, notícias, eventos, muitas vezes passo os olhos rápida e superficialmente pelas gordas e arquivo, vindo mais tarde a reler, e comentar ou não.

É o que tenho vindo a fazer por exemplo com discursos de António José Seguro, Marcelo Rebelo de Sousa e outros.

Estas linhas para voltar a Aguiar-Branco, o homem do hífen no nome e que antes de ser deputado e agora Presidente da Assembleia da República além de muitos cargos e tarefas e empregos pela advocacia eventualmente Pro Bono em dezenas de cargos sociais, foi por exemplo ministro da chamada Defesa Nacional, coisa que nem ele foi nem nenhum dos seus antecessores. E foi mau ministro.

Com a ligeira excepção de Eurico de Melo, que tinha uma postura pessoal e política e um peso político bem diferentes dos seus antecessores e sucessores, Eurico de Melo foi muito menos ministro da tropa do que na realidade é/ têm sido os sucessivos ocupantes do 7º andar do edifício ao Restelo.

Mas não me interessa o Aguiar-Branco ex ministro da Defesa Nacional. Interessa-me de novo o seu discurso no 52º aniversário do 25ABR74, as suas abordagens a políticos e o "reality show" que prolixamente referiu.

Será que se referia por exemplo a isto?

Ou seria a isto?
Ou seria a isto?
Ou seria a isto?


Seria às manobras dilatórias de certo sacripanta?

Ou entendeu como "reality show" crescerem milhares de Euros em livros ou pastas de arquivo ou prateleiras de estantes ?

É melhor dedicar-se (legitimamente) às dezenas de cargos em órgãos sociais mas ter talvez mais cuidado com as palavras.

Agora, desde os que lhe viram costas a outros que o não fazem mas vociferam, a jornalistas e etc., tem muitos a espiolharem a sua vida e a descobrir, provavelmente, algumas peças de "reality show".

AC

terça-feira, 28 de abril de 2026

Ainda os Discursos - 25 Abril 2026
Não segui a cerimónia de Sábado de manhã pela TV. Andei na rua.
Li depois o discurso do PR Seguro, que aqui já publiquei, de que gostei e comentei.

Li rapidamente e já aqui publiquei o discurso do Pr da AR, sem comentários com excepção de um, no final, a vermelho
Quando me apetecer lá irei procurar os discursos dos partidos políticos por ocasião do 52º aniversário da memorável data - 25 Abril 1974.

Este discurso do Pr da AR que na minha opinião refere algumas verdades que muitos políticos fingem não perceber a começar pela pérola rosa Delgado Alves, tenho-o como um texto estranho, e que comentarei agora.

Para isso o republico mas apenas as partes que inicialmente sublinhei a azul e com o meu único comentário na altura, a vermelho, na linha final.
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. . . . . . . . .
. . a esmagadora maioria dos portugueses quer este regime, gosta do regime. Mas isso não significa que ache que tudo está bem!
. . . . . . . .
. . Aparentemente, só não gosta, ou desconfia dos políticos.
. . . . . . . .
. . . deixem-me aproveitar, já que estamos a terminar estas celebrações para dizer estas coisas inconvenientes e pouco populares.
. . . . . . .
. . . É altura de admitirmos a possibilidade do problema português não ser a Constituição, o capitalismo, o regime, as instituições ou funcionamento da democracia.
O problema pode estar também em nós. Os políticos.
. . . . . . . . . .
. . . Sim. Todos nós já cometemos o pecadilho de assumir que lá fora existe um país real, com portugueses verdadeiros e cá dentro temos um país “oficial” com portugueses de outra estirpe, casta ou elite.
. . . . . . . . .
. . . Sim. De facto, temos cada vez mais políticos que começaram nas juventudes partidárias e continuaram a carreira sem nunca, diz-se, conhecer o dito “país real”.
. . . . . . . . . . .
. . . Quero apenas lembrar que os portugueses podem ter mesmo razão para sentir desconfiança.
Ou que, pelo menos, devemos admitir essa possibilidade.
. . . . . . . . . .
. . . É preciso acabar com a pouca-vergonha das mordomias dos políticos.
. . . . . . . . .
. . . que o serviço público, para atrair os melhores e para ser acessível a todos, ricos e pobres, deve remunerar bem.
. . . . . . . . . .
. . . E, de repente, temos outras portas giratórias. Entre gabinetes e Parlamento. Parlamento e governos. Governos e administração pública. Assessorias e órgãos do Estado.
Em Portugal, temos uma alternância quase plena. Nós alternamo-nos a nós próprios!
. . . . . . . . .
. . . Mas, com os anos, passámos a olhar com suspeita quem escolhe trabalhar ao mesmo tempo que é deputado.
. . . . . . . .
. . . . O nosso trabalho, Senhoras e Senhores Deputados, é alargar o clube da política. Alargar tanto, que deixe de ser um clube.
Para reforço da qualidade da nossa democracia!
. . . . . . . . .
O 25 de abril é presente e futuro.
. . . . . . . . .
Porque o serviço público não pode dispensar os melhores.
Talvez este deva ser o foco da nossa sessão de hoje.
Ou, pelo menos, devemos admitir essa possibilidade.
Disse.

E acrescento Eu, viva o 25 de Abril, viva Portugal.


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Também estou convencido que a maioria dos portugueses se sente bem no actual regime mas, tal como eu, tristes e desiludidos pois está mal muita coisa.
Agravaram-se desigualdades por exemplo. 
Portugal continua a escorregar para o fundo da tabela olhando aos países todos da Europa, sejam ou não da UE.

De quem é a culpa?
É do 25 de Abril de 1974?
NÃO, NÃO É!

A culpa é de vários ou mesmo muitos dos que se serviram dos cargos para que foram eleitos e nomeados seja, titulares de órgãos de soberania, autarcas, chefias as mais diversas da pesada máquina do Estado.
E na esfera privada, na banca, em muitas instituições, houve muita gente que também têm ajudado a chegarmos onde desgraçadamente estamos.
Foi quem considerou Portugal a sua quinta, foram e continuam os donos disto e daquilo, os donos disto tudo, o que quiserem.

SERVIRAM-SE, em ver de SERVIREM a comunidade /sociedade portuguesa.

Tenho em péssima conta vários políticos. Presumo que não sou só eu. E não vou perder tempo agora a repetir o que tenho escrito inúmeras vezes (ainda o fiz de novo há poucos dias) sobre a importância da democracia, dos partidos políticos, da comunicação social etc.

Quando Aguiar-Branco afirma - É altura de admitirmos a possibilidade do problema português não ser a Constituição, o capitalismo, o regime, as instituições ou funcionamento da democracia. O problema pode estar também em nós, os políticos  - qualquer pessoa honesta reconhece que muitos políticos têm sido parte dos problemas.

Quando se refere o "país real" parece-me uma evidência que há muita razão nessa ponderação.
Basta olhar para o indignado Delgado Alves e ir verificar como foi até agora a sua vida.

E para não referir apenas políticos, olhemos para o CEJ onde desde há anos se formam magistrados. 
Com que idadezinha ficam magistrados?
Pois . . . . . ficam magistrados quando já angariaram imensa experiência de vida . . . não é verdade ?

Portanto, aos indignados como Delgado Alves em vez de falarem para a Lusa e viraram as costas a quem discursa não faria mal nenhum admitir a possibilidade de muitos políticos serem há décadas parte dos problemas que até hoje se arrastam.

Já agora, porque que é que Delgado Alves não virou as costas também  ao PR Seguro pois falou também do tema ?
É porque é da cor e Aguiar-Branco é da direita?  

Muitos portugueses sabem de pouca-vergonhas e de mordomias de muitos políticos e designadamente de deputados. 

Será que o deputado Delgado Alves não ouviu falar nas viagenszinhas em económica depois de terem trocado o bilhetinho de avião a que tinham direito em Executiva/ 1ª classe? 
E que tal o actual e inarrável governador do Banco de Portugal e as suas acçõeszitas?

O serviço público é mal pago. Sabe-se há muito. 
É por isso que ao longo dos anos têm arranjado disfarçadamente umas atenuantes. Em vez de enfrentarem o problema, com dignidade, com racionalidade, com rigor e decência.

Muito bicho careto tem pópó oficial.
As ajudas de custo e as verbas para despesas de representação são uma ajuda, uma atenuante. E nem falemos na percentagem dos que, tadinhos, têm de receber uma grande ajuda pois vivem muito longe!

E toda a gente sabe que é verdade a existência das diferentes e diversas portas giratórias.

"Nós alternamo-nos a nós próprios" - disse Aguiar-Branco e aqui, Delgado Alves podia ter gritado - eu nunca mais fui "jotinha" e nunca mais voltei para uma junta de freguesia!

O Pr da AR disse outras coisas.
Uma que me parece adequada - O 25 de abril é presente e futuro

Porque o serviço público não pode dispensar os melhores - também afirmou, e concordo absolutamente.

Mas este discurso do nº 2 na hierarquia do Estado é para mim um pouco estranho.
E começo pelo final. Tal como o Presidente Seguro não terminou como creio seria adequado - viva o 25 de Abril, viva Portugal.

Demasiado paleio para referir o tema que decidiu escolher para o 52º aniversário da memorável data - 25 ABRIL 1974.

Mas será que o financiamento dos partidos políticos é o problema maior da nossa democracia, da nossa história recente?

É o financiamento dos partidos políticos a causa maior para,
- a questão da habitação, da saúde, da educação, 
- do emprego, da fuga de muitos para o estrangeiro, 
- do descontrolo da imigração, 
- o estado do sistema de justiça, 
- da continuação de nada se saber da ONU quanto ao nosso pedido de alargamento da plataforma continental feito em 2013, 
- das nossas fragilidades estruturais, da nossa indústria, 
- da nossa economia, 
- do estado das forças de segurança, ou das Forças Armadas, 
- das baixas pensões, do estado de muitas vias rodoviárias, 
- do desordenamento do território, 
- dos problemas da CP ou da TAP, 
- das carências no âmbito da cultura,
- dos problemas no âmbito de creches e lares para os nossos ascendentes,
- dos incêndios e da proteção civil, 
- do estado da comunicação social, ETC. 
- ETC. ETC. ETC. ETC. ETC ?

Obviamente (opinião pessoal, naturalmente) senhor Pr da Assembleia da República que o financiamento dos partidos políticos está longe de ser uma coisa clara. Decente.

E temos ainda muitas telenovelas como no âmbito da "Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP), ou da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos (CADA), ou decisões do Tribunal Constitucional, ou as (não) nomeações para diversos órgãos do Estado, ou legislação vária discutível ou até por regulamentar, para não falar no Código do Procedimento Administrativo que em Portugal serve para muita gente no Estado e fora dele limpar o rabo.

Senhor Doutor Aguiar-Branco disse que achei o seu discurso estranho.
Sabe porquê?

Porque sou medianamente educado.
E também por isso lhe digo que se eu tivesse estado no Parlamento quando discursou não me levantava e nem lhe virava as costas. 
Ficava sentado, e não aplaudia.

Depois, enviava-lhe uma carta pessoal a manifestar as minhas discordâncias.
Seria assim, não sou mal educado.

António Cabral (AC)

segunda-feira, 27 de abril de 2026

NÃO SEGUI A CERIMÓNIA. 
JÁ LI O DISCURSO DO PR, ACABO AGORA DE LER O DE AGUIAR-BRANCO

Sublinhados meus a AZUL, comentários a VERMELHO
AC

Discurso do Presidente da Assembleia da República na
Sessão Solene Comemorativa do 52.º Aniversário do 25 de Abril de 1974 

​Palácio S.Bento, 25ABR2026


​Senhor Presidente da República,
Senhor Primeiro‑Ministro e demais Membros do Governo,
Senhoras e Senhores Presidentes dos Tribunais Superiores,
Senhor Presidente Marcelo Rebelo de Sousa,
Senhora Presidente Assunção Esteves,
Senhora Dra. Manuela Ramalho Eanes,
Autoridades Civis, Militares e Religiosas,
Senhoras e Senhores Embaixadores,
Caros Capitães de Abril,
Ilustres Convidadas e Convidados,
Senhoras e Senhores Deputados,
Portuguesas e Portugueses,

Estamos quase a encerrar um ciclo de celebrações. Meio século do 25 de abril, do 25 de novembro e da Constituição.
50 anos de democracia, que têm sido assinalados nesta Casa.

E não só nesta Casa. Nas redes sociais, na televisão, na rádio e mesmo à mesa das refeições, os portugueses discutiram as efemérides históricas com uma estranha atualidade.

O que assistimos nestes meses não foi só um debate sobre passado.
Foi, também, uma reflexão sobre o presente e o futuro da nossa democracia. E isso é, a todos os títulos, extraordinário.

Mais revisão constitucional, menos revisão constitucional. Mais palavras inflamadas, menos palavras inflamadas, a verdade é que, 50 anos depois, a esmagadora maioria dos portugueses quer este regime, gosta do regime. Mas isso não significa que ache que tudo está bem!

Se analisarmos os números da participação eleitoral e os estudos de opinião, até conseguimos concluir que a maioria dos portugueses gosta de política. Aparentemente, só não gosta, ou desconfia dos políticos.

Dito assim, pode parecer estranho! Mas deixem-me aproveitar, já que estamos a terminar estas celebrações para dizer estas coisas inconvenientes e pouco populares.

Há um discurso fácil, contra a política e contra o sistema, que pode pendurar-se na desconfiança e fazê-la crescer.

Senhoras e Senhores Deputados,

É altura de admitirmos a possibilidade do problema português não ser a Constituição, o capitalismo, o regime, as instituições ou funcionamento da democracia.
O problema pode estar também em nós. Os políticos.


A começar por esta ideia… de que há eleitos e eleitores. Governantes e governados. Gente que manda e gente que é mandada.

Esta ideia, tão propagada e generalizada em discursos mais populistas (ou populares), de que há uma casta. Às vezes chamada de elite.
E que nós, aqui hoje sentados, somos essa casta ou elite.

Nada de novo. A ideia atravessou diferentes séculos, diferentes contextos políticos, países e ideologias. Mas aqui está, bem viva.

E materializa-se naquela malfadada expressão que, num momento ou noutro, todos aqui já utilizámos: o país real.

Sim. Todos nós já cometemos o pecadilho de assumir que lá fora existe um país real, com portugueses verdadeiros e cá dentro temos um país “oficial” com portugueses de outra estirpe, casta ou elite.

Hoje está mais na moda dizer que vivemos numa bolha. Mas o princípio é o mesmo.
Com a franqueza de quem já utilizou, várias vezes, a expressão “país real”, permitam-me que faça de advogado do diabo:

Sim. De facto, temos políticos que dedicaram a vida inteira ao serviço público.
Temos ministros que passaram a deputados. Deputados que passaram a ministros. Às vezes, com uma paragem como gestores públicos.
Sim. De facto, cinquenta anos depois, já temos os filhos dos políticos a fazer política.
Sim. De facto, temos políticos cada vez mais profissionais.

E um regime de incompatibilidades que obriga à profissionalização dos políticos.

Sim. De facto, temos cada vez mais políticos que começaram nas juventudes partidárias e continuaram a carreira sem nunca, diz-se, conhecer o dito “país real”.

Sim. De facto, temos cada vez mais dificuldades em atrair talento para a política.
Não quero com isto provocar ninguém em particular, mas todos em geral.

Quero lembrar que estes factos, ou padrões, correspondem à definição exata de casta. E de bolha.
Quero apenas lembrar que os portugueses podem ter mesmo razão para sentir desconfiança.
Ou que, pelo menos, devemos admitir essa possibilidade.


Nos últimos anos, para combater os problemas reputacionais da política, fomos repetindo chavões:

É preciso combater os conflitos de interesses;
É preciso acabar com as portas giratórias;
É preciso exigir transparência;
É preciso acabar com a pouca-vergonha das mordomias dos políticos.

Repetimos os chavões e fomos tomando medidas. Medidas dos políticos contra os próprios políticos são sempre muito populares.

Ou populistas, como hoje se diz!

E, de repente, discutir o aumento da remuneração dos políticos passou a ser um assunto proibido. Um tema de que não falamos, porque não é popular.

Esquecemos um velho princípio democrático, que vem desde os tempos de Péricles: que o serviço público, para atrair os melhores e para ser acessível a todos, ricos e pobres, deve remunerar bem.

Quisemos acabar com as portas giratórias. Porque, imagine-se, era inadmissível que alguém fosse trabalhar para o setor privado depois de ter estado no serviço público!

E, de repente, temos outras portas giratórias. Entre gabinetes e Parlamento. Parlamento e governos. Governos e administração pública. Assessorias e órgãos do estado.

Em Portugal, temos uma alternância quase plena. Nós alternamo-nos a nós próprios!

Quisemos acabar com os conflitos de interesse, e criámos um regime de incompatibilidades que, na prática, impossibilita alguém de tutelar a área que conhece e em que trabalhou toda a vida.

Desconfiamos de empresários a tutelar a Economia, de polícias na Administração Interna, de médicos na pasta da Saúde, de professores na Educação.

Quisemos, e bem, dar condições aos portugueses para desempenharem as funções de deputados com dedicação plena.

Mas, com os anos, passámos a olhar com suspeita quem escolhe trabalhar ao mesmo tempo que é deputado.

É claro que um deputado médico ainda pode dar consultas, claro que um advogado ainda pode advogar e um quadro intermédio de uma empresa ainda pode ir ao escritório.

O estatuto dos deputados permite-o. A lei permite-o. Mas deixou de ser “politicamente correto”.

Como se um deputado, por trabalhar numa empresa ou num setor de atividade, contraísse automaticamente um conflito de interesses.

Pode votar um louvor a um rancho folclórico de Vilar de Perdizes, mas é automaticamente suspeito de tráfico de influências, se participar num debate sobre a área que domina.

Como se o facto de conhecer um setor lhe retirasse autoridade, em vez de a acrescentar.

Quisemos transparência. E fizemos por isso.

Não bastava declarar os rendimentos. Era preciso declarar publicamente se a mulher ou marido é rico, se o primo é pobre, se o enteado é empresário.

Se a casa tem elevador, quantas casas de banho, se tem empréstimo, se o empréstimo é com taxa fixa, se é bonificado.

​Se o filho anda no colégio, se é o sogro que paga o colégio, se vai ao hospital privado ou ao público e, indo ao hospital, que tipo de pulseira lhe dão.

Tornámos, tantas vezes, a vida política num reality show. E fomos aceitando a ideia de que os políticos estão sempre a esconder qualquer coisa.

Senhoras e Senhores Deputados,

Os políticos que defenderam e advogaram a presunção de inocência para os cidadãos do dito país real, são os mesmos que defendem e advogam a presunção de culpabilidade para todos os políticos.

Somos culpados até prova em contrário.

O resultado de tudo isto não é uma política mais aberta à sociedade. É o entrincheiramento da política.

A política fechada sobre si mesma. A política, a conversar consigo mesma.
Os remédios populistas não abrem a política. Fecham-na.
Os remédios populistas não popularizam a política. Fazem-na mais elitista.

Conhecerão, certamente, a frase de Groucho Marx. Que não queria pertencer a um clube que aceitasse como membros pessoas como ele.

O nosso trabalho, Senhoras e Senhores Deputados, é alargar o clube da política. Alargar tanto, que deixe de ser um clube. Para reforço da qualidade da nossa democracia!

Temos a responsabilidade de trazer para esta sala, e outras de representação democrática, mais pessoas talentosas, competentes e motivadas para servir o país.

Pessoas de áreas diferentes. Com experiências, percursos e origens diferentes. Porque a nossa democracia sempre foi interclassista!

O que me leva a uma história final.

Há dias, fui contactado por um grupo de professoras da Escola Secundária das Palmeiras, na Covilhã.
Queriam obter, da Assembleia da República, um reconhecimento à aluna Lua Afonso. E explicavam, no seu texto, as razões do pedido.
A Lua Afonso tem 18 anos. É uma aluna brilhante, com 20 valores a todas as disciplinas e exames nacionais.
É também pianista e atleta de competição. Integra a Seleção Nacional de Skyrunning e venceu o Concurso Nacional de Leitura.
Além de tudo isto, estará, no próximo verão, nos Estados Unidos, a representar a Europa na final mundial da International Space Design Competition, uma iniciativa da NASA.

A Lua Afonso não pôde estar nesta Sessão Solene. Está em Ponte de Sor, num projeto da Agência Espacial Portuguesa.
Mas escreveu-me, a falar de tudo isto. Do seu percurso, desde a serra da Estrela à descoberta do Espaço.

Do valor que dá à liberdade, ao trabalho e à responsabilidade. E do desejo que tem, de contribuir para a participação pública dos jovens.

Acredito que o 25 de abril, a data maior da nossa democracia, não deve perder-se em debates sobre o passado. Em balanços e comparações, juízos e opiniões.

O 25 de abril é presente e futuro. Cumpre-se, quando jovens como a Lua Afonso, que terá um futuro e uma carreira brilhante pela frente, encontram espaço para participar na política.

Porque o serviço público não pode dispensar os melhores.
Talvez este deva ser o foco da nossa sessão de hoje.
Ou, pelo menos, devemos admitir essa possibilidade.
Disse.

E acrescento Eu, viva o 25 de Abril, viva Portugal

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

 

Concordo com o que está sublinhado.
Este, que considero ter sido um horrível ministro da defesa, seria porventura melhor candidato presidencial que Mendes.
AC

segunda-feira, 10 de março de 2025

EU  TAMBÉM . . . 
Aguiar-Branco: "Acredito que moção de confiança seja viabilizada"
O presidente da AR lembrou os partidos da oposição que a abstenção é suficiente para aprovar a moção do Governo. E insiste que portugueses não querem eleições antecipadas
.

Eu também . . . 
Eu também o quê ?
Com esta idade, eu também acredito que os bebés chegam de Paris embrulhados numa fralda pendurada do bico de uma cegonha branca!

Bom dia. Bom início de semana.
Saúde e boa sorte!
AC

domingo, 19 de maio de 2024

6ª FEIRA
Há aquela habitual "cena" - ui, é 6ª Feira 13.

Na passada 6ª Feira não foi 13, foi 17. 
Foi uma 6ª Feira que creio não será esquecida.
Creio mesmo que marcou uma linha na política nacional.
Poderá porventura ser considerada uma 6ª Negra?

Refiro-me ao que se passou nessa tarde na Assembleia da República. 
Alertado para o que estava agendado para a tarde lá me sentei na sala e vi o que se passou na sede da democracia.

Fiquei perplexo com várias coisas mas, por outro lado, muito daquilo a que assisti não me espantou. 

Estava em causa discutir o relatório redigido pela deputada Isabel Moreira e, em função disso, votar se a AR devia ou não iniciar um processo como pretendiam o super populista e demagogo André Ventura e os seus inarráveis e populistas companheiros (talvez nem todos tenham concordado) por, nas palavras de Ventura, alegada traição à pátria da parte de Marcelo Rebelo de Sousa. 

A acção do deputado Ventura terá uma classificação, certamente, mas nem vou perder tempo a pensar qual, se é, tonta, delirante, estúpida, cretina, parva, ridícula, populista, própria de alucinado, eleitoralista, surreal, deplorável, incoerente, infeliz, aberrante, disparatada, patética, demagógica.

Sou muito crítico de Marcelo Rebelo de Sousa.
Como por várias vezes escrevi neste blogue e noutro, votei nele para o 1º mandato e, em função do que lhe vi sobretudo no último ano desse mandato, na eleição em que acabou por conquistar o 2º mandato votei em branco.

Nos primeiros 4 anos do 1º mandato, Marcelo contribuiu muito para que os meus concidadãos se reaproximassem dos políticos, e da política, e das instituições.
A partir daí, em crescendo, muitas asneiras. As tonteiras discursivas frente a jornalistas estrangeiros foram apenas mais uns lamentáveis episódios.

Crismar isso de traição e outras barbaridades (opinião pessoal naturalmente) é qualquer coisa que só pode passar por alucinação, no mínimo. É fácil perceber que o que quer é tempo de antena, continuamente. E assim cativar mais desatentos.

Não gostei do discurso de Isabel Moreira, embora muito do que disse tem de ser considerado numa sociedade decente. 
Quanto ao seu relatório fiquei a saber pouco.
Tal como nada se sabe dos famosos pareceres jurídicos badalados por Ventura, pareceres que nem em papel higiénico devem estar.

Todos os discursos foram aliás de uma grande unanimidade, ainda que com palavreado diferente, mas Ventura foi e muito bem, severamente "chicoteado". Não é ter ficado isolado, ouviu das boas.

Mas é claro, desavergonhado político como é, fez o seu delirante teatro.

Há uma coisa onde está cheio de razão (minha opinião).
Não só mas sobretudo as esquerdas sempre trataram e tratam mal os portugueses e portuguesas (sim houve várias) que foram enviados para África a mando do regime de então. O que é lamentável para além de injusto. Os chamados ex-combatentes e pessoal de apoio.

Registei a irritação de Hugo Soares pela condução dos trabalhos parlamentares. Já não é a primeira vez segundo me disseram.
Gostei das palavras do representante do PSD criticando o desejo do Chega.

A terminar, umas palavras sobre a AR, os deputados e o actual Presidente da AR.

Há várias coisas que se podem convocar e ponderar:
1º- o regimento
Face ao que se passou na passada 6ª Feira 17 de Maio, é para mim evidente que o regimento está falho de várias coisas.
Sendo certo que os deputados têm imunidade parlamentar, sendo certo que normalmente grande parte deles demonstra uma grosseria permanente e uma completa falta de educação e decência, e atento o código Penal, creio que o Regimento devia ter algumas normas que especificamente não permitissem aquilo que hoje se verifica e se verificará em crescendo nomeadamente à conta do Chega.

Salvo melhor opinião o Regimento devia ter normas específicas que de alguma maneira transpusessem para ele os normativos do código penal quanto a, difamação, injúria, calúnia, discriminação, ódio, ou acções impedindo a realização do Estado de Direito e acções atentatórias de sentimentos religiosos. Liberdade de expressão, sem dúvida, mas no 2º órgão de soberania, os seus titulares devem ter decência.

2º-  os deputados
Refugiam-se na chamada praxe parlamentar. Certo. 
Na minha opinião, a maioria das vezes sobressai é uma notória falta de educação e decência.

3º-  a acção do presidente da AR
O presidente da AR fez um bom discurso na sessão em que foi empossado. É a minha opinião.

Mas ainda que eu praticamente não veja TV, ao observar o que se passou nesta deplorável 6ª Feira e pelo que um amigo me tem dito, o senhor só dá tiros nos pés, e não é de caçadeira, é metralhadora.

Todas as opiniões são discutíveis, devem respeitar-se, e depois argumenta-se, concorda-se, discorda-se.

Contrariamente ao que se passou com o trauliteiro Augusto e com António Costa, que considero dois dos principais responsáveis do crescimento do Chega, concordo que o presidente da AR não deve ser censor dos deputados.
Mas . . . . 

Salvo melhor opinião, não creio que o regimento tenha ferramentas claras que habilitem o presidente da AR a reprimir o Chega ou outro como fez o trauliteiro Augusto.
Nessa perspectiva Aguiar-Branco tem andado melhor.

Mas, oh sr presidente da AR, ora "bamoslaver", quando lhe perguntam se se pode dizer isto e aquilo, o senhor respondeu SIM mas, oh sr presidente, porque não acrescentou qualquer coisa mais, do género que adiante exemplifico, em vez de mais tarde ir aflito ter com os jornalistas?

O que eu teria respondido - sra deputada, pode, entendo que pode, não vejo no regimento norma que me habilite a tirar a palavra a um deputado seja de que partido for que entre em discursos de ódio ou discriminatórios, etc.

Mas sra deputada, que fique muito claro para todas as senhoras e senhores deputados, considero inapropriado, mesmo inaceitável, esse tipo de comportamentos na AR, pois a AR deve ser um exemplo para o país, e irei convocar imediatamente a conferência de líderes parlamentares para abordarmos este assunto, e ver o que pode e creio que deve ser feito, para melhorar o regimento quanto a estes aspectos.

Haverá aqui alguma patetice ou inocência jurídica da minha parte?
Não sei, mas é o que de momento penso.

Uma coisa me parece certa, Aguiar-Branco não esteve bem.

Da casa da democracia devem vir bons exemplos. 6ªF NÃO!

6ª Feira passada mostraram muito do pior do ser humano, 95% do lado dos 50 à direita (direita?). 
AC

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024


O  COSTUME.
DEFESA NACIONAL. FORÇAS ARMADAS.




O GREI (carta de 15 Janeiro, em baixo reproduzida) entendeu alertar, mais uma vez, para problemas sentidos nas Forças Armadas (FA) nacionais, concretamente, desta vez com especial enfoque nos recursos humanos. Na crescente escassez de recursos humanos. 

A INSUSTENTÁVEL SITUAÇÃO DOS MILITARES DAS FORÇAS ARMADAS
(sublinhados da minha responsabilidade)
I
O Grupo de Reflexão Estratégica Independente (GREI), oficialmente constituído em 2015, tem procurado ao longo da sua curta, mas preenchida existência, ser uma voz ativa nos temas da Defesa e da Segurança Nacionais e das Forças Armadas.

Constituído por Oficiais-generais da Marinha, do Exército e da Força Aérea, na situação de reserva e de reforma, que no decurso da sua extensa carreira desempenharam os mais variados cargos nacionais e internacionais, nas Forças Armadas, nas Forças de Segurança, nos serviços de Proteção Civil, bem como na Direção Superior da Administração Pública, considera-se um interlocutor privilegiado para, com a experiência vivida e o distanciamento temporal e funcional que a sua situação profissional permite, ser um parceiro credível nos domínios da Segurança e Defesa do País.

Neste contexto e, sempre, com uma postura de cidadania ativa, temos realizado reuniões de reflexão, almoços-debate, conferências, palestras, seminários e, sobretudo, elaborado textos e publicações sobre as temáticas indicadas e, em particular, as Forças Armadas (FFAA).

Estamos abertos ao meio militar, naturalmente, mas também à sociedade civil em geral, privilegiando o meio académico, científico, tecnológico, político, organizacional e comunicacional.

Os nossos interlocutores vêm das mais diversas áreas do conhecimento, instituições, tendências, e orientações políticas, sendo nesta diversidade que julgamos residir muito do capital de isenção granjeado.

A nível político temos propiciado contactos com os líderes partidários, as Comissões de Defesa e os Grupos Parlamentares da Assembleia da República, sempre que oportuno.

Não será despiciendo referir que no último seminário realizado, em abril passado, tivemos a presença dos mais elevados dignitários do País, como o Presidente da República, o Presidente da Assembleia da República, e uma representação alargada de membros do Governo.

Pois bem, num momento em que o Mundo, a Europa e Portugal, em particular, vive uma situação complexa aos mais diversos níveis, com uma instabilidade política, social, económica e de segurança, e em que se vão realizar eleições nacionais a breve trecho, entendemos por oportuno fazer chegar aos Partidos Políticos, um conjunto de preocupações que pela sua pertinência e relevância devem, também elas, ser objeto de reflexão, debate e comprometimento político.

Os signatários não desconhecem os complexos problemas nacionais, a nível de educação, saúde, emprego, habitação, justiça, fiscalidade, administração pública, transportes, energia, e a importância que ocupam nas prioridades políticas de quem ambiciona ser governo.

Exatamente porque conhecem bem esses problemas, sentem-se obrigados a alertar os Partidos e a Classe Política para outros não menos importantes para o País e para a Soberania Nacional, mas que raramente ocupam a agenda política e, muito menos, a sua estrutura de pontos críticos.

Referimo-nos obviamente às FFAA e à situação grave, e que não é nova, em que se encontram e para a qual vimos alertando publicamente, pelo menos, desde 2020.

Assim sendo, por uma questão de prioridade e de economia de tempo e espaço, não iremos abordar, nesta fase, os Orçamentos da Defesa e das FFAA, a Lei da Programação Militar, as questões do Armamento, dos Equipamentos, das Infraestruturas, da Investigação Científica Militar, das Indústrias de Defesa, do Ensino Militar e outros.

Não iremos, igualmente, lembrar a necessidade de o País possuir umas FFAA bem preparadas, equipadas e motivadas, que respondam com eficiência e eficácia às necessidades nacionais, e às responsabilidades de Portugal no quadro internacional, e no âmbito das alianças de que faz parte.

Vamos, isso sim, focar o nosso alerta, primordialmente, no fator humano, melhor dizendo, nos Recursos Humanos (RH) das FFAA, o elemento por excelência do seu funcionamento e prontidão. Na realidade, são as pessoas (e é bom não esquecer) que, a todo o tempo, “convertem” a estrutura política e militar da defesa nacional em desempenho operacional eficiente e eficaz. E é aqui, no domínio do “Pessoal”, e ao nível da seleção, do recrutamento e da retenção que as dificuldades que se sentem são maiores e mais gravosas.

Os dados falam por si. Atente-se o número de militares em serviço, em 31 de dezembro último - 21 080 (cerca de 68 %), relativamente aos 30 840 autorizados pelo D.L. 6/2022, de 07 de janeiro, quantitativos esses bastante reduzidos, se se considerar o valor superior do intervalo (30 000 – 32 000) previstos na Reforma “Defesa 2020”, de 2013, e cujo estudo e racional que os sustentaram são desconhecidos.

Por outro lado, uma mais completa e pretendida profissionalização das FFAA, ao fazer substituir a conscrição e o Serviço Militar Obrigatório pelo regime de voluntariado e contrato, modificou, por completo, a matriz da relação individuo – Instituição, uma vez que esta passou a ser uma matriz de relação contratualizada e de interesse e não mais uma relação de dever e cidadania, e isso, não sendo aspeto despiciendo, tem vindo a ser esquecido.

É, sem dúvida - a falta de pessoal – o maior dos problemas. Um problema da mais alta importância e a que os portugueses em geral, os cidadãos, os partidos e os políticos, em particular, não se podem alhear.

Os efetivos (ou falta deles), a sua capacitação profissional, as questões do estatuto e da condição militar (CM), da carreira, da motivação, do regime de saúde e do apoio complementar, do reconhecimento e da integração social, moral e material, constituem as matérias com as quais pretendemos sensibilizar os partidos e o poder político que, num futuro breve, irá assumir responsabilidades de direção efetivas, seja na Assembleia da República, seja no Governo.

II

É inegável que tem vindo a crescer no seio das FFAA um clima geral de mal-estar e desmotivação, de insatisfação, de saturação e de injustiça relativa que tem levado um número crescente de militares dos Quadros Permanentes (QP) e dos Regimes de Voluntariado (RV) e de Contrato (RC) a abandonar precocemente as fileiras.

Não é apenas uma questão de quantidade é também, e principalmente, um problema de qualidade, agravada, inclusive, com o abate aos QP (e o que isso representa de negativo para o próprio militar) de muitos técnicos e quadros altamente qualificados; situação gravosa que a não ser encarada, decisivamente, tornará a sua reposição difícil, ou até mesmo irreversível, comprometendo de forma assaz significativa o funcionamento das FFAA, a sua prontidão e, até, o cumprimento da missão.

Mas nenhuma análise sobre o presente e o futuro das FFAA, sobre, inclusive, a sua motivação, pode ser devidamente enquadrado sem uma visão holística, mesmo que não aprofundada, sobre a CM e o que ela representa: o seu racional, significado, implicações e reflexos na vida daqueles que nas FFAA servem Portugal e os portugueses.

A CM é no fundo uma situação jurídica inerente aos militares das FFAA, que deriva da Constituição (CRP) e da Lei, encontrando-se plasmada na Lei no 11/89, de 01 de junho - Bases Gerais do Estatuto da CM (BGECM) -, consubstanciando-se em restrições aos direitos fundamentais, por parte dos militares, e numa imposição de especiais deveres e, em contrapartida, na atribuição de alguns direitos que o próprio Estatuto dos Militares das FFAA (EMFAR), a jusante, vem a regular.

O documento constituía, à época, (e já lá vão quase 35 anos), um compromisso equilibrado e aceitável entre deveres e direitos aplicados aos militares. Hoje em dia é mesmo o próprio conceito que vem sendo adulterado na sua aplicabilidade pela perda de coerência, ponderação e adesão à realidade.

Atualmente, os direitos foram sendo progressivamente eliminados, e/ou deturpados pelos sucessivos governos, uns por ação, ao terem aprovado as medidas restritivas aos direitos dos militares, outros por omissão, ao não terem a sensibilidade necessária para os corrigir e reverter, como seria justo e conforme ao espírito e letra da própria lei.

Os dois deveres que caracterizam a CM (e que constam da Lei) consistem na renúncia a direitos, liberdades e garantias que a CRP atribui a todos os cidadãos, e a obrigação de dar a vida pela Pátria, na defesa de Portugal e dos portugueses.

São deveres exclusivos dos militares e não podem ser impostos a qualquer outro cidadão ou categoria profissional. Constituem mesmo um ónus muito pesado, assumido livre e conscientemente, em acto público, e na forma de Juramento de Bandeira e Compromisso de Honra.

Para além deste dever-limite, acrescem um sem número de outros tantos deveres, restrições, e condicionantes, de onde sobressaem, em particular:

A total e permanente disponibilidade para o serviço;

O desempenho de missões operacionais, quer em ambiente real, quer em treino e

exercícios, com elevado risco;

A exigência de uma profunda capacidade técnica, física e psicológica.

A este conjunto de critérios, somam-se sacrifícios de natureza diversa, como sejam o prolongado afastamento da família, em situações de perigosidade e de incerteza, do círculo social, dos amigos, e da designada zona de conforto, os quais, têm um elevado peso na difícil e, em certas circunstâncias, penosa, vida dos militares.

Alguns destes deveres também são imputados a elementos de outras categorias da Administração Pública (AP), pelos quais, como compensação, auferem subsídios, complementos, suplementos, situação que, na maioria dos casos, não é acompanhada na justa medida pelos militares.

Olhemos, então, um pouco mais, na especialidade, a toda esta problemática.

III

A CM agrupa os direitos dos militares em três áreas fundamentais e diferenciadas. A saber:

Carreiras profissionais;

Assistência médica;

Sistema remuneratório.

Em complemento registe-se, a título ilustrativo, e em breve súmula, a forma como o poder legislativo e o poder executivo têm, ao longo dos anos, gerido esta problemática.

• Carreiras Profissionais -
o Foi aumentado o número mínimo de anos de serviço em cada posto;

o Foram criados novos postos no início das carreiras, correspondendo a menor posição hierárquica e a menor vencimento;

o Foram retardadas as promoções muitos meses após a data devida e no menosprezo do disposto e regulado na Lei.

Destas medidas resultam dificuldades na progressão de carreira, no preenchimento de certos cargos e conteúdos funcionais, retardando a ascensão e o acesso aos postos cimeiros, num sentido inverso ao que ocorre na sociedade em geral, e com consequências que não se registam em outras profissões, e se traduzem numa redução salarial expressiva, o que é incompreensível.

• Assistência Médica -

Neste particular tudo tem sido, a nosso ver, degradado, com medidas avulsas que mais não fizeram do que perverter de certo modo o espírito e a letra das próprias BGECM, tratando de forma igual o que é genética e estruturalmente diferente. Assim:

o Os militares e seus familiares em vez de terem uma saúde gratuita, como acontecia até 2005, passaram a realizar desconto em igualdade de circunstâncias com a AP, cujo valor se cifra em 3,5 % da remuneração do militar ao longo de 14 meses ao ano.

o O subsistema de saúde - Assistência na Doença aos Militares (ADM) -, foi integrado no Instituto de Ação Social das Forças Armadas (IASFA), misturando âmbito e objeto, saúde com proteção social complementar, numa política de grande confusão, que teve e tem, a nosso ver, efeitos altamente lesivos para os militares, nestes dois pilares fundamentais que são a saúde e a ação social.

o Paralelamente, a junção dos diferentes hospitais dos três ramos das FFAA, medida que no plano conceptual e organizacional traria economia de escalas e valor acrescentado, resultou inadequada, face às expectativas acalentadas.

o As instalações, os equipamentos e as tecnologias em uso estão longe da modernidade e funcionalidades que se exige a um Hospital Central (HFAR), o que é incompreensível e não era expectável, face às verbas obtidas com a alienação do Hospital Militar Principal, da Casa de Saúde da Família Militar e do Hospital da Marinha.

o A agravar o cenário, os seus quadros de pessoal médico, de enfermagem, de técnicos auxiliares de diagnóstico, de assistentes técnicos e assistentes operacionais estão longe de responderem às necessidades da Saúde Operacional e da Saúde da cada vez mais, hoje, esquecida, Família Militar, assim como da de reservistas e reformados. E nestas degradas circunstâncias como será possível (ao que parece) equacionar abrir o HFAR a outros sistemas de assistência na doença?

Todos estes aspetos, já de si preocupantes, conjugados com uma deficiente aplicação das receitas dos descontos mensais efetuados aos militares (porventura, para encargos que deveriam ser do Serviço Nacional de Saúde (SNS), têm agravado a degradação do Sistema de Saúde Militar e, sobretudo, afetado a eficiência e as capacidades do Hospital das Forças Armadas.

• Sistema Remuneratório -

Neste âmbito, pode dizer-se que a vontade política dos Governos, limitando e colocando, até, em causa o cumprimento, ao mais alto nível, do dever de tutela, tem conduzido a uma situação que consideramos inadmissível, e que importa reverter tão breve quanto possível e antes que seja demasiado tarde e de consequências ainda mais gravosas para a Defesa Nacional (e sinais disso mesmo, convenhamos, já vão surgindo).

Vejamos, no entanto, alguns exemplos avulso, retirados de documentos oficiais:

o O Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, o militar de mais elevada hierarquia no seio das FFAA, aufere uma remuneração inferior a muitos, mesmo muitos, elementos da AP.

o Existe uma carreira profissional em que jovens licenciados/mestrados, com menos de 30 anos, a iniciam com uma remuneração base semelhante à de um Comodoro/Brigadeiro-general que só atinge este posto numa fase última da carreira (mais de 30 anos de serviço) e após a frequência de exigentes cursos de formação de carreira, de especialização e promoção.

o Em 1980, a remuneração dos oficiais das FFAA estava equiparada à dos magistrados, professores catedráticos e médicos. Hoje em dia, médicos e professores universitários têm um vencimento médio, 70 % superior ao dos militares e os magistrados têm uma remuneração média superior ao dobro da dos militares. Tudo indica que esta desigualdade se vai acentuar.

o Analisadas as pensões de reforma de todos os funcionários dos Ministérios da Defesa, da Justiça, da Saúde e da Ciência Tecnologia e Ensino Superior, que transitaram para a situação de Reforma durante o ano de 2021, concluiu-se que na Defesa apenas 13% da totalidade desses reformados recebia pensões superiores a 3000 €, enquanto que na Saúde e Justiça esse valor era um pouco mais do dobro e no da Ciência era quase o quádruplo.

o Piores, neste âmbito, são os dados referentes a 2022. A percentagem na Defesa regrediu 4% e nos outros ministérios subiram, em média 5%. Mais uma prova de que a remuneração dos militares está, progressivamente, mais longe das atribuídas àquelas carreiras profissionais.

o E se a tudo isto acrescentarmos que atualmente existem 3 métodos diferentes para cálculo do valor das pensões de reforma concedidas aos militares, as preocupações avolumam-se, já que a situação de per-si é injusta, comprometedora do seu ethos e altamente inconveniente para a coesão das próprias FFAA.

o Mais, da análise do quadro estatístico “Remunerações base e ganhos médios mensais nas administrações públicas”, retiramos que, dos 26 grupos elencados, as FFAA encontram-se na 22a posição, sendo, por isso, o Corpo Especial de toda a AP que, menores rendimentos mensais médios recebe, o que é elucidativo.

o O Sistema Retributivo da AP de 2008 foi o último em que militares, magistrados, docentes e médicos integraram a mesma carreira, a dos Corpos Especiais. A partir de 2009, as duas últimas carreiras migraram para as Carreiras Especiais sem aplicação da Tabela Remuneratória Única, nome sugestivo, onde se mantiveram até à atualidade.

Os militares permaneceram, sempre, nos Corpos Especiais/Carreiras Especiais e os magistrados singraram por vários Regimes, até desaguarem nas Carreiras Especiais sem aplicação da Tabela Remuneratória Única. Estranha diferenciação esta que possibilita a gestão autónoma das três carreiras em causa.

E é o próprio Presidente da República e Comandante Supremo das FFAA que ao longo dos tempos, e a propósito, tem vindo a recordar que “houve atualização quanto a outras funções de soberania. Nomeadamente a Magistratura. Não houve no domínio das Forças Armadas, de forma equivalente”.

IV

É patente e claro que o poder político, e os políticos em termos mais genéricos, têm discriminado negativamente os militares, por razões que não se compreendem. O argumento presente em todas as suas decisões é a necessidade de aplicar aos militares a Lei Geral em tudo o que for redução dos direitos, esquecendo que a própria Lei determina que estes devem ser geridos de forma diferente da dos outros cidadãos, e no sentido positivo.

Esta desigualdade, resultante de medidas avulso, mas sempre penalizadoras, que os governos vão aprovando, tem levado, por razões básicas de sobrevivência, e como já referido, à saída extemporânea das fileiras não só de Praças, cuja situação é crítica, mas também de Sargentos e Oficiais, mesmo dos QP, particularmente em classes, armas, serviços e especialidades mais competitivas no mercado laboral, como médicos, engenheiros, pilotos e outras. Até parece que o objetivo prosseguido é depauperar as FFAA dos seus recursos humanos, deixá-las esgotarem-se e, assim, exauridas, chegarem à extinção.

Não acreditamos que seja este o desiderato em vista, acreditamos mais que seja antes uma falta de cultura de Defesa Nacional que trespassa transversalmente a sociedade portuguesa, e a que os Políticos (e os partidos) não têm querido ou sabido, até, pedagogicamente que fosse responder.

Neste ano de 2024, e a breve trecho, comemoramos o cinquentenário da revolução de abril.

Que excelente pretexto, ou melhor, que excelente oportunidade para, em complemento dos discursos de circunstância, olhar para as Forças Armadas com a dignidade, a importância e o espaço próprio, que lhes é devido na Sociedade Portuguesa.

Se não for esta a postura, então que mostrem coragem, assumam a responsabilidade por inteiro, e perguntem aos portugueses se desejam que Portugal tenha, ou não, FFAA. Continuar assim como se tudo estivesse bem é que não pode ser.

“Mais vale madrugar do que perder um tempo histórico” afirmou o Presidente e Comandante Supremo das FFAA em 11 de abril p.p., na sessão de encerramento do acima citado nosso seminário, e é bem verdade, porquanto se nada for feito o resultado será, por certo, uma perda de confiança na representação política e, mais grave, num regime democrático, nas próprias Instituições. E isso os militares não querem.

Como também não querem continuar a ser tratados como cidadãos e profissionais que não têm direitos, apenas, e só, deveres, e bem exigentes. Querem ter a remuneração, o respeito e o reconhecimento merecidos e devidos. Querem ver, finalmente, revertidas as situações negativas que sucessivos governos lhes foram infligindo, e voltar a ocupar, na sociedade e na AP, o lugar que a justiça lhes impõe, atento a tudo o que, ao longo de séculos, têm feito por Portugal e pelos Portugueses.

Finalmente, não podemos deixar de referir que o poder político deverá ter por imperativo a defesa dos justos interesses dos militares, por serem os únicos servidores públicos que, de acordo com a Lei, não têm capacidade reivindicativa, sob pena de, se tal não ocorrer, se virem a alterar as condições éticas e de vínculo do exercício da sua profissão.


Lisboa, GREI, 15 de janeiro de 2024 

Este documento terá sido remetido pelo menos aos titulares dos órgãos de soberania. Não tenho a certeza se foi endereçado aos partidos com assento na Assembleia da República e aos quatro actuais chefes militares. 

No momento em que escrevo desconheço reações, dos titulares dos órgãos de soberania, dos partidos políticos, ou de quaisquer outras entidades. 
Tomei conhecimento de algumas reações de alguns órgãos de comunicação social OCS).

Destes, para lá da habitual superficialidade com que normalmente abordam assuntos desta natureza, verifico:
- reprodução dos aspectos sobre a escassez de recursos humanos referidos pelo GREI,
- um OCS afirmar denunciar a situação, quando é reprodução do que tomaram conhecimento,
- reprodução de declarações de antigos chefes militares sobre o assunto, repetindo o que vinham dizendo há muito,
- reprodução das referências da carta ao mal estar nas FA,
- reprodução do constante na carta sobre as posturas dos sucessivos governos e muitos políticos.

Que hei-de dizer sobre isto? Que me apetece dizer? Apetece-me pouco.
Aqui no meu blogue, e em outros, muito escrevi sobre, 
- Defesa Nacional (DN),  FA, militares, a lei Freitas do Amaral de 1982 que começou a normalizar a instituição militar,
- as medidas e as políticas dos governos de Cavaco Silva sobre DN e FA,
- a crescente pouca vergonha dos governos que os sucederam, com particular ênfase para os de Guterres e os seus ministros da defesa e, a gestão de Aguiar hífen Branco e os MDN ao tempo de Sócrates,
- as leis de programação militar e de infra-estruturas, 
- que FA Portugal deve ter.

O que pensam no presente a generalidade dos homens, mulheres e adolescentes portugueses quanto aos militares que, por juramento para a vida, renunciam aos direitos, liberdades e garantias que a Constituição da República Portuguesa atribui a todos os outros concidadãos, e a que juntam ainda o compromisso de dar a vida em defesa do país e dos seus concidadãos?

Que pensam os titulares de órgãos de soberania (desde 2015) das cartas e alertas diversos do GREI e de alguns dos seus associados que a título individual têm alertado para os problemas na defesa nacional e na instituição militar?

O que eu penso desses titulares é muito claro e ao longo do tempo o escrevi. 
Alguns não concordarão comigo, legitimamente. 
Só me parece pouco coerente da parte desses que andem a insurgir-se quanto ao caos na instituição militar. Que não é de hoje. É pelo menos desde 1991.

Mas é Portugal, é o costume.
Voltarei ao assunto quando me apetecer, quanto não tiver mais nada que fazer.
António Cabral

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

A Lei de Programação Militar (LPM) e o inefável ministro Aguiar-Branco
Vejo nos meus zappings pela net, que este ministro das forças armadas mas que, como todos os anteriores, se sente ufano pela designação Defesa Nacional, teve umas trocas de palavreado com deputados a propósito da actual LPM que, para não destoar muito das anteriores LPM e das pouca vergonhas à volta delas durante anos, e fazendo fé nos OCS consultados poderá ser resumida em - balbúrdia.
Como cidadão interessado, e com a sincera intenção de ajudar o ministro, deixo de novo as minhas sugestões para reequipamento. E é baratinho.
AC